A vida pública (01)

O Senhor preside à corte dos vassa-
los e os envia ao combate. As duas
grandes obrigações de um vassalo
são o conselho e o serviço. A mo-
ral nobre tomou, por efeito da vida
da corte, um caráter aprimorado.
Ela se formou na vida dos acampamentos. A ordem
militar acha-se na base da ordem civil.

l - Os nobres no exército

A predominância da ordem militar manifesta-se
por uma regra significativa. O recenseamento que de-
termina, detalhadamente, as posições e os tributos
das terras e dos homens é uma necessidade militar.
Precisamente por isto ela parece uma obra temível e
quase sinistra. Compromete os destinos do país. So-
montes e as colinas, as terras baixas ou salgadas, as
fronteiras inundadas, os escoadouros de água. Ele divi-
de os terrenos planos compreendidos entre os diques,
posse. A responsabilidade de um ato tão temerário
deve normalmente ser entregue a um homem que de-
votou sua vida à guerra. O Ministro da Guerra ("isto
convém")(588) é encarregado de regular as contribui-
ções, de contar as couraças e as armas. Com este
fim, ele registra o número dos terrenos aráveis, as
florestas de montanha, os pântanos e os lagos, os
montes e as colinas, as terras baixas ou salgadas, as
fronteiras inundadas, os escoadouros de água. Ele divi-
de os terrenos planos compreendidos entre os diques,
faz a partilha dos pastos e das terras cultiváveis. Ele
determina, então, as contribuições a serem forneci-
das. Fixa o número de carros e de cavalos, assim como
o de guerreiros transportados por carros, dos solda.
dos de infantaria que os escoltam, das couraças e dos
escudos. As operações do cadastro e do recensea-
mento confundem-se. O dever militar estende-se sobre
as terras como sobre os homens. Recai sobre os ho-
mens na proporção de suas terras e em razão da na-
tureza e do valor destas. Os lavradores só fornecem
peões ao exército. Os vassalos, detentores de um do-
mínio compreendendo caças e pastagens, devem equi-
par um número regular de carros de guerras. Este
número dá a medida de seu feudo e de sua dignidade.
Fazer o recenseamento do povo é entregar o
país à guerra. Este ato de bravata que pretende forçar
o destino deve ser contrabalançado por um gesto de
moderação. O censo acompanha-se de medidas libe-
rais e expiatórias. A mais característica é uma anistia.
"Depois de ter feito o grande recenseamento, libera-
ram-se os devedores, fizeram-se generosidades aos
viúvos e aos indigentes, anistiaram-se os culpados:
nada mais falta ao exército (589)". O exército compõe-
se, por um lado, de pessoas a quem se perdoa uma
pena com a condição de que se dediquem às obras
mortíferas, e, por outro lado, de vassalos que são
guerreiros natos e ligados ao chefe por uma fideli-
dade total. Quando se reúne o exército, abrem-se os
arsenais e distribuem-se as armas. Estas, em teoria,
pertencem ao senhor que as conserva, cuidadosamen-
te guardadas, não por uma simples precaução: as ar-
mas exalam uma virtude nociva (590). Ninguém se mune
sem se preparar antes, para este contato perigoso;
com um período de abstinência (591). O jejum realiza-se
no Templo ancestral e provoca tal emoção que se acre,
dita entrar em comunicação com os antepassados. Os
pressentimentos da vigília das armas parecem com-
prometer a sorte da campanha. Aquele que sente en-
tão seu coração agitado sabe estar destinado à morte.
Uma unção sangrenta reveste as armas com uma nova.
força. O chefe faz um sacrifício. O exército equipado
reúne-se na colina do Solo. Ele propicia os deuses dos
caminhos e parte.

Os peões vão pouco armados. Eles trabalham
nos aterros e como servos. "Vão sem esperança de
voltar", marchando e acampando, cheios de terror,
na beira dos bosques. Todo seu tempo é gasto no cui-
dado dos cavalos que alimentam, assim como a si
próprios, com serralha. Eles param, enlouquecidos,
regozijando-se de não estarem ainda mortos, fatiga-
dos sob o peso das bagagens, empurrando-se, gemen-
do com uma voz sem alma, amordaçados assim que
formam as fileiras(592). Os nobres partem em seus
carros de guerra, tranqüilos, tocando alaúde. Seus car-
ros curtos e estreitos, são formados por uma caixa
aberta na parte de trás e assentada sobre duas ro-
das (593). Na frente há um timão recurvado, ao qual são
atados dois cavalos separados, de um lado e do outro,
por duas correias costais. Os quatro cavalos do carro
são munidos de freios, nos quais são fixadas duas si-
netas. A estes freios ligam-se as rédeas: as rédeas
internas dos cavalos laterais são presas por trás, em
duas argolas colocadas à direita e à esquerda da tábua
que forma a parte dianteira do carro; um condutor
segura na mão as outras seis rédeas. Este se coloca
no centro do carro (594). Ao seu lado, fazendo contra-
peso, estão, à esquerda (lugar de honra), um arqueiro,
e à direita, um lanceiro. Os cavalos usam couraças
muitas vezes revestidas de peles de animais ferozes.
Os três homens da equipagem vestem uma roupa de
couro feita de uma ou de várias peles de boi (ou de
rinoceronte?). As couraças são envernizadas. Na fren-
te do carro, protegendo cada um dos guerreiros, são
colocados três escudos de madeira leve. O arqueiro
dispõe de dois arcos conservados no mesmo carcaz,
afrouxados e ligados (para que não se deformem) a
uma armação de bambu. Ao alcance do lanceiro estão
colocadas várias armas com longos cabos, termina-
das por ganchos ou por tridentes de metal. Elas ser-
vem para transpassar e, sobretudo, para enganchar e
desmontar os guerreiros dos carros inimigos, que são
mortos no chão ou então aprisionados. A caminho, os
soldados repousam, sentando-se numa esteira dupla
ou sobre uma pele de tigre colocada na caixa dos
carros. Nestes, tremulam estandartes. As couraças
dos guerreiros são recobertas de cordões ou de se-
da (595). Seu verniz brilha. Os arqueiros têm dedeiras
de marfim. As extremidade dos arcos também é de
marfim. Arcos, carcazes, braçais, joelheiras são pin-
tadas de cores vivas. Os escudos são decorados com
pinturas. No peitoral dos cavalos pendem enfeites cin-
zelados. Os carros avançam com majestade, conduzi-
dos por cocheiros hábeis, segurando suas rédeas bem
juntas, esforçando-se para fazer avançar de frente
seus quatros animais, cujos ornamentos e sinetas de-
vem soar ao mesmo tempo. O exército prossegue seu
caminho, sempre orientado, numa ordem imutável e
dominadora, como se, progredindo, olhasse para o
sul, como faz um chefe. Na frente é levada a bandeira
do Pássaro vermelho (sul); atrás, a do Guerreiro som.
brio (tartaruga e serpente - norte); na ala direita
(oeste), a do Tigre branco; na ala esquerda (leste),
a do Dragão azulado(596). A direita dos carros, os
peões são encarregados de tomar conta dos timões;
os que marcham à esquerda arrancam as ervas ao
longo do caminho (597). As ordens são dadas por meio
das bandeiras. Abrindo a marcha do exército, deve
haver um sinal de grama (a grama serve de liteira
para as vítimas) - como deve haver diante de um cor-
tejo fúnebre ou para preceder um chefe que se de-
vota à morte.

