A vida privada (03)

II - A vida em família e o papel das mulheres

Num momento indeterminado da história chi-
nesa, os costumes quase que foram matriarcais. As
mulheres transmitiam seu nome aos filhos. Os ma-
ridos não eram mais do que cônjuges anexados ao
grupo de esposas. Na nobreza feudal, desenvolveu-se
uma moral oposta. O casamento parecia colocar a
mulher sob a sujeição do marido. Por outro lado, a
mãe possui um poder que, se conserva alguns de seus
caracteres antigos, toma, cada vez mais, os atributos
próprios ao poder paterno.

1.° - A vida em família

As jovens nobres são educadas para irem viver,
como noras, numa família estranha. Desde sua infân-
cia, elas aprendem, com a modéstia que evitará que
seus parentes entrem em vinganças cruéis, as artes
que lhes permitirão trabalhar para o prestígio de sua
família, pois, enquanto se vê no nascimento de um
menino um princípio de honra, uma filha surge como
um princípio de influência. As meninas são colocadas
no chão, por ocasião de seu nascimento, como seus
irmãos (783). Em vez de lhes darem um cetro de jade,
entregam-lhe a vareta de uma lançadeira. A primeira
vestimenta que usam é uma roupa apropriada para a
noite e não para as cerimônias públicas. Para assina-
lar sua vinda ao mundo, suspende-se na porta, em
lugar de um arco com flechas, uma espécie de pano
ou de guardanapo. As jovens não são feitas para a
vida pública e para a guerra, mas para os trabalhos
e os serviços do gineceu. Elas serão esposas e tece-
lã6. Uma menina de aspecto nefasto, por exemplo, se
ela é avermelhada e peluda, deve ser abandonada em
pleno campo(784). Quando se augura o bem para a
menina, ela é levantada da terra, cuja humildade absor-
veu, mas não é exposta sobre o leito paterno, para
evitar qualquer propensão ao orgulho. Além disto, o
pai não ordena nenhuma cerimônia. Se há alguma,
como parece, conta apenas com a presença das mu-
lheres e os rituais não se dignam citá-las. Não se
fala também se o pai se fazia apresentar à menina:
entre ela e ele parece que não se fazia nenhum rito
de aproximação. O nome, particularmente secreto, é,
sem dúvida, dado pela mãe. Uma filha não tem que
ser incorporada no grupo agnático. Enquanto ela viver
ali, dependerá apenas da mãe. Assim que começa a
falar, é orientada para um destino de submissão,
aprendendo a dizer "sim " no tom humilde que convém
às mulheres(785). A partir dos sete anos, é separada
de seus irmãos. Sete anos, a idade em que nascem os
dentes novos, é o momento de uma espécie de pri-
meira formação: houve, outrora, uma menina que foi
capaz de conceber desde seu sétimo ano. Desde en-
tão começam a funcionar as proibições sexuais: a
menina não pode se sentar na mesma esteira do que
seus irmãos nem comer com eles. Estas proibições, a
Partir do décimo ano, impõem uma reclusão completa
que coincide com o aprendizado do trabalho, da língua,
da boa apresentação e da virtude própria às mulhe-
res. Este aprendizado faz-se sob a direção de uma
aia. Os autores não são precisos a este respeito.
Sabe-se somente que a menina aprende a obedecer
com ar doce, a gramar o cânhamo, a dobar os casu-
los, a fiar o fio, a tecer as fazendas, a trançar os cor-
dões, a confeccionar as vestimentas. Ela é iniciada
também na arte de preparar e de arrumar as refeições
de cerimônia oferecidas aos ancestrais(786). A idade
da nubilidade é fixada aos quinze anos, embora, se-
gundo a teoria, a vida feminina seja regulada pelo
número sete e as meninas devam chegar à puberdade
aos quatorze anos. Ao contrário dos meninos, a me-
nina, assim que fica núbil, é declarada maior e recebe
um nome novo durante uma cerimônia em que deve
modificar seu penteado, pois ganha então um alfinete
de cabeça (787). Não há informação nenhuma sobre esta
festa. É muito possível que ela inaugurasse um perío-
do de reclusão particularmente severo, pois se admite
que devia coincidir com os esponsais. Ora, a noiva
nobre deve viver inteiramente confinada: nenhum ho-
mem, salvo por motivos muito graves, pode vê-la (788).
