A Vida nos Campos

Os Chineses, desde os primeiros dias conhecidos de sua história, aparecem como um povo de agricultores. Sem dúvida, a criação de animais teve, outrora, mais importância do que em nossos dias, mas era da cultura de cereais que viviam os antigos Chineses e também, a seu lado, as populações que consideravam bárbaras. Certas pilhagens dos Ti (por exemplo, em 601) são explicadas pela seca que havia danificado suas colheitas (286).

Quando se visita, hoje, as regiões da velha China e se vê as culturas sucedendo-se em fileira, ao longo dos caminhos e dos canais, chega-se a pensar que, com seu clima relativamente regular e seu solo que parece rico, planaltos de limo ou planícies aluviais, em todas as épocas, convidaram os habitantes a viver como agricultores. Parece que sempre foi fácil instalar campos e casas em todos os pontos. Na verdade, a terra chinesa revelou sua fecundidade de cantão por cantão e ao preço de trabalhos heróicos.

As lendas autóctones falam de um tempo em que, ignorando a arte de semear e de plantar, os homens viviam no mato, penosamente. Nas altas regiões de loess, os silvados salpicavam a estepe. A vegetação era dura e alta. Os homens, antes de se estabelecerem, deviam "associar- se... para arrancar e destruir as ervas más que cobriam a terra; (eles deviam) cortar a coniza, a artemísia, a anserina, a calcítrapa" (287). Os camponeses conheciam o sacrifício que custam esses primeiros trabalhos. Eles gostavam de cantar os méritos dos ancestrais que haviam desbravado o país: "Em moitas espessas, os cardos! - foi preciso extirpar estes espinheiros! - Nossos ancestrais por que o fizeram? - para que plantássemos o painço (288)!" Não bastava arrotear só uma vez. Sobre este solo rico, as primeiras chuvas do equinócio da primavera, e, sobretudo, as grandes chuvas do meio do verão faziam pulular ervas daninhas e os insetos que devoravam ou sufocavam as colheitas... Eis as espigas e eis os grãos! - eis que eles estão duros! eis que eles amadurecem! - Nem falso sorgo, nem falso painço! – ali, tirai os vermes, os insetos - e ali, ainda, larvas e lagartas! - Que eles não estraguem, em nossos campos, os brotos! - pois o deus dos campos tem poder: - que ele os pegue e os jogue no fogo flamejante (289)!" O deus dos campos, Chen-nong (O Lavrador divino) que se invocava, dançando ao som de tamborins de terracota, para purificar as culturas, havia antigamente ensinado aos homens o uso da charrua e da enxada. Ele também os ensinara a bater as ervas com um chicote vermelho. Tinha o título de Soberano flamejante. O deus da agricultura era um deus do fogo (290).

Para desbravar as terras baixas, o fogo não era suficiente: era necessário o auxílio da água. Nas baixadas, quase sempre, as terras estavam saturadas de salitre, ou então, nelas cresciam matagais emaranhados de plantas espinhosas. "Os colonos deviam, primeiramente, queimar as ervas e os silvados, depois derramar água e plantar o arroz; as ervas e o arroz cresciam ao mesmo tempo; quando atingiam sete ou oito polegadas de altura, ceifava-se tudo; jogava-se água nova- mente; então as ervas morriam e o arroz crescia sozinho; é o que se chamava desbastar pelo fogo e mondar pela água (291)." Os mesmos processos foram empregados no primeiro século antes de nossa era, para preparar as vastas planícies pantanosas. Viu-se que empreendimentos tão grandes, durante muito tempo, foram considerados temerários. Para correr o risco, foi preciso esperar que Estados poderosos se organizassem. Antes de se aventurar no fundo dos vales e nas altas planícies, os antigos Chineses limitaram-se, aparentemente, a cultivar outeiros e eirados. Mas para formar os campos, para lutar contra os desabamentos das terras móveis, para construir os canais e os regos de drenagem, para limpá-los, para pô-los em ordem, era necessária uma mão-de-obra abundante, assim como hábitos de organização, de ajuda mútua, de trabalho em comum.

