Vida dos Camponeses (01)

Os camponeses chineses levavam uma vida monótona e dura, mas, a tempos regulares, grandes festas lhes devolviam a alegria de viver. Elas tinham um caráter de orgia. Desde que apareceram os filósofos, eles as condenaram. Confúcio, entretanto, soube reconhecer seu valor benfazejo. Ele não teria querido que o príncipe, "depois de impor ao povo cem dias de fadiga, não lhe concedesse apenas um dia de prazer", pois não se deve "manter o arco sempre tenso, sem jamais afrouxá-lo... (ou) sempre afrouxado, sem nunca esticá-lo" (340). Confúcio admitia que as festas populares eram uma invenção da sabedoria do príncipe. Na realidade, estas festas datam de um passado imemorial e as condições gerais da vida rústica são suficientes para explicá-las.

I - Famílias e comunidades rurais

Em todos os tempos, um princípio dominou a organização chinesa: é o princípio da separação dos sexos. Ela é concebida da maneira mais estrita. Não implica, somente, em severas proibições, isolando, antes do casamento, as moças e os rapazes. Mesmo os esposos devem viver separados um do outro e todas suas relações exigem precauções infinitas. Entre os camponeses, a separação dos sexos repousava numa divisão do trabalho: homens e mulheres opunham-se como se opõem duas corporações rivais.

Entre lavradores e tecelãs elevava-se uma barreira de proibições sexuais e técnicas. O mito chinês que atravessou os tempos com mais facilidade (testemunha, sem dúvida, do passado mais antigo) é relativo a duas divindades estelares, a Tecelã e o Vaqueiro. Entre elas, barreira sagrada, estende-se a Via Láctea, o Rio celeste. O Rio celeste só pode ser transposto uma vez por ano: a Tecelã e o Vaqueiro celebram então suas núpcias durante a noite (341). Se cabia aos homens a perigosa tarefa de abrir a terra com o risco de irritar as forças misteriosas do solo e se, em compensação, só as mulheres sabiam conservar nas sementes o princípio de vida que as fazia germinar, parece que a lavoura ritual, pela qual se iniciava a terra nas obras fecundas, tinha exigido antigamente os esforços conjugados de um casal (342). A colaboração dos sexos tinha tanta eficácia que, sacrílega em tempos normais, era reservada para os momentos sagrados.

Segundo um adágio chinês, o princípio da separação dos sexos é o fundamento da exogamia. Em todas as épocas, os jovens, na China, só puderam se unir com a condição de pertencerem a famílias diferentes (343). Mais ainda do que fundar um lar, o casamento serve para aproximar as famílias. Esta aproximação é obtida com a ajuda de ritos diplomáticos. É preciso empregar um arauto. O machado parece ser o emblema deste mediador, encarregado de fazer duas famílias entrarem em acordo: ele serve para destacar os galhos do tronco e permite preparar os feixes onde se reúnem os ramos de origem diversa. O tema dos feixes ligados surge freqüentemente nos cantos de casamento e ainda se cantava:.. Como se cultiva o cânhamo? - fazem-se cruzar os sulcos! - Como se faz para casar? - deve-se advertir os pais! - Como se cortam as ramagens? - sem machado não se consegue! - Como se faz para casar? - sem casamenteiro não é possível (344)."

O cruzamento dos sulcos e o das famílias traziam sua fecundidade aos casais e às culturas. Para iniciar o trabalho nos campos era necessária uma colaboração sexual. Para que ela produzisse efeito, devia-se não só aproximar os sexos opostos como também famílias diferentes. Completando os efeitos da separação dos sexos, a prática da exogamia proporcionava uma eficácia exaltada aos gestos realizados em comum pelos casais do campo.