Para assinalar este estado de noiva, ela usa uma espé-
cie de cordão no pescoço. Certos temas de con-
cepções miraculosas fazem pensar que a moça que
se tornou núbil devia, durante seu período de clau-
sura pré-nupcial, ser mantida entre o céu e a terra,
fechada, por exemplo, numa torre alta e perfeitamente
protegida dos raios do sol (789). As moças de grande
nobreza viviam reclusas, durante três meses, no tem-
plo ancestral ou antes, parece, pelo menos nas famí-
lias de príncipes, no templo da Grande Antepassada,
lugar de grande recolhimento(790). As jovens recolhi-
das são qualificadas de "jovens puras" e evidente-
mente, elas praticam a castidade. Estas expressões e
outras análogas encontram-se nas canções de encon-
tro(791). Por outro lado, as lendas das Grandes Ante-
passadas relembram os temas das iniciações cam-
ponesas da primavera, enquanto que seu templo é
algumas vezes chamado o do Grande Mediador, o qual,
asseguram-nos, presidia a estas festas. Estas indica-
ções sugerem que o recolhimento pré-nupcial das vir-
gens nobres não excluía, à primeira vista, os ritos de
pré-união em uso entre os camponeses. Viu-se que os
jovens eram freqüentemente enviados para as famílias
de suas mães onde deviam se casar e onde eram
recebidos como hóspedes. Ora, era costume oferecer
a um convidado uma jovem da família: esperava-se
que, "permanecendo junto dele como criada, ela pren-
desse seu coração" (792). Esta espécie de casamento
com o hóspede ou o refém, tem sempre um caráter
instável e se apresenta como um casamento de expe-
riência(793). Houve uma época em que, quando se
isolavam sob a direção de uma aia experimentada e
da mãe de família, as jovens aprendiam a conquistar
o coração desses noivos predestinados e preferidos
por sua mãe, que eram seus jovens primos. Mas, sob
os ritualistas, o confinamento pré-nupcial tomou um
significado mais rigoroso e o tabu das noivas foi
entendido de maneira bem diferente. "Um rapaz e uma
jovem, enquanto não há a intervenção de um media-
dor, não podem saber o nome um do outro. Enquanto
os presentes nupciais não forem entregues, eles não
Podem ter nenhuma relação, nem se aproximar(794)."
A regra, segundo os rituais, é que o rapaz não veja o
rosto de sua noiva senão depois da pompa nupcial.
Esta regra de pudor pode dar ocasião a aventuras en-
cantadoras. Um príncipe de Tch'ou, vencido [505], que
fugia com seu gineceu, foi parar no meio de um pân-
tano e, nessa travessia difícil, Tchong Kien, um vas-
salo fiel, quis carregar nas costas a filha de seu
senhor. O príncipe acabou saindo do lodaçal e, vol-
tando à sua capital, encontrou um marido para a filha.
Mas esta, com toda a humildade conveniente, decla-
rou : "Comporta-se como uma jovem quando os homens
estão afastados. . . Tchong Kien carregou-me nas cos-
tas!" Não há como saber falar: o pai casou-a com o
homem do pântano (795).

O casamento de uma jovem nobre é um assun-
to quase que diplomático. Serve para manter uma
aliança antiga ou conseguir uma aliança nova, pois,
na instabilidade do mundo feudal, as famílias, rejei-
tando cada vez mais freqüentemente "as velhas rela-
ções", procuram "a fortuna (li)" por meio de um outro
sistema de alianças (796). Para entrar em relação é ne-
cessário recorrer aos bons ofícios de um mediador.