"Isto! tirai as ervas! Isto! arrancai as raízes! - que vossas charruas fendam a terra! - Milhares de pares ide mondando - lá em direção à baixada, em direção ao alto! - Eis o senhor e seu primogênito! - eis os filhos mais moços, as crianças, os ajudantes e os diaristas (292)!" Os rituais pretendem que os trabalhadores deviam se associar aos pares sob as ordens do senhor. Este, no começo do ano, presidia a organização do trabalho. Ele mandava reparar as bordas e os limites dos campos, reconhecer montanhas, colinas, outeiros, planícies e vales, decidir qual a cultura que convinha a cada terreno e em que lugares deviam ser semeados os cinco cereais... Quando os trabalhos dos campos são fixados de antemão, quando se regulou, primeiramente, o traçado de canais e dos limites, nada poderá perturbar os lavradores" (293). Também os hinos dinásticos atribuem aos Heróis-Fundadores esta ordenação do país que, parece, renovava-se no princípio de cada campanha. "Ele os exortou e os estabeleceu - aqui, à sua esquerda, e ali, à sua direita - fixando os limites e fixando as regras - fixando os canais e fixando os campos - partindo do oeste e indo para o leste - de todos os lados, abrangendo tudo (294)!" Os chefes feudais, sem dúvida, não presidiram o tempo todo aos trabalhos agrícolas, mas o preparo das terras, dura conquista sobre uma natureza poderosa e rebelde, exigiu dos Chineses um esforço contínuo, uma pertinácia ordenada que só seria possível com a existência de comunidades fortemente unidas, bastante vastas e solidamente instaladas.

Os camponeses habitavam em povoados ou em aldeias. Estes se alojavam em terras altas de onde dominavam as culturas. Eram os refúgios do inverno. Na primavera, os lavradores desciam e refaziam seus campos. Chegando o outono, e feitas as colheitas, eles voltavam para suas moradias e as preparavam para o inverno. "Vamos, meus lavradores! - nossos grãos estão recolhi- dos! - Subamos e voltemos para reparar as moradias! - durante o dia, cortemos os colmos - para trançá-los à tarde - depois sobre os tetos, rápido em cima! - chegando a primavera, é preciso semear (295)!" As choças, em lugares altos, estavam rodeadas de muros ou de cercas vivas. Não era preciso somente se precaver das inundações: deviam, ainda, prever assaltos e pilhagens. Em redor das pequenas ilhotas de cultura, que os esforços das primeiras comunidades camponesas tinham feito surgir, vagavam, nas florestas ou nos matagais dos pântanos, populações atrasadas ou bárbaras. Se já era necessário ser em grande número e se organizar para vencer a natureza, a defesa da colheita exigia também que as aglomerações fossem fortes. Quando as circunscrições apareceram e os camponeses tiveram senhores e protetores, o conjunto dos povoados espalhados em redor do burgo senhorial, último refúgio, achava-se cercado por um primeiro muro de defesa: território e arredores confundiam-se (296). Desde os primeiros dias da vida sedentária e da civilização camponesa, o trabalho agrícola, que exigia uma mão-de-obra considerável, fez-se num espaço restrito e, por assim dizer, em baluartes bloqueados. Talvez isto explique alguns traços antigos e permanentes da agricultura chinesa.