O exército acampa, como marcha, orientado. O
acampamento é uma cidade quadrada, onde se esca-
vam poços, onde se elevam casas, que têm suas por-
tas cardeais e que guarda, em suas muralhas, as tabu-
letas dos Ancestrais e dos gênios do Solo. No centro,
está a legião formada pelos parentes do príncipe: ela
é enquadrada pelas legiões da esquerda e da direi-
ta(598). Os acampamentos temporários são cercados
por simples sebes, mas quando um exército quer dei-
xar um monumento de sua glória e tomar posse da
região, edifica um acampamento cercado, uma praça
forte (599). Se diversos exércitos acampam juntos, cada
um toma cuidado de se colocar no oriente que con-
vém à sua região natal (600). Tudo se passa, quando o
exército acampa, como se a cidade senhorial tivesse,
toda ela, se deslocado com todas as forças santas da
região natal. Diante dele, levanta-se a cidade inimiga,
o acampamento adversário.

Em cada acampamento, começa uma espécie de
recolhimento para preparar a batalha. Procura-se for-
çar a paciência do inimigo, reconhecer se ele está dis-
posto a fazer um grande esforço, adivinhar se trouxe
grandes provisões de grãos e de legumes secos en-
sacados, ver, enfim, se está disposto a alcançar uma
vitória ou, simplesmente, fazer uma exibição de sua
força. Por vezes, os exércitos preparam-se para a ba-
talha sem que nem um nem outro avance para o com-
bate. Cada um espera o dia favorável que seus adivi-
nhos devem indicar. Trocam mensagens para fixar a
hora do encontro. A voz mais ou menos firme do envia-
do informa sobre o espírito de decisão do adversá-
rio (601). Em cada acampamento, que o outro observa,
as assembléias guerreiras sucedem-se: paradas reli-
giosas e militares onde se exalta a esperança de
vencer (602).

"No exército de Tsin (que olham de seu acam-
pamento, do alto de uma torre, o príncipe de Tch'ou
e um de seus oficiais) os homens correm à direita
e à esquerda. Que fazem? - Eles convocam os ofi-
ciais. - Eles se reúnem no meio do acampamento
(em redor do chefe). - Eles vão deliberar. - Armam
uma tenda. - Eles vão consultar a tartaruga diante das
tabuletas dos príncipes defuntos de Tsin. - Tiram a
tenda. - O príncipe de Tsin vai dar suas ordens. -
Ouvem-se grandes gritos...Levanta-se uma nuvem de
poeira... - Tapam-se os poços... Destroem-se as
casas... Formam-se fileiras. - Depois que sobem em
seus carros, os arqueiros à esquerda, os lanceiros à
direita, todos pegam suas armas e descem. - Vão
escutar o discurso (de seu chefe). - Vão combater?
Não se pode saber... Eles voltam para seus carros,
à direita e à esquerda e depois tornam ainda a descer.
- Eles vão rezar pelo êxito do combate."
Esta prece (tao) acompanha um gesto e um
juramento trágicos, pelos quais o chefe consagra, de-
finitivamente, o exército à batalha. Ele oferece aos
ancestrais pedras de valor: tal é o penhor imposto
àquele que, pedindo uma proteção, deve, em contra-
partida, ofertar os mais preciosos de seus bens e pôr
em jogo seu corpo e sua vida. O chefe começa por
justificar sua expedição. Ela só tem por fim punir os
perturbadores e os culpados. "Preparado para o com-
bate, eu empunho a lança! Ouso vos advertir! (Que)
nossos nervos não sejam destruído! (Que) nossos os.
sos não sejam despedaçados! (Que) nossas faces
escapem dos ferimentos! (É) para cumprir uma grande
obra! É para não vos desonrar, a vós, nossos adver-
sários! Uma longa vida (ming: destino), não é isto que
vos peço! Os jades de meu cinto, eu não ouso
manter!"

Depois que ouviram o chefe e prestaram seu
juramento, os guerreiros encontram-se, enfim, votados
a uma morte terrível, os mais corajosos disputando a
primeira glória. Eles vão desafiar o inimigo, que já
consideram um culpado, o inimigo cuja derrota deve
comprovar seus erros. A batalha serve para sondar
o Destino. Os primeiros embates são presságios efi-
cazes. Desde o começo, procura-se dominar, pois a
sorte já está lançada. Sabe-se, de início, qual será o
resultado da batalha e se esta será uma justa cortês
destinada a classificar os prestígios ou então um ordá-
lio de morte, terminando com um triunfo absoluto,
com uma derrota sem apelação.

Se o adversário for considerado, não um rival,
mas sim um verdadeiro inimigo, se se quiser declará-
lo fora da lei chinesa e puni-lo como a um Bárbaro,
se se pretender suprimir uma dinastia proscrita e no-
civa, um domínio decadente ou selvagem, envia-se,
para travar o combate, homens corajosos destinados
à morte (603) - tal é o papel reservado aos anistiados,
conduzidos, em teoria, pelo ministro da Guerra. Em
contato com o adversário, eles deverão cortar suas
gargantas, soltando um grande grito. Uma alma furiosa
exala deste suicídio coletivo. Ela se liga, como um
malefício, ao inimigo. O duelo será terrível, sem ser
necessariamente um duelo de morte, se, para incitar
o adversário, enviar-se, em sua direção, um carro,
cujo lanceiro "penetra nos entrincheiramentos, mata
um homem, corta sua orelha esquerda e volta" (604).
(No começo de um sacrifício, para tornar os deuses
solícitos e lhes consagrar a vítima, tira-se da orelha,
com uma faca de guizos, o primeiro sangue). Desde
o primeiro golpe, o inimigo é designado para ser a
vítima expiatória da batalha. Entretanto, não é destina-
do irremediavelmente a um sacrifício total. Os deuses
admitem a substituição de vítimas. O vencedor pode
consentir no resgate do vencido. Mas há ainda, para
incitar o combate, procedimentos mais humanos. Eles
revelam, não uma vontade de conquista ou, pelo me-
nos, de enfeudação, mas uma simples preocupação de
prestígio e de glória. Que os adversários se aproxi-
mem, acampando um perto do outro, ou que um deles
venha assentar seu acampamento diante dos muros
da cidade rival, os dois exércitos estão, cada um, em
sua cidade, com entrincheiramentos tão sagrados
como os da cidade natal. Para infligir ao adversário
o primeiro golpe, o mais decisivo, o mais sensível,
é suficiente que um carro vá, a toda velocidade, com
o estandarte abaixado, "tocar nos entrincheiramentos
inimigos". Ou, então, alguém vai queimar as árvores
dos bosquezinhos sagrados, que cercam a cidade
rival (605). Menos grave, mas de uma insolência tam-
bém eficaz, é o gesto do guerreiro que, expondo-se
friamente, conta com seu chicote, as tábuas que for-
mam a porta (606). Desde que se sentiu desafiado, des-
de que se viu menosprezar seus muros, está acabado:
o adversário resigna-se a suportar os destinos do
combate.