O mediador, encarregado outrora de presidir às lustra-
ções pré-nupciais, torna-se uma espécie de embaixa-
dor. Este intermediário serviçal fica sendo, depois,
um verdadeiro casamenteiro, encarregado de fornecer
cônjuges e de formar os casais. Na época feudal, sua
intervenção parece necessária, porque a regra antiga
(e sempre respeitada, em teoria, senão de fato) (797)
que o casamento não é permitido senão entre famí-
lias tradicionalmente unidas por uma obrigação de
casamentos entre si, sobreviveu sob um outro as-
pecto, a saber, a idéia de que o casamento não é um
contrato livre: uma jovem pedida não pode ser re-
cusada sem que os seus se exponham a uma vingan-
ça (798). Esta infelicidade pode ser evitada para as duas
famílias quando, antes de um pedido em regra, elas
entram em acordo por meio de um mediador. Os ritos
oficiais só entram em ação depois que o acordo foi
concluído. O mediador cede então o lugar a um em-
baixador qualificado que o chefe da família do pre-
tendente envia à família da jovem (799). Este procede
aos ritos dos esponsais nos quais nem o rapaz nem
seu pai devem aparecer. Em cada um desses ritos,
ele troca com o chefe da família da jovem um certo
número de fórmulas sacramentais. No primeiro ato,
por exemplo, quando ele apresenta o pedido, recebe
esta resposta: "A filha de Fulano é estúpida. Não foi
Possível educá-la bem. Monsenhor, vós me dais uma
ordem. (Eu) Fulano não terei a audácia de recusar (800)."
Estas palavras convencionais de modéstia têm por
finalidade declinar de antemão toda responsabilidade,
se a união não der certo. Elas testemunham ainda o
antigo caráter obrigatório que tinha a prestação de
uma esposa. Uma segunda embaixada é necessária
Para perguntar o nome pessoal da noiva, que é pre-
ciso conhecer-se a fim de poder tirar a sorte (801), uma
terceira para vir contar o resultado da sorte, uma quar-
ta para trazer os presentes rituais, uma pele dupla de
veado e peças de seda (os esponsais tomam então um
caráter definitivo), uma quinta para marcar o dia da
Pompa nupcial. Tanto trabalho protocolar não é de-
mais, pois é preciso lidar com a honra das partes con-
tratantes e dissimular esse caráter de contrato impos-
to, próprio do contrato matrimonial. Este permanece
Particularmente evidente nos casamentos senhoriais,
nos quais a prestação de esposas tem, muitas vezes,
o valor de uma composição terminando, provisoria-
mente, a vingança. O duque P'ing de Tsin, depois de
ter lutado contra a região de Ts'i, havia desposado
uma jovem de Ts'i, Chao Kiang, e quase o casamen-
to provocou novamente a vingança, pois Chao Kiang
não fora acompanhada a Tsin com tantas honras quan-
to as que haviam sido apresentadas para o pedido.
Pouco depois do casamento, ela morreu (802). Ts'i (nin-
guém duvidou de que seu príncipe fosse deixar de
cumprir este dever) estava obrigado a renovar a pres-
tação deficiente. Ele mesmo se ofereceu. "Restam-
me ainda jovens nascidas de meu pai e de sua es-
posa principal... Elas não têm nada além do co-
mum... Se vos dignardes escolher entre elas do que
guarnecer vosso gineceu, minha esperança revive-
rá (803)." Encontra-se ainda empregada como resposta
a um pedido de casamento, uma fórmula mais com-
pleta: "Minha esposa deu-me tantas filhas; minhas
mulheres secundárias tantas. . . restam-me tantas tias
paternas e irmãs (804)." Estas fórmulas tomam todo o
seu significado quando são comparadas às censuras
severas que Houan de Ts'i mereceu por ter-se recusa-
do constantemente a casar suas irmãs e suas tias (805).
