A vida pública (02)

II - Os nobres na corte

Os princípios da moral militar inspiram os no-
bres, mesmo em sua vida civil. Entretanto, sob a in-
fluência da vida na corte, estes princípios tomam uma
nova aparência. Uma bela passagem [ela também mos-
tra (se assim posso dizer) o lado romântico numa
vida na qual tendia a dominar, cada vez mais, o gosto
do protocolo] deixa bem evidente a afinidade e a opo-
sição das virtudes civis e militares. Um personagem
de Tcheng [540] tinha uma irmã que era muito bonita.
Um nobre de sangue principesco pediu-a como noiva.
(Os ritos dos esponsais são ritos diplomáticos: lida-se,
com uma cortesia sábia, com a dignidade das duas fa-
mílias que vão se aliar.) Um outro nobre de sangue
principesco fez a família da jovem aceitar, à força, o
pato-do-mato que constitui a primeira prestação dos
esponsais. (O contrato de casamento é, por direito,
bilateral: entretanto os presentes, expressão de uma
vontade unilateral, servem para ligar os contratos.) O
irmão, amedrontado por ter que decidir entre dois ri-
vais poderosos, consulta o ministro de Tcheng. Tseu-
tch'ang. Tseu-tch'ang é um sábio. Aconselha deixar
a moça fazer sua escolha. (A prometida, por direito,
não pode dar sua opinião; não deve ver nem conhecer
seu futuro noivo; mas nos usos camponeses, os espon-
sais se ligam no decurso de um torneio de cantos e
danças de amor.) Os dois pretendentes aceitam este
regulamento: Um, depois de ter vestido roupas magní-
ficas, vem, cheio de cortesia, expor, pomposamente,
seus presentes no pátio. Por sua vez, o outro chega;
ele veste sua roupa de batalha; atira flechas em todas
as direções, sobe em seu carro e parte: "É um ho-
mem!" Como é justo, a moça escolheu o militar. Na
entanto, falando do civil, vencido neste torneio amoro-
so, ela diz: "Ele é belo, certamente (648)! "
Convém que os que cercam o senhor sejam
belos. Nas reuniões da corte, "um traje belíssimo
abre o caminho (tao) e permite ir longe ", pois: a roupa
faz o nobre. O bem trajar é o primeiro dever do vas-
salo. Ele se veste para o príncipe.
Bem entendido, ele não pode ficar nu como um
selvagem ou semivestido como um condenado. Estes
não se aproximam de um chefe e não têm alma. Uma
alma já poderosa mora no corpo de um nobre. Ele a
abandonaria, mostrando-se despido. O nobre só se
desnudará em ocasiões extremas, para receber uma
punição ou para se dedicar inteiramente a uma força
santa(6499). Uma mulher que (a menos que ela seja
feiticeira) esconde em seu corpo encantos perniciosos
ou debilitantes (niu tô = uma virtude feminina) nunca
se mostrará nua(650). Diante de seu senhor, cuja
alma soberana não quer enfraquecer nem contaminar,
o vassalo deverá, normalmente, vertir-se de uma ma-
neira tão hermética quanto uma mulher. " Mesmo para
fazer um esforço, ele conservará os braços cobertos;
mesmo em pleno calor, ele manterá abaixada sua ves-
timenta inferior." Sua túnica deve ser "suficientemen-
te curta para não se arrastar na poeira, bastante lon-
ga para que não se veja nenhuma parte de seu cor-
po" (651).

Mas não é suficiente estar vestido quando se
vai à corte: para ser recebido é preciso saber se tra-
jar. Tseng-tseu e Tseu-kong, discípulos de Confúcio,
apresentam-se numa casa onde um príncipe está em
visita. O porteiro lhes diz: "O príncipe está aqui: não
podeis entrar! " Os dois personagens, na verdade, não
tinham tido tempo, ao descer da carruagem, de pôr
em ordem suas vestimentas. Foram, depressa, ata-
viar-se num canto da cavalariça. O porteiro, logo de-
pois, eclipsando-se diante deles, diz-lhes: "Estais
anunciados! " e assim que eles se adiantaram, os per-
sonagens mais distintos vieram a seu encontro. O pró-
prio príncipe (seu traje lhe fazia honra) concedeu-lhes
a graça de descer um dos degraus da escada, a fim de
expressar sua estima (652).

A elegância é obrigatória: ela consiste em usar
a roupa que corresponde à posição que se ocupa, que
convém à estação, que é apropriada às circunstâncias,
que está de acordo com a dignidade daqueles a quem
se visita. O traje, além disso, deve formar um con-
junto harmonioso em que todos os detalhes estão em
secreta correspondência. "Um oficial que tem direito
a um emblema único usa joelheiras vermelhas e uma
presilha preta." "O cinto só tem duas polegadas de
largura, mas parece ter quatro, pois ele é enrolado
duas vezes em volta do corpo." "É de seda preparada,
simplesmente debruado nas bordas e só têm guarni-
ções nas extremidades." "É atado por meio de fivelas
nas quais se enfia uma fita de seda (653)." "Os guardas
do príncipe trazem, quando estão à direita, uma túnica
guarnecida de peles de tigre e, quando estão à esquer-
da, uma túnica enfeitada com peles de lobo." "So-
bre uma (primeira) túnica guarnecida de raposa azul
e cujas mangas são ornadas de leopardo, veste-se
uma (segunda) túnica que deve ser de seda enegreci-
da. Sobre uma túnica guarnecida de peles de corço
recém-nascido e cujas mangas são ornadas de peliças
azuladas de cachorro selvagem, usa-se uma túnica
verde-amarelada. Sobre uma túnica forrada de cordei-
ro preto, com mangas guarnecidas de leopardo, usa.se
uma túnica preta e, enfim, sobre uma túnica de raposa
amarela, uma túnica amarela." Pelo contrário, "sobre
uma túnica (vulgarmente) guarnecida de peles de
cachorro ou de carneiro, é proibido usar uma segunda
túnica... (porque) esta se destina a fazer sobressair
a beleza do traje". Nas visitas de condolências, é pre-
ciso juntar uma terceira túnica para evitar uma ele-
gância perfeita. Mas, em presença do senhor, apare-
ce-se sempre com a segunda túnica, a mais bela -
salvo quando se tem uma concha de tartaruga: sua
santidade (como o caráter sagrado das pessoas de lu-
to) exige uma terceira túnica (654).
"A túnica de um oficial deve ser de uma das
cinco cores fundamentais; sua vestimenta interna (es-
pécie de tanga) de uma das cores intermediárias cor-
respondentes." Usa-se barretes diferentes em tempo
de luto, de abstinência, de desgraça, quando se trata
de negócios, quando se repousa. Há um barrete espe-
cial que serve para conferir a maioridade, pois o bar-
rete é a parte mais nobre do traje: não se tira nunca
o barrete na presença de um chefe, não se morre sem
um barrete bem colocado, e o capítulo do barrete abre
o mais sagrado.dos livros rituais, o Yi li(655). Só se
penetra na corte com uma combinação de roupas, de
cor e de proporções corretas. Deve-se, além disso,
ter em mãos uma tabuleta, que, para um oficial, é de
bambu enfeitado com marfim, e, para um oficial gra-
duado, de bambu ornado com barbilhões de peixe. É
preciso, enfim, guarnecer seu cinto com pedras pre-
ciosas. "As que estão do lado direito devem dar a
quarta e a terceira nota da escala; as do lado esquer-
do devem dar a primeira e a quinta nota." "Em presen-
ça do senhor, ninguém (nem mesmo o herdeiro desig-
nado) deixa pender livremente e retinir as pedras pre-
ciosas de seu cinto." Só se deve ouvir o tilintar do
berloque do príncipe. Mas quando o nobre está em
seu carro, ele escuta uma harmonia de campainhas e
quando anda - com rapidez e gestos sempre mode-
rados - "escuta o som das pedras penduradas em
seu cinto: então, nem o erro, nem a má-fé podem
entrar em sua alma" (656). O nobre deve ser corajoso e
puro. No combate, deve mostrar-se bom (chen-jen ou
então leang jen); na corte deve se esforçar para ser
belo (mei jen), pois beleza (mei) e pureza (kie = bem
arrumado, de boa qualidadeJ confundem-se e, além
disto, a bravura não se diferencia de uma boa apre-
sentação (657).