Os Chineses, à força de trabalho humano, obtêm grandes rendimentos de seus campos. Eles fazem colheitas variadas que cultivam como jardins. Mais do que a charrua, a enxada é seu principal instrumento. Atitudes idênticas poderiam convir a um povo que fizesse seu aprendizado agrícola em oásis. Para os Chineses, uma explicação deste gênero seria bem tentadora, se o fato do Turquestão ter sido seu primeiro habitat não fosse uma simples hipótese. Pode-se mesmo dispensá-la se se lembrar que os documentos atestam, para a antiguidade, a predominância de um povoamento por aglomerações relativamente poderosas. Em razão mesmo das condições difíceis do preparo do solo, a vida agrícola teve, desde o princípio, uma espécie de caráter urbano. Obrigados a tirar de terras restritas, que haviam conquistado da natureza e que defendiam contra os Bárbaros, todos os produtos necessários à vida de um grande agrupamento, os camponeses chineses adotaram os métodos da cultura hortense. A cultura do painço e do arroz nunca se faz à maneira das grandes culturas. Ela se faz, não em grandes campos, mas em quadrados (297).

Existe, atualmente, na China, uma certa tendência à especialização de culturas por regiões apropriadas. Nos tempos antigos, cada cantão procurava produzir tudo. Em todos os lugares o painço, próprio dos terrenos secos, avizinhava- se do arroz, que exige abundância de água. A distribuição das culturas em redor das terras altas habitadas não dependia unicamente das conveniências de cada uma delas, mas do preço que lhes era atribuído. As mais preciosas eram feitas perto das casas. Ao lado da horta que, quando a estação terminava, era revolvida a fim de servir de eira, encontravam-se pomares, ricos, sobretudo, em amoreiras, depois os primeiros campos, reservados às plantas têxteis, principalmente, ao cânhamo. Ali era o domínio das mulheres, das tecelãs. Os tecidos que produziam cânhamo ou seda, constituíam a principal riqueza e serviam de moeda. Abaixo estavam as culturas masculinas, principalmente os campos destinados aos legumes secos, depois os campos de cereais e, mais além, nas baixadas conquistadas pela drenagem e pela irrigação, limitados por elevações e por canais, os quadrados de terra reservados ao arroz.

Para serem completas, as explorações se dispunham em elevações. A subsistência do grupo não estava assegurada se as culturas de cada andar não tivessem produzido tudo. "Aos campos do alto, os cestos cheios! - aos campos de baixo, carros repletos! - Todas colheitas, prosperai! Abundância! abundância! casas repletas (299)!" Para dirigir bem as diversas culturas, era necessário praticar a divisão do trabalho e adotar uma espécie de nomadismo limitado. As tecelãs nunca deixavam a aldeia e seus pomares, mas os lavra- dores deviam passar todos os dias úteis nos campos de cereais. Tinham cabanas onde dormiam, fiscalizando constantemente suas colheitas. Do alvorecer à tarde, eles trabalhavam duramente: "O sol nasceu: levantemos! - Ele se põe: vamos repousar! - Cava teu poço, se queres beber! - Trabalha, se queres comer (300)!" Eles trabalhavam em fileiras apertadas: "Os chapéus de bambu agitam-se! - todas as enxadas escavam a terra - para arrancar a erva daninha (301)!" O único mo- mento bom era o das refeições. Crianças e mulheres traziam-nas em cestas. "Com grande barulho, ei-los que comem - e eles fazem festa a suas esposas!"

Eles se regalavam com um mingau feito de painço. o painço era um deus. Ele fornecia o essencial da alimentação. Era considerado o primeiro dos cereais. Fato interessante de se notar (302), o painço, segundo Mencius, era o único cereal conhecido pelos Bárbaros do norte da China (303).