A regra da exogamia tem um alcance doméstico: ela tem também um alcance territorial. Ela proíbe o casamento dos jovens nascidos na mesma aldeia. Quando se casa, um dos cônjuges, abandonando sua família, vai viver numa aldeia estranha... “O arco-íris está no oriente! - ninguém ousa mostrá-lo... - A moça, para se casar - deixa irmãos e parentes..." "A fonte Ts'iuan está à esquerda - à direita, o rio K'i... - Para se casar, uma moça deixa irmãos e parentes... (345)." Ouvindo-se as queixas das jovens esposas, sente-se quanto deviam ser penosos o rompimento brusco dos laços domésticos e a mudança de região que preludiavam os duros labores cotidianos num meio desconhecido e hostil. "Nora, em tua casa, durante três anos - do trabalho jamais fatigada - levantando cedo e deitando tarde - nunca tive minha manhã...(346)." Levando-se em conta os versos do Che king deve-se concluir que era sempre a mulher que deixava sua aldeia. Este devia ser, sem dúvida, talvez desde os tempos feudais, o costume geral, mas sempre houve maridos-genros anexados à família de sua mulher. A força deste costume, persistindo apesar das medidas administrativas (347), faz pensar que as aldeias vizinhas trocavam, primeiramente, os rapazes e não as moças. A casa camponesa era (e, em suma, continua a ser) coisa feminina. O homem apenas entrava nela; o mobiliário era fornecido pelo dote da mulher. Primitivamente, a própria aldeia pertencia às mulheres: a divindade que a protegia chamava-se "a mãe do povoado". Os gênios do solo só possuíram uma aparência masculina bem mais tarde. Quando os chefes foram escolhidos entre os homens, eles traziam o título de "pai" de tal aldeia (348). O nome da aglomeração era também o da família. Os clãs territoriais formavam o menor agrupamento da população (349). Assim, na aldeia, a primazia pertencia às mulheres, depois aos homens, mas sempre os habitantes, segundo seu sexo, estavam divididos em dois grupos, sendo que um deles, o grupo de cônjuges anexados, estava reduzido a um papel subordinado.

O outro grupo era formado pelos autóctones. Unidos por um nome em comum, eles formavam um conjunto de parentes. Uma velha tradição pretende que entre o habitat e o nome devia existir uma espécie de consonância (350). Resultando de uma dependência a um território e a um nome comum, o parentesco tinha uma essência mais profunda do que se tivesse sido fundado simplesmente nos laços do sangue. O sangue divide-se e se perde: dois irmãos germanos são os únicos a possuir o mesmo sangue. Mas, marcados pelo símbolo do nome, que todos podem possuir integralmente, identificados com uniformidade no campo hereditário de que todos retiram, constantemente, os mesmos princípios comunitários, os membros de um clã territorial formam um grupo indiviso e singularmente homogêneo. Somente a idade e a diferença de gerações trazem um ele- mento de distinção. Distinguem-se os anciãos e os primogênitos. O membro mais velho da geração mais antiga traz o título de decano. Ele possui uma espécie de primazia, mas não detém, senão como delegado do grupo, o vago poder que exerce: quando ele morre, um mais moço o substitui, sem que se fale propriamente de sucessão (351).

Entre os parentes de uma mesma geração, a identidade é completa. Eles formam juntos uma personalidade coletiva. Ninguém tem, isoladamente, existência jurídica. A nomenclatura de parentesco não se preocupa com indivíduos nem com sua aproximação natural. Ela é classificatória: ela só tem necessidade de nomes para designar as categorias de parentesco (352). A palavra mãe aplica-se a um grupo extenso de pessoas; se for tomado numa acepção individual, ele serve para designar, não a mulher que deu à luz, mas a mulher mais respeitável da geração das mães. Do mesmo mo- do, o pai não se distingue dos tios-paternos; a palavra serve mesmo para um círculo que se estende bem além dos irmãos do pai. Os filhos são confundidos na massa indistinta dos sobrinhos. Todos os primos, por mais distantes que sejam, tratam-se por irmãos. Uma indivisibilidade completa acha-se na base desta organização. Ela não reconhece laços pessoais nem hierarquia. As relações de parentesco têm um caráter global.

O grupo familiar é tanto mais fechado quanto é mais homogêneo. Ele não conhece nenhum meio de integrar um elemento estranho. Por princípio o parentesco não se dá, não se perde, nem se adquire. Ele é feito de sentimentos cotidianos e tranqüilos. Ele proíbe os arrebatamentos, os excessos, as incorporações. Nunca os Ancestrais (quando existia um culto ancestral) aceitaram comer outra cozinha que não fosse a doméstica (353). Nunca um adotante (quando se praticou a adoção) pôde adotar alguém que não usasse de antemão seu nome de família (354). Nunca um comprador (quando o Estado permitiu o comércio de terras) pôde acreditar que tinha desapossado completamente o antigo proprietário (355). Nunca a moral admitiu que pudessem ser verdadeiramente rompidos os laços que ligavam os parentes entre si e que os ligavam a seu solo. O parentesco era feito por ligações indestrutíveis e estritamente definidas. Havia, na constituição dos clãs territoriais. um princípio poderoso de oclusão.

