A vida privada (02)

2.° - A autoridade paterna

A autoridade do pai de família deriva, não de
um direito de comando que recebe de sua paternida-
de, mas do fato de que o filho, e mais exatamente o
filho mais velho, considera-o um futuro ancestral. Des-
tinado a presidir ao culto paterno, detendo assim um
poder sobre seus irmãos mais moços, o filho trabalha,
durante a vida de seu pai, para alimentar neste a san-
tidade que o qualificará para seguir uma carreira an-
cestral. Ele o faz viver nobremente. Ele o trata como
chefe. Ele lhe traz as homenagens que conferem a
qualidade de senhor. Prepara-se, se assim posso dizer,
para ser seu sacerdote, sendo, primeiramente, seu
fiel. A vida do filho (do primogênito, pois, na verdade,
o pai só tem um filho - que tem irmãos) consome-
se inteiramente num longo esforço para se filiar a seu
pai. Estabelecer esta filiação é mais difícil em razão
das sobrevivências do direito uterino pois pai e filhos
são dotados de gênios diferentes(720). A intimidade
entre eles é coisa impossível: suas tabuletas nunca
se reunirão; peIo contrário, elas estarão sempre opos-
tas no templo ancestral. Mas é precisamente esta
ausência de parentesco que permite ao filho enfeu-
dar-se e ao pai arrogar-se uma força senhorial. Para
definir a autoridade do pai, os Chineses dizem, como
dizem do senhor, que ele é tsouen, respeitável; que
ele deve ser severo, distante (yen); que ele é "o
Céu"; que ele comanda o filho como o yang comanda
o yin. O filho fica junto do pai como o vassalo junto
do senhor e - nada mostra melhor as origens feudais
do poder paterno - todos os ritos pelos quais o filho
se aproxima do pai, todos os ritos que criam a filia-
ção agnática não se distinguem daqueles pelos quais
se faz ato de vassalagem.

O fato da paternidade, em si mesmo, não gera
nenhum vínculo. Um homem pode tratar como filho a
criança nascida de sua mulher, mesmo quando ele
não a gerou ou quando, por exemplo, ele obteve seu
nascimento depois de ter aberto seu harém a seus
protegidos (721). Em compensação, o fato de ser o filho
da esposa não implica nunca o direito de ser consi-
derado filho pelo marido. Há, originariamente, tanta
distância entre o filho e o pai quanto a gravidez, longe
de aproximar os cônjuges, afasta-os. O marido e a mu-
lher se separam assim que o embrião se forma per-
feitamente (tch'eng), três meses antes do parto: eles
vivem apartados até o momento (três meses depois
do nascimento) em que a criança é apresentada a seu
pai (722). Esta cerimônia capital do terceiro mês é pre-
cedida por inúmeros ritos de aproximação. O pai parti-
cipa dos sofrimentos da mãe e, se é proibido de ir
vê-la, pede notícias suas, com mais freqüência à me-
dida que ela se acha mais perto do prazo. Nos últi-
mos dias, ele se submete a um jejum. Ele não pode
assistir ao parto, mas é representado, junto à partu-
riente, por vassalos, pelo mestre de música e pelo
cozinheiro-chefe, encarregados de vigiar a mãe sub-
metida, por seus alimentos, por sua apresentação e
pelas melodias que manda interpretar, a inúmeras
proibições(723). Esses vassalos observam os primei-
ros gestos do recém-nascido e, em particular, o mes-
tre de música determina, com uma espécie de diapa-
são, o tom em que a criança solta seus primeiros
gritos(724). Esta inspeção da voz é uma coisa impor-
tante. Com os vassalos do pai, toda a família está à
espreita. Tseu-wen de Tcheng (604 a.C.) tem um filho
cuja voz se parece com a de um lobo. O irmão mais
velho de Tseu-wen exige, então, que se mate esta
criança (725). Somente um espírito forte não faria matar
uma criança desgraçadamente nascida no primeiro ou
no quinto mês do ano, mês do solstício, ou, mais las-
timavelmente ainda, no dia 5 do quinto mês, dia que
é consagrado ao mocho e no qual o princípio yang
atinge seu apogeu. Um filho nascido na época dos
dias maiores deve crescer estranhamente; destina-se,
quando sua altura atingir o tamanho de uma porta, a
matar seu pai, pois ele participa da natureza parricida
dos mochos que, como se sabe, são canibais (726). As
crianças nefastas eram expostas no mato: às vezes,
eram recolhidas e amamentadas por um animal sel-
vagem, tão patente que era a virtude animal que a
inspeção dos primeiros dias revelara(727). As mães
eram as primeiras a reclamar a exposição dos recém-
nascidos marcados com um sinal funesto; o pai, algu-
mas vezes, tinha muita dificuldade em vencer sua
vontade. Sem dúvida, era exclusivamente da mãe que
dependia, outrora, a exposição da criança. Esta cor-
respondia antes a um ordálio do que a uma condena-
ção à morte. O recém-nascido, abandonado no chão,
forçava, às vezes, gritando bastante ("Que o ouçam
ao longe! que o ouçam bem! - Seus gritos enchem
o caminho(728)!", a simpatia das pessoas, depois da
dos animais. A mãe, então, recolhia a criança e lhe
dava um nome: tal foi a sorte de Heou-tsi, ancestral
dos reis Tcheou. Mesmo no caso de um nascimento
normal, a criança devia passar seus três primeiros
dias sem alimento nenhum, em contato com o solo,
pois "o espírito vital e a respiração de uma criança
são sem força(729)" e apenas em contato com a
Terra-mãe que a vida pode se confirmar nela. Para as
meninas (que nunca saíram completamente da depen-
dência da mãe) a exposição sobre o solo parece ser
uma prova suficiente. Os meninos, primeiro rito de
aproximação, primeira habilitação sucessorial, devem
ainda ser expostos no leito paterno (730). Eles são, nes-
ta ocasião, levantados da terra por um vassalo do pai
e por ordem deste(731). Este procedimento deve ser
relacionado com regras de etiqueta que se impõem
quando alguém, fazendo-lhe uma dádiva, coloca-se sob
a recomendação de uma pessoa estrangeira. A dádi-
va não é transmitida de mão para mão; ela é colocada
na terra, depois levantada. É digno de nota o fato de
que, no caso em que, por um rito análogo, a esposa
propõe ao marido entregar-lhe o filho, não seja o pai
quem o pegue diretamente. Ele deve empregar um
intermediário: entre o pai e o recém-nascido, como
entre o marido e a parturiente, os contatos comuni-
tários são difíceis de se retomar ou de se estabelecer.
