Vida dos Camponeses (02)

II - As justas das estações

Proibições, modeladas nas condições do clima e do habitat, têm por finalidade principal consagrar aos trabalhos dos homens e das mulheres, tempos e lugares onde eles possam ser realizados ao abrigo de toda contaminação. Um ritmo das estações comanda esta organização. Homens e mulheres revezam-se no serviço, mas ambos mudam juntos de gênero de vida.
Eles o mudam no princípio e no fim do ano agrícola. Estes são, nas planícies da velha China, dois momentos bem marcantes. O clima é continental e o ritmo alternado das estações tem qual- quer coisa de impressionante. Ambos breves, entre o frio rigoroso e seco do inverno e a quente umidade estival, a primavera e o outono, com suas chuvas leves e seu céu inconstante, são como dois instantes maravilhosos: a natureza, de repente, começa ou pára de viver. Floradas súbitas e a queda rápida das folhas, os retornos ou as partidas em massa dos pássaros migratórios, a brusca pululação, o brusco desaparecimento dos insetos, assinalando, sucessivamente, nos campos, o despertar patético da vida e seu fim sinistro, formam uma espécie de quadro dramático para as alterações que os camponeses chineses se impõem de acordo com o céu. Eles modificam seus hábitos, também de repente. Esquecendo as proibições cotidianas na confusão do momento, eles sentem, então, a necessidade tanto de ajudar a natureza como de cooperar entre si. Quando quiseram criar uma teoria do amor, os filósofos chineses explicaram que as moças, na primavera, sentiam a atração dos rapazes e estes, no outono, a atração das moças, como se cada um deles, sentindo, por sua vez, sua natureza incompleta, fosse tomado, de repente, por um desejo irresistível de completá-la (364). A primavera era a época dos esponsais, que antigamente se realizavam pela iniciativa das moças. O outono era o tempo da entrada na vida em comum: a mulher, bem cedo, devia vir morar com seu marido (365). No outono, os lavradores enriqueciam-se com grãos recolhidos para passar o inverno, mas as mulheres, na primavera, possuíam, em abundância, as fazendas recentemente tecidas: riqueza mais preciosa ainda. As tecelãs tinham, inicialmente, com que atrair os lavradores, mas estes, por sua vez, tinham com que agradar as tecelãs. Todos, alternadamente, tinham seu atrativo e podiam realizar seus desejos.

Ao invés de se evitar então, como o faziam no decorrer dos dias, eles se procuravam. "Que não se fie mais o cânhamo! - Ao mercado, vai, dança, dança!" "Folhas murchas! folhas murchas! - o vento vem soprar sobre vós! - Vamos, senhores! vamos, senhores! - cantai, nós nos reuniremos a vós (366)." No outono, na primavera, uma vez terminados os trabalhos dos campos ou os de tecelagem, realizavam-se grandes reuniões em pleno campo, onde se encontravam os rapazes e as moças das aldeias vizinhas. O inverno iria encerrar cada família em sua aldeia isolada e o verão obrigaria os homens e as mulheres a viverem longe uns dos outros. Outonais ou primaveris, as reuniões começavam por consolidar, em todos os corações, o sentimento das solidariedades necessárias. Os grupos exclusivos e as corporações rivais estreitavam suas alianças, procedendo às festas coletivas do casamento.

Estas festas consistiam em comunhões, em orgias e em jogos. Depois de tantos dias de vida reclusa, desperdiçada em trabalhos interesseiros, em pensamentos mesquinhos, um sentimento de emulação generosa apoderava-se da multidão reunida. Para aumentar o vigor do jogo, que surgia de repente, tudo parecia bom, tudo podia servir para concursos alegres e para lutas corteses (367).

Nos céus do equinócio, passavam grandes revoadas de pássaros; lutava-se para descobrir seus ovos no ninho; os ovos serviam para alguns tipos de torneios; nos reflexos das cascas encontravam-se, admiravam-se as cinco cores do arco-íris, sinal celeste de chuvas fecundas; a moça que, nas festas primaveris, conseguisse um ovo de andorinha e o comesse, sentindo-se penetrar de grandes esperanças, cantava sua alegria (diz- se que esta foi a origem dos cantos do Norte). Os pés calcavam uma terra fertilizada, cheia de belos tons verdes, onde, promessas de frutos, as floradas ! rebentavam: rapazes e moças, dançando, enfrentavam-se em batalhas de flores. Eles lutavam, colhendo os tufos de tanchagem; arregaçando suas saias atadas na cintura, felizes de juntar em seu regaço a planta das mil sementes, eles cantavam. Cantavam colhendo, ao longo das encostas, as artemísias com perfume penetrante, as samambaias de espórios fecundos, ou, então, na beira dos rios, as lentilhas d'água que, reunidas aos pares, disputavam também os animais aquáticos, machos e fêmeas, ou ainda as grandes plantas flutuantes, que apresentam folhas redondas como discos, ou pontiagudas como flechas. Comidas na alegria das vitórias, as sementes não pareciam menos maravilhosas do que os ovos... O rei de Tch'u, atravessando o Kiang - acha uma semente de sagitária! - Ela é grande como uma mão fechada - e vermelha como o sol! - Ele a corta, depois a come: - ela é doce como o mel (368)!"