Iniciada por bravatas em que, com uma resolu-
ção mais ou menos brutal, afirma-se a força do espí-
rito, a batalha, sítio ou luta em campo aberto, não é
mais do que uma defrontação de forças morais. Almas
inconstantes de vilões, os peões não têm nenhum
peso no embate dos destinos, enquanto que as nobres
guarnições dos carros se chocam, flâmula contra flâ-
mula e honra contra honra.

Os vassalos dos dois exércitos não se desco-
nhecem. Quase todos foram encarregados de missões
em regiões rivais. Ali foram recebidos como hóspe-
des. Assim que reconhecem suas respectivas flâmu-
las, trocam cortesias arrogantes. Enviam ao adversá-
rio, na falta de uma refeição "para as pessoas de sua
comitiva", um pote de vinho que lhes pedem para
beber, a fim de que se reconfortem. Este vinho é de-
gustado cerimoniosamente, enquanto se rememora os
embates de gentileza no tempo de paz (607). Os adver-
sários saúdam-se, não de joelhos (Pois estão arma-
dos), mas se inclinando três vezes. Descem de seu
carro, tiram seus capacetes assim que percebem um
grande chefe inimigo(608). Eles nunca ousam atacar
um senhor, pois "quem o tocar de leve, merece um
castigo". Não se atrevem a combater senão entre
iguais.

Eles devem combater delicadamente. Uma guar-
nição que está para tomar uma outra, deixará que ela
escape, se um dos guerreiros inimigos tiver o bom
gosto de pagar, imediatamente, um resgate em forma
de homenagens. Um arqueiro de Tch'ou, em má posi-
ção, vê seu carro detido por um cervo. É sobre este
cervo que ele atira sua última flecha. Seu lanceiro
desce logo do carro, toma o cervo morto e o oferece
aos guerreiros de Tsin: "Como não é mais a estação
de caça, o tempo de oferecer animais selvagens ainda
não chegou. Entretanto, permito-me apresentar este
aqui para que seja comido pelas pessoas de vosso sé-
quito." O inimigo, parando seu ataque, exclama: "Eis
à esquerda, um arqueiro de valor, e, à direita, um lan-
ceiro de bela linguagem: são gentis-homens (609)!"
Os presentes de armas são trocados como os
de alimentos ou de bebida (610). O prestígio é conquis-
tado por meio de gestos generosos, bem mais do que
pela persistência ou pelo saber militar. Os guerreiros
que, nos exercícios preparatórios, conseguiram pe-
netrar com suas flechas sete couraças de uma só
vez e que se vangloriam, escutam seu chefe dizer:
"Vós infligireis uma grande desonra ao país! Ama-
nhã, lançando flechas, matareis vítimas com vossa ha-
bilidade! " Mesmo quando a vitória demonstrou a san-
tidade da causa e quando só se preocupa com os fugi-
tivos, isto é, com os culpados, um nobre guerreiro não
pode matar mais do que três homens. Ainda, quando
ele arremessa suas flechas, atira-as fechando os
olhos: elas atingirão o inimigo se a sorte assim o
desejar.

Em pleno combate, a prudência deve sempre
ceder à cortesia. Dois carros vão se defrontar. Um vol-
ta-se para outro lado. O chefe inimigo grita imediata-
mente o nome do chefe do carro que parece evitar a
luta. Desafiado, este volta ao combate, procurando
atirar. Ele se vê reduzido - pois o outro, já pronto,
arremessa sua flecha - a invocar a virtude prestigio-
sa dos ancestrais para que ela o afaste da desgraça.
Mas quando o outro quer atirar pela segunda vez,
ele grita: "Se vós não me deixais trocar (minhas fle-
chas com as vossas), isto será inconveniente!" Obe-
decendo, por sua vez, às leis da honra, o adversário,
retirando sua flecha já colocada no arco, espera, imó-
vel, o golpe mortal (611).

Poupar o inimigo é nobre. Expor-se arrogante-
mente é belo. A façanha suprema é devotar-se ao Che-
fe. Se o carro deste último atola ou fica cercado, o
vassalo fiel procurará, imediatamente, substituir o senhor.
Ele tomará seu lugar no carro que ostenta sem-
pre a flâmula do comando(612). Um guerreiro nobre,
mesmo para escapar das perseguições, não consente
em abaixar seu estandarte (613). Enquanto o estandar-
te tremula, é preciso andar ou marchar em frente até
os entrincheiramentos inimigos. Não se foge, suprema
vergonha, com a bandeira desfraldada, pois só se vai
à batalha para honrar seu brasão. Arriscar-se a ser
zombaria de um inimigo que pode gritar seu nome ou
arriscar-se a ser poupado altivamente por ele, eis as
piores desgraças. É preciso, para as afastar, astúcia
e coragem. Numa batalha entre Tsin e Tch'ou (596), um
carro de Tsin, atolado, não pode mais avançar. A situa-
ção é desesperadora. O inimigo diverte-se dando con-
selhos. "Um guerreiro de Tch'ou diz ao condutor para
levantar a barra transversal (onde as armas estavam
presas). (Levantada a barra), o carro pôde (enfim) sair
do buraco. O condutor, virando a cabeça, diz (para
pagar os conselhos insultantes e o favor desonroso
que acabara de receber): "Nós não estamos, como os
de vosso grande país, acostumados à (arte de) fugir!"
O grande jogo, na batalha, é desprezar o ini-
migo. Despreza-se, também, seus companheiros - so-
correndo-os ao mesmo tempo: "Tchao Tchan deu seus
dois melhores cavalos a seu irmão mais velho e a seu
tio para ajudá-los a fugir. Ele voltou com seus outros
cavalos. Encontrou o inimigo e não pôde escapar.
Abandonando seu carro, foi a pé pela floresta. Fong
(outro guerreiro do mesmo exército) passou (perto
dele) em seu carro com seus dois filhos. Ele lhes
disse que não virassem a cabeça para trás(olhar, vi-
rando a cabeça, Tchao Tchan fugindo a pé, seria humi-
lhá-lo). Entretanto, eles se voltaram e disseram (cha-
mando o fugitivo por seu nome): "O velho Tchao está
ali atrás!" Tchao, tomado pela cólera, ordenou-lhes
que descessem (do carro de seu pai) e, mostrando-
lhes uma árvore, disse: "Cadáveres estendidos, per-
manecereis neste local! (Eles tiveram que descer e)
seu pai (imediatamente) apresentou a Tchao Tchan a
corda (para ajudá-lo a subir em seu próprio carro), a
fim de o salvar. No dia seguinte, os cadáveres de seus
filhos marcavam o lugar indicado. Aprisionados todos
os dois, (o inimigo) os havia (matado e) amarrado à
arvore (614)."