Esta natureza exclusiva do parentesco harmonizava-se perfeitamente com a vida reclusa que uma família levava no tempo dos desbravamentos ancestrais. Mas os sentimentos domésticos não eram a única força da sociedade rural.

Os camponeses chineses tinham um segundo sistema de ligações, implicando sentimentos mais amplos, mais complexos, mais ricos. Estes são solidários a regras antigas do casamento, as quais, ao mesmo tempo que a exogamia do clã, prescreviam uma certa endogamia. O casamento, impossível entre parentes, também o era entre pessoas que fossem completamente estranhas uma à outra. Durante longos séculos, acreditou- se que a união conjugal não podia ser feliz se não fosse contratada entre os membros de famílias que, desde o passado mais distante, tivessem mantido relações acompanhadas de casamentos (356). O costume exigia que os filhos tomas- sem suas esposas na família de sua mãe. Para se evitar este uso, era preciso invocar pretextos poderosos. "A mãe de Chou-hiang queria que ele se casasse com uma moça de sua própria família. Chou-hiang disse-lhe: 'Minhas mães (sic: sistema classificatório) são numerosas e meus irmãos em pequeno número. Tenho prevenção contra as filhas de meus tios maternos (357) (isto é: tenho medo de que elas não me dêem descendência alguma)'." Na época em que Chou-hiang falava (513 a.C.), o único parentesco reconhecido (entre os nobres) era o parentesco em linha masculina. Eram proibidos os casamentos entre parentes agnatícios. Apenas estas uniões ilegais passavam por ser infrutíferas. Compará-las a uma união concluída com a filha de um tio materno (Chou- hiang casou-se a seu modo e foi infeliz) era apresentar um pretexto abusivo e motivado pela paixão. Tal prima nunca foi uma parente. Que a obediência tenha sido regulada pelo princípio agnatício ou pelo princípio uterino, os filhos de irmão e irmã (primos cruzados) pertenciam, necessariamente. a dois grupos familiares distintos. Seu casamento, longe de ser impedido ou mal visto, tornou-se um uso constante.

Ele foi, primeiramente, obrigatório. A nomenclatura prova-o. A palavra que significa tio materno significa sogro e aquela que significa tia paterna significa também sogra (358). Este sistema de denominação supõe que um princípio de endogamia complete o princípio da exogamia do clã; ele supõe uma organização segundo a qual dois grupos familiares exógamos e regidos pela regra de que o parentesco, ou para dizer melhor, o nome, transmite-se somente numa linha, formam um casal tradicionalmente unido e permutam regularmente a metade de seus filhos, rapazes ou moças. É possível que a nomenclatura date de uma época em que só os rapazes eram trocados e onde primava a descendência feminina: na pronúncia como na escrita, é insignificante a diferença entre o termo pelo qual um homem (tio materno = sogro) designa o filho de sua irmã (e também o marido de sua filha) e o termo que significa ao mesmo tempo família e nome de família (359). Mas o casamento entre primos nascidos de irmãos e irmãs tornou-se possível quando a primazia passou à descendência masculina, sem nenhum impedimento, pois o nome transmitia-se sempre em linha única. É extremamente notável que este uso tenha persistido enquanto variava o sistema de parentesco. Isto prova a solidez particular da organização comunitária formada por um par de famílias unidas por uma tradição matrimonial. Depois complicada, esta organização deixou traços bastante profundos para que não se mantivessem os costumes principais que lhes eram solidários. Estes devem ser explicados, relacionando-os aos tempos em que uma divisão bipartida comandava a organização geral.

Enquanto que o dever de usar o luto e o direito de comer de uma cozinha feita no mesmo fogão são os sinais das relações de parentesco, o connubium é o sinal de um segundo tipo de relações. Estas são de ordem superior. Graças a elas, a oclusão característica dos grupos locais pôde se atenuar. Os sentimentos domésticos têm qualquer coisa de exclusivo e de completo, mas, em cada grupo territorial, o casamento introduziu razões de altruísmo. Ele traz um espírito de concorrência fecunda, de rivalidade, de confiança. Para a família (uterina ou agnatícia) que os recebe, os genros ou as noras são como penhores sempre renovados de um pacto concluído antigamente. Eles são reféns. Sua presença atesta solidariedades seculares. Nos tempos feudais, uma mesma palavra servia para designar os ritos da embaixada e os da aliança matrimonial (360). Os tratados reforçavam-se, quase sempre, com uma troca de mulheres. O casamento ficou como um dos emblemas do acordo político. Ele foi, desde sua origem, um princípio de paz. Servia para manter uma união indissolúvel entre os casais de famílias que constituíam as antigas comunidades rurais.