No impulso de uma emulação coletiva, os corações exaltavam-se com os mais humildes achados. Eles transbordavam de vivas emoções, que o gesto e a voz aprendiam rapidamente a traduzir. Os jogos ordenavam-se segundo um ritmo comandado pela comunidade dos sentimentos. As colheitas, os concursos, as perseguições proporcionavam a ocasião para justas de danças e de cantos. Ainda é assim em nossos dias, entre as populações atrasadas do sul da China. Suas festas maiores são aquelas em que rapazes e moças das aldeias vizinhas alinham-se frente a frente e cortam a samambaia, cantando improvisos" (369).

Destas justas dependem a prosperidade do ano e a felicidade do povo (370). Do mesmo modo, nas festas antigas da China, os jovens reunidos para as justas acreditavam obedecer a uma ordem da natureza e com ela colaborar. A suas danças, a seus cantos, correspondiam os chamados dos pássaros farejando um companheiro, os vôos dos insetos, que se perseguiam zumbindo. "O gafanhoto dos prados estridula e o dos outeiros salta! - Enquanto eu não vir o meu senhor - meu coração inquieto, oh!, como se agita! - mas assim que eu o vir - assim que a ele me unir - meu coração, então, terá paz (371)!" Os gafanhotos que se chamam dos prados aos outeiros permanece- ram, para os Chineses, os símbolos de uniões fecundas e de casamentos exógamos. lembravam aos jovens a ordem imperiosa de união que se impunha a cada um deles. Mas, delegados de seu sexo e de seu clã, tomados pelo espírito do território, cheios de orgulho doméstico e de egoísmo sexual, eles se sentiam, inicialmente, rivais. A luta cortês que devia aproximá-los começa num tom de bravata e de desafio.

Orgulhosas com seus enfeites, suas roupas floridas, suas coifas vermelhas, brancas como nuvens, as moças se empenhavam no torneio. Elas assumiam ares altivos e, com um tom irônico, convidavam os namorados, depois fingiam se esquivar. "Eis que caem as ameixas! - vossos cestos, enchei! - pedi-nos, jovens! - é a época! falai!" ., Em direção ao sul estão as grandes árvores; não se pode repousar debaixo delas... - Perto do Han as moças passeiam: - não se pode pedi-Ias. . ." "Se tens por mim pensamentos de amor - arregaço minha saia e atravesso o Wei! - Mas se não pensas em mim - não existem outros rapazes? - Ó, o mais louco dos jovens loucos, e então?" "O Tchen com o Wei - acabam de transbordar! - Os rapazes com as moças vêm até as orquídeas! - As moças os convidam: 'Se fôssemos lá embaixo!' - e os rapazes, em resposta: 'Já voltamos de lá!' - 'Pois bem, mas ainda, se fôssemos lá embaixo? - porque, atravessado o Wei, estende-se uma bela relva!' - Então, os rapazes e as moças - juntos se divertem - e depois elas recebem a garantia de uma flor (372)." Uma vez lançados os desafios pelas moças, o papel principal passava para os rapazes. Eles deviam fazer a corte. Ainda em nossos dias, entre os Miao-tseu e os Thos (373), a corte acompanha-se de um jogo de bola, entremeado com cantos. Enquanto a moça joga a bola, há muito o que fazer: o namorado recomeça a cantar. Nos velhos usos chineses, nos quais a batalha de flores era um dos aspectos principais da justa amo- rosa, tudo acabava quando a moça aceitava uma flor perfumada ou um punhado de sementes aromáticas. "A meus olhos, tu és a malva! - Dá-me estes aromas (374)! "

Assim eram ligados os corações e concluídos os esponsais. Ao longo das estrofes sapateadas que, segundo o ritmo da dança, eram inventa- das de acordo com as regras de uma improvisação tradicional, o rapaz entrelaçava uma série de analogias veneráveis. Verso por verso, ele evocava a paisagem ritual da festa. Esta era, em seu conjunto, como uma ordem solene da natureza. As imagens consagradas, que a descreviam detalhadamente, lembravam as correspondências obrigatórias do ritmo das estações e das práticas humanas. No tempo dos rituais clássicos, os noivos chineses enviavam a sua prometida um pato-do-mato ao romper do dia. Este rito não é senão uma metáfora concretizada. Cantava-se outrora: ...Ouve-se o canto dos patos-do-mato - ao romper do dia, nascida a aurora! - O homem parte para se casar - quando o gelo ainda não se derreteu (357)!" Os patos-do-mato significam para as moças que o gelo vai se fundir ao sopro da primavera, e que não se deve atrasar os esponsais. Os adágios do calendário, de que se compõe a ladainha amorosa, possuem uma espécie de força constrangedora. Devido a este longo sortilégio, os corações se despojam de sua timidez agressiva. As resistências do pudor sexual da honra doméstica desaparecem pouco a pouco. Os jovens cedem, enfim, ao dever de se unir e, reaproximados pela competição poética, as corpo rações contrárias e os grupos fechados podem, num momento sagrado, sentir reanimar sua unidade profunda.

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