Vida dos Camponeses (03)

III - As festas das colheitas e a estação morta

As justas de cantos de amor realizavam-se em pleno campo. Elas eram o rito principal das festas federais, onde se restaurava a concórdia camponesa. Nessas reuniões campestres, todos os agrupamentos, sexuais ou territoriais, esquecendo seu espírito particularista, afirmavam sua solidariedade, graças a comunhões sexuais. As festas tinham um aspecto de feiras. As trocas de presentes acompanhavam o comércio de pessoas. As justas de cantos completavam-se com uma justa de presentes. "Aquele que me dá marmelos - eu o pagarei com meus berloques! - Não será um pagamento - eu o amarei para sempre (376)! "

Trocam-se os versos como as dádivas, mas a ladainha de amor tem o ritmo de um lamento sapateado: ela adormece o espírito agressivo. Pelo contrário, é um ritmo precipitado que regula a troca de presentes materiais: dá-se mais do que se recebeu, pois se quer obrigar a dar mais. O valor dos presentes aumenta, como também a excitação daqueles que os oferecem. Ela pode se transformar numa emoção comunitária se tudo, no fim, torna-se indivisível ou é consumido numa orgia comum: "Por que dizes que não tens roupa? - Contigo eu coloco as minhas em comum (377) ", tal é a fórmula (conjugal ou militar) de uma união absoluta. Com efeito, as festas das estações visavam obter uma união deste gênero. Mas, feitas com espírito de usura, as disputas de dádivas podem servir menos para a manutenção de um equilíbrio tradicional do que para o êxito do espírito particularista.

O ano agrícola termina com festas de aldeia, onde os trabalhadores celebram, entre homens, a sorte de sua região. Nestes divertimentos, as justas de presentes têm uma importância extrema. Estas festas de aldeia são festas da colheita. Elas coincidem com a volta dos homens ao lugarejo. Festas masculinas, sua importância data, sem dúvida, da época em que os maridos cessaram de ser unicamente genros e em que o casamento se fazia, freqüentemente, pela anexação das mulheres. As tecelãs perderam, então, sua primazia sobre os lavradores. Esta revolução coincide, aparentemente, com uma mais-valia tomada, na economia geral, pela cultura dos ce- reais. É impossível que estes fatos estejam liga- dos ao progresso dos trabalhos de desbravamento, os quais trouxeram, com um povoamento mais denso, a formação de aglomerações mais poderosas e uma complexidade maior de agrupamentos territoriais. Neste novo meio mais propício à concorrência, desenvolveram as instituições agnatícias.

Feitas as colheitas, os trabalhadores reuniam-se para passar a estação morta. As casas, na aldeia, continuaram a ser coisas femininas, mesmo quando as mulheres tornavam-se noras, mas os homens possuíam uma casa em comum. Os rituais ainda conservam sua lembrança. Era ali que os maridos deviam ficar enquanto suas mulheres davam à luz. As velhas proibições sexuais, mesmo nos tempos clássicos, reencontravam toda sua força durante os três meses que precediam o parto e os três meses que o seguiam (378). A antiga organização da aldeia retomava, então, todos os seus direitos. Diversas reminiscências e alguns traços mitológicos atestam a importância desta casa dos homens que era seu refúgio hibernal. Era nesta casa comum que os homens tomavam confiança em sua força. Esta confiança resultou na afirmação dos privilégios masculinos.

Reunidos durante longos dias de inação, os lavradores celebravam festas, das quais derivam duas cerimônias clássicas: o Grande No e os Pa Tcha. Uma inaugura e outra termina a estação morta, período à margem entre dois anos agrícolas. Todas as duas procuravam se aproximar do solstício. Empobrecidas e esquematizadas, ligadas a datas astronômicas, elas perderam sua coesão e seu valor primitivo. Foram, no início. festas associadas. Relacionadas com o fim do gelo e do degelo, elas marcavam os dois grandes momentos de uma liturgia hibernal. .. Eis que chega o segundo mês: rompe o gelo! bate! bate! - E depois é o terceiro mês: ponha-o na geleira, na sombra! - Quarto mês: levantai-vos cedo! - Matai cordeiros, oferecei alhos-porros! - Nono mês: geada e frio! - Décimo: uma eira limpa e dura! - e dois cântaros onde o vinho tem bom gosto! - Cantai: 'Matai cordeiros, carneiros!' A casa comum, ide! - e, taças de chifre levantadas, - Vida sem fim! e dez mil anos (379)!"