É nobre aquele que se apresenta nobremente.
Quando se veste um traje "feito de doze faixas, como
o ano é feito de doze meses" - cujas " mangas redon-
das, imitando o círculo", convidam "aos movimentos
graciosos" - cuja "gola, talhada em ângulo" e "a cos-
tura dorsal reta, como um cordel", lembram "a retidão
e a correção" - enfim, cuja "borda inferior, horizon-
tal como o travessão de uma balança em equilíbrio,
põe seus sentimentos em repouso e o coração em
paz"(658), é possível guardar o porte nobre (yi) que
faz com que "um homem seja verdadeiramente um
homem". Bem vestido, não se arrisca a ser compara-
do a um rato que só tem sua pele, a um animal com
movimentos desordenados e loucos (659). Tem-se uma
alma que o traje modela corretamente, solidamente,
que pode subsistir. Não se ouve dizer: "Um homem
que não está bem posto! - é possível que não esteja
morto?" Ao contrário, de um gentil-homem perfeito,
que traz pedrarias na orelha e cujo barrete, guarnecido
de pérolas, "brilha como as constelações", dir-se-á
que é "para sempre inesquecível ".'Não se compreen-
de que suas maneiras não sejam "graves, majestosas,
imponentes, distintas" (660). "Quando o vestuário é co-
mo deve ser, a postura do corpo pode ser correta
(tcheng), o ar do semblante doce e calmo, conforme
as regras, as fórmulas e as disposições (661)." Somente
então se pode ser considerado um vassalo por seu
príncipe, um filho por seu pai e, por todos, um adulto.
A cerimônia da maioridade é uma tomada de hábito
que sagra um gentil-homem e o dedica aos deveres
elegantes. Quando se está vestido nobremente, po-
de-se tomar parte nessas justas de boas maneiras,
físicas ou verbais, que constituem a vida na corte.
A grande prova de nobreza (pois os nobres são,
antes de tudo, guerreiros) é o torneio do tiro com o
arco; ele não conserva nada da brutalidade de uma
prova de habilidade ou de bravura (no sentido vulgar
destas palavras): é uma cerimônia musical dirigida
como um ballet, em que se deve ser hábil nas belas
saudações e elegante em seus trajes. Todos os mo-
vimentos devem ser feitos em cadência e a flecha que
destoar não pode nunca tocar o alvo (ou, pelo menos,
não é válida) (622). "Os arqueiros, avançando, recuan-
do, virando e voltando, devem atingir o centro (tchong)
das regras rituais. No interior, uma atitude correta
(tcheng) da alma, no exterior, uma atitude correta
(tche) do corpo, eis o que é necessário para se mane-
jar arcos e flechas, firmemente, cuidadosamente.
Arcos e flechas manejados firmemente, cuidadosa-
mente, eis o que permite dizer que se tocou no centro
(tchong) do alvo. E é assim que se faz conhecer a vir-
tude (tô)", não somente a virtude do vassalo que atira,
mas também a virtude de seu senhor - pois só
ele pode conduzir as flechas ao alvo: o suserano dimi-
nuía também os feudos dos senhores, cujos vassalos,
nobres desqualificados, demonstraram a lealdade in-
certa de seu amo, não sabendo atingir, corretamente,
o centro dos alvos (663). Mas de um príncipe que sem-
pre atira com o arco sem que "nenhuma flecha se
desvie" [oh! Como é digno de renome! - seus belos
olhos têm um brilho puro! - e como seu modo de tra-
jar (yi) é correto!"] dir-se-á, imediatamente, que ele
pode reinar; ele é belo, ele é puro: "Ele pode afastar
as calamidades! " (Sabe-se que os chefes antigos ex-
pulsavam as máculas com flechadas). Na corte do senhor
virtuoso, os vassalos atiram cada vez melhor e todos
com a mais perfeita cortesia: "Os sinos, os tambores
estão prontos! - o grande alvo está colocado! -
Arcos entesados e flechas preparadas! - Os arquei-
ros enfileiram-se dois a dois! -'Eu te proponho
(hien: termo que vale para os presentes depositados
em oferendas e para os desafios dirigidos a um rival)
provar tua arte!' - 'Vou prová-la - e tu beberás
à minha oração (k'i, oração dirigida a uma força santa,
humildemente, mas para constrangê-la a atender favo-
ravelmente o suplicante) (664)!'" O requinte é tal que a
taça (imposta ao vencido em vista de uma penitência e
de uma reconciliação) é-lhe apresentada como uma ho-
menagem. O gentil-homem "quando se esforça para
atingir o alvo", deve fingir procurar a vitória só por
humildade, para "declinar da taça" e passar a honra
(honra e taça são expressas com a mesma pala-
vra) (665). Passa-se generosamente a outro o reconforto
(Yang) honroso que é esta taça salutar com uma be-
bida (feita para restaurar as forças declinantes, mas)
reservada aos velhos a quem se deve respeitar. O
duelo com o arco, que se faz na corte entre pessoas
honradas, poupa, da maneira mais delicada, as susce-
tibilidades. lsto compreende um número infinito de ge-
nuflexões. É uma prova de boa apresentação e de disci-
plina mundana. Todo traço de brutalidade selvagem é
cuidadosamente dissimulado. Há um homem atrás de
cada alvo, mas ele não está lá para receber as flecha-
das; é simplesmente encarregado de gritar "toque!",
com uma voz harmoniosa e ajustada à nota dada pelos
músicos. É um analista que marca os pontos e há
um diretor do tiro. Ele calcula as flechas de cada par
de arqueiros e faz respeitar a boa ordem, encarrega-se
de chamar os faltosos ao dever, com o auxílio de uma
varinha. São assim consolidadas as regras da honra
que, depois de terem penetrado em todos, irão reger
a vida cotidiana(666). Se dois arqueiros rivais deci-
dem encontrar-se numa planície, eles atirarão um con-
tra o outro, como que regidos por uma música, os
dois ao mesmo tempo. Como os dois têm boa pontaria,
suas flechas devem se chocar no meio do percurso -
sem causar mal a ninguém (pelo menos se eles têm o
mesmo número de flechas). Pode acontecer que um
deles, muito inflamado pela vitória, esconda uma fle-
cha suplementar. O outro reterá o golpe delituoso com
uma varinha. Depois disto, "os dois, chorando (de com-
paixão, um pelo outro), depõem seus arcos, farão ge-
nuflexões no local, um diante do outro, convidando-se
(a viver, doravante, como vivem) um pai e um filho" e
se ligando para sempre por uma troca de sangue (tira-
do de seus braços) (667). Os torneios regulares do tiro
com o arco servem para purgar o espírito de vingança.