O combate é uma mistura confusa de bravatas,
de generosidades, de homenagens, de insultos, de de-
votamentos, de imprecações, de bênçãos, de malefí-
cios. Bem menos do que um choque de armas, é um
torneio de valores morais, é um encontro de honras,
que se medem. Procura-se qualificar, desqualificando
os outros, não somente os adversários mas também,
do mesmo modo, aqueles da mesma facção. A batalha
é o grande momento em que os guerreiros provam,
cada um, sua nobreza, demonstrando a todos, também,
a nobreza de seu príncipe, de sua causa, de sua região.
Muitas vezes agressivo e sempre marcado pela ambi-
ção de se avantajar, o espírito de solidariedade que
anima um corpo de vassalos manifesta-se na prova da
batalha, como nas provas que preparam para o com-
bate. Um vassalo perde sua posição se se deixar ven-
cer por um companheiro nas justas pacíficas da lu-
ta (615). Um ministro da Guerra não merece mais seu
cargo, se deixar, por brincadeira, passar uma corda
no pescoço, como um cativo(616). Aquele que, não
ousando matar um prisioneiro amarrado, deixa cair sua
lança, nunca será lanceiro. Ele será substituído, à di-
reita do carro, pelo homem leal que, sem se deixar
apavorar pelo grande grito que solta a vítima, cortar-
lhe friamente a orelha esquerda. Este não tem medo
de atrair sobre si mesmo os retornos vingativos de
uma alma amiga: ele se ligou, até a morte, a seus
companheiros de guarnição.

A solidariedade das guarnições é a própria
essência da honra, a tal ponto que, para desqualificar
para sempre um chefe de carro, basta matar seu co-
cheiro(618). Esta solidariedade, que faz a força dos
exércitos, é constituída de elementos comunitários,
mas recobre um sentimento minudente do ponto de
honra. Tchang-ko e Fou-li, grandes oficiais de Tsin, são
encarregados de ir provocar o inimigo; falta-lhes um
cocheiro que conheça bem a região e o caminho; eles
o pedem a Tcheng, pequeno domínio associado a Tsin
numa guerra contra Tch'ou. A tartaruga consultada de-
signa Che-kiuan, grande oficial de Tcheng. As posições
dos três guerreiros são iguais; o prestígio de sua re-
gião não o é. Che-kiuan, advertido do perigo em que
ficaria deixando-se maltratar e ser tratado como infe-
rior, resolve manter sua honra e a de sua região. Ele
demonstrará a falsidade do provérbio: "Uma pequena
colina não tem cipreste nem pinheiro." A guarnição
parte. "Enquanto estavam em sua tenda, Tchang-ko e
Fou-li deixavam Che-kiuan sentar-se do lado de fora
(não admitindo comunicação pelo habitat). Eles só lhe
davam de comer depois que comiam (comunhão en-
feudante)... Quando se defrontaram com o inimigo,
Che-kiuan, sem adverti-los, apressou a marcha dos
cavalos. Os dois (outros que, desequipados, tocavam
tranqüilamente o alaúde, apressaram-se a) tirar seus
capacetes de seus envoltórios e a colocá-los em suas
cabeças. Entrando nos entrincheiramentos inimigos,
eles desceram do carro; cada um se apoderou de um
homem, jogando-o no chão e prendendo-o nos braços
para levá-lo cativo. (Mas Che-kiuan já) havia saído dos
entricheiramentos, sem esperá-los. Eles saíram por
sua vez, tiraram seus arcos do estojo e desfecharam
as flechas. Quando passou o perigo, eles se sentaram
novamente e tocaram o alaúde (desejando, antes de
tudo, mostrar uma tranqüilidade perfeita). (Depois dis-
to) disseram a Che-kiuan: "Senhor (eles o interpelam
pelo título que lhe era devido, pois sua família era de
origem principesca, e Che-kiuan acabara, por sua con-
duta, de eliminar a distância que queriam estabelecer
entre eles), fazemos parte da mesma guarnição: so-
mos irmãos. Por que, por duas vezes, agistes sem nos
consultar?" Che-kiuan respondeu (como seu prestígio
fora restaurado, ele só tinha que afetar modéstia):
"Antes, não pensei senão em penetrar no campo ini-
migo e depois tive medo (não tenho a pretensão de
vos igualar em bravura: esta fórmula desarma a có-
lera)". Os dois puseram-se a rir, dizendo: "Vossa Se-
nhoria é bem perspicaz (619)!" Vê-se que nas provas
impostas pelo ponto de honra, a lealdade toma, muitas
vezes, um ar de traição.

A fraternidade de armas tem qualquer coisa de
equívoca, pois o resultado da batalha é (tanto quanto
a vitória ou a derrota da região), uma exaltação ou um
rebaixamento dos prestígios pessoais. Por outro lado,
não se experimenta menos sentimentos amigáveis do
que rancor em relação ao inimigo ocasional que se
combate, sobretudo, para se classificar em seu pró-
prio acampamento.

Salvo nos casos extraordinários em que a guer-
ra é uma guerra de morte, a finalidade da batalha não
é, de modo algum, a destruição do adversário. Ele deve
ser um combate cortês. O duque Siang de Song espe-
ra, para uma batalha campal, que o exército de Tch'ou
atravesse um rio(620). Dizem-lhe: "Eles são numero-
sos; nós somos poucos; antes que eles acabem a tra-
vessia, vamos atacá-los!" O duque não seguiu este
conselho. Terminada a travessia, como Tch'ou ainda
não se dispusera ao combate, dizem ao duque: " É pre-
ciso atacá-los!" Ele responde: "Esperemos que eles
estejam prontos para a batalha!" Ele atacou, por fim,
foi derrotado e ferido. Diz então: "Um chefe digno
deste nome (kiun-tseu, príncipe, gentil-homem, homem
honesto) não (procura) vencer um adversário no infor-
túnio. Ele não toca o tambor quando as fileiras não
estão formadas." Embora respondessem ao duque que
somente o êxito era meritório, a História perdoou-lhe
inúmeras faltas graves porque, nesta circunstância,
ele só pensou em salvar a honra.

Não há vitória quando a honra do chefe não sai
engrandecida da batalha. Ela aumenta menos quando
se procura o êxito (e sobretudo, quando se quer levá-
lo ao extremo) do que quando se mostra moderação.
Ts'in e Tsin estão frente à frente(614). Os dois exér-
citos se formam e não combatem. De noite, um men-
sageiro de Ts'in vem advertir Tsin para que se prepa-
re: "Nos dois exércitos não faltam guerreiros! Ama-
nhã cedo, eu vos convido, encontremo-nos!" Mas os
de Tsin notam que o mensageiro nunca olha fixo e
que sua voz não está segura: Ts'in é derrotado ante-
cipadamente. "O exército de Ts'in nos teme! Ele fu-
girá! Vamos atacá-lo no rio! Certamente nós o ven-
ceremos!" No entanto, o exército de Tsin não se for-
ma para o combate e o adversário pode retirar-se tran-
qüilamente. Foi suficiente que alguém dissesse: "Não
recolher os mortos e feridos, é desumano! Não espe-
rar o momento conveniente, cercar o inimigo numa
passagem perigosa, é infame (621)!"