Assim que o filho é levantado do solo, o vassalo en-
carregado desta função atira flechas em todas as dire-
ções. Trata-se de dispersar ao longe as máculas do
nascimento, pois este rito parece ter relação com o
banho purificador que se dá na criança(732). Trata-se
também de estabelecer uma conexão entre o recém.
nascido e a terra paterna que lhe fornecerá os grãos
nutritivos: depois que as flechas forem desferidas, a
criança pode, enfim, receber alimento(733). Este tiro
só é dado para os meninos: as flechas são um em-
blema de virilidade. Nota-se o aspecto belicoso desta
cerimônia. Este traço é tanto mais notável quanto o
terceiro dia do nascimento, no qual se deve atirar as
flechas, parece ter sido, antigamente, o dia em que
se dava o nome, transferido mais tarde para o terceiro
mês(734). Ora, o pai só recebe efetivamente o filho
que lhe é oferecido no momento em que dá um nome
a este filho. Sabe-se, por outro lado, que um homem
pode adquirir um nome para seu filho se matar um
inimigo, enterrando depois sua cabeça cortada sob
uma porta(735). O nome da vítima passava, então, ao
recém-nascido: conferindo a este último, com o nome
de um vencido, uma alma que, conquistada por ele,
lhe pertencia, o pai o recebia como filho e, desde en-
tão, os direitos paternos sobre a criança assim obtida
superavam os direitos maternos. Segundo a teoria chi-
nesa, as crianças, quando são postas no mundo pela
mãe, só têm uma alma inferior, a alma p'o, a alma do
sangue: pois estão nuas, não têm pêlos e são verme-
lhas (a palavra vermelho caracteriza, ao mesmo tem-
po, os recém-nascidos e os seres sem pêlos). Diz-se
ainda, quando se quer precisar a maneira como as
crianças estão ligadas a seu pai e a sua mãe, que elas
estão unidas a esta pelo ventre e ao outro por seus
pêlos(736), e se considera que, fisiologicamente, os
pêlos participam da natureza da exalação (k'i). Alma
superior (houen), que é uma alma-exalação, só apa-
rece depois da alma inferior. Ela se manifesta, inicial-
mente, pelo grito do recém-nascido, o qual prova sua
vitalidade, saudando a vida com gemidos sonoros: por
isto lhe davam um nome, inicialmente, no terceiro dia.
Mas a criança não se acha, verdadeiramente, em es-
tado de possuir uma alma superior, senão quando é
capaz de rir. É o pai quem lhe ensina a rir e logo lhe
dá esse nome pessoal (ming) que os ritos chineses
mostram ser idêntico à alma superior, ao destino e à
própria vida. No terceiro mês (737), a criança, até então
mantida no isolamento, é enfim apresentada ao pai
que a saúda com um sorriso. Esta cerimônia solene
coincide com o primeiro arranjo dos cabelos da crian-
ça e com a recuperação da mãe, purificada, por três
meses de abstinência, das máculas sangrentas do
parto(738). O pai e mãe preparam-se com abluções e
devem vestir roupas novas. Eles ficam face a face, a
mãe levando a criança nos braços. Não se falam. Uma
aia serve de intermediária, dizendo: "A mãe da crian-
ça, fulana de tal, permite-se hoje apresentá-la a seu
pai." O marido, dizendo: "Tende cuidado", toma a mão
direita de seu filho e, rindo como criança, dá-lhe um
nome. A esposa toma então a palavra para aquiescer
às ordens do marido. Ela pode, desde então, retomar
com ele, suas relações conjugais. Mas, antes, ela re-
cebe dele uma refeição idêntica à refeição de casa-
mento, como se eles estivessem separados por um
divórcio. Assim se desenrola a entrega da criança.
Nota-se que o pai e o filho ligaram-se pela palma da
mão: esta, rito característico do contrato de compa-
nheirismo militar e do contrato matrimonial (em que
pode se completar por um rito de aliança sangrenta,
sendo o sangue tomado do braço), é usada para apro-
ximar estranhos. O parentesco entre pai e filho não
é um parentesco no sentido primeiro da palavra: per-
tence, antes, ao tipo do parentesco artificial (739).
Ligado ao pai de maneira como um amigo o é
a um amigo, o filho deve passar toda a sua infância
longe da influência paterna. Na cerimônia do terceiro
mês, simples cerimônia de aproximação, tudo se pas-
sa como se o pai, convidado pela mãe a receber o
filho, adiava esta entrega, tomando o compromisso de
aceitá-la. Terminada a cerimônia, a criança é levada
ao gineceu, sem que se estabeleça nenhuma intimi-
dade entre ela e seu pai. Este, no entanto, deve man-
dar que a criança lhe seja apresentada de dez em dez
dias, para renovar o gesto da palma da mão, tão difícil
é criar entre eles o parentesco artificial que deve
ligá-los por fim. O pai limita-se a tocar na cabeça da-
queles de seus filhos que forem filhos secundários;
é apenas com o filho primogênito, único filho no sen-
tido estrito do termo, que ele se liga, tocando a mão
direita(740). Até o sétimo ano, os meninos não saem
do gineceu. Eles vivem a vida das mulheres, embora
já aprendam os modos masculinos e a dizer "sim"
com um tom decidido (741). Aos dez anos, eles devem
deixar a casa natal e permanecer, dia e noite, junto
com um mestre que lhes ensina a arte dos ritos de
polidez e das palavras de sinceridade. Em teoria, eles
devem ficar na escola até os vinte anos, adestrando-
se na dança, no tiro com o arco e na direção de um
carro. Uma tradição quer que, desde os tempos feu-
dais, os jovens nobres reúnam-se junto do príncipe,
numa espécie de escola de pajens. As crônicas pare-
cem, pelo contrário, mostrar que a adolescência de-
corre junto aos parentes maternos. Não há dúvida
alguma que o costume do fosterage não tenha sido
regra geral. Um autor, explicando que o pai não pode
cuidar da educação de seu filho apresenta uma razão
curiosa e, sem dúvida, profunda (742). Pai e filho não po-
dem pendurar suas roupas no mesmo suporte, como
também não o podem, em virtude das proibições se-
xuais, duas pessoas de sexo diferente. Pai e filho tam.
bém não podem conversar sobre assuntos de sexo. A
educação só pode ser feita longe do pai, num meio em
que não seja inconveniente evocar tais questões. Se
lembrarmos que o costume de casar os filhos na famí-
lia de sua mãe é um dos usos fundamentais da vida do-
méstica, compreenderemos facilmente por que a tare-
fa de educar os jovens pertencia a seus tios maternos.