Com grande quantidade de gestos leais, um velho fun-
do de violência e traição se dilui e se ameniza: dissi-
mula-se a ponto de parecer apagado. Cada um se apre-
senta com uma aparência nobre. Esta roupagem de
lealdade (tchong) é representada com
o sinal coração e uma imagem mostrando a flecha
no centro do alvo) é a alma oficial do nobre, do ser
civilizado (wen: distinto), do homem verdadeiramente
homem (jen), o qual ao encontro de selvagens, sabe
compor sua dignidade. "As regras do cerimonial (li)
ensinam-nos, umas a moderar nossos sentimentos,
outras a fazer esforço para excitá-los. Dar livre curso
aos sentimentos, deixá-los (sem mais) seguir sua incli-
nação, é o caminho (virtude: tao) dos Bárbaros. O ca-
minho imposto pelo cerimonial é bem outro. O ceri-
monial fixa os graus e os limites (à expressão dos
sentimentos e, por conseqüência, aos próprios senti-
mentos) (668)." Do modo de se apresentar, do sentido
desta apresentação, surgem o controle, o domínio de
si mesmo. A vida da corte, com suas obrigações de
etiqueta e a ameaça perpétua de vinganças, é uma
escola de disciplina moral. Regulados minuciosamente
pelo protocolo, os gestos servem para inibir os impul-
sos. "Os ritos previnem a desordem, como os diques
evitam as inundações(669)." Os vassalos, em vez de
terem um coração tumultuoso, aprendem a ter uma
alma ordenada. Provam a qualidade de sua alma e de
seu destino nessas justas de gestos elegantes, que
são as cerimônias. Se dois senhores, apresentando
sua tabuleta, seguram-na, um muito alto e o outro mui-
to baixo, se eles se mantêm, um muito reto e o outro
muito inclinado, pode-se logo dizer que vão morrer
ou perder sua posição, pois "os gestos rituais (li)
são a substância corporal (ti: o corpo, o fundamento,
a base material) de (aquilo que faz) viver ou morrer,
conservar ou perder seu feudo. Julga-se o futuro se.
gundo a maneira de andar à direita e à esquerda, de
virar, de avançar, de recuar, de se inclinar ou de se
endireitar"(670). Os embates de cortesias permitem
definir e classificar os destinos: também as justas
de gestos rituais podem ter, com um valor de prova,
o aspecto de um concurso de adivinhações representa.
das por gestos. Quando se consulta a tartaruga para
reconhecer, entre os filhos, aquele que merece suce-
der ao pai que acaba de morrer, pode ser que ela tenha
a astúcia jocosa de responder: "Que eles lavem os
cabelos e o corpo, que coloquem em seu cinto as pe-
dras preciosas, e teremos um sinal!" Cinco dos
irmãos, imediatamente, banham-se e se preparam, mas
o sexto sabe que estes são gestos proibidos por oca-
sião do luto; ele tem o cuidado de continuar sujo e
sem ornamentos; a este pertence a herança (sem que
a divindade tivesse necessidade de dar um sinal su-
plementar) (671): se ele descobriu a armadilha da tarta-
ruga, foi porque ele se achava impregnado do senso
das conveniências. Ele possui, isto é claro, as virtudes
que se pedem a um filho. Sabendo o valor dos ritos,
ele pode provar que nasceu um gentil-homem.

A virtude da alma afirma-se na mímica cortesã,
embora ela fosse adquirida, antigamente, nas danças
sagradas. Cantava-se, dançando, e a força dos ritos só
se completava se a voz acompanhasse os gestos. A
voz é a própria alma, e isto porque a alma é modelada
pelos cantos, mais ainda do que a apresentação do
corpo. O cerimonial, para aperfeiçoar o homem hones-
to, faz menos do que a música. Vida militar ou vida da
corte, ballets guerreiros ou ballets mundanos, bem
mais do que uma escola de boa apresentação, são uma
escola de entonação. Entretanto, se a expressão inju-
riosa e a prece animam a gesticulação do combatente,
esta última (tecnicamente) parece desempenhar o pa-
pel essencial. Antes de tudo guerreiros, os nobres
provavam seu valor quando davam ao príncipe o servi-
ço: também as primeiras artes liberais são o tiro com
o arco e a direção dos carros. Todavia, a ciência da
bela linguagem acabou por se tomar a primeira das
artes nobres e o conselho por adquirir mais mérito do
que o serviço. A vida da corte decorre em cerimônias
e em discursos, mas, mais do que qualquer outra jus-
ta, os torneios oratórios ali surgem ricos de eficácia:
são, também, torneios cantados. Em 545, o senhor de
Tcheng recebeu, para jantar, Tchao Mong, poderoso
personagem da região de Tsin, cujas boas graças
Tcheng desejava obter (672). O duque de Tcheng estava
cercado pelos principais nobres de sua corte. Tchao
Mong pediu-lhes que cantassem "a fim de completar
o favor que recebia (do príncipe de Tcheng: pois os
cantos constituem uma homenagem) e, também, para
que lhe demonstrassem seus sentimentos". Todos,
com efeito, desnudaram sua alma, não inventando ver-
sos, mas escolhendo para cantar alguns versos do
Che king, adaptados às circunstâncias da reunião por
uma intenção secreta e pela entonação do cantor.
Tchao Mong respondia cada canção com um breve
comentário, indicando a interpretação que, pessoal-
mente, pretendia dar a essas homenagens prestadas
em versos. Tseu-tchan, o principal personagem de
Tcheng, foi o primeiro a pagar seu tributo. Ele cantou:
"O gafanhoto dos prados canta - e o dos outeiros
salta! - Enquanto eu não vir meu senhor - meu
coração inquieto, oh! como se agita! - Mas assim que
eu o vir - assim que a ele me unir - meu coração
então, terá paz! " (É uma canção de amor, mas entendi:
Tcheng quer se unir a Tsin, obedecendo ao primeiro
apelo desta rica região que administrais, senhor, vós
cujo prestígio perturba meu coração.) E Tchao Mong
em resposta: "Verdadeiramente perfeito! Mas trata-se
de um chefe (digno de administrar) um Estado, e, por
minha parte, por certo, não tenho nada que possa (fa-
zer-me) igualar a ele" (= aceito o elogio de minha re-
gião; eu o declino no que me concerne). Po-yeou (é
um nobre poderoso, bem aparentado, turbulento) can-
tou: As codornizes vão aos casais - e as pegas vão
aos pares - De um homem sem bondade (leang) -
irei fazer meu irmão? - As pegas vão aos pares -
e as codornizes aos casais... - De um homem sem
bondade farei meu senhor?" [É ainda uma canção
de amor. Po-yeou sugere (sentido indireto aparente,
interpretação diplomática) que é conveniente um acor-
do: entendei, se quiserdes (é tudo o que digo oficial-
mente): "Acho que uma aliança entre Tsin e Tcheng
(tal como é atualmente governado) será boa!" Mas
(sentido indireto encoberto), entendei (se aceitardes
a idéia de vos ligar secretamente a mim): "Tcheng é
governado por pessoas sem virtude cujo poder não re-
conheço." E Tchao Mong replicou (ele não confia no
êxito das intrigas de Po-yeou): "Tudo o que diz res-
peito às funções sexuais não deve nunca (ser ouvido),
transposto o limiar (dos apartamentos particulares)
e principalmente quando se estiver em campo aberto!