Os Chineses cultivavam várias espécies: uma delas, o painço glutinoso, servia principalmente, para fazer um licor fermentado. Cultivavam, também, diversas variedades de arroz e o arroz glutinoso era empregado para produzir uma qualidade de vinho. O trigo e a cevada tinham, sem dúvida, uma importância menor, embora se exclame, numa oração dirigida aos deuses das colheitas (Heou Tsi: o Príncipe Painço):.. Dá-los o frumento e a cevada (304)!" Deve-se notar que, na nomenclatura, cevada e trigo são pouco diferenciados. Os Chineses nunca fizeram caso da cevada. Parece que o uso principal da farinha de trigo era fornecer o levedo destinado a provocar a fermentação do arroz e do painço (305). Estes eram postos para fermentar sozinhos ou misturados. O vinho mais apreciado era feito com uma parte de painço negro e duas partes de arroz. A preparação fazia-se em vasos de argila, onde os grãos misturados com a água eram aquecidos em fogo bem regulado (306). Certas plantas aromáticas, especialmente uma espécie de pimenta, serviam para perfumar o licor que se filtrava com a ajuda de feixes de grama. Preparado no inverno, começavam-no a beber na primavera. Sabia-se, também, fabricar um vinagre de cereais empregado para fazer conservas. Os grãos reservados para a alimentação eram esmagados em almofadas, lavados e cozidos no vapor (308). Talvez preparassem também espécies de bolos, além dos mingaus. Como legumes frescos, comiam-se diferentes tipos de pepinos e de abóboras. Condimentos vários - alho, cebola, mostarda - serviam para temperar; certas ervas e certas plantas, malvas, sempre-noivas, perfumavam os caldos (309). O molho principal era feito de feijões macerados e fermenta- dos: eram feijões do tipo da soja, cujas hastes longas “flutuavam ao vento como bandeiras" (310). Sem dúvida, o queijo de feijão é também uma iguaria antiga. Em todo caso, os legumes secos e as ervilhas de diversos tamanhos desempenhavam um papel importante na alimentação. Conservavam-nos em sacos fáceis de transportar (311).

Eles serviam de alimentos de reserva, utilizados nos deslocamentos. Talvez seu papel tivesse sido de grande importância nos tempos em que as populações chinesas viviam desbravando um canto do país, depois outro, e não estavam completamente fixas. Assim também se deslocavam os Bárbaros do norte e do oeste, por volta de 568 (312).

A antiguidade relativa da vida sedentária parece atestada pela existência de pomares onde se sabia cultivar uma grande variedade de árvores: pessegueiros, abricoteiros, cerejeiras, pereiras, marmeleiros, castanheiras, ameixeiras e jujubeiras. As ameixas, as jujubas e as castanhas serviam para fazer preparados culinários. Comiam-se também os frutos de uma espécie de vinha selvagem (313) e os de inúmeras plantas aquáticas ou da montanha. A árvore mais útil de todas era a amoreira. Aparavam-na com cuidado... Cortam-se, com a machadinha, os ramos que se separam ou sobem muito; nas amoreiras novas, não se arrancam senão as folhas (314)." As folhas eram dadas aos bichos da seda, criados em cestinhos feitos de caniços ou de juncos. .. É a primavera, os dias se aquecem, - eis que canta o verdelhão! - as moças com suas cestas - vão ao longo dos pequenos atalhos, - apanhar nas amoreiras a folha tenra (315)." Cultivam-se várias espécies de amoreiras e, também, diversos tipos de cânhamo. Os trabalhos de tecelagem, começados no outono, duravam todo o inverno (316). Os panos de cânhamo, prontos na primavera, serviam para a estação quente, assim como os calçados feitos com fibras de cânhamo ou de dólico. A seda, mais quente e mais preciosa, servia, sobretudo, para os velhos. A maceração fazia-se em fossas na proximidade das habitações. As tecelãs conheciam, também, a arte de preparar e tecer as urtigas e os juncos. As vestimentas arcaicas, que serviam, ainda nos tempos clássicos, para vestir a efígie do morto, eram feitas de uma esteira de caniços, mantida por um cinto de bambu (317). (Os Jong (Bárbaros do oeste) vestiam-se [557] com um casaco de palha e traziam um chapéu de sarça (318).) A tradição diz que, antes de Houang-ti, os Chineses vestiam-se com uma roupa curta de pele. (Foi a mulher de Houang-ti quem ensinou a arte de criar os bichos-da-seda) (319). Os Chineses usaram, em seguida, uma roupa feita de duas peças, túnica e saiote, tecida com seda ou cânhamo (320). Na cabeça, colocavam uma espécie de boné ou de turbante (321). Para lutar contra o frio, punham diversas vestimentas sobrepostas. Eles sabiam tingir as fazendas e preferiam as cores vivas (322). Cultivavam diversas plantas tintoriais, sobretudo a garança e o anileiro. As tecelãs fabricavam tecidos de uma só cor e outros de ramagens. Estes eram reservados para as vestimentas de festa ou de casamento... Com saia florida, tom saia simples - com roupa florida, com roupa simples - vamos, senhores! vamos, senhores! - levai-me para vossa casa de carro (323)!"