Seus sobrinhos iam viver com eles como hóspedes,
ou talvez como reféns e ali se submetiam a uma es-
pécie de prova pré-nupcial, antes de poderem levar
suas primas, que, por sua vez, se tornavam hóspedes
e reféns na casa paterna. Um outro traço caracterís-
tico dos costumes chineses (pode ser considerado
uma sobrevivência da família indivisa) atesta a riva-
lidade sexual implicada, entre outras rivalidades, pela
relação de pai e filho: é freqüente o pai procurar rou-
bar a noiva do filho e, quando consegue, o filho fica,
geralmente, desapossado da sucessão paterna (743). A
educação numa escola de pajens não é, sem dúvida,
mais do que um desenvolvimento do fosterage: o se-
nhor apropria-se de reféns (e talvez, pode-se supor,
dos diversos serviços sexuais) que originariamente,
toda a família associada a um outro agrupamento fa-
miliar por uma tradição de casamentos tinha o direito
de exigir deste agrupamento aliado. De resto, é do
costume do fosterage que se deve partir para explicar
os ritos da maioridade(744). Estes ritos, conhecidos
sob o nome de tomada do barrete viril, terminam a
adolescência. O candidato recebe os trajes que distin-
guem os homens adultos e se acha iniciado na vida
Pública. Esta cerimônia completa os efeitos dos ritos
do terceiro mês depois do nascimento: o jovem nela
recebe um nome de homem feito, um nome de maior
ltseu), que é um nome público, enquanto que o ming,
o nome pessoal dado no terceiro mês, serve de deno-
minação particular e secreta. O filho declarado maior
encontra-se qualificado para prestar a seu pai as ho-
menagens que se devem a um senhor. Ele se apresen-
ta a seus parentes agnáticos. Despede-se de sua mãe,
de um modo significativo. Sua entrevista faz-se de um
lado para outro de uma porta entreaberta: o maior sai
da dependência de sua mãe, ficando excluído do gine-
ceu. Mas, fato notável, o rito de maioridade, que viri-
liza e faz entrar decididamente no grupo agnático, não
é mais do que um rito destacado de uma cerimônia
mais complexa. Para as meninas o rito corresponden-
te, a tomada do alfinete de cabeça, permaneceu ligado
aos esponsais(745). Ora, nos costumes camponeses,
iniciações e esponsais faziam-se, para os dois sexos,
ao mesmo tempo, durante essas festas primaveris nas
quais as libações desempenhavam um papel impor-
tante. A entrega de uma taça de bebida é um dos
ritos mais importantes da cerimônia da maioridade
praticada pelos nobres; mas, entre eles ainda, o filho
só pode cumprir os ritos do casamento depois de ter
recebido uma taça de bebida. A iniciação dos campo-
neses ocorria no Lugar-Santo local, durante uma festa
coletiva. A dos nobres realizava-se na casa paterna;
eis uma prova da dignidade e da independência novas
que a ordem feudal fez com que as instituições pro-
priamente domésticas adquirissem. No entanto, se,
durante a cerimônia de maioridade, o pai (ou o chefe
do tsong) ocupa o lugar de honra, ele não desempe-
nha nenhum papel ativo. Todos os gestos rituais são
realizados pela iniciativa de um personagem qualifi-
cado de hóspede e que não deve fazer parte da família
paterna. Tem-se direito de supor que, em princípio, o
convidado pertencia à família em que o grupo agná-
tico do candidato devia se casar, à família de onde
tinha vindo sua mãe e de onde devia vir sua noiva.
Por ocasião da iniciação, tudo se passa como se o
filho, saindo do grupo materno que, depois de tê-lo
criado, entrega-o, vinha se anexar ao grupo agnático -
levando a seu pai a promessa de lhe trazer uma nora.
Uma vez maior, o rapaz deve praticar os inú-
meros deveres de respeito que o filiarão a seu pai.
Embora, entre os nobres, em conseqüência, sem dú-
vida, das obrigações militares, o casamento só se
deva realizar aos trinta anos, enquanto que a maiori-
dade é concedida aos vinte anos, somente um filho
casado pode se comportar como um filho respeitoso.
Para governar o Estado, é preciso um senhor e uma
dama. Seu prestígio é mantido pelas homenagens de
uma corte de vassalos e de uma corte de vassalas.
Assim também, existe na família uma judicatura du-
pla: a do dono e a da dona de casa, casal investido
de uma autoridade senhorial, exigindo o serviço con-
jugado de casais enfeudados. Um chefe de família
deve ter uma esposa, pois está encarregado de um
templo ancestral onde se acham reunidas as tabule-
tas das esposas e dos maridos; deve também, ficando
viúvo de todas as suas mulheres, casar-se de novo,
se tiver menos que setenta anos, ou, depois desta
idade, retirar-se, transmitindo o cargo de chefe de
culto(746). Para exercer a função de chefe, é preciso
ter uma mulher; é preciso também ter uma para pra-
ticar o respeito filial: este, permitindo aproximar os
chefes da família, acaba por fazer adquirir sua virtude.
O filho primogênito, primeiro vassalo do pai, e sua
mulher, primeira vassala da mãe, dirigem, como um
casal ministerial, esta corte de vassalas e de vassalos
que formam os filhos e as noras(747). Seus deveres
são aqueles que os fiéis têm na corte: são eles, a
homenagem, o conselho e o serviço. Na família, como
na corte senhorial, a homenagem, renovada todos os
dias, consiste na saudação matinal e na saudação
vespertina. Da obrigação da homenagem derivam as
regras da apresentação e da limpeza: filhos e noras
lavam-se e se enfeitam para honrar os pais. Ao cantar
do galo, os filhos e as noras lavam as mãos e a boca;
elas penteiam a cabeleira, enrolam-na numa tira de
tecido, e os homens escovam cuidadosamente os ca-
belos que ficam livres nas têmporas, prendendo, soli-
damente, sobre sua cabeça, seus barretes com cor-
dões pendurados. Eles ajustam depois suas vestimen-
tas e guarnecem seu cinto com os objetos miúdos de
que se servem para as necessidades cotidianas: pa-
nos para limpar os objetos e enxugar as mãos, faca,
pedra de amolar, buris, etc. As mulheres não se es-
quecem de colocar também uma almofadinha de per-
fume. Atam cuidadosamente os cordões de seus sa-
patos. Seu traje belo é, em si, uma homenagem. Dian-
te dos pais, impõe-se a gravidade: evita-se arrotar,
espirrar, tossir, bocejar, assoar-se e cuspir. Toda ex-
pectoração poderia macular a santidade paterna. Dei-
xar perceber o lado interno das vestimentas seria um
atentado. Para testemunhar ao pai que ele é tratado
como um chefe, deve-se sempre, em sua presença,
ficar de pé, olhando para frente, com o corpo bem
aprumado sobre as duas pernas, sem nunca ousar se
apoiar sobre nenhum objeto, nem ficar inclinado ou
sobre um pé só. É assim que, com a voz humilde e
doce que convém a um fiel, que se vai, de manhã e de
noite, prestar homenagem. Depois disto, esperam-se
as ordens. Não se pode deixar de cumpri-las, mas
pode-se dar opinião. O filho, como o vassalo, deve dar
o conselho com toda a sinceridade e não hesitar em
dirigir admoestações; apenas, ele deve conservar seu
tom cheio de doçura, o rosto amável e o ar modesto,
o que quer que aconteça. Se os pais obstinam-se em
sua decisão, os filhos devem redobrar a doçura, para
obter seu favor; depois poderão renovar suas adver-
tências. Mesmo apanhando até sair sangue, não con-
cebem nem indignação nem ressentimento, e obede-
cem sempre, não hesitando, por exemplo, quando se
trata de sua própria família, em favorecer aquelas
entre suas mulheres que agrada mais ao pai, mesmo
em detrimento daquela que acham agradável (748). A
obediência impõe-se nas coisas pequenas como nas
grandes, pois o serviço do filho consiste, sobretudo,
em prestar pequenos serviços: é por meio destes que
se mostra respeito. Os filhos pedem permissão para
remendar as vestimentas dos pais quando percebem
um buraco. Pedem permissão para lavar com cinza
dissolvida na água as manchas do barrete, do cinto,
da túnica e da vestimenta interna. De cinco em cinco
dias, eles fazem esquentar a água e convidam os pais
Para tomar um banho; de três em três dias, preparam
a água para que os pais lavem o rosto e se, no inter-
valo destas abluções regulares, os pais sujam o rosto,
eles vão logo pegar, para esta ablução suplementar,
a água que serviu para a lavagem do arroz. Eles lavam
os pés dos pais e enxugam com grande rapidez, para
que ninguém veja o muco ou os escarros dos senho-
res da casa (749). Mas, se um chefe de culto deve ser
limpo, um futuro ancestral deve ser bem alimentado.