A história insinua que esse Hegemon mantinha com
elas relações incestuosas. O incesto entre irmão e
irmã é, de resto, um crime freqüentemente imputado
aos príncipes de Ts'i (mas não unicamente a eles).
Porém, se essas relações (começadas ou não antes do
Casamento) continuavam depois deste, elas não o im-
pediam (806). Houan de Ts'i é especialmente acusado
de infâmia porque, em seu orgulho de Hegemon, quis
privar as famílias rivais da garantia conferida pela
posse desta espécie de refém que é uma mulher des-
posada. Há aí um curioso princípio de endogamia, mas
o fato, se ele parece particular às famílias de poten-
tados, mostra o valor desta regra exogâmica. As jo-
vens devem ser casadas fora da família porque as
famílias rivais têm direitos sobre elas. Se, normal-
mente, elas são educadas para ser esposas, é porque
preferem entregá-las como reféns, elas e não os filhos;
ou, mais exatamente, talvez porque, outrora, os filhos,
no fim do fosterage, não eram recuperados senão
contra uma compensação, proporcionando a entrega
de suas irmãs a título de esposas. Os rapazes, na
família nobre, valem como depositários da honra do-
méstica, mas uma jovem é, antes de tudo, um valor
de substituição.

As jovens são, também, um princípio de pres-
tígio. Quando, com o auxílio dos ritos dos esponsais,
uma família faz valer o direito que tem de exigir de
uma outra família a entrega de uma esposa, esta sen-
te-se honrada em pagar generosamente. O esplendor
da pompa nupcial é uma contribuição para a glória do
genro, mas uma contribuição vantajosa. Isto se per-
cebe só com o tom dos hinos de casamento: "O prín-
cipe de Han toma por mulher - a filha do rei da Fen!
- a filha do senhor de Kouei! - O príncipe de Han
vem até ela! - ele vem à aldeia de Kouei! - Cem
carros avançam com grande ruído! - Suas oito cam-
painhas fazem grande barulho! - Já se viu alguma
coisa mais esplendorosa? - As irmãs mais moças
acompanham - avançam como nuvens! - O príncipe
de Han as contempla! - seu esplendor enche o pa-
lácio (807)!" Há poucas informações sobre o dote que
levava a noiva, mas o essencial deste dote era, segu-
ramente, a escolta composta de rapazes e, sobretudo
de moças, que a acompanhavam como uma corte. As
vezes, como se viu, os senhores escolhiam seus con-
selheiros entre os rapazes que seguiam a esposa (808);
um hino nupcial acaba de nos mostrar: as moças os
fascinavam. Medindo a nobreza do pretendente, o
número de damas de companhia é determinado por
protocolo. Em certos casos, é aumentado para fazer
honra ao marido, mas é acrescido também para fazer
honta à noiva."Para uma mulher, o grande número de
damas de companhia constitui a magnificência" que
"confere o prestígio"...Este número, _entretanto, não
deve esgotar, numa geração, as disponibilidades ma-
trimoniais de um grupo familiar. De cada um dos gru-
pos familiares que contribuem para perfazer a presta-
ção, não deve vir mais do que duas irmãs, pois três
é um total. Esta regra serve para justificar o costume
que confere às duas irmãs a companhia de uma de
suas sobrinhas. Sabe-se que a sobrinha é fornecida
a fim de ligar de antemão o marido à geração ascen-
dente de família aliada. Na verdade, se esta não hesita
em dar suas filhas com magnificência, é porque, re-
cebendo por um único casamento um lote abundante
de esposas, o genro encontra-se definitivamente liga-
do à família de sua mulher. Um senhor que recebe
nove mulheres de uma vez não tem o direito de con-
trair segundas núpcias. A poliginia implica a monoga-
mia, mesmo para um simples nobre que não receber
mais do que duas esposas: de sua parte, um segundo
casamento, possível de direito e freqüente de fato
(mas a instabilidade feudal permite também aos se-
nhores violar a regra monogâmica), é sempre con-
denado pela opinião. Privado de suas mulheres por
mortes repetidas, o genro tem direito de tê-las substi-
tuídas e não há então, para dizer a verdade, um segun-
do casamento; as mulheres que a família aliada
apressa-se a mandar substituem simplesmente as do
primeiro lote que não duraram o suficiente. A mono-
gamia poligínica tem por função circunscrever o fu-
turo matrimonial do marido: a família da mulher obte-
ve, para toda a vida, sua fidelidade, depois que a
aliança se concluiu. Ela adquiriu, ao mesmo tempo,
certos direitos sobre as crianças a nascer dele; todos
receberão uma influência única e forte, pois durante
toda a sua carreira de esposa e de mãe, toda mulher
procura permanecer uma boa filha junto aos seus (809).