Eis coisas que ninguém pode escutar! (= eu não
escuto, pois não quero que suponham que compreendi,
mesmo pela metade, vossos subentendidos)." Foi a
vez de Tseu-si: "Os gloriosos trabalhos de Sie - o
duque de Chao os dirige! - Os terríveis chefes do
exército - o duque de Chao os inspira! " (Canto mili-
tar elogiando o chefe de uma expedição: Tchao Mong
cometerá a imprudência de tomar o elogio para si?) Ele
replica: "Na realidade trata-se de um príncipe [é a um
príncipe que se deve atribuir os méritos elogiados na
canção; do mesmo modo, a glória dos êxitos atuais
de Tsin (onde não sou mais do que um ministro) deve
ser levada ao ativo do príncipe de Tsin], mas eu, o
que pude?" (= Vós não me dominareis, fazendo-se
comprometer minha lealdade). A seguir, cantou Tseu-
tch'ang (que se tomaria o principal conselheiro de
Tcheng; Tseu-tch'ang mantém boas relações com Tseu-
tchan; ele se conserva à parte e retoma um tema ex-
posto por este, mas, se assim posso dizer, num tom
mais baixo): "As amoreiras do vale, que vigor! - sua
folhagem, que esplendor! - Assim que vejo meu se-
nhor - qual não é minha alegria! - Aquele que amo
em meu coração - está muito longe para com ele
sonhar! - Aquele que estimo do fundo do coração -
como poderei esquecê-lo" [= Não tenho merecimen-
tos para vos exprimir minha felicidade por uma alian-
ça mantida por vosso intermédio, mas posso vos asse-
gurar que sois um verdadeiro gentil-homem (kiun tseu:
senhor), cuja lembrança guardarei]. Tchao Mong, que
acabou de mostrar claramente sua lealdade, não re-
nuncia sua atitude prudente, mas não deixa de aceitar
as homenagens sem correr risco. Ele responde a Tseu-
tch'ang: "Eu me permito aceitar para mim (não, cer-
tamente, versos nos quais é empregada a expressão
kiun tseu, mas) a última estrofe (onde me assegurais
de vossa amizade pessoal)." Yin-touan cantou então:
"O grilo está na sala e o ano chega a seu fim! - Nós,
pois, por que não temos festas? - Os dias e os meses
fogem. - Portanto guardemos as medidas - e pen-
semos em nossa situação! - Amemos a alegria sem
loucura! - Um homem corajoso é circunspeto! E
Tchao Mong: "Perfeito, verdadeiramente! Trata-se de
um homem que conservará seu domínio: para mim, é
o que espero [também serei (em todas as circunstân-
cias) moderado e circunspeto]!" E, por fim, Kong-
souen Touan cantou: "Os verdelhões da amoreira agi-
tam-se! - sua plumagem, tem tanto brilho! - Estes
gentis-homens são amáveis - eles receberão os dons
do Céu!" Esta era uma canção de mesa e digna de
encerrar o serão. Tchao Mong replicou: "Nem turbu-
lentos, nem arrogantes! Os dons do Céu poderiam de-
saparecer?... " A justa acabara: os assistentes com-
taram os pontos. Os méritos estavam classificados,
podiam-se vaticinar os destinos: " Po-yeou será execu-
tado de maneira infamante. Os cantos traduzem os
sentimentos da alma. - Seu sentimento (levou-o) a
falar mal de seu príncipe... As famílias dos outros
seis (cantores - os quais mostraram uma alma leal)
conservar-se-ão (florescentes) durante muitas gera-
ções. A de Tseu-tchan (que cantou como um ministro
sábio) desaparecerá por último. Ele estava na mais
alta posição e soube se rebaixar. A família de Yin-
touan (Tchao Mong, depois do canto de Yin-touan, co-
mo depois do de Tseu-tchan, disse: "Perfeito") só de-
saparecerá antes (da de Tseu-tchan) porque ele exaltou
a moderação na alegria." Os vassalos, cantando, hon-
raram seu príncipe e seu hóspede, mas, ao mesmo
tempo em que se rivalizavam em inteligência com o
representante de um domínio vizinho, rivalizavam-se
entre si, velhacos ou leais, ávidos ou circunspetos, e
uma vez encerrado o torneio cantado em versos de
subentendidos diplomáticos, cada um deles, tendo
mostrado sua alma, fixou sua sorte e a dos seus. A
fidelidade se prova, a nobreza se adquire nas justas
oratórias. Um capítulo do Chou king (um dos mais de-
ploravelmente modemizados, mas onde foram anexa-
dos fragmentos de cantos) não nos mostra Yu, o Gran-
de (futuro soberano), levando vantagem sobre Kao-yao
(futuro ministro), depois de um embate de eloqüência,
numa das discussões presididas por Chouen (673)?

A palavra compromete o destino. Somente
aquele que sabe falar é nobre e pode servir seu prín-
cipe, tanto no conselho senhorial quanto nas cortes
rivais ou nas entrevistas dos senhores. "Não sejas
superficial falando! - Não vás dizer: 'Ah! que impor-
ta!' Ninguém, a não ser tu mesmo, contém tua língua
- nenhuma palavra deve te escapar! - Toda palavra
leva a uma réplica - e toda virtude, a seu pagamen-
to(674)!" Dizer, é fazer e é, mesmo, ter feito, pois
aquele que fala "sem que se possa replicar"(675) é,
seguramente, inocente, mas é culpado se não tem o
talento de dizer bem, nem um advogado que saiba
falar. O príncipe de Wei [631] é acusado de fratricídio,
incriminação bastante surpreendente, devido aos habi-
tos feudais: mas os'senhores de Tsin (que tem seus
olhos voltados para Wei) tomam ares de hegemons e
pretendem fazer reinar a justiça em nome do suse-
rano. Tsin apodera-se do acusado e o julga. Ele não o
faz comparecer pessoalmente: a lealdade, a desleal-
dade dos vassalos são suficientes para provar a pure-
za ou a maldade de seu senhor. Um súdito fiel, acom-
panhado de um advogado (fou) e de um defensor (t'a-
che) toma o lugar do senhor, como acusado (tsouo),
Como este trio não consegue fazer triunfar a causo
do príncipe de Wei, este é logo aprisionado como cul-
pado, mas antes (honorários justos), condenam-se à
morte seus defensores: dois são executados imedia-
tamente, o advogado beneficia-se de uma diminuição
de pena, pois ele devia, em apelação, defender sua
causa diante do suserano (676). É justo que os vassalos
paguem pelos atos do senhor e que o amo pague pelas
palavras de seus fiéis. O grupo feudal é um todo soli-
dário. Os atos do chefe maculam a honra dos vassalos,
suas virtudes conferem-lhes uma alma eloqüente, suas
faltas depojam-nos de toda autoridade verbal. Os fiéis
são os porta-vozes do senhor e o representam. Cada
um deles é chamado a desempenhar, com todos seus
perigos, o papel de arauto ou, antes, aquele no qual
se reflete melhor a virtude do chefe, é qualificado
para ser o arauto do domínio. Ts'i venceu Lou e o des-
pojou de alguns domínios; os dois príncipes[499] (677)
encontram-se para jurar uma nova amizade, mas Ts'i
deseja reduzir Lou a uma espécie de vassalagem.
Levanta-se o acampamento dos príncipes no campo;
ergue-se uma elevação de terra onde se sobe por três
degraus: ali será jurado o tratado. Ts'i (que é o mais
poderoso e o vencedor) deve jurar primeiro: a reda-
ção do juramento é dele. Se esta não satisfizer o povo
de Lou, eles deverão, imediatamente, improvisar uma
contra-cláusula. É preciso que eles conservem todo seu
sangue-frio e que seu príncipe seja auxiliado por um
arauto de uma lealdade imperturbável. O príncipe de
Lou faz-se assistir por Confúcio. O príncipe de Ts'i
ieva consigo um personagem famoso, Yen tseu, que
é hábil em discorrer, mas é bem mais astuto do que
leal: com efeito, Yen tseu é célebre por seus artifícios
e por seus estratagemas. (Ele conseguiu livrar o prín-
cipe de Ts'i, ao mesmo tempo, de três assassinos as-
salariados que poderiam se tomar turbulentos, e isto
simplesmente, propondo dar um pêssego aos mais va-
lentes dentre eles. Não havia senão duas frutas para
dar como prêmio. Bem entendido, teve-se o cuidado
de convidar para falar antes aqueles cujas façanhas
tinham menos brilho, e, em seguida, deixou-se que
pegassem os pêssegos. O mais valente suicidou-se
assim que se sentiu frustrado da honra do torneio.
Como ponto de honra, os dois outros o imitaram).

Cada um dos príncipes tem o assistente que merece-
O duque de Ts'i vive em meio a muitos excessos. Ele
ama o fausto: sua corte é repleta de músicos, de dan-
çarinos, de bufões. Yen tseu, seu favorito, que é hábil
em inventar gracejos trágicos, é um anão. Este pigmeu
despreza os ritos: ele ignora a arte de subir digna-
mente os degraus de uma escada e de andar com os
cotovelos estendidos, correndo a serviço do senhor.