O Primeiro dever do respeito filial é zelar pelos ali-
mentos que enriquecem a substância dos pais. Um
bom filho, disse Tseng tseu, "providencia para que
nada falte no quarto de dormir dos pais (é, sobretudo,
quando se está velho e friorento que não se pode
dormir sozinho) e lhe fornece o alimento e a bebida
com uma afeição sincera"(750). Ele lhes prepara as
iguarias que, devidamente temperadas, convêm às di-
versas estações e às diferentes etapas da vida. Quan-
to mais idosos forem os pais, mais delicados devem
ser os alimentos que lhes são oferecidos: aos setenta
anos, tem-se constantemente necessidade de alimen-
tos delicados e, aos oitenta anos, de gulodices. Todo
filho toma cuidado para mandar preparar os oito ali-
mentos de qualidade e, principalmente, a rica fritura
e o vinho aromatizado que sustêm a força dos anciãos
e lhes dão mucilagem(751). Uma boa cozinha não é
suficiente: é preciso ainda saber servir as refeições
e zelar por sua ordem. Não há refeições de família
mas sim, em cada casa, refeições de corte, pretextos
para comunhões hierarquizadas. O filho mais velho e
sua mulher (a nora mais velha) assistem, de manhã
e de noite, às refeições dos pais, mas simplesmente
para encorajá-los a comer bem. Os restos, em com-
pensação, são para eles (como são, para os vassalos,
os restos do senhor), com exceção, entretanto, das
iguarias doces, moles e suculentas que devem reser-
var para seus próprios filhos (752). Estes últimos têm,
também, necessidade de alimentos delicados; além
disto, como se viu, existe uma proximidade particular
entre avós e netos. Vassalos mais distantes, os filhos
e as noras secundárias consomem, para terminar, os
restos dos mais velhos. Assim se estabelece, na vida
de todos os dias, a hierarquia substancial que é a ba-
se de toda a ordem doméstica desse modo definida.
As obrigações filiais são particularmente pesa-
das quando o pai sofre a prova da morte. Ele deve se
preparar para esta prova desde seu septuagésimo ano.
Setenta anos é a idade do afastamento e (de tal ma-
neira são fortes os vínculos da organização civil e da
organização feudal) o nobre, quando deixa a corte se-
nhorial, deve também abandonar a direção de seu
grupo doméstico. Libertado dos esforços que conso-
mem, das observâncias penosas do luto, como de suas
obrigações maritais, bebendo e comendo melhor, o
pai segue, imediatamente, com a ajuda de seu filho,
o regime que lhe permite tornar-se um ancestral ve-
nerado. É importante, para sua glória, como para a
dos seus, que ele morra o mais tarde possível, aos
cem anos, se ele o merecer (753). Para penetrar na car-
reira ancestral, trinta anos de estágio constituem o
ideal. Entretanto, esforçando-se para participar, de to-
das as maneiras, da vida paterna(754), feliz quando o
pai passa bem, triste quando ele vai mal, alimentando-
se quando o pai tem apetite, mas jejuando quando ele
está doente e tomando com ele o remédio, o filho
cuida para que nada, em caso de morte, faça falta e,
sobretudo, para que tenha um belo caixão; pois, "se
mais vale cair prontamente em decomposição depois
da morte, do que esbanjar dinheiro" mandando fazer
um ataúde de luxo para si mesmo, nenhum caixão,
quando se trata do pai, será bastante luxuoso(755).
Sobretudo, o dever do filho é velar atentamente para
que o pai possa ter uma boa morte. Seria nefasto, na
verdade, que ele morresse inesperadamente e fora de
casa: ele não deve se deixar surpreender pela morte
a não ser em conformidade com os ritos e no quarto
reservado ao dono da casa. Seria inconveniente que
a esteira sobre a qual ele passa seus últimos momen-
tos não correspondesse exatamente a seu grau de
nobreza(756). Seria uma infelicidade deixar-se sur-
preender e não ter tempo de tirar o moribundo de seu
leito e colocá-lo no chão, onde ele deve exalar seu
último suspiro, assim como, recém-nascido, ele lan-
çou seus primeiros gritos na terra. É preciso que o
algodão esteja preparado, ele servirá para recolher a
exalação expirante. É preciso, sobretudo, que toda a
parentela tenha sido chamada e que esteja preparada
para o grito que saúda a partida da alma. Chefe do
coro familiar, o filho mais velho assume a responsa-
bilidade dos ritos pelos quais, assegurando-se de que
a morte é efetiva, ela se torna definitiva. Ele procede
ao chamado da alma-exalação (houen), o que se faz
agitando-se do alto do telhado as vestimentas do de-
funto e gritando seu nome pessoal. Se esta alma não
vier prender-se nessas vestimentas familiares, se,
quando se jogar estas últimas no corpo, a vida não rea-
parecer mais, o filho enche de arroz misturado com
caurim ou com jade a boca do morto, mantida aberta,
até então, por meio de uma colher de chifre (757). É tam-
bém ao chefe responsável pelo luto que cabe a função
de obter que o defunto consinta em fechar os olhos:
às vezes, ele não o consente senão depois de ter im-
posto o juramento de obedecer a suas vontades su-
premas. Enfim o cadáver, lavado, é recolocado no leito
mortuário; acumulam vestimentas sobre ele, depois
de ter-se colocado, parece, um pedaço de jade em to-
das as aberturas do corpo. Nenhuma outra alma po-
derá penetrar, para fazer dele um vampiro, neste cor-
po obturado hermeticamente e, por outro lado, o jade,
graças às virtudes que lhe são próprias, impedirá,
assim como as vestimentas amontoadas, uma putre-
fação muito rápida. Pois o grande problema é a de-
composição, que não deve ser muito lenta nem muito
rápida: é preciso que ela se produza de acordo com
as regras do protocolo. O corpo, enterrado ligeira-
mente, deve ser conservado na casa durante vários
meses, três, para os nobres comuns, mais tempo se
o defunto possuía, com um grau mais alto na hierar-
quia, uma substância nutrida mais ricamente. É pecar
por presunção retardar muito tempo ou pretender im-
pedir a decomposição das carnes, mas seria o pior
crime se os convidados, vindos para trazer seu tributo
de condolências, pudessem ver os vermes, saindo do
cadáver mal cuidado, passar a porta, roubando do solo
doméstico uma substância que devia voltar a ele (758).