Quando a noiva é entregue ao marido, não há
tradição verdadeira e transferência completa de auto-
ridade. O marido não substitui inteiramente os direi-
tos do chefe da família natal. A mulher passa da obe-
diência (tsong) deste chefe para a obediência do
marido. Sem dúvida, a autoridade do marido (chamado:
senhor) tende, como a autoridade paterna, a tomar um
caráter senhorial. Entretanto, é preciso entender por
obediência (tsong), sobretudo, a idéia de que a mu-
lher, atingida por uma espécie de menoridade, só tem
lugar na sociedade como filha ou como esposa. Viúva,
ela é colocada sob a obediência (tsong) do filho, o que
não quer dizer que este possua sobre ela o menor
poder de comando. Ele é simplesmente, depois do
Pai e do marido, uma espécie de tutor responsável.
A transferência da tutela ao marido não suprime, de
maneira alguma, os direitos do pai, nem mesmo sua
responsabilidade, sobre uma filha casada: os ritualis-
tas, é verdade, declaram que há aí um caso de usur-
pação dos direitos e dos deveres matrimoniais(810).
Por outro lado, a transferência da tutela não tem nada
de definitivo: a filha volta para a tutela dos seus, às
vezes, em caso de viuvez, e sempre, em caso de re-
púdio. Uma disposição significativa do direito proíbe
o repúdio de toda mulher que não tenha mais parentes
para assumir a tutela (811). A devolução da mulher faz-
se com as fórmulas da pompa nupcial. Um cortejo
acompanha a mulher repudiada., Fórmulas de modés-
tia ritual são trocadas entre o mensageiro do marido
e o chefe da família natal. Elas têm por fim evitar
que a ruptura do casamento desencadeie uma vin-
gança(812). Também, as fórmulas consagradas que
devem empregar o pai e a mãe da jovem, quando o
noivo vem buscá-la, não implicam nem o abandono
nem a transferência da autoridade: são conselhos im-
perativos dados à jovem para que, em suas novas
funções de esposa e de nora, ela não faça nada que
venha comprometer a responsabilidade de sua família
natal. Dada para compensar ou prevenir a vingança,
a esposa pertence às duas famílias contratantes, como
um penhor sobre o qual as duas partes têm direitos
antitéticos. A situação que a esposa ocupa é a de
uma Sabina, mas é claro que os interesses de seu pai
continuam mais importantes do que os de seu marido.
Vêem-se filhas advertir seu pai de uma cilada prepa-
rada pelo marido(813). Algumas consultam sua mãe:
"O pai ou o marido, qual é o mais próximo e qual
deve ser o mais querido?" - "Qualquer um pode ser
marido e só se tem um pai!", responde a mãe, que
não hesita a respeito do dever a escolher; mas a es-
posa já havia escutado seu coração de filha, pois ela
o confessa, se conseguiu obter a informação que, sal-
vando seu pai custará a vida de seu marido, é porque
ela tomou o cuidado de seduzir este último e de "di-
verti-lo"(814). No serviço do marido, a esposa deve
pensar em servir seus parentes. Também, depois des-
ta pacificação que é o casamento, mulher e marido
vivem em estado de paz armada, cada um procurando,
com seus caprichos, ganhar prestígio em benefício
dos seus e às custas do outro. Capricho delicado: é
preciso saber não triunfar demais. Ts'ai Ki e seu ma-
rido fazem um passeio de barco e, segundo um velho
rito, divertem-se em fazer inclinar o barco. A esposa
é ousada; o marido deixa transparecer seu medo. Ele
devolve aos seus esta mulher muito audaciosa. Estes
se aborrecem, casam sua filha de novo, desencadean-
do a vingança entre os antigos aliados (815).