Nada mais simples do que as casas dos camponeses. Nos tempos históricos, muitos Chineses viviam como trogloditas. Moravam nos flancos dos planaltos de loess, em grutas em forma de fornos (324). As cabanas dos campos eram feitas de ramagens. Uma tradição pretende que os Chineses, quando ainda viviam no mato, aninhavam-se nos ramos das árvores (325). A cabana de luto, que, sem dúvida, reproduz uma forma arcaica de habitação, era uma espécie de telheiro feito de galhos escorados por algumas estacas (326). À medida em que o luto se tornava mais leve, tapavam-se as fendas com palha e com caniços, depois se rebocava a cabana com greda, primeiramente no interior, a seguir no exterior; a porta, no princípio, ficava inteiramente aberta, mas era cercada por uma paliçada de caniços (327). Este tipo de casa arcaica. aperfeiçoada pouco a pouco, foi, sem dúvida, muito divulgada entre os lavradores dos eirados de loess. Eles viviam como cliff-dwellers. Nas aldeias construídas sobre elevações, as casas parecem ter tido a forma de pequenos cubos cobertos de colmo. O telhado era tão leve que um pardal podia furá-lo com seu bico. Os ratos podiam perfurar as paredes (328). Feitas com barro amassado, palha cortada e taipa, elas eram muito frágeis; o calor as fendia, a chuva as escavava. As plantas trepadeiras invadiam paredes e telhados, que as colocíntidas ameaçavam derrubar. No início de cada inverno, era necessário tornar a tapar as fendas com palha. O chão era feito de terra batida e era molhado com freqüência. O mobiliário reduzia-se a pouca coisa. Na cabana de luto, dormia-se primeiramente sobre a palha, com um torrão de terra servindo de travesseiro; no fim do luto, tinha-se direito a uma cama de juncos não trançados, depois a uma esteira (329). Os ritos deixam entrever, sem dúvida. a história do mobiliário, como a da casa. A cama mais aperfeiçoada a que se chegou era feita de esteiras de junco sobrepostas. Certas esteiras eram decoradas com desenhos. As pessoas ricas usavam um travesseiro de chifre e possuíam cobertas de seda florida. Durante o dia, a cama devia ser enrolada. como em nossos dias, e se sentava sobre esteiras para comer, com as costas apoiadas num banco. A lareira era feita de pedras unidas; a fumaça escapava por um buraco central, por onde a chuva caía num escoadouro. Reduzida a uma peça única, a casa era escura, iluminada apenas por uma janela e por uma porta estreita abertas para a face sul, a primeira a oeste, a outra a leste. Portas e janelas eram feitas com espinhos ou ramos de amoreira entrelaçados; a janela, muitas vezes, era uma cavidade redonda, feita com um gargalo de cântaro quebrado (330). Embaixo da janela, no canto sudeste, o pior iluminado, eram conservadas as sementes e se erguia o leito conjugal (331). Era o lugar mais santo da casa. Mas tudo nesta humilde moradia era sagrado; a lareira, o escoadouro central, a porta perto da qual se amontoava o lixo. Este só era retirado com precaução, no tempo das grandes festas da renovação do ano, pois ali residia um deus que dava a fortuna. Ele se chamava Trovão-raio. Os mochos, animais temidos pelo Trovão, estavam em relação com as portas. Talvez fixassem corpos de corujas em cima delas, como saquinhos de ervas protetoras, colhidas no meio do verão. Não se passava pela porta sem um terror religioso: "Quando saíres, sê circunspeto! - Quando entrares, tem receio (332)!" Atravessando o umbral, devia-se evitar de ali pousar o pé e abaixar os olhos. Antes de entrar, era preciso retirar os calçados (333). O respeito não era menor em relação à lareira e aos poços: "A água da fonte abunda, abunda! - vem um tempo seco, ela estanca! - Para apanhá-la é preciso uma regra - e, para usá-la. bom senso (334)!"