E eis como deve falar um vencedor a quem se
propõe ostentar sua glória construindo um acampa-
mento no local de sua vitória, levantando, sobre os
corpos dos inimigos mortos, um monumento de ter-
ra (622): "Por minha causa, duas regiões expuseram ao
sol os ossos de seus guerreiros! É crueldade!...(Sem
dúvida) nos tempos antigos, quando os Reis resplan-
decentes de Virtude combatiam homens que não ti-
nham respeito algum (para com a ordem celeste) e
quando eles tomavam (aqueles que, semelhantes a)
baleias (devoravam os fracos, estes reis podiam), então,
levantar um outeiro triunfal (fong) a fim de expor
(para sempre) os corpos (dos culpados: os do mau
chefe e de seus seguidores, maus por contágio). Mas,
no presente! não há culpados (= não tenho categoria
para conduzir uma guerra mortal)! Não existem vas-
salos que não tenham mostrado, até o fim, sua fide-
lidade! Eles morreram, ligando seu destino (ming:
vida, destino, ordem, investidura) ao de seu príncipe!
Por que levantar um monumento triunfal?"

Enquanto os vassalos defrontam-se em confu-
são, é o chefe que assume, sozinho, as responsabili-
dades do combate e de suas conseqüências. É só o
chefe que conduz a batalha. A vitória é conquistada,
exclusivamente, devido a sua virtude. Ele deve trans-
mitir a força de sua alma a todos os combatentes. De-
ve se consumir inteiramente. K'i-k'o comanda a legião
central de Tsin; Houan é seu lanceiro, Tchang-heou é
seu cocheiro. No início do combate(588) (623), "K'i-k'o
foi ferido por uma flecha; o sangue escorreu até seus
sapatos: ele não cessou de fazer soar seu tambor.
(Mas, enfim) ele disse: 'Sinto dor!' (Os chefes em
armas devem respeitar a etiqueta. Seus vassalos fiéis
estão encarregados de lhe recordar seu dever).
Tchang-heou diz-lhe: 'Desde o princípio da batalha,
duas flechas atingiram-me, uma na mão, outra no co-
tovelo. Eu as arranquei para conduzir o carro. A roda
da esquerda tornou-se púrpura. Ousei dizer que me
sentia mal? Senhor sede paciente.' Houan diz a
K'i-k'o: 'Desde o começo da batalha, desde que houve
perigo, desci do carro e fiz avançar os cavalos. Senhor,
vós vos preocupastes (somente) comigo? E, no entan-
to, Senhor, vós tendes dor!'Tchang-heou replicou: 'Os
olhos, os ouvidos do exército estão presos em nossa
bandeira, em nosso tambor. Todos lhes obedecem, pa-
ra avançar, para recuar. Enquanto houver um homem
para conduzir nosso carro, que aqui está, é possível
concluir a obra! Por que tendes dor, conduzireis a
grande obra de nosso senhor a um desastre? Aquele
que reveste a couraça e toma as armas deve ir firme-
mente até a morte. Vós sofreis, mas não mortalmente.
Senhor, superai o sofrimento!' Tchang-heou, então,
fazendo passar as rédeas para sua mão esquerda, pe-
gou a baqueta e tocou o tambor." Mas Tchang-heou
não estava qualificado para agir como chefe: seus ca-
valos desenfrearam e a batalha foi perdida. Um chefe
é digno de sua posição quando pode, após o combate,
exclamar: "Fui derrubado sobre o estojo de meu arco!
Vomitei meu sangue! No entanto, o som de meu tam-
bor não esmoreceu! Hoje, fui um chefe! " E porque ele
foi, verdadeiramente, um chefe, seu lanceiro pôde,
sem nenhuma dificuldade, afastar os inimigos, en-
quanto que seu cocheiro, com as rédeas tão gastas
que ao menor esforço de tração elas deveriam ter-se
rompido, pôde conduzir, no meio da confusão, seu
carro com toda a carga.

A voz, a respiração, a alma, o ardor do chefe
comunicam-se a seus companheiros de carro e a todo
exército, mas animam, primeiramente, seu tambor e
seu estandarte. A bandeira é toda a pátria. Se a ban-
deira for destruída, o domínio está perdido. A bandei-
ra é o próprio príncipe. Quem tocar no porta-bandeira
é culpado de lesa-majestade e o senhor, em pessoa,
está em todos os lugares em que sua flâmula é leva-
da (624). Mas é preciso ocasiões excepcionais para que
um príncipe exponha, simultaneamente, sua pessoa e
seu estandarte. Geralmente, ele confia a bandeira,
passando o comando. Entretanto, são raros aqueles
que querem aceitar a perigosa honra de um imperium
total. Um general prudente suprime pelo menos seus
galões do estandarte do príncipe.

Todos os vassalos, em princípio, são votados à
morte depois que, por ocasião da partida do exército,
uma unção sangrenta deu alma às bandeiras e aos tam-
bores. Mas o general a quem são confiados os tambo-
res e as bandeiras de comando é positivamente vota-
do à morte, se, aceitando o imperium, ele se tornar
o representante do senhor. Quando recebe o tambor e
a bandeira, tendo em mãos o machado, depois de uma
consulta à tartaruga e de uma abstinência severa, o
chefe de guerra deve proceder a uma tomada de há-
bito que o afasta do mundo dos vivos. Ele veste então
um hábito fúnebre e só poderá sair da cidade por uma
brecha feita na porta do norte: é também por uma
brecha que os mortos devem sair do Templo ancestral
no momento do enterro (625). O general deve cortar as
unhas de seus pés e de suas mãos, como se faz, quan-
do alguém quer se entregar inteiramente a uma força
santa. Desde então, "votado à morte", "ele não deve
mais olhar para trás". Preso por um vínculo de fideli-
dade absoluta, não podendo mais "ter um coração du-
plo", ele se torna a alma da obra de mortandade que
inaugura sua tomada de hábito. Esta se parece com a
tomada de hábito dos exorcistas encarregados de
expulsar, por conta do senhor, as forças nocivas. Os
exorcistas, vestindo suas roupas consagradas, juram
não voltar senão depois de ter "combatido até o fim".
O chefe de guerra, no decurso da campanha, renova,
às vezes, seu devotamento. Tchong-hang Hien-tseu,
general de Tsin(554), jogou pedras preciosas no rio
e pronunciou este juramento: "Não me permitirei
reatravessar o rio!" Hien-tseu não foi mais do que
meio vencedor e, no entanto, reatravessou o rio.
Ele caiu doente, pois. Seus olhos se abaularam. Ele
pediu um sucessor, depois morreu. Morto, ele conti-
nuou, com a boca escancarada, a olhar com seus olhos
abaulados. Alguém disse: "Será que é porque não
terminou sua obra?" Seu companheiro, posando as
mãos sobre o cadáver (gesto comunitário), exclamou
então: "Senhor, haveis acabado! mas, se eu não pros-
seguir vossa obra, sede testemunha, ó rio! " O cadáver
consentiu então em cerrar os olhos e sua boca, enfim,
pôde ser fechada. A oração fúnebre de Hien-tseu foi:
"Era um homem (626)! "