Desde a pompa nupcial (é o começo que im-
porta), tudo é regulado para que ninguém possa domi-
nar demais o parceiro. O noivo deve vir em pessoa
procurar sua noiva. Preparam-lhe (sobrevivência pro-
váve) das épocas em que o pretendente devia antes
servir seu sogro uma moradia provisória perto da
casa da noiva. Recebido como hóspede, ele depõe
aos pés do sogro um pato-do-mato e lhe presta uma
homenagem saudando-o duas vezes de joelho, com
a testa tocando o chão. Esta saudação não lhe é pres-
tada e o sogro não o acompanha de volta, mas, sem
dizer nada, a noiva o segue, guiada por uma aia (816).
Desde então qualificado como genro, o esposo não
mostra, em relação à noiva, menos humildade do que
em relação ao sogro. Ele traz o carro nupcial, depois
convida a noiva para subir no carro. Mas a aia, ime-
diatamente (pois a noiva não fala), declina esta home-
nagem. O genro põe o carro em movimento. Depois
de três voltas da roda, ele pára e, substituído por um
vassalo, sobe em outro carro. Se, inicialmente, desem-
penhou a função de cocheiro, é ele agora quem, to-
mando a dianteira, indica o caminho. Recebe, como
a um hóspede, a noiva no umbral de sua casa, incli-
nando-se para fazê-la entrar. Antes de tomarem juntos
a refeição comunitária, todos os dois se purificam,
ajudados por seus companheiros, lavando as mãos (817).
Quando Tch'ong-eul de Tsin recebeu de seu hóspede,
o duque de Ts'in, um lote de cinco mulheres (em vez
de três) - presente muito grande e que o comprome-
tia muito - ele constatou, também, que uma dessas
mulheres havia servido temporariamente como espo-
sa de um de seus parentes que fora refém em Ts'in.
Foi ela quem, segurando o jarro como dama de com-
panhia, ajudou Tch'ong-eul a fazer a purificação limi-
nar. Aproveitando-se disto para dominar a situação,
Tch'ong-eul, ao fazer sinal para que ela se retirasse,
procurou aspergi-la com a mão molhada. Mas ela,
"encolerizando-se: 'Ts'in e Tsin acham-se na mesma
posição! Por que me humilhar?'Tch'ong-eul, fazendo
cair (do ombro) sua vestimenta (de cerimônia), assu-
miu, diante dela, a postura de um cativo." Vitoriosa
nesse primeiro duelo conjugal que, levado muito longe
poderia ter desencadeado uma vingança, ela foi logo
tratada como esposa principal, embora figurasse no
lote de mulheres como dama de companhia. Mais tar-
de, já viúva, ela mostrou sua importância, quando, por
ocasião de lutas sangrentas entre Ts'in e Tsin, ela
soube fazer voltar a seu pai os três chefes valorosos
que Tsin havia capturado (818).

A esposa introduzida no lar conserva uma alma
estrangeira, mas, separada do marido pelos interes-
ses divergentes de suas famílias, ela é ainda distan-
ciada pela força das proibições sexuais que o sacra-
mento do casamento atenua sem chegar a suprimir.