A água era a grande preocupação dos camponeses chineses. O capital de suas explorações era muito reduzido. Eles possuíam poucos instrumentos: machadinhas, foices pequenas, enxadas e charruas frágeis, com uma relha feita em madeira talhada e com um varal tirado de um galho retorcido. Faltava-lhes o gado grosso e quase todo o trabalho era feito pelo braço do homem, mesmo os transportes, para os quais, se bem que soubessem empregar os carros, usavam, principalmente, cestas e alcofas (335). Criavam-se alguns animais: galinhas e porcos, e também cães de guarda que, em rigor, podiam ser comidos. A caça, feita com redes, e a pesca, com linha ou com nassas, forneciam um suplemento de recursos. Mas a vida nestes agrupamentos isolados dependia, principalmente, da regularidade das chuvas sucessivas, que asseguravam o bom êxito das colheitas de grãos e de ervilhas. Os camponeses não construíam celeiros nem faziam provisões de um ano para outro. Eles estavam ameaçados pela fome. Só podiam evitá-la à força do trabalho e da ciência agrícola. Era admirável a variedade de suas culturas, admirável, seu conhecimento das estações. Os trabalhos eram regulados com o auxílio de adágios onde a sabedoria rústica tinha consignado observações precisas sobre os hábitos da natureza (336). O ano agrícola começava no primeiro mês da primavera, logo que os animais hibernantes começavam a mover-se e que os peixes deixavam-se perceber, subindo até o gelo adelgaçado pelo vento leste; preparava-se, então, as charruas e os lavradores associavam-se aos pares. No segundo mês, as andorinhas que voltavam, marcavam o equinócio, os pessegueiros floresciam, o verdelhão cantava; sabia-se então, que as primeiras chuvas se aproximavam: imediatamente se ia lavrar e semear. O arco-íris reaparecia, o trovão rugia de novo, milhares de insetos surgiam da terra, a pega descia nas amoreiras: era tempo de preparar os cestos para o bicho-da-seda. As serralhas em flor marcavam o primeiro mês do verão e faziam prever os grandes calores que amadurecem o painço: temia-se, ao mesmo tempo, a seca e as grandes tempestades. Chegava-se em pleno verão quando as cigarras cantavam e quando apareciam as flores de cerejeira. Nas ervas ressecadas, e depois apodrecidas pelo calor e pelas chuvas pesadas de verão que acabava, apareciam os pirilampos: estava-se no primeiro mês do outono, quando se apressavam para colher as plantas tintoriais. Os pássaros migratórios reuniam-se para a partida, o grilo cantava nas proximidades das casas: o tempo das grandes colheitas chegara. Era preciso colher e bater o grão, antes que a geada se depositasse sobre as plantas dos campos. No último mês de outono, quando caíam as folhas mortas, apressava-se em fazer carvão de madeira: era preciso voltar aos povoados para ali passar a estação morta. No décimo mês. o ano agrícola terminava. A terra endurecida pelo frio seco não aceitava mais o trabalho humano e deixava de ser fecunda. Na época em que se redigiram os rituais. as observações camponesas serviram para ilustrar calendários sábios. com base na astronomia. Eram apresentados como uma emanação da sabedoria do príncipe. Admitia-se. Mesmo que "a feliz ventura dos lavradores" era um efeito da virtude senhorial.