É partidário das políticas positivas e não das formas
religiosas. Lou tem somente uma corte humilde, mas
é a região das tradições rituais. Também é um sábio,
um gigante, o apóstolo da sinceridade, o próprio Con-
fúcio que assiste o príncipe de Lou. Os dois príncipes
sobem o montículo de terra do tratado e se sentam
face a face, isolados e sem armas: forças nuas. Ao
longe estão os vassalos, ao pé dos degraus, os assis-
tentes. Outrora, num encontro semelhante, e numa
época em que Ts'i ainda queria impor a Lou um tra-
tado desastroso, houve, no acampamento de Lou, um
guerreiro que, subindo todos os degraus do monti-
culo, foi ameaçar o duque de Ts'i com um punhal, ex-
torquindo-lhe um juramento inesperado. Ts'i tinha, en-
tão, um príncipe e, por conseguinte, um ministro que
eram sábios; eles executaram com uma lealdade es-
crupulosa o juramento imposto pela força: isto trouxe
sorte para Ts'i. Mas os tempos mudaram, a vitória
está ainda do lado de Ts'i; entretanto, a lealdade e o
conselheiro leal estão ao lado de Lou. É, pois, Ts'i
quem, procurando confirmar pela violência uma vitó-
ria que a sabedoria não mereceu, tentará intimidar o
príncipe de Lou, isolado no local. Um oficial sugere
chamar os dançarinos: "Sim", diz o príncipe de Ts'i.
Logo avança uma massa de estandartes, de lanças e
de alabardas, num tumulto de tambores e de gritos.
Mas nada perturba a alma leal de Confúcio. "Com um
passo rápido, ele sobe os (primeiros) degraus do mon-
tículo, mas não o último, e levanta suas mangas no
ar." A etiqueta não permite a um vassalo fiel gestos
mais violentos. Mas, quando possui senso de digni-
dade, o vassalo possui a arte da palavra. No segundo
degrau, Confúcio falou. Yen tseu nada teve para re-
plicar. Graças ao talento de seu arauto, Lou superou
Ts'i; uma contra-cláusula foi inserida no tratado, para
prometer a entrega dos domínios arrebatados; e (como
toda justa entre prestígios de príncipes implica um
castigo aos vencidos - que são culpados) Confúcio,
para marcar o triunfo do direito, fez proceder a uma
execução. A tradição hagiográfica pretende que ele
fez esquartejar os bufões e os anões: não era a melhor
maneira de tomar evidente a derrota de um príncipe
desleal e inimigo dos ritos, cujo ministro não podia
ser senão um anão e um bufão? A alma do príncipe
fala pela voz do arauto e é ela que, nos torneios ora-
tórios que são as entrevistas dos chefes, conquista,
para o domínio, glória ou vergonha. O conselheiro elo-
qüente, numa época em que a batalha só consegue
meias vitórias, é, bem mais do que o general, o gran-
de conquistador do prestígio e o verdadeiro auxiliar
do senhor.

Mais ainda do que na guerra, a solidariedade
do grupo feudal se estabelece nas reuniões da corte.
É em conselho que os vassalos entregam-se ao prín-
cipe. Eles recebem do príncipe sua sabedoria, que
restituem sob a forma de advertências. Um domínio
é perdido se uma mesma virtude não animar todos
os vassalos, todos os conselheiros. "Parecer de acor-
do e se desacreditar -ah! eis aí o maior mal!"
"Encher de palavras a corte de audiências"(678) de
nada serve, se os corações não estiverem unânimes:
pelo contrário, é preciso que cada um "saiba" assu-
mir a responsabilidade (kieou: o efeito nocivo ou
feliz) dos conselhos que deu ou que outros preconi-
zaram, mas aos quais o senhor, em nome de todos,
aderiu dizendo "sim". Quando um conselho é adotado,
todos os conselheiros são obrigados a executá-lo, a
menos que tenham tido o cuidado de se eximir de
sua responsabilidade. Mas, repudiar uma decisão que,
Por princípio, não pode deixar de ser unânime, é sub-
trair-se do grupo feudal, é banir-se a si mesmo, é
maldizer-se, arriscando-se a maldizer seus pares e o
senhor. A admoestação (kien) - o conselho contrário
- é um ato inconcebível num domínio provido de um
bom destino. É um dever, um dever funesto, no con-
selho de um domínio que declina. O vassalo que plei-
teia uma causa contra os outros, condena-se a expiar
o efeito nocivo das decisões que repudia. A opinião
semelhante de três conselheiros constitui a unanimi-
dade do conselho. Um protesto, três vezes repetidos,
atinge a decisão com uma espécie de oposição sus-
pensiva; ela desliga provisoriamente a sorte, mas
comprometendo o destino do oponente. Este deve se
retirar, renunciar a seu cargo, expatriar-se: deve ex-
piar aquilo que atribui aos outros como uma falta.
Submeter-se seria "ficar apenas para odiar" e para
lançar sobre o ato decidido uma má sorte (679). O opo-
nente deve, salvo casos extremos, evitar maldizer os
outros e excomungar-se a si próprio. Quando o vassa-
lo, cujo conselho foi rejeitado, deixa o país, ele rompe
com sua pátria e com seus antepassados: ele não
pode levar a baixela de que se servia para seus cultos
patrimoniais. Perde seus deuses. "Assim que passou
a fronteira, aplaina a terra e levanta um montículo.
Volta seu rosto para sua região e se lamenta. Veste
uma túnica, uma roupa interna, um barrete bem orna-
mentado, de cor branca e sem bordas de cor (traje de
luto). Calça sapatos de couro cru, o encosto de seu
carro é coberto por uma pele de cão branco, os cava-
los de seu carro não têm mais seus pêlos cortados.
Ele deixa de aparar suas unhas, sua barba e seus
cabelos. Quando toma sua refeição, abstém-se de fa-
zer qualquer libação (ele é eliminado da comunhão
dos deuses). Abstém-se de dizer que não é culpado
(abstém-se também de se dizer culpado: somente um
chefe tem alma e autoridade suficientes para poder
se confessar formalmente culpado). Suas mulheres
(Pelo menos a mulher principal) não são mais admi-
tidas perto dele (sua vida sexual e suas relações da
vida em comum são interrompidas). Somente de-
pois de três meses é que ele retoma suas vestes
comuns(680)." O vassalo expatriado usa o luto pela
pátria perdida, mas é também seu próprio luto que
ele veste. Rompe os vínculos antigos e acaba com a
personalidade que, até então, foi a sua. Quando, no
fim de três meses, retira as insígnias do luto, deixou
de ser o homem de tal senhor e de tal região. Para
cessar de ser um oponente, ele deve morrer em sua
pátria. Todo tempo em que traz as vestimentas de
luto e em que se submete à abstinência, ele ameaça
seu senhor com um gesto de suicídio. Esta ameaça
tem uma força terrível e basta, mesmo dirigida a um
estrangeiro, para coagir a vontade. Um vassalo de
Tch'ou conseguiu obter para seu senhor vencido a
ajuda dos exércitos de Ts'in, lamentando-se durante
sete dias, apoiado contra uma parede do palácio do
príncipe, sem que o som de sua voz parasse e sem
que nem uma colherada de bebida entrasse em sua
boca (681). Quando se expatria e jejua, o Vassalo opo-
nente procura constranger seu senhor a fazê-lo repu-
diar os projetos aos quais não quer se associar. Pode,
em casos urgentes, empregar um procedimento mais
brutal. O príncipe de Tsin, convencido por sua mulher,
filha de Ts'in, libera generais de Ts'in que ele havia
vencido e aprisionado. Um vassalo apresenta-se, re-
preende o príncipe, depois "cospe no chão, sem se
voltar" (682). Lança, assim, a mais real das maldições
sobre a decisão do príncipe; uma alternativa terrível
impõe-se desde então ao senhor: é preciso que ele
renuncie à decisão maldita (o que fez o príncipe de
Tsin), ou bem, que condene à morte seu vassalo, in-
correndo, assim, em todas as responsabilidades de
uma execução que este havia provocado deliberada-
mente. Mas sem atrair o castigo, um vassalo fiel pode
libertar seu senhor da má sorte acarretada por uma
decisão inoportuna: é suficiente, para isto, que o opo-
nente exclame, mostrando com um gesto os conse-
lheiros da outra facção: "São estes que o quise-
ram (683)!" Se o senhor segue o conselho deles, mas
com a prudência de esboçar um gesto de restrição,
em caso de fracasso, o ato nefasto pode ser eliminado,