Série de justas dissimuladas entre parceiros inflama-
dos por sentimentos de honra familiar e de honra
sexual, a vida do casal não tem intimidade. Ela é inau-
gurada por uma refeição comunitária, que os esposos
comem lado a lado e não face a face e em que tudo
é ordenado para fazer com que eles constituam, da-
quela ocasião em diante, as metades de um mesmo
corpo - mas metades separadas. Cada um sentado
sobre sua esteira, eles comem as mesmas iguarias
sem pegá-las do mesmo prato. Fazem, à parte, as liba-
ções aos espíritos e cada um saboreia o par de pul-
mões que lhes servem e as duas costelas tiradas de
um lado e de outro do lombo de um porco, que lhes
são destinadas. Eles recebem seu prato de painço,
seus sete peixes e, depois que saboreiam, cada um
três vezes, estas iguarias, bebem, também três vezes
- pela última vez (rito supremo) em duas taças feitas
com as metades de uma mesma cabaça. Bebendo e
comendo, eles se saúdam cerimoniosamente. Podem,
então, ir se despir, cada um em sua sala, e, reunidos
durante a noite, cada um terá sua esteira(819). Os
rapazes e as damas de companhia ficam velando perto
do quarto nupcial. Acendem-se archotes. Os archotes
queimam, também, durante três dias, na casa da noiva.
Parece que o casamento só se consumava no terceiro
dia: os eruditos afirmam que os oficiais graduados
(a gravidade da união sexual aumenta com a nobreza)
esperavam o terceiro mês(820). Esta união exige, na
verdade, grandes precauções. A mulher deve usar um
véu durante a pompa nupcial. Nenhum rito dos espon-
sais ou do casamento faz-se em plena luz, mas nas
horas crepusculares: os primeiros ritos, de manhã
(quando o Yang vence o Yin), a pompa nupcial no
crepúsculo, de tarde (quando o princípio masculino
é vencido pelo princípio feminino). A palavra houen
(crepúsculo) significa também casar. A mesma pala-
vra designa ainda os parentes da mulher. Esses diver-
sos significados da palavra sugerem a idéia de que
antigamente o casamento era consumado na casa da
noiva. Se a esposa de um simples nobre se apresen-
tava a seus sogros, que a tratavam como nora (fou)
desde o terceiro dia, a apresentação aos ancestrais
do marido (pelo menos entre os oficiais graduados,
que esperavam, dizem, o terceiro mês para consumar
o casamento) só se realizavam no terceiro mês. Aliás,
é somente depois deste estágio de três meses que a
mulher tem direito de usar o título de nora (fou), que
serve para designar a mulher casada. Se morrer antes
disto, ela não tem direito a que se use, na família do
marido, o luto reservado às esposas. É no terceiro
mês que, segundo o rito clássico, a escolta da noiva
volta para a casa de seus pais, e é também no terceiro
mês que o genro deve fazer aos sogros uma visita
que tem todas as características de uma cerimônia de
despedida (821). Os três meses e os três dias são, na
organização agnática, um período de estágio indis-
pensável para agregar a esposa à família do marido.
Eles correspondem, talvez, a um período de experiên-
cia que, outrora, devia decorrer antes que a esposa
pudesse deixar a casa natal com seu marido. Num
caso ou no outro, esse tempo de experiência justifi-
ca-se pelas dificuldades de assimilação conjugal. An-
tigamente, a nova esposa (nos usos modernos ela só
começa a cozinhar no terceiro dia) não devia trabalhar
antes do terceiro mês(822). Assim também, o marido
nobre, afastado devido a seu casamento, não podia
comparecer na corte durante um ano(823). O período
de experiência, que inicia a vida conjugal e durante o
qual os esposos, como que atingidos pela impureza,
vivem em quarentena, mais difícil no começo, não
terminava, sem dúvida, antes do terceiro ano, pois
generalizou-se a idéia de que o repúdio só era coisa
grave depois de três anos de vida em comum(824).