Os casais deviam permanecer sempre ligados. A instabilidade matrimonial e a instabilidade política pareciam implicar-se mutuamente. Admitia-se que havia um germe de perenidade no contrato conjugal:.. Para a morte, a vida,- o sofrimento - contigo me associo! - Tomo tuas mãos nas minhas! - contigo quero envelhecer (361)!" Descobre-se, neste juramento, uma espécie de vontade heróica: de fato, os soldados em campanha pronunciavam, dando-se as mãos, o mesmo juramento dos esposos. O vocabulário não distingue a fidelidade conjugal do companheirismo militar. Ambos provêm de um mesmo contrato de amizade.

Os sentimentos sobre os quais repousa a aliança matrimonial, fazem contraste com os sentimentos simples de que são impregnadas as relações familiares. O casamento faz-se entre primos, mas entre primos que não trazem o mesmo nome. Eles não são parentes, embora tenham nascido de irmãos e de irmãs. Entre eles a proximidade é tão grande quanto pode ser, sem chegar à identidade substancial. Esta aproximação particular àqueles que são chamados para formar, não um grupo, mas um casal, repousa não sobre qualidades comuns, mas sobre qualidades complementares. Ela é formada de sentimentos mistos, onde entram, em partes iguais, um espírito de solidariedade, um espírito de rivalidade. Uma palavra que significa cônjuge, significa também rival e mesmo inimigo. A mulher introduzida na família agnatícia dos tempos feudais é uma associada que, logo transformada em inimiga, entra freqüentemente em luta com seu marido para de- fender os interesses de seus próprios parentes. O grupo de cônjuges ligados a uma família indivisa, ao mesmo tempo que forma um lote de reféns, é uma facção de delegados representando um agrupamento rival.

Rivais e solidários, dois grupos unidos vi- viam sobre o solo de uma comunidade rural. Cada um deles tinha seu domínio particular. Mas, neste domínio, desterrados pelo casamento, residiam também representantes da outra metade do casal. Ali também se defrontavam dois agrupamentos solidários e rivais. Mesmo quando a organização geral já não repousa mais sobre a simples bipartição, esta se encontra no território de cada grupo doméstico. Com efeito, o casamento não une apenas dois cônjuges. Ele é, por essência, um contrato coletivo e não deixa nunca de atingir os grupos. Os maridos devem ter companheira, a mulher, companheiras... É a pega que fez seu ninho - está cheio de pombos, este ninho! - Esta moça que se casa - com cem carros de honra cumulai-a (362)!"

Cem é um símbolo do total. Os cem carros ocupados pelos companheiros e pelas companheiras indicam, por simbolismo, o fato de que os grupos ligados pela aliança matrimonial unem-se, todos os dois, totalmente. Muito antigamente, a troca de rapazes e moças era total, real e não simbólica. Os casais formavam-se depois de uma união coletiva ligando todos os representantes de uma geração. A palavra mãe não é válida apenas para a mãe e para todas as suas irmãs. Ela também é válida para todas as mulheres desposadas pelos irmãos do pai (363). Tias maternas e mulheres de tios paternos confundem-se, pois formam um mesmo grupo de irmãs, um mesmo grupo de esposas.

Assim, em cada território, defrontam-se dois agrupamentos que têm, todos os dois, o mesmo grau de homogeneidade. Eles se opõem pelo sexo, pelo nome, pela substância, pelo gênero de vida. Eles perpetuam a antiga rivalidade dos casais familiares e das corporações sexuais. O princípio da oposição dos sexos que, traduzido em regras de exogamia e de endogamia, presidiu a organização camponesa, guarda seu vigor primitivo e se reforça na vida cotidiana. Intactos e frescos se conservam os sentimentos que tornam tão difícil e que fazem parecer tão fecunda a colaboração dos sexos concorrentes.

Um comentário:

thales giovani abreu ge disse...

Trabalhos realizados pelos camponeses na china antiga?