suprimindo-se os conselheiros perniciosos. Transfe-
re-se para estes a calamidade (684). Sem dúvida, é mais
digno da parte do senhor que ele reivindique para si
toda a responsabilidade e que diga: "Meus generais
e meus ministros não são mais do que meus braços
e minhas pernas", mas, se a teoria quer que o domínio
tenha uma alma, a do chefe, e se, em princípio, o
conselho deve ser unânime, na prática, a principal uti-
lidade da reunião da corte é determinar um respon-
sável para cada conselho: assim, as palavras pro-
nunciadas não empenham mais a sorte, de maneira
irremediável, num único sentido. Os arrependimentos
tomam-se possíveis, e já se acham designadas as
vítimas das expiações que se podem impor. No con-
selho, como na batalha, procura-se diluir as respon-
sabilidades, pois se hesita em se comprometer irre-
vogavelmente. Precisamente porque a palavra empenha
o destino e desnuda a alma, cada conselheiro prepa-
ra-se, não para falar sem dizer nada, mas, pelo menos,
para se exprimir somente com o auxílio de fórmulas
proverbiais. Estas impõem respeito por seu caráter
tradicional, mas se a tradição as consagrou, elas não
têm, por outro lado, mais do que um valor neutro e
são, sobretudo, suscetíveis de interpretações varia-
das. O ideal é que o conselho proceda como numa
justa de provérbios e que a decisão tenha o aspecto
de um enigma. O duque Hien de Tsin(659) delibera
para saber se confiará o comando do exército a seu
filho mais velho. Este é o herdeiro designado. Ele tem
sua facção na corte. Uma outra facção acha-se reuni-
da em redor de uma favorita do duque Hien que tem,
pelo filho mais velho, um ódio de madrasta. Esta
facção propõe nomear o jovem príncipe general; é o
melhor meio de perdê-lo. Se ele cometer o crime de
ser vencido, é culpado. Será culpado, já o é, se, ven-
cedor, ele se expuser à suspeita de querer empregar
contra seu pai o prestígio que a vitória confere. Os
amigos do jovem príncipe procuram fazê-lo escapar
desta prova. O duque de Tsin toma sua decisão: ele
dá a seu filho mais velho o comando das tropas, mas
quando lhe confere a vestimenta de general, nota-se
que o jovem príncipe irá vestir um traje com duas
partes e um semicírculo de metal. Cinco conselheiros
excelentes esforçam-se então para entender o sentido
do enigma apresentado por este traje. O resultado da
interpretação de uns é que o príncipe deve ir fran-
camente à frente, mas outros concluem que ele de-
verá evitar a batalha. A sutileza das discussões que
foram então mantidas dá idéia dos talentos oratórios
que eram exigidos de um conselheiro (685). É bastante
curioso constatar que a intriga travada sob a cober-
tura destas deliberações pomposas no Conselho de
Estado era conduzida, em segredo, por um bufão, que
era uma espécie de conselheiro íntimo. Os bobos, os
cantores, os bufões (686) desempenharam, nas cortes
feudais, um papel que se ampliou à medida que os
senhores, transformados em potentados, revestiam-se
de uma majestade mais exigente: eles só aceitavam
conselhos secretos e disfarçados. A arte da apologia,
cuja tradição era detida pelos bufões, permitia-lhes
dar a suas advertências, uma aparência verdadeira.
mente indireta. E, de resto, eles não falavam em nome
de um grupo feudal e suas conversas não tinham o
peso terrível que tem a palavra de um vassalo preso
ao dever brutal da sinceridade. Na corte como na
guerra, os especialistas tenderam a suplantar os no-
bres. Homens vis, mas instruídos na técnica dos can-
tos e preparados para inventar contos, substituíram,
no favor dos chefes, os vassalos cuja nobreza os tor-
nava hábeis para falar e cuja alma sincera se revelava
no emprego exclusivo dos versos-provérbios e das
formas rituais onde estava consignada a sabedoria
dos antepassados.

Ninguém pode trajar-se bem, portar-se bem e
falar bem, não se é sábio, não se é nobre, a não ser
que se possua, em si mesmo, qualquer coisa da alma
do senhor. O gentil-homem é aquele que come bas-
tante e sabe comer. É aquele que come os restos do
chefe e deve se saciar, pois só um senhor tem bas-
tante alma para poder simular desprezo pelo alimento
e se contentar com a virtude das oferendas. Aqueles
que se gabavam de pertencer a uma raça que, há
longas gerações, possuía um feudo e desfrutava um
salário nobre, gostavam de repetir este adágio antigo:
"Sseu eul pour hieou." Na verdade, esta fórmula, ou.
trora, significou: "De um morto não deixeis apodrecer
as carnes!", mas, enquanto as pessoas de sentimen-
tos distintos viam nela um conselho honesto: " (Deixai
sábios conselhos que) mesmo depois da morte, não
se corrompam!", os grandes preferiam compreender:
"(Numa raça nobre) a própria morte não traz cor-
rupção (a família continuando viva e forte)" e, sem
dúvida nenhuma, eles teriam desejado que isto fosse
exato, e que se pudesse dizer: "Depois de sua morte
(o corpo de um grande) não está sujeito à decompo-
sição(687)" - tanto é verdade que as mesmas idéias
que levam a inventar ritos que evitam ao morto os
horrores de uma lenta decomposição, podem também
fazer desejar uma conservação indefinida do cadáver
e (depois de lentas transposições) transformar-se, en-
fim, em simples preceitos de moral. Os nobres do
período feudal eram belos e puros de alma e de corpo,
porque sua alimentação era pura e rica, porque co-
miam devidamente iguarias bem preparadas e porque
as comiam ao lado do príncipe. Inúmeros alimentos
eram proibidos (688): tripas de lobos, rins de cão, miolo
de leitão recém-nascido, intestinos de peixe, coran-
chim de ganso doméstico, estômago de veado, moela
de abetarda, fígado de frango. Misturavam aos picados,
cebolas, na primavera, e, no outono, mostarda. Ao
caldo de codorniz ou de galinha e à carne de perdiz,
juntavam sempre-noivas; acrescentavam ervas odorí-
feras, mas nunca sempre-noivas, às galinhas e aos
faisões (quando os assavam), assim como às bremas
e às percas que cozinhavam no vapor. Quando comiam
boi em fatias, temperavam-no com gengibre. A carne
do alce, do veado, do javali e do gamo era servida,
cortada em fatias batidas e secas, ou crua, mas, neste
caso, era cortada em fatias muito finas. Como igua-
rias delicadas, eles tinham a carne do escargot, pi-
cada e conservada no vinagre, os mingaus de arroz
misturados com caldo de faisão, mingau de arroz
glutinoso moído grosso, misturado com caldo de lebre
e cão, os peixes recheados com sempre-noivas e com
ovas de peixe conservadas no sal. Além de bebidas
fermentadas, bebia-se água avinagrada e suco de amei-
xas. Raspava-se a pele dos pêssegos para tomá-la
esverdeada e brilhante como fel (o fel é a sede da
coragem). Nos festins, os mais distintos apresenta-
vam tartarugas grelhadas, brotos de bambu e de junco,
carpas picadas: estas iguarias convinham particular.
mente para tratar um militar a quem se oferecia, por
acréscimo, um pedaço de sal em forma de tigre (689).
As iguarias deviam ser servidas e consumidas numa
ordem fixa. Os pratos de carne, por exemplo, eram
dispostos em cinco fileiras: terminava-se pela caça
que precedia o peixe. Os utensílios da mesa eram
colocados de acordo com regras estritas. O peixe co-
zido era apresentado com a cauda virada em direção
ao conviva, mas de maneira que, no verão, as costas
estivessem à direita e, no inverno, o ventre. Na mesa
do príncipe, o bico das ânforas era virado em direção
ao príncipe e, em outra mesa, era virado em direção
ao principal convidado. Pegavam-se todos os molhos
e bebidas compostas de diversas substâncias com a
mão direita e se colocavam à esquerda. Era proibido
comer o painço de outra maneira a não ser com uma
colher, beber os caldos sem mastigar as ervas, beber
a salmoura como se estivesse pouco salgada, lançar
(com as varetas) o arroz ao ar para esfriá-lo, ou en-
rolá-lo em bolinhas para engoli-lo mais rapidamente.