Nas vastas planícies da China clássica, a terra, adormecida pelo frio seco do inverno, não aceita mais o trabalho humano. Os camponeses chineses julgavam-na, então, sagrada. Descansando, eles concediam o repouso a "todas as coisas". Eles começavam inaugurando uma estação de recolhimento universal. Cantavam: "Terras! voltai a vossos lugares! - Águas! retornai a vos- sos abismos! - Insetos de verão! não vos movais mais! - Árvores! Plantas! retornai a vossos charcos (380)!" Compreende-se, facilmente, esta inovação da parte de pobres agricultores obrigados a refazer, cada ano, os campos retomados por uma natureza rebelde. Eles se explicavam esta retoma- da como uma volta e uma retirada. Agrupados por espécies, todos os seres voltavam a morar num refúgio hibernal. "A água começa a se congelar, a terra a se gelar... O arco-íris esconde-se e não aparece mais... O Céu e a Terra não se comunicam mais. O inverno está estabelecido... Velai sobre as pontes, as barreiras! Fechai os caminhos, os atalhos!... Não descubrais nada que estiver coberto! Não abrais casas nem construções... Que tudo esteja cerrado e tudo fechado!... As emanações da Terra poderiam escapar e se dissipar!... Os animais hibernantes poderiam morrer (381)!" Quando os animais hibernantes se fecham em seus retiros, os homens se fecham também para ajudar o recolhimento universal. "Se um camponês ainda não fez e não guardou suas colheitas, se um cavalo, um boi, um animal doméstico é largado ao abandono, quem se apoderar deles não faz nada de errado (382)." O direito de propriedade não se exerce mais à distância, ou melhor, quando o inverno coloca como que a barreira de um divórcio entre o trabalho humano e a terra, cada espécie se encontra fora do alcance de todas as outras. Todo contato estranho é vedado. Há, então, um desterro universal, uma dispersão geral, uma ruptura de toda vida de relação. Em compensação, entre seres da mesma essência e que podem ficar juntos, a aproximação aumenta. Encerrados por categorias, seres humanos e coisas dedicam-se, em seu retiro, a reconstituir seus gênios específicos. Restaurando-se junto aos seus, eles se enchem de forças que permitirão, com a chegada da primavera e a retirada do caráter sagrado, uma retomada geral de contato. Então, oferecendo alhos-porros, cordeiros, um boi preto, despede-se do gênio do frio; quebrando-se o gelo, pode-se "levantar as barreiras que se opõem ao reinado do calor" e provocam o granizo e o raio; pode-se afugentar os gênios da seca e, depois de uma primeira lavradura ritual, abrir de novo a terra rejuvenescida pelo repouso (383).

As festas da estação do inverno tinham um caráter dramático. Nelas reinava uma extrema excitação. Mesmo no tempo de Confúcio, os participantes (segundo uma testemunha) ficavam todos, como loucos" (entenda-se que eles se sentiam animados de um espírito divino). Os exorcistas desempenhavam um papel importante: eles recebiam, precisamente, o nome de "loucos". Danças, executadas ao som de tamborins de argila, provocavam estados de êxtase. A embriaguez as completava. Os exorcistas traziam despojos de animais. Executavam-se danças animalescas (384). Os lavradores disfarçavam-se em gatos e em leopardos. Eles agradeciam estes inimigos dos ratos-dos-campos e dos javalis, esperando atraí-los para a próxima estação. Cantavam os trabalhos e os dias do ano findo. Felicitavam-se pelo acordo constante de seus trabalhos com o calendário rural: queriam renovar este acordo frutífero das estações e das obras humanas e pensavam em obrigar a Natureza a continuar com sua colaboração. Bebendo e comendo, apressavam-se em consumir suas colheitas: as messes futuras não deixariam de ser belas. Eles disputavam para ver quem iria despender seus bens com mais ardor. Todos eles apostavam no futuro: quem apostasse mais, dando o maior penhor, achava que iria obter do destino uma remuneração melhor, um rendimento maior dos trabalhos futuros (385). As justas de esbanjamento misturavam-se as justas de palavrórios (386). Os clamores dos letrados da aldeia não adiantaram nada. Durante séculos, estes concursos ruinosos persistiram, escandalosos como os estados de loucura que os acompanhavam. Eles mereciam, talvez, ser julgados severamente quando se aprendeu a prever de um ano para outro e quando surgiram celeiros, provisões, uma economia bem calculada. Foram, entretanto, gastos úteis ao primeiro chefe, estas orgias nas quais os lavradores, convidando-se, uns aos outros, a ter confiança em sua arte, sobrepujavam virilmente a tristeza dos dias infecundos do inverno.

Reunidos na casa comum, eles pensavam se opor, como um contrapeso maciço, às forças de dispersão que acometiam, então, o mundo; nestas, os filósofos de todos os tempos souberam reconhecer uma natureza feminina (yin). Os homens trabalhavam para fixar o ritmo alternado das estações. Eles o conseguiam somente com suas forças, mas graças às justas. As mulheres eram excluídas. No entanto, uma disposição antitética presidia a todas as orgias masculinas. A eficácia das cerimônias parecia derivar da oposição dos celebrantes, frente a frente, e da alternância dos gestos. Ali devia ficar um grupo de hospedeiros, aqui, um grupo de convidados. Se uns representavam o sol, o calor, o verão, o princípio yang, os outros figuravam a lua, o frio, o inverno, o princípio yin. Antes de se comunicar, eles deviam se defrontar, alternando como as estações, para que, alternando também, as estações trouxessem a todos a prosperidade. As estações eram concebidas como pertencendo a um ou a outro sexo. Os atores, entretanto, eram todos homens. Mas (sabe-se por um caso preciso) quando os grupos de dança se defrontavam, um era composto por rapazes e o outro por homens maduros. Estas justas punham em presença, uns dos outros, não os delegados de sexos concorrentes, mas os representantes de classes de idade respeitadas de modo diferente. Os lugares, nos banquetes e nos festins, eram dados segundo a idade (literalmente: de acordo com os dentes, isto é, aparentemente, de acordo com as promoções). Os anciãos presidiam (387).

As festas de inverno consistiam numa longa disputa de gastos, favoráveis à constituição de uma hierarquia masculina. A evolução ritual atesta a importância que tiveram os anciãos. É a eles que se reserva o primeiro papel na festa aldeã dos Pa Tcha, onde se inaugura a liturgia hibernal. Eles são encarregados de convidar a natureza e os homens para o recolhimento que prepara a primavera. Os velhos dão, "às coisas envelhecidas", o sinal do repouso. Com vestimentas de luto e bastões na mão, eles conduzem o ano a seu fim. É por uma festa da velhice que se constitui a estação morta.

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