Enquanto que as ossadas permanecem infectadas e
que não se pode ir ao cemitério familiar reuni-las aos
ossos dos ancestrais, os parentes, ajudando o morto
a dar um passo temível, livram-se, eles mesmos, de
uma mácula, cujo contágio os atinge. Dela se livram
urrando e sapateando, mas não, como os selvagens,
com gritos e gestos desordenados, ou, por um sim-
ples efeito da dor, "como uma criança que lamenta
um objeto perdido"(759). Os parentes urram e sapa-
teiam em ordem e por ordem, cada vez que chega a
hora ritual de exprimir a tristeza familiar, e a um sinal
dado pelo chefe do coro. Todos "põem, então, seus
membros em movimento", todos fazem barulho "a fim
de acalmar o sofrimento e diminuir a angústia" (760).
Eles pulam e gritam um número de vezes determinado
e num ritmo significativo de sua proximidade com o
defunto - os homens apenas descobrindo o braço
direito e saltando sem hesitação - as mulheres sem
se descobrirem e sem que a ponta de seus pés deixe
a terra, mas batendo no peito - o filho dando vagi-
dos como os recém-nascidos, sem que nunca pare o
som de sua voz, enquanto que os parentes mais dis-
tantes que, depois de três modulações, deixam o som
se prolongar e morrer, só são autorizados a adotar
um tom choroso(761). Mas, ao mesmo tempo em que
servem para classificar as dores e para exprimir a
hierarquia dos parentescos, os saltos e os urros, se
purgam a aflição familiar, são ainda úteis ao defunto
e devem ser tanto mais numerosos quanto era nobre
a substância deste último. O número de saltos é idên-
tico ao número de meses que deve durar o enterro
provisório na casa(762). É que, sapateando e urrando
em coro, os parentes produzem um barulho semelhan-
te ao ribombo do trovão subterrâneo: quando produ-
zem esta espécie de estrondo contínuo, eles amedron-
tam e espantam os monstros maléficos que estão
preparados, sob a terra, para vir devorar o cadáver.
Assim, os parentes ajudam ativamente o defunto a
sair vitorioso da prova que lhe é imposta como um
purgatório. Mas eles devem, ainda, participar do es-
tado do morto de outras maneiras. É graças a esta
participação total que o filho respeitoso, fazendo com
que o pai adquira a dignidade ancestral que lhe valerá
um culto, ganha para si mesmo a qualidade de chefe
de culto e de chefe de família. Enquanto o morto não
puder se reunir aos ancestrais, enquanto durar o pe-
ríodo ativo do luto (que se chama de tempo dos cho-
ros contínuos), o defunto continua o dono da casa
onde se encontra o seu cadáver. A parentela, durante
este interregno, reúne-se toda, mas fora da casa; cada
filho mora numa cabana isolada que se levanta num
lugar fechado e retirado. Para o filho principal, levan-
ta-se uma espécie de alpendre que deve ficar encos-
tado no muro de vedação da morada familiar(763).
Como o morto fica, desde os primeiros dias de luto,
colocado no caixão e não enterrado profundamente, a
choupana, feita de ramagens, não deve ser caiada: as
fendas não serão tampadas com terra argilosa senão
depois do enterro definitivo, quando o cadáver estiver
profundamente enterrado na terra. Nesta cabana, o
filho deve se deitar primeiramente sobre a palha (pa-
rece que muito antigamente o morto era enterrado
na palha), com a cabeça apoiada num pedaço de terra,
" afligindo-se porque seu pai está na terra" (764). Assim
como a morte exclui o defunto da comunhão dos vi-
vos, o luto exclui dela o filho respeitoso. Ele vive em
quarentena tendo tanto menos direito de falar quanto
mais considerável for a sucessão a recolher (qualifi-
ca-se para ser rei não abrindo a boca durante os três
anos de luto paterno)(765). O filho só come forçado,
nos primeiros dias, um punhado de arroz. É preciso
ainda que a intervenção de famílias estranhas obri-
guem-no a tomar algum alimento e que este seja ofe-
recido como um presente (766). Não há cozinha possível
na casa do morto enquanto este morto não puder ser
alimentado como ancestral. O filho respeitoso deve
jejuar e se emaciar, conservando, apenas, a força de
realizar as cerimônias. Mas, se ele deve recolher uma
grande herança de vassalos (os quais desde então
podem ajudá-lo), ele é forçado a se enfraquecer a pon-
to de não mais poder se mexer, como um cadáver,
sem o auxílio de outrem (767). Para se tornar chefe de
um grupo familiar, é preciso merecer ser chefe de
culto. Para isto, é preciso, inicialmente, como chefe
do luto, que ele suporte as duras observâncias que,
purgando a infecção fúnebre, tiram o morto de sua
situaçào crítica e os parentes de sua quarentena. Um
filho que não presidiu ao luto de seu pai não se sente
qualificado para sucedê-lo (768).

No fim do enterro provisório e do tempo dos
choros contínuos, o filho principal, chefe do luto, con-
duz o. cortejo que vai reunir às ossadas dos ances-
trais, os ossos do morto. Um rito que realiza então
é o ponto de partida do culto novo do qual vai ser
encarregado. Quando os despojos são entregues à
terra, o filho respeitoso, desnudando o ombro e lan-
çando gritos, roda três vezes a fossa, indo da esquer-
da para a direita. Ele encerra assim e fecha definitiva.
mente no túmulo os últimos restos perecíveis, mas
separa o que constituía a parte mais alta da persona-
lidade do defunto. Exclamando: "A carne e os ossos
voltam de novo à terra: é o Destino! Mas o houen e
a exalação, não há lugar em que não possam ir!",
ele retoma o caminho da morada familiar seguido pela
alma superior que, desde então, vai se fixar numa
tabuleta, centro de culto(769). Enquanto os despojos
mortuários não haviam deixado a casa, conservara-se
uma espécie de tabuleta provisória. Simples vara de
madeira, esta tabuleta é como que a ossatura de uma
efígie grosseira que recobre panelas de arroz e que
traz preso em cima o estandarte do defunto. Assim
que termina o período de maior impureza, é uma tabu-
leta de madeira bem simples que vai servir de apoio
para a alma espiritualizada do defunto: ela é suficien-
te para representá-lo, pois seu nome acha-se escrito
nela. Esta tabuleta não se torna imediatamente o cen-
tro de um culto. Antes de adquirir a personalidade an-
cestral, o morto tem um estágio a cumprir: ele o cum-
pre sob a proteção, não de seu pai, mas de seu avô.