Não se pegavam pedaços como fossem uma presa e
não se jogavam os ossos aos cães(690). Quando se
comia melão, partia-se este em dois e o cobria com
um guardanapo, se fosse para um príncipe; tomava-se
também o cuidado de parti-lo, mas não se colocava o
guardanapo, se fosse para um oficial graduado. Para
um simples nobre, limitava-se a cortar a parte infe-
rior. Quanto às pessoas do povo, elas cortavam o
melão com os dentes(691). Era necessário evitar as
mãos suadas, fazer barulho ou caretas com a boca.
Rasgavam-se as carnes cozidas com os dentes e, com
os dedos, as carnes secas. Não se punham nos pratos
os pedaços de peixe que se retiravam da boca(692).
Não se molhava a boca antes que o dono da casa
tivesse tocado em todos os pratos; devia-se começar
a comer antes dele e não parar enquanto ele não tives-
se terminado; na mesa de um chefe (era preciso to-
mar cuidado) devia-se evitar o ar glutão e prestar
atenção de se sentar sobre a esteira, mantendo-se um
pouco para trás (693). Mas, quando o anfitrião limpava
os cantos da boca com seus dedos, todos terminavam
a refeição bebendo, e depois que se ofereciam para
tirar a mesa, agradeciam, dizendo: "Estamos cheios!"
Entretanto não era conveniente que eles se retiras-
sem "dançando e pulando". Ameaçava-se com o "car-
neiro sem chifre" aqueles que suportavam mal a be-
bida: um vigia e um censor chamavam-nos à circun-
peção. "Nossos convidados, quando estão bêbados
- um grita e o outro vocifera! - Derrubando nossos
vasos, nossos potes - eles dançam, os corpos cam-
baleando(694)!" Se nenhum convidado "não se pode
Permitir de não se (dizer) saciado", por outro lado,
devem parecer saborear somente as iguarias. As car-
nes, nas refeições que os chefes oferecem, são cor-
tadas e não partidas em pedaços miúdos. Não se
aceita, senão com precaução, com uma mistura de
respeito e desconfiança, de altivez e humildade, a
dádiva do alimento que enobrece mas que subjuga e
enfeuda. No caso do vassalo de nascimento, o respeito
domina e ele não se dispensa de comer fartamente
a refeição que o senhor lhe oferece; mas ele deve
comê-la observando um perfeito decoro. "Se o prín-
cipe vos der seus restos para comer, comei-os em
seu próprio prato (pelo menos se este puder ser lava-
do depois de terdes comido)" pois o vínculo desta
comunhão será mais estreito do que se dividirdes
alimento e baixela. "Se o príncipe vos der uma fruta
com caroço, conservai o caroço em vosso seio": é
uma marca do favor. Se o príncipe vos der víveres,
comei-os, mas, sobretudo, guardai-os para vossos pais:
vós os reconfortareis, vós enriquecereis sua vida e
vós transferireis para uma geração mais velha vos.
sos títulos de nobreza (695).

O senhor nutre o vassalo. Este último possui
a nobreza que recebe do alimento e é fiel na medida
exata em que o nutrem. Um traidor fomenta uma
rebelião. Paga aos cozinheiros do palácio e aos lacaios.
Em lugar de preparar, cada dia, para os oficiais gra-
duados, os frangos aos quais eles têm direito, os
cozinheiros fazem patos e os lacaios, acentuando o
ultraje, tiram os patos e só servem o molho, isto é
suficiente para que se produza uma vingança e para
que explodam furores selvagens: "Gostaria de fazer
um leito com suas peles (696)! " O príncipe recebeu, de
um senhor amigo, um presente magnífico: uma gran-
de tartaruga marinha. Um vassalo, que se dirige à
corte, sente seu dedo indicador (o dedo com o qual
se come) agitar-se. "Quando isto me aconteceu, diz
ele, sempre comi uma iguaria maravilhosa." Mas o
príncipe, advertido do fato e aborrecido porque o vas-
salo tinha certeza, antecipadamente, de que iria par-
ticipar do festim, não o convida para comer. O vassalo,
descontente, mergulha seu dedo na caldeira, chupa-o
e sai. O príncipe pensa, imediatamente, em matar o
vassalo e o vassalo em matar o príncipe. Entre eles,
a comunhão foi rompida (697). Quando viu que seu se-
nhor preferia, a seus conselhos, os cantos perniciosos
das musicistas enviadas por um inimigo astuto da
região de Lou, Confúcio, a princípio, não se deses-
perou; ele quis esperar a época de um grande sacri-
fício, dizendo: "Se o príncipe enviar aos oficiais gra-
duados a carne do sacrifício, poderei ficar." Chegada
a ocasião, Confúcio não recebeu nada para nutrir sua
fidelidade; ele partiu então, como um excomungado,
condenando-se a "errar, sem fim, para cá e para
lá" (698). O que constitui o vínculo da vassalagem é a
comensalidade cotidiana com o senhor, mas o que,
propriamente confere, com a nobreza, um lugar na
hierarquia, é a participação nos sacrifícios senhoriais,
sacrifícios ao solo e, sobretudo, sacrifícios aos an-
tepassados do príncipe. Belos hinos cantam a glória
do senhor, cuja virtude feliz faz prosperar os campos:
ele pode oferecer sacrifícios suntuosos em que, figu-
rados por um representante escolhido na família, os
ancestrais vêm comer e tomar parte das colheitas:
depois eles festejam o príncipe e seus vassalos:
"Cuidai do fogo com respeito - levantai suportes que
sejam grandes: - fazei assar! fazei grelhar! - E
vós, princesa de aspecto grave - preparai vasos
numerosos! - Eis anfitriões e convidados - taças
que se oferecem ou que circulam! - Ritos e gestos
Perfeitos. - Ritos e discursos corretos! - O santo
figurando Espíritos - vai me pagar com grande feli-
cidade: - dez mil anos, em recompensa! - Eu me
dei inteiramente: - no rito, em nada faltei! - O
invocador diz seu oráculo, - pagamento do descen-
dente piedoso: -'Suave era a oferenda pia! - Os
Espíritos beberam e comeram! - Eles te auguram
toda felicidade - segundo teus votos, segundo as
regras! - Foste grave, foste ativo - foste cuidadoso,
foste correto. - Recebe, pois, para sempre, seus
dons - por miríades e cem mil.' - Acabados os ritos
e os gestos - sinos e tambores soai o fim! - Des-
cendente piedoso, eu me sento; - o invocador diz
seu oráculo: -'Os Espíritos beberam até se fartar!'
- O representante dos antepassados - sai ao som
dos tambores, dos sinos! - Parti, figurante dos Espí-
ritos! - E vós, servidores, e vós, princesa - tirai a
mesa depressa e sem demora! - Com meus tios,
meus primos - todos, juntos, festejaremos! - Os
músicos entram e tocam! - É para confirmar a feli-
cidade! - Eis ali as provisões, - nada desagrada e
tudo é pompa! - Repletos de vinho, saciados de igua-
rias - grandes, pequenos, dizem prosternados: 'Os
Espíritos beberam e comeram - dando ao senhor
longa vida! - Generosamente, até o dia alto, - fos-
tes pródigos, em tudo! - Filhos, filhos, netos, -
descendência contínua, seguir-vos-ão(699)!" Os vas-
salos contribuem para os sacrifícios do senhor. As
oferendas que remetem ao príncipe, este as entrega
a seus antepassados: esta consagração suprema en-
riquece com uma santidade augusta os víveres e as
bebidas do sacrifício. Comungando depois do senhor,
com os ancestrais do príncipe, os vassalos alimentam.
se, segundo sua classe, em santidade e nobreza. "De-
pois da oferenda, comiam.se os restos... (Em pri-
meiro lugar) o representante dos antepassados come
os restos (do sacrifício). Depois que (ele se sacia e)
se levanta, o senhor e seus ministros, quatro pessoas
(no total), comem seus restos. Depois que o príncipe
(saciado) levanta-se, os oficiais graduados, em núme-
ro de seis, comem (por sua vez) os restos: os vassa-
los comem as sobras do senhor. Depois que (saciados)
os oficiais graduados se levantam, os oficiais (simples
nobres), em número de oito, (comem por sua vez) os
restos: os menos nobres comem os restos dos mais
nobres (kouei). Quando os oficiais se levantam (sa-
ciados), eles levam os pratos para colocá-los embaixo
dos degraus da sala: todos os servidores se aproxi-
mam dos restos da refeição: os humildes [hia (baixo):
os que devem ficar embaixo dos degraus] comem os
restos dos superiores [chang (alto): aqueles que são
admitidos na sala das recepções]. O princípio que
regula a consumação dos restos é de fazer aumentar,
cada vez, o número de pessoas admitidas para con-
sumi-los: assim se marcam os graus de nobreza: eis
um símbolo da difusão das liberalidades do príncipe."