Para um marido, na verdade, três anos não é muito
tempo para chegar a seduzir ou a conquistar sua mu-
lher. Algumas historietas deixam entrever as dificul-
dades deste longo período inicial. Uma mulher (arre-
batada, é verdade, por seu marido) só consentiu em
falar com ele depois de ter tido dois filhos (825). Uma
outra, casada muito regularmente (mas, dizem que ela
era bela e que o marido não o era), também perma-
neceu obstinadamente muda (826). O marido mal rece-
bido conseguiu, mostrando perícia na caça, enfim, uma
primeira palavra e um primeiro sorriso: eles estavam
no terceiro ano de sua vida conjugal. Esta vida não
toma um caráter mais íntimo nem mesmo depois que
a mulher foi conquistada.

Os sentimentos de honra sexual ou doméstica
se atenuam, talvez, mas a etiqueta mantém seus di-
reitos. Por respeito mútuo, o marido e a mulher nunca
se chamam por seus nomes (827). Não entregam nada
de mão em mão, e quando um pega o objeto que o
outro colocou diante dele, toma cuidado, evitando
todo contato, mesmo indireto, de não o segurar por
onde o cônjuge já o tocou (828). Quando a mulher apre-
senta ao marido uma taça para beber, o marido bebe,
como é normal, mas de uma outra taça. Também não
deve haver contato nenhum entre seus objetos pes-
soais. O casamento não dá permissão aos cônjuges
para pendurarem suas vestimentas no mesmo suporte
ou para guardá-las na mesma cesta. Eles não têm di-
reito a uma mesma toalha ou a um mesmo pente. O
maior escândalo de todos é se o marido e a mulher
tomarem banho juntos (829). A pompa de suas relações
aumenta quando devem se unir (pois suas relações
sexuais não são livres e sim severamente reguladas).
O dever conjugal impõe-se ao marido, em relação a
cada uma de suas mulheres, segundo um protocolo
determinado que os ritualistas indicam detalhadamen-
te (830). Eles fornecem também informações minuciosas
sobre a toilette obrigatória, em determinado caso,
para tal mulher, levando em consideração o grau de
nobreza do marido e sua própria posição dentro do
gineceu. A mulher secundária de um oficial gradua-
do(831), por exemplo, deve, antes de ir encontrar-se
com seu senhor, purificar-se pelo jejum, lavar a boca,
vestir roupas recém-lavadas, arrumar seus cabelos de
uma certa maneira, atar em seu cinto uma almofadi-
nha com perfume e, sobretudo, amarrar solidamente
os cordões de seus sapatos. A freqüência das rela-
ções sexuais é função da nobreza do marido e da
esposa, mas, em determinado dia, o marido deve-se
a tal ou tal de suas mulheres, e o principal dever da
primeira esposa consiste em assegurar o respeito à
ordem protocolar que governa a vida do gineceu (832).
É uma falta que pode acarretar muitas conseqüências
(para a sociedade, como para a natureza) abandonar
uma de suas mulheres, como também é uma falta
deixar sem marido uma das jovens da família. Mas,
como a fisiologia chinesa ensinava que o afluxo dos
humores sexuais cessa nos homens aos setenta anos
e nas mulheres aos cinqüenta, o marido é liberado de
suas obrigações conjugais em relação àquelas de suas
mulheres que atingiram esta idade, e, para ele, toda
a obrigação cessa aos setenta anos(833). Terminam,
então, as proibições sexuais. Um marido de setenta
anos, uma mulher de cinqüenta anos, não precisam
mais se isolar. Eles podem guardar suas roupas no
mesmo lugar, sem nenhuma separação. A intimidade
só se estabelece na vida conjugal no momento em
que, desaparecendo as diferenciações sexuais, os es-
posos entram num período de recolhimento e come-
çam a se preparar, conjuntamente, para a morte.
Quando seus corpos estiverem reunidos no mesmo
túmulo e suas tabuletas na mesma sala, eles forma-
rão, unidos estreitamente, um casal de ancestrais. É
então, e apenas então, que a esposa será definitiva-
mente integrada no grupo familiar, no qual seu casa-
mento lhe fez assumir a posição de nora, depois de
mãe de família.

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