O estagiário, recém-chegado no grupo ancestral, re-
cebe, no princípio, o alimento sacrifical por intermé-
dio de um membro mais antigo dessa seção (seção
tchao ou seção mou) do grupo agnático, à qual ele
tem o direito de se agregar(770). Ele deve esperar o
fim do luto (início do terceiro ano) para receber um
culto pessoal e possuir, no Templo ancestral, uma
morada que seja sua. A instalação da nova tabuleta
numa sala particular tem por efeito relegar para um
cofre de pedra, misturada com as dos antepassados
distantes, a tabuleta do trisavô ou do avô, pois cada
família só tem direito a um certo número de antepas-
sados diferenciados, pelo culto, da massa ancestral.
As tabuletas que podem ser conservadas, sem ser
depositadas na massa, dão a medida, por seu número,
do grau de nobreza da família. O morto conserva per-
sonalidade apenas enquanto sua tabuleta receber sa-
crifícios individuais: quando esta tabuleta é colocada
no cofre de pedra, o nome do morto pode ser reto-
mado pelos parentes(771). Vê-se que a nobreza não
resulta da posse de uma longa lista de antepassados,
mas que, pelo contrário, a sobrevivência ancestral é
função da nobreza. Percebe-se, também, a razão pela
qual os Ancestrais se interessam pela sorte de seus
descendentes: os sacrifícios alimentam-nos durante
uma longa série de anos, quando seus herdeiros ime-
diatos vivem mais tempo. O culto ancestral é uma
troca de bons procedimentos entre essas duas por-
ções da parentela formadas, por um lado, pelos vivos
e, por outro, pelos antepassados cuja alma sobrevive.
Esta troca faz-se de grupo para grupo, mas por inter.
médio dos chefes de grupo. Enquanto que o chefe de
família oferece, em nome de seus irmãos ou de seus
primos, o alimento sacrificial, este é recebido pelo
pai ou antepassado defuntos, que deve fazer aprovei-
tar os tios ou tios-avós defuntos: no templo, na ver-
dade, as tabuletas dos filhos secundários ficam asso-
ciadas à do filho principal. Aquele que, durante sua
vida, ocupa um lugar subordinado no grupo familiar
permanece, em sua carreira ancestral, um simples
segundo(772). Apenas as promoções dos mais moços
na ordem nobiliária podem vir complicar o protocolo
dos sacrifícios. Se um irmão mais moço adquirir uma
posição mais elevada do que a de seu irmão mais
velho, ele conquista o direito de alimentar melhor
seus parentes e de imolar para eles, por exemplo,
duas vítimas em lugar de uma só, mas deve ser sem-
pre o mais velho quem preside ao sacrifício.

Quando se dirigiu o luto do chefe de família,
depois de tê-lo servido, durante sua vida, como filho
principal, recebe-se dele, como chefe de seu culto,
uma autoridade que se estende aos que lhe foram
subordinados como àqueles que, por seu intermédio,
tê-lo-iam sido. Esta autoridade confirma-se por oca-
sião dos sacrifícios. Toda a família comunica-se, en-
tão, com os ancestrais, mas apenas o chefe de culto
preside a esta comunhão. É ele quem oficia. Sua fun-
ção de oficiante impõe-lhe deveres dos quais ele re-
tira um princípio de superioridade. Antes de tudo,
impõe-se o dever de ser puro, que se resume na obri-
gação de viver nobremente e de saber os ritos. Aju-
dado, como se viu, pelos serviços dos próprios filhos,
é preciso que ele se aplique em permanecer correto
em sua apresentação e sincero em seus propósitos.
Em sua esfera de ação, mas tão perfeitamente quanto
um homem de Estado, ele deve conhecer a técnica
e a linguagem rituais. Faltaria à sinceridade integral
exigida pelo culto se não soubesse, em conformidade
com as estações, oferecer ao Ancestral, na época ne-
cessária, o agrião, os nenúfares, os ovos de formiga
e de cigarra. Ele se desqualificaria se, apresentando
alho-porro, um peixe ou uma lebre, ele pronunciasse
"alho-porro", "peixe" ou "lebre" e não "raiz abun-
dante", "oferenda dura", "clarividente" (773). Não bas-
ta se preparar para escolher a oferenda e a palavra
correspondente, é preciso ainda colocar-se em estado
de graça (774). Antes de fazer o sacrifício, o filho pie-
doso submete-se, durante dez dias, a um isolamento
que se torna mais severo nos últimos três dias. Ele
abandona suas mulheres e se abstém da música. Evi-
ta qualquer movimento desordenado dos pés e das
mãos. Detém o curso de seus impulsos e de seus de-
sejos, afasta as reflexões pessoais e as distrações.
Concentra todo seu pensamento no ser augusto que
vai se comunicar com ele. Consegue, enfim, entrar
em comunicação com a alma divinizada do antepassa-
do; sua alma purificada ilumina-se logo e todo seu
ser se reveste de uma santidade que o sacramento
sacrifical vai confirmar. Sua mulher que, como ele,
preparou-se para o sacrifício, vem assisti-lo: ela é
qualificada para celebrar o culto de uma antepassada
que, como ela, foi anexada à família como nora. Ao
chamado deste casal puro, chegam as almas ances-
trais, despertadas pelo ruído que fazem os guizos da
faca sacrifical, atraídas pelo odor do primeiro sangue
que se tira da vítima, perto da orelha. Para assegurar
sua presença, oferecem-lhes a possibilidade de uma
reencarnação momentânea. Durante toda a cerimônia,
na verdade, o Ancestral é chamado para tomar posse,
com sua alma, de uma pessoa encarregada de repre-
sentá-lo. Este costume arcaico foi criticado pelos ri-
tualistas. Quando os sacrifícios se dirigiam, ao mes-
mo tempo, a vários ancestrais, cada um representado,
achava-se, na verdade, que a cerimônia tomava um ar
desagradável de piquenique (775). Mas o uso devia, por
uma razão mais forte ainda, inspirar a hostilidade das
pessoas que queriam ver na autoridade paterna uma
instituição de direito natural. Em virtude das regras
da ordem tchao mou que comandavam a organização
do culto, era preciso que o representante pertencesse
à seção da parentela da qual o ancestral fazia parte.