Os gentis-homens, geralmente, preferem as
meias vitórias ou as derrotas moderadas. Com um
príncipe ambicioso, eles podem, neste caso, contar
com terríveis ameaças: mesmo comendo-os, o senhor
não se sentiria saciado(627). Todos os vassalos fiéis
sabem citar o adágio: "Vencedor: Ministro da Guer-
ra! - Vencido: cozido numa caldeira!" Eles sabem,
também, que seu senhor, se eles se deixarem derro-
tar um pouco, ou mesmo se prender, perdoará depres-
sa e pagará seu resgate, muito feliz por não os ver
passar para o serviço de um outro. Continua-se neces-
sário quando não se tem a imprudência de terminar
seu trabalho de uma só vez. O bom general sabia fu-
gir, alijado de seu correame. Isto lhe custaria, no má-
ximo, um triunfo às avessas e o aborrecimento de re-
tornar à cidade ridicularizado por meio de canções
bem-humoradas: "Arregala teus olhos! - Dilata teu
ventre! - Joga tua couraça e volta! - Ò bela barba!
ó bela barba! - Jogada tua couraça, eis que voltas! "
- "Os bois ainda têm pele! - e os rinocerontes abun-
dam! - Joguei minha couraça, e agora?" - "Sobra
pele, é verdade - mas onde encontrar o verniz ver-
melho(628)?" Depois de uma grande vitória, ao con-
trário, o chefe voltava à cidade entre os cantos orgu-
lhosos da pompa triunfal: " Nós subimos (elas são nos-
sas) em suas montanhas! - Eles não ficam (elas são
nossas) em suas colinas! - Nossas são as colinas!
nossos são os montes! - Eles não beberão mais
(elas são nossas) em suas fontes! - Nossas são as
fontes, nossos são os lagos (629)! " Na primeira fila de
dançarinos triunfantes, o general vencedor, neste dia
de glória, marchava ainda com o machado na mão.
O difícil era entregar o machado e não perder
a vida com o imperium. Tseu-wei (540) comanda por
conta de Tch'ou. Seu senhor permite-lhe, enquanto
durar seu cargo, vestir roupagens de príncipe e se
fazer guardar, como um senhor, por dois lanceiros.
Para impor a todos os países rivais a hegemonia de
Tch'ou este aparato não era supérfluo. Mas, diz um
diplomata estrangeiro: "Tseu-wei as obteve, por em-
préstimo, por algum tempo. Ele não as deixará mais."
E todos os chefes das outras regiões apressaram em
reconhecer sua superioridade, felizes em exaltar sua
fortuna, pois planejavam condená-lo a uma desgraça
terrível. Tseu-wei, com efeito, conservou seus dois lan-
ceiros. Ele suprimiu o príncipe, assassinou seus filhos
e tomou o poder para si: mas, depois de ter celebrado
triunfos excessivos, morreu na desgraça (630).
Uma alternativa impõe-se ao chefe de guerra
que procura muito êxito para suas armas: é preciso
que ele usurpe, senão morrerá. A desgraça segue o
triunfo se a rebelião não a impedir. Um general leal
e sábio evita as responsabilidades da vitória e divide
as da derrota: "Em lugar de assumirdes sozinho a
falta, vós a fareis dividir com vossos seis chefes de
legião: não será melhor assim (631)?" Tal é a fórmula
da moral e do espírito militar. Estes se formaram (e
em nada variaram) durante essas justas intermináveis
que constituíram os tempos feudais. Oficiais e chefes
detestam a guerra brutal e as vitórias descorteses,
para as quais é preciso empenhar o destino em apos-
tas muito decisivas. Eles preferem as belas alterna-
ções de paradas guerreiras e de tréguas armadas que
permitem que os prestígios se fundam e que os talen-
tos se paguem.

A batalha feudal (enquanto se desenrola com
Nobreza) é um ordálio suscetível de apelação. Sagrado
pelo êxito, o vencedor mantém em suas mãos, por um
momento, o destino do vencido. Este último, reco-
nhecendo-se culpado, pede então misericórdia, mas
com uma humildade provocante. Sua súplica, se for
perfeitamente humilde, sua confissão, se for comple-
ta, o reconhecimento de sua incapacidade, se for bri-
lhante, bastam, na justificativa de sua falta, para res-
tabelecer o equilíbrio dos destinos, pois, entregan-
do-se inteiramente ao senhor do momento, ele lhe pro-
põe, para o futuro, um desafio muito forte, uma aposta
na qual o parceiro tem todo interesse em diminuir o
que está em jogo. O vencedor toma cuidado de não
exigir senão uma compensação moderada. Ele mesmo
apressa-se em reparar o vencido, em reabilitar o
culpado.