Admitia-se, ainda, que os lavradores eram simples rendeiros pois a terra, desde sua origem, pertencia a seu senhor. Nada é mais obscuro do que os raros documentos que possuímos sobre as formas antigas da apropriação do solo: eles foram obscurecidos, sem nenhum motivo, pela erudição autóctone [331]. Uma tradição remontando pelo menos a Mencius (séculos IV e III a.C.) pretende que durante toda a antiguidade os campos tinham sido divididos uniformemente pelo Estado entre os lavradores. Eles teriam tido a forma de quadrados subdivididos em nove quadrados menores (campos em forma de tsing); oito famílias cultivavam juntas em benefício do senhor o quadrado central (sistema tchou, praticado sob os Yin) ou revertendo ao tesouro do príncipe a nona parte do produto total (sistema tch'e, praticado sob os Tcheou). A erudição moderna tende a admitir que as terras de cada região eram divididas entre o senhor (Kong t'ien, domínio público) e os nobres (Sseu t'ien, domínios patrimoniais ou, antes, terras separadas do domínio público). Os camponeses não eram mais do que rendeiros ligados às terras por uma espécie de servidão. Quanto à distribuição periódica das terras por famílias e em porções iguais, isto seria uma utopia administrativa imaginada na época dos Han ou datando, mais ou menos, do período dos Reinos Combatentes. Viu-se que os primeiros grandes Estados, e sobretudo os imperadores, trabalharam ativamente para a colonização do país, criando e povoando novas terras. Estes imensos trabalhos de preparação completaram-se por uma repartição administrativa das terras. É possível que a idéia do sistema tsing não corresponda senão a uma utopia histórica e que tenha nascido de uma transposição do presente no passado. É possível também que os primeiros e os mais modestos trabalhos de preparação da terra que, feitos com meios pobres deviam ser retomados quase que inteiramente em cada campanha, tivessem levado os camponeses, outrora, a proceder, por eles próprios, a uma divisão periódica dos campos criados por um esforço comum. Sob o regime feudal, os lavradores eram, sem dúvida, considera- dos simples rendeiros e acessórios dos bens de raiz. Se eles pertenciam indivisamente à terra, no início, aparentemente, a terra pertencia indivisa- mente às comunidades por eles formadas. A grande reforma dos Ts'in que devia, sob os Han, resultar numa terrível crise agrária, consistia, sobretudo, em romper a ligação estreita que havia entre o homem e o solo.

Esta ligação estreita, no tempo das comunidades camponesas, traduzia-se por um sentimento glorioso de autoctonia. "Eis que nossas charruas estão afiadas - primeiramente ao trabalho nos campos do sul!" "Semeemos os grãos de todas as sementeiras! - dentro deles está a vida!. . . - Ora, ceifemos em multidão, em multidão! - Que abundância na colheita! - Milhares, bilhões, quatrilhões! - Façamos o vinho, façamos o mosto! - Serão oferendas aos antepassados - para cerimônias perfeitas! - Como tem sabor este aroma! - É a glória da província! - Como é agradável este perfume! - É o reconforto dos velhos! - Não é a única vez que é como esta vez! - Não é só hoje como é hoje! - Entre nossos mais velhos anciãos já era assim (338)!" À veneração que inspiravam os grãos fecundos e a terra nutritiva juntava-se uma nobre confiança na perenidade da raça solidamente estabeleci da sobre um solo enfim conquistado. Mas, ao orgulho camponês mesclava-se a lembrança das horas de duro labor, o sentimento da fuga dos dias, o temor das estações desigualmente prósperas. E tudo se transformava numa emoção religiosa onde dominavam as idéias de moderação e de medida: "O grilo está na sala - as carroças arreadas! - Então, por que não há festas?.. - Os dias e os meses se vão! - No entanto, guardemos a medida - e sonhemos com os dias de sofrimento! - amemos a alegria sem loucura - um homem corajoso é moderado! (339)."

Um comentário:

Sara disse...

é sempre bom conhecer novas culturas, espero que em algum momento eu tenho a possibilidade de comer um pouco de sua comida muito, porque eu realmente gosto de sushi, então talvez ir com minha família para kosushi