Ele devia, normalmente, ser tomado na geração dos
netos deste último e, em geral, era seu neto. Esta
regra, que a história da família chinesa explica per-
feitamente, esclarece o sentido do culto dos ances-
trais. Uma das finalidades principais das cerimônias
era, precisamente, obter a reencarnação do antepas-
sado na pessoa do neto. As regras do luto, além disso,
guardaram a lembrança deste modo de transmissão
dos sacra: um avô usa, pelo neto que teria sido seu
sucessor, um luto particularmente pesado. Mas numa
família que podia parecer fundada na filiação agnática,
e numa classe, como a dos nobres, em que o culto
do pai defunto parecia ser o culto essencial, o uso
implicava uma conseqüência que não podia deixar de
parecer revoltante. Quando o chefe do culto fazia sa-
crifícios a seu pai, era um de seus filhos que repre-
sentava o Ancestral (776). O pai assumia uma postura
humilhada diante de seu filho. Ele não podia falar-lhe,
como aos deuses, a não ser por intermédio de um in-
vocador. Quando terminava o sacrifício, o filho comia
primeiro, por conta do antepassado. Só depois é que
o pai saboreava as carnes santificadas por esta pri-
meira degustação: por seu intermédio, ele recebia a
felicidade familiar (fou) incorporada nas oferendas.
Esta inversão de ordem hierárquica fazia-se no mo-
mento em que o chefe de culto, distribuidor do ali-
mento sagrado, estabelecia sua autoridade doméstica.
Com exceção desta comunhão privilegiada do neto,
que parecia aberrante e que é significativa, todas as
comunhões dos parentes respeitavam a hierarquia fa-
miliar. Elas tinham um caráter de comunhões enfeu-
dantes, como aquelas que, no culto feudal, ligavam o
vassalo ao senhor.

A autoridade do chefe de culto vem do senhor.
Este, com determinado grau de nobreza, confere-lhe
o direito de fazer sacrifícios a certo número de ante-
passados. O senhor que dá os antepassados, pode
também retirar o direito de possuir um templo ances-
tral. Quem não tiver mais antepassados, não é mais
chefe de família. Delegação da autoridade senhorial,
o poder doméstico é de essência senhorial. Ele se
exerce sobre os irmãos e sobre os primos. Para os
próprios ritualistas, o respeito em relação ao primo-
gênito (ti) não é uma obrigação menos essencial do
que o respeito para com o pai (hiao), mas, segundo
eles, o respeito fraterno não é mais do que uma con-
seqüência dos deveres impostos pelo respeito filial.
Isto é inverter a ordem dos fatos. Desde a organiza-
ção indivisa, o primogênito exercia um certo poder,
pois, como decano, representava todos seus irmãos.
Reagindo sobre a organização doméstica, a ordem feu-
dal transformou esse poder simples de representação
numa autoridade de ordem senhorial. Esta se esten-
deu, não sem dificuldades, aos membros da geração
inferior. Limitada em relação aos irmãos e aos primos
pelas sobrevivências da organização indivisa, a auto-
ridade doméstica é restringida, mais ainda, em face
dos filhos, pelas sobrevivências do direito uterino e
de uma organização antiga, na qual a idéia de geração
tinha mais importância do que a de filiação. Longos
ritos de aproximação, habilitando-o a se tornar seu
sucessor no culto, fazem do filho o vassalo do pai.
Mas um vínculo continua a dominar o estabelecido
artificialmente entre pai e filho, a saber, o vínculo
unindo neto e avô. O pai deve respeitar no filho
o representante de seu próprio pai. O poder dos
meios rituais empregados para aproximar os repre-
sentantes de duas gerações agnáticas consecutivas
traduzem sua independência e sua oposição primiti-
vas. Pai e filho formam, inicialmente, um grupo de
poderes rivais. Desta rivalidade fundamental subsis-
tem traços significativos, em particular, nos costumes
matrimoniais. Veremos - e nisto está, em parte, o
princípio do poder materno - que os filhos se apóiam,
face a seu pai, na família de sua mãe. Esta família
fornece-lhes suas esposas, como forneceu as do pai.
Mas pai e filho só têm direito, normalmente, a se
casar numa geração da família aliada, naquela que
(em virtude das equivalências estabelecidas por toda
a série de precedentes matrimoniais) parece corres-
ponder à sua. Ora, na nobreza, e particularmente nas
classes mais altas - aquelas nas quais o princípio
de hierarquia já se estabeleceu com mais firmeza -
um homem não se limita a esposar um grupo de
irmãs. Ele toma com elas uma de suas sobrinhas e
esta deve ser a filha de seu irmão mais velho, isto é,
precisamente, aquela das jovens da geração seguinte
que devia ser destinada ao filho principal que nascerá
do casamento assim concluído. Assim, o pai liga-se
de antemão (e pela melhor união possível) com a ge-
ração da família materna na qual o filho deve encon-
trar esposa e auxílio. Freqüentemente mesmo, quando
o filho está na idade de concluir aliança e que lhe é
concedido um lote de esposas, pode acontecer que
o pai o roube. Neste caso, geralmente, este filho é
sacrificado pelo pai e este toma por herdeiro o me-
nino nascido da mulher que, esposa predestinada ao
filho do qual ela se torna madrasta, deveria ter dado
a seu marido de fato, não filhos, mas netos. Por outro
lado, pode acontecer que, morto o pai, um dos filhos
do primeiro leito, substituindo o primogênito sacrifi-
cado, despose a madrasta que se tornou viúva. O du-
que Siuan de Wei (718-700), por exemplo, havia se
casado com Yi Kiang, uma das esposas de seu pai
Inão se sabe se esta madrasta lhe fora destinada, pri-
meiramente, como esposa). Ele teve um filho, cha-
mado Ki, para quem se foi procurar uma esposa na
família Kiang, da qual procedia sua mãe. O duque
Siuan, abandonando a esposa da qual se tinha apro-
priado na sucessão paterna, tomou a noiva destinada
a seu filho Ki. Depois, a fim de transmitir a herança
ao filho nascido daquela que deveria ter sido sua nora,
ela mandou matar Ki, o filho que tinha tido de Yi
Kiang, sua madrasta e sua primeira mulher. A antiga
noiva de Ki, tornando-se sua madrasta sob o nome de
Siuan Kiang, provocou o assassínio desse filho primo-
gênito. Mas, com a morte do duque de Siuan, se o
filho mais velho da madrasta tomou, inicialmente, o
poder em detrimento dos irmãos-sucessores do filho
do primeiro leito, ele evitou a morte exilando-se e,
depois de disputas sangrentas nas quais a família
materna (Kiang) desempenhou o papel principal, Siuan
Kiang, sob a pressão dos membros desta mesma famí-
lia, teve que se unir a um dos irmãos mais moços de
seu antigo noivo. Este irmão de Ki, chamado Tchao-po,
não teve tempo de tomar o poder, mas a herança
coube a um filho que (substituindo seu irmão primo-
gênito, despojado e sacrificado) gerou em Siuan
Kiang, sua madrasta (777). Estas complicações suces-
soriais (nas quais, ao lado do tema do incesto com a
madrasta ou a nora, intervém o tema do levir e da
sucessão dos filhos mais moços, junto ao do sacrifí-
cio do primogênito) testemunham a dificuldade que a
filiação agnática encontrou para se estabelecer como
uso regular. A importância do papel das mulheres e
de seus parentes permanece dominante. É a propósito
de mulheres que pai e filhos se opõem, mas é tam-
bém por meio das mulheres que chegam a se ligar:
para se aproximar, estes representantes de duas ge-
rações antagônicas procuram, se assim posso dizer,
reunir estas numa espécie de geração intermediária
- a criança nascida de uma mulher que, a título de
esposa, passa de uma geração a outra, participando
dos direitos opostos desses agrupamentos rivais. A
origem do poder paterno acha-se nessas relações sin-
gulares entre pai e filho, nascidas de um tipo de rela.