"Os mais nobres (aqueles que não comem muito, mas
do melhor) recebem as (carnes aderentes aos) ossos
mais nobres (os ombros, dizem, no tempo da dinastia
Tcheou); os menos nobres (aqueles que podem comer
muito, mas pior) recebem as (carnes aderentes aos)
ossos menos nobres(700)." Os vassalos pagam o tri-
buto em razão da dignidade de seu feudo; o senhor
redistribui-lhes as oferendas enriquecidas pela con-
sagração aos Espíritos; eles os cumula de substância
santa, mas retribui, cada um deles, nas proporções e
na ordem protocolares. Cada um obtém, para sua
classe, com um pedaço de carne de qualidade melhor
ou pior, um quinhão estritamente determinado de for-
ça sagrada e de nobreza. Mas, variável em qualidade
como em quantidade, esta força sagrada permanece
idêntica, para todos, em sua essência. Todos formam
um corpo de nobres: são os indivíduos do alto, aque-
les que são admitidos para comer, depois do chefe,
mas sobre o estrado do chefe, a comida da qual se
alimenta a alma dos senhores falecidos. Como o chefe,
eles têm uma alma que não irá, logo depois da morte,
perder-se no fundo da terra: ela habitará, bem alto,
nas regiões celestes onde os chefes defuntos ainda
têm sua corte e onde sobe, como fumaça, a gordura
queimada das vítimas. E, durante sua vida, eles terão,
em suas famílias, a santidade de um chefe, todo o
prestígio que permite comandar um grupo humano,
toda a virtude que pode fazer frutificar um domínio e
que dá o direito de ser um possuidor de terra. Quando
procede à primeira lavra, o chefe traça, para si, um
pequeno número de sulcos: logo toda a terra acha-se
fecundada e todas as primícias são alcançadas pelo
santo que retirou o caráter sagrado do solo(701). En-
tretanto, todos animados pela força sagrada que está
concentrada em seu senhor, e que, neles, está difusa,
mais numerosos no trabalho e cavando, cada um,
maior número de sulcos na medida em que são menos
ricos de nobreza e de virtude eficaz, os vassalos, na
ordem de sua dignidade, lavram depois de seu senhor:
eles adquirem, a seguir, um direito eminente (mas
subordinado ao direito do príncipe) sobre os campos
onde os camponeses só terão, rústicos como são,
que trabalhar - trabalho de vilões, que não confere
mais do que direitos vis.

Cada nobre é um chefe com virtude diluída.
Uma mesma alma habita no senhor e nos gentis-ho-
mens que constituem sua corte. Também o vínculo de
vassalagem implica uma adesão total de vontades.
Ele não difere do laço de parentesco, tal como existe,
na mesma época, entre pai e filho. O vassalo veste
luto pelo senhor com o mesmo rigor que veste luto
por seu próprio pai. O grupo feudal é uma espécie de
família, da mesma forma (como veremos) que a fa-
mília é uma espécie do grupo feudal. Como o agrupa-
mento doméstico, o agrupamento feudal é uma unidade
comunitária. Os membros do grupo são possuídos
pelo mesmo gênio, todos participando dele, mas de
maneira desigual, pois o grupo é hierarquizado. O
irmão que procura suplantar seu irmão, o vassalo que
quer destronar seu senhor (estas práticas eram coti-
dianas) não se colocam fora da lei do grupo: eles
esperam simplesmente por sua ordem. Não rompem
uma comunhão, não são culpados de um crime contra
a pessoa ou a família, mas unicamente de lesa-majes-
tade, e isto somente quando não têm êxito, pois o
sucesso faria brilhar neles uma majestade superior
àquela de sua vítima e esta seria o verdadeiro culpa-
do. Também, enquanto o esforço de um grupo homo-
gêneo pode tender unicamente a manter e a reforçar
uma união comunitária, o esforço do agrupamento feu-
dal se exercerá, com mais evidência, para manter a
ordem hierárquica que o grupo possui: é por isto que
as cerimônias que restauram periodicamente a co-
munhão dos vassalos são reguladas de modo a mar-
car, por dosagens protocolares, a parte de prestígio
que deve caber a cada um deles. Todo simbolismo
social tem por objetivo reforçar o senso de disciplina.
A disciplina é o ideal, porque a resistência à subor-
dinação é o fato. Ninguém pensa poder viver fora de
uma clientela, mas desde que faz parte desta clien-
tela, cada um possui em si uma parte desta virtude
contagiante que faz a majestade de um chefe reco-
nhecido. O chefe não tem outra ocupação além de con-
centrar em si o prestígio. Para que ele permaneça
majestoso, é preciso que seja um príncipe ocioso.
Mas desde que se impõe uma ação, só um vassalo
pode executá-la, e ele não pode agir a não ser com
o auxílio de uma delegação da virtude do príncipe.
Ora, se ele comprometer, por um revés, a santidade
do senhor, ou, tendo obtido grande êxito, santificar-se
mais do que o desejável, ele atenta sempre contra a
dignidade do senhor. Arauto ou general, o vassalo
(pois nada distingue o devotamento absoluto da am-
bição facciosa) condena-se a expiar, se decidir, ver-
dadeiramente, agir. Para se mostrar um servidor leal
de maneira evidente, é preciso que seja, não comple-
tamente, talvez, um ministro ocioso, mas muito estri-
tamente, um ministro que não age senão na fórmula
e para a fórmula. A sinceridade (tch'eng), que é o
primeiro dever do vassalo, define-se por uma conduta
de conformidade absoluta às leis da etiqueta. Quem
quiser se manter fiel, deve mostrar claramente que
não age, não pensa e nem sente a não ser segundo
as regras protocolares. Tudo na vida pública não é
mais do que ostentação e ostentação regrada. E assim
até o momento em que os técnicos superam a velha
nobreza no favor dos príncipes. Mas, quando o con-
selho privado, ou, ainda pior, a corte dos legisladores
substitui a corte dos vassalos, seus torneios e seus
discursos, os dias da nobreza feudal terminam. É ver-
dade que o homem honesto vai substituir o gentil-
homem; este último estava apto a fazer todos os
serviços: o outro se vangloriará de tudo saber. - Du-
rante longos séculos em que reinou, a disciplina feudal
fez com que os Chineses adquirissem preciosas vir-
tudes. Reconheceram os méritos do formalismo, dos
gestos regulados, das fórmulas feitas. Compreende-
ram o valor moral do conformismo. Propuseram-se,
como dever essencial, a prática da mais completa e
da mais autêntica lealdade; tiveram a sabedoria de
defini-la por uma adesão formal a um conjunto de
convenções consagradas, de hierarquias estabeleci-
das, de boas tradições. Fizeram da sinceridade e da
honra os princípios fundamentais de sua conduta e
de seu pensamento. Codificaram estritamente a prá-
tica destas virtudes e decidindo devotar sua vida ao
culto da etiqueta, conseguiram evitar as perturbações
acarretadas por uma busca anárquica do justo e do
verdadeiro.

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