Song é sitiada [593] por Tch'ou. Ela não espera
mais socorro. O inimigo toma disposições para acam-
par até a queda da praça. O melhor que se pode espe-
rar é uma rendição, ou, no máximo, um tratado jurado
(vergonha odiosa) sobre os próprios muros da cidade.
Saqueando o passado, destruindo o futuro, os sitia-
dos queimam os ossos de seus mortos e comem suas
crianças. Eles mandam dizer isto ao sitiador. Esta con-
fissão horrível de incapacidade não encoraja este últi-
mo: ela o apavora. O exército de Tch'ou recua trinta
estádios. Conclui-se uma paz honrosa (632). Depois de
dezessete dias de cerco [596], os habitantes de
Tcheng ficam sabendo, pela tartaruga, que seu único
recurso é abandonar sua cidade, depois de terem se
lamentado no Templo ancestral. O exército inimigo
retira-se vencido por este rito fúnebre. Os sitiados,
recuperando a esperança, recolocam a cidade na de-
fesa: o inimigo, desafiado, cerca-a de novo. Pouco de-
pois, consegue entrar. Tudo parece perdido. "O prín-
cipe de Tchen, com o busto nu (rito de luto), e puxando
um carneiro pela corda (na cerimônia do triunfo, quan-
do não se sacrificava o vencido, substituíam-no por
um carneiro) foi diante (do vencedor). Ele diz: "Não
tenho mais o Céu (a meu favor)! Não tive o dom de
vos servir (como vassalo), senhor! Eu vos fiz, senhor,
ter trabalho e cólera! Esta cólera atinge meu pobre
país! É minha culpa! Ousarei não aceitar vosso de-
creto (ming)? Se quiserdes enviar, a nós, vossos cati-
vos, para a beira do (Yang-tseu) Kiang e do mar (bani-
mento nas fronteiras incultas), obedeceremos a este
decreto! Se quiserdes nos distribuir como presa aos
feudatários, se quiserdes que (homens e mulheres)
sejamos (todos)reduzidos ao estado de domésticos
(servidão penal) obedeceremos a esse decreto! Mas,
se vos dignardes lembrar de velhos laços de amizade,
se desejardes uma parte da felicidade que podem con-
ceder nossos ancestrais reais e principescos [esta
felicidade (fou) será adquirida pelo consumo das car-
nes de sacrifício que ele poderá sempre enviar como
presente (tche-fou) se os sacrifícios aos Ancestrais
não forem interrompidos pela destruição do domínio],
se não destruirdes (reduzindo-os a pocilgas) nossos
altares do Solo e das Colheitas, se me transformardes
(comunicando-me, enfim, vossa Virtude) a ponto de
(eu ter o dom) de vos servir como vassalo, na mesma
categoria destes Bárbaros (onde soubestes fazer) nove
distritos (de vosso país), isto será (de vossa parte)
beneficência! Não é isto que ouso esperar! (Mas)
ouso abrir-vos meu coração! Senhor, vós decidireis!"
O príncipe de Tch'ou, vencido por esta confissão irre-
sistível ("Um senhor que sabe se humilhar é certa-
mente capaz de obter de seu povo um fidelidade to-
tal"), fez seu exército recuar trinta estádios e conce-
deu uma paz honrosa(633). Vitorioso, o exército de
Tcheng entra em Tch'en [547]. O Ministro da Guerra
leva imediatamente aos generais vencedores a baixe-
la sagrada dos Ancestrais. O Senhor de Tch'en usa
um turbante de luto e leva, em seus braços, a tabuleta
sagrada de seu deus do Solo. A gente de Tch'en, com
todas as posições misturadas, mas dividida em dois
grupos, homens e mulheres à parte, esperam, atados
antecipadamente como cativos. Os generais inimigos
apresentam-se. Um deles tomou o cuidado de se munir
de um laço; não era para prender os cativos, mas para
responder humilhação com humilhação. Ele saúda
ajoelhado e apresenta uma taça ao príncipe vencido:
é afirmar que sua vitória não terá uma conseqüência
diferente daquela dos arqueiros nas justas rituais do
tiro com o arco - estes torneios serviam para clãs-
sificar os méritos, mas preludiam regozijos comuni-
tários. Um outro general avança por sua vez. Ele se
limita a enumerar os cativos, reduzindo a tomada de
posse a um gesto simbólico e o triunfo a uma simples
afirmação de prestígio. Imediatamente, a gente de
Tch'en retoma suas atribuições e suas posições; o
deus do Solo, purificado pelos cuidados do invocador,
torna a ser o centro da pátria restaurada e reabili-
tada, enquanto o exército de Tcheng se retira - re-
vestido desta glória que é conferida pela moderação,
glória pura que não se envenena com o temor de uma
mudança da sorte. Seus generais não esgotaram de
uma só vez seu quinhão de felicidade. Sua proteção,
seu renome durarão por longos tempos, dizem-nos (634).
O triunfo completa a vitória. Ele a autentifica.

O vencedor marca um tento. Ele junta a seu ativo, além
da glória de ter absolvido, todos os despojos pelos
quais os vencidos pagaram sua derrota e sua absolvi-
ção. Estes despojos, cativos aprisionados durante a
batalha, reféns ou territórios anexados como garantia
do tratado, mulheres entregues para renovar aliança,
jóias ofertadas como dádivas para restaurar a amizade
têm um valor como troféus e um preço como presa
de guerra. Os vencedores, no momento da volta triun-
fal, dividem-nos proporcionalmente ao mérito adquiri-
do por cada um deles nas justas guerreiras.
Esta partilha torna-se ocasião de um torneio no
qual as rivalidades mostram-se com tanta evidência
quanto no campo de batalha. Quando um príncipe, para
glorificar suas armas, cria uma Ordem dos Corajosos
e que, apontando dois de seus guerreiros, diz: "Estes
são meus heróis (literalmente: meus machos, ou mais
precisamente, meus galos)! " um vassalo que se julga
privado injustamente desta honra, exclamará: "Se
esses dois fossem animais selvagens, eu comeria sua
carne! Eu me deitaria sobre sua pele (635)! " É a Virtude do senhor que fez e ganhou a guerra; é o senhor que
recolhe os troféus; mas ele deve, imediatamente, di-
vidir a glória, e a distribuição que faz, empenha, terri-
velmente, sua responsabilidade. O vassalo cujo qui-
nhão de honra e de ganho não o satisfaz, não tem,
contra seu senhor, senão uma arma e um recurso,
mas muito poderosos: ele pode amaldiçoar. Ele pode
mesmo, suicidando-se, ligar ao senhor triunfante uma
alma credora. Kie-tseu Tch'ouei, que o duque Wen de
Tsin esqueceu de recompensar, não faz nenhuma re-
clamação, mas utiliza a força dos cantos: " Um dragão
(o senhor) quer subir ao Céu! - Ele tem cinco ser.
pentes (cinco vassalos devotados) por sustentáculo.
- O dragão subiu às nuvens! - Somente quatro ser-
pentes encontram asilo! - A outra, sozinha e descon-
tente, nunca mais foi vista!" Depois disto, ele se re-
fugia num monte arborizado de onde o fogo não o
faz sair. Ele morre queimado, abraçando uma árvore.
Para expiar esta morte funesta que ameaçava ligar-se,
como uma mácula, a seu destino, o duque Wen foi
obrigado a dar a Kie-tseu Tch'ouei um feudo póstumo:
a montanha, onde ele morrera, foi-lhe consagrada, tan-
to para pagar seu devotamento passado, como para
desviar os malefícios futuros (636). Um vassalo que deseja ser pago, mas que pretende desfrutar efetivamen-
te da recompensa obtida, limitar-se-á a sugerir a seu
senhor que, se não recebeu seu favor, é porque sem
dúvida, merece uma punição (637). Pelo efeito das maldições coercitivas, como pelo das ameaças disfarçadas que são os pedidos de castigo, o senhor é obriga-
do a não conservar os benefícios da vitória, a não ser
uma glória pura e toda nua, sem vantagens materiais.
Ele consagra os troféus a seus antepassados, mas os
reparte entre os vassalos. Se ele tem uma virtude
bastante grosseira para querer efetivar seus sucessos
por anexações de território, ele procura sua perda,
pois as terras conquistadas irão aumentar os feudos
de seus vassalos. Estes, quando são ricos, são tenta-
dos a se rebelar. O príncipe feudal tem tanto ou mais
interesse do que seus seguidores em poupar os ven-
cidos. Um triunfo levado até o fim o arruinaria.
Para o senhor, o principal ou o único benefício
de uma campanha acha-se no fato de ele poder experi-
mentar seus vassalos. O triunfo dá-lhe ocasião de
punir aqueles cujo "coração é duplo" (638). Ele poupa,
menos facilmente do que aos vencidos, os chefes e
os guerreiros cuja fidelidade é equívoca. Pune aqueles
que perderam sua bandeira, os prisioneiros postos em
liberdade pelo inimigo (que também pode reabilitar
ou entregar à jurisdição de seus chefes de família),
os covardes que não souberam dar sua vida ao mesmo
tempo do que seus companheiros de equipagem e,
sobretudo, os homens de grande coragem, levados à
indisciplina - pelo menos, se eles receberam feri-
mentos que parecem colocá-los fora do serviço e dei-
xá-los sem defesa. A guerra "faz desaparecer os
homens turbulentos". Infeliz daquele que quiser supri-
mi-la! Ela tem, na verdade, um valor purificador, gra-
ças às execuções do triunfo (639).