cionamento que devia parecer monstruoso: proibido,
inicialmente, pela heterogeneidade de natureza pró-
pria aos representantes de duas gerações agnáticas
consecutivas, foi vetado, mais tarde, pelo sentimento
que passava por ser o fundamento do parentesco; a
saber: o respeito do filho pelo pai. Vê-se que este
respeito, longe de ser característico das relações pro-
priamente familiares, origina-se de uma ordem de re-
lações de vingança, como se aproximam as relações
do tipo feudal. De um lado, enfeudado ao pai como
este o é ao avô, mas, por outro lado, sucessor do
avô que foi o senhor do pai, o filho primogênito é
submetido a uma autoridade que, feita de excessos,
é, em princípio, desmedida, e que, por isto, permane-
ce vacilante. Uma historieta o demonstra (778). Um dos
filhos mais moços do honorável Tchou, acusado de
um crime, é ameaçado de morte; o pai, desejando sal-
vá-lo e certo de o conseguir, enviando um belo pre-
sente ao juiz, pensa em confiar esta missão delicada
a seu filho mais hábil, que não é o mais velho. O pri-
mogênito protesta: "Quando, numa família, há um
filho primogênito, chamam-no de diretor da família.
Agora que um irmão mais moço cometeu um crime,
se Vossa Excelência não me enviar, mandando meu
irmão mais moço, eu me matarei." Embora achasse
que a missão seria mal desempenhada, a mãe apoiou
a reclamação do filho primogênito e o pai teve que
se submeter. Notemos a ameaça de suicídio, caracte-
rística das relações de vassalo para senhor e sempre
incluída, embora latente, nesse procedimento de re-
provação que é a advertência, dever essencial do filho
como do vassalo. Observemos, sobretudo, o fato, sen-
sível nesta história, de que os direitos do primogênito
sobre os mais moços superam os direitos do pai so-
bre os filhos. Os primeiros originam-se de um desen-
volvimento regular do direito indiviso sob a ordem
feudal. Os segundos, nascidos do mesmo ímpeto, re-
volucionaram a organização indivisa. Eles não reinam
sem obstáculos depois da época feudal.

Senhor de um filho primogênito que, para her-
dar a nobreza paterna e se tornar chefe do culto an-
cestral, aceita enfeudar-se, enfeudando com ele todo
o grupo de seus irmãos mais moços, o pai dispõe,
sobre seus filhos, e, principalmente, sobre o mais
velho, de uma autoridade do tipo militar. Como o se-
nhor, ele confere a nobreza, mas com a condição de
dispor da vida. Como o vassalo, o filho não é senhor
de seu corpo. Deve despender sua energia inteira
para alimentar a honra paterna. Ligado pela homena-
gem lígia, não tem direito de se unir, por si mesmo,
como quem quer que seja. Não pode ter amigos. Isto
seria prometer a outrem devotar-se até a morte. Ora,
ele não possui nada seu e, sobretudo, não é dono de
sua vida (779). A primeira regra do respeito filial é que
o filho não deve fazer nada, subir numa fortificação,
andar sobre o gelo fino, aproximar-se de um precipí-
cio, que possa provocar a suspeita de que está pon-
do em perigo a integridade de um corpo cujo único
senhor é o pai. É neste dever fundamental que os
teóricos irão procurar o fundamento da moral cívi-
ca: todo homem deve ter uma boa conduta, evitar os
castigos que, enfraquecendo o corpo, tirariam de seu
pai uma parte de seus bens e de sua honra. O filho
respeitoso só se expõe ao perigo, mas com prudência,
se seu pai o levar para a guerra ou lhe mandar seguir
seu próprio senhor. Viu-se então, que o soldado com-
bate primeiramente por seu pai e pela honra de seu
pai. Esta diminui se o filho transgredir os ritos de
bravura'. O prisioneiro, se sair de seu cativeiro, deve
obter, depois da graça do senhor, o perdão do pai:
este poderia condená-lo à morte no templo ances-
tral (780). A expulsão da família é uma sanção que era
tomada contra aqueles que, nos exercícios de tiro
com o arco, mostram-se indóceis ou negligentes (781).
Estes dois exemplos, os únicos atestados antigamen-
te a respeito da jurisdição paterna, indicam que ela
teve, inicialmente, um caráter militar: já se disse que,
na família como na cidade, a ordem feudal e a ordem
agnática correspondem ao aparecimento desta primei-
ra forma de direito penal que foi o direito do tempo
de guerra. O filho substitui seu pai no exército como
o substitui diante dos tribunais criminais; este traço
duplo dos costumes é observado em todo o curso da
história chinesa: mostra que, essencialmente, o filho
é, no sentido feudal da palavra, o homem de seu pai.
É também, em caso de vingança, seu vingador. Seu
luto só termina com a morte do assassino. Inicialmen-
te, o filho não depõe nunca suas armas, nem mesmo
num lugar de paz, mercado ou palácio do príncipe, e,
todas as noites, dorme numa esteira de luto, com a
cabeça no escudo (782). Não basta defender ou restau-
rar a honra paterna. É preciso aumentá-la. O filho en-
trega ao pai todas as recompensas que obtém, sobre-
tudo se se tratar desta recompensa substancial que
é uma dádiva de alimentos. Mas a melhor recompensa
é aquela que, passando pelo filho merecedor, vai dire-
tamente ao pai: tal é o princípio observado constan-
temente na China para os enobrecimentos. Todas
estas regras são contrapartidas notáveis da regra
imperiosa que proíbe todas as espécies de familiari-
dades, todas as espécies de intimidades ternas ao pai
como ao filho. Suas relações não pertencem ao domí-
nio da afeição, mas ao domínio da etiqueta e da honra.
Seria mais exato dizer que as relações entre pai e
filho são relações de honra para honra. Ora, como
veremos, este tipo de relacionamento que se estendeu
primeiramente às relações entre irmãos, acabou por
dominar, em seu conjunto, a vida privada.

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