Os grandes potentados que criaram na China
unidades provinciais é espécies de pequenas nações,
fizeram da guerra uma indústria. Chega-se ao fim do
período feudal. O príncipe guarda só para si os bene-
fícios materiais da guerra. Anexa os territórios a seu
próprio domínio. Anexa também as populações. Desde
então, o exército não tem mais nada do grupo feudal
que vai, com grande pompa e com um espírito religio-
so, empenhar-se num torneio. Os senhores do período
dos Reinos combatentes conduzem seus homens para
as fronteiras bárbaras, que eles tentam tomar. Diri-
gem, contra as tribos que vivem fora da lei chinesa,
guerras de conquista para as quais não têm mais valor
as velhas regras de batalha. Eles empreendem guerras
coloniais, guerras de civilização: eles fazem a verda-
deira guerra, inexpiável e rude. Incorporam os venci-
dos a seus exércitos, adotam suas táticas. A massa
de seus guerreiros não é mais constituída de cavalhei-
ros, mas de aventureiros, de assassinos assalariados,
de colonos. Seu exército, no qual se combate não mais
pela glória de fazer prisioneiros e pelo único benefício
dos resgates, mas para matar e para pilhar, parece um
exército nacional, quando marcha contra o exército de
um outro potentado, também criador de uma unidade
provincial. Na China primitiva, as lutas entre príncipes
pareciam ser conflitos de civilização, ocidente contra
oriente, sul contra norte. Entre os Reinos combatentes,
as campanhas são verdadeiras guerras, onde se cho.
cam, de maneira sanguinária, as inimizades de provín-
cias, de culturas, de raças, de técnicas.
Quando [540] quis conquistar as regiões dos
Jong das Montanhas, que combatiam a pé, Tsin aban-
donou o sistema de carros e organizou, para uma nova
tática, companhias de soldados de infantaria. Houve,
então, um guerreiro que preferiu a morte à desonra
de se deixar desmontar(640). Com este gentil-homem,
estavam abaladas a antiga ordem das batalhas feudais,
a própria nobreza e o próprio sistema feudal. Foi ainda
pior quando o senhor de Tchao [307], adotando, para
combatê-los, as táticas dos guerreiros da estepe, criou
um corpo de arqueiros a cavalo. Teve que lutar contra
uma resistência encarniçada de seus vassalos e de
seus parentes (641). Fato significativo, foi por uma sé-
rie de reformas feitas ao mesmo tempo que Ts'in (o
qual devia fundar o lmpério) criou um exército de sol-
dados de infantaria e de cavaleiros com equipamento
leve, modificou o sistema de posse das terras e, ces-
sando de distribuir feudos, estabeleceu uma hierarquia
militar fundada nos serviços prestados. Desta hierar-
quia, devia surgir uma nova nobreza(642). Começa,
então, o reinado dos técnicos, dos engenheiros mi-
litares ou dos professores de tática. Nesta época,
inventaram-se as máquinas de guerra (o sábio Mei-ti
deve uma boa parte de sua glória às invenções que
lhe são atribuídas). Aperfeiçoa-se a arte dos cercos,
onde se empregam a água, as catapultas, as torres
móveis. Imaginam-se inúmeras artimanhas de guerra,
e emboscadas (643). A guerra procura a destruição do
inimigo. Ts'in não convida os prisioneiros a pagar um
resgate que os reabilite: ele os executa. Matanças
imensas alimentam seu prestígio. A batalha não é
mais um torneio que enobrece. Somente conta o êxito.
Este surge como o resultado de uma arte mágica e
não como a consagração de um mérito religioso. O
maravilhoso substitui o épico nas narrativas milita-
res. O tom heróico é substituído pelo tom romanesco.
Uma moral do poder tende a encobrir a velha moral
da honra e da moderação.

Outrora, a guerra conferia a honra, mas, para
ser guerreiro, era preciso já ser honrado. Apenas um
homem adulto, na força de sua idade, tinha o direito
de pegar em armas. Aquele que, mesmo muito jovem,
fosse admitido numa batalha, tornava-se, por isto,
maior. Por outro lado, as crianças, os velhos, as mu-
lheres, todos aqueles que estavam maculados por
um luto, todos aqueles que, doentes, tinham um con-
tato impuro achavam-se excluídos do jogo de armas
e de suas conseqüências. Ninguém teria ousado ma-
tar um pestífero, levar ao cativeiro um velho, expor
a um contágio feminino esses troféus viris que são
as orelhas cortadas dos inimigos (644). Todo aquele que
não se podia ligar à vingança, também não poderia
sofrer ou se aproveitar dos torneios militares. Provas
preparatórias do tiro com o arco tinham o cuidado de
afastar os oficiais graduados de um domínio destruí.
do, os chefes de um exército derrotado, as pessoas
que, por adoção, tinham passado para uma família
estrangeira (645). O combate tinha o valor de uma pro-
va de pureza, limitada aos nobres e aos puros.
Pelo contrário, as guerras ambiciosas de civili-
zação não poupam ninguém: "Todos aqueles que têm
ou que conservam a força são nossos inimigos, sejam
eles velhos... Por que se abster de ferir novamente
aqueles cujo ferimento não é mortal (646)?" A guerra,
que visa à conquista, à anexação, não admite as velhas
leis dos encontros feudais: ela é tarefa útil, obra de
plebeu; ela repudia a arte do valor religioso, mas com
rendimento moderado, dos nobres soldados de outro-
ra (647). Entretanto, os velhos princípios da época dos
torneios acham-se enraizados na alma chinesa: eles
ali formam uma camada profunda que não desaparece
quando desaparece a nobreza feudal. Salvo quando se
encontra diante de Bárbaros estranhos à lei chinesa,
o chinês inspira-se num sentimento de honra em que
entram, numa confusão característica, um gosto pela
aposta e um espírito de moderação, ambos de quali-
dade singular. A todo instante, provoca-se á sorte,
com o cuidado, não obstante, de não exceder seu des-
tino. Porém, assim que é excedido, um desencadea-
mento furioso sucede a moderação. Sem transição, o
senso de honra, dos valores protocolares, do equilíbrio
com movimentos lentos, dá lugar, nesses casos extre-
mos, a um apetite de poder imediato, desordenado e
sem freio. Aquele que sai da regra condena-se a si
mesmo e age como um condenado que já perdeu tudo.

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