A Vida Cotidiana

A história ortodoxa procura provar que existiu na China (desde o terceiro milênio antes de Cristo e nos limites clássicos do país) um Império policiado e uma nação já homogênea. Em compensação, desde que aparecem, com datas relativamente certas documentos bastante abundantes e suscetíveis de um esboço de crítica. a terra da Confederação chinesa surge como um país estreito e como um país novo. O solo não está preparado. Os habitantes, confinados em pequenos cantões, vivem isolados.

É preciso, por respeito às datas, ver neste estado da China no início da cronologia, uma espécie de estado primitivo? Deve-se começar dali a história da sociedade chinesa? Mas quem provará que os Chineses, no início do período Tch'ouen ts'ieou, não eram os restos de uma nação una e próspera? Não se pode supor que eles já tinham colonizado pelo menos a bacia do rio Amarelo e que um cataclismo veio destruir sua obra? Não é nem necessário imaginar um cataclismo grandioso: uma inundação, uma incursão de Bárbaros podem explicar o estado de desmembramento que revelam os primeiros documentos datados. É um estado primitivo? Ele parece acompanhar-se de um ideal tradicional de unidade. Tem-se certeza de que este ideal é recente e artificialmente projetado no passado? A existência de um suserano reconhecido supõe uma certa unidade política. O respeito relativo e as atenções das quais os Tcheou parecem ter sido objeto durante o período Tch'ouen ts'ieou parecem atestar uma potência antiga, índice de um estado antigo de unificação relativa. Tudo o que se pode dizer a favor da tradição ortodoxa tem apenas valor de uma hipótese. Mas se essas hipóteses modera- das forem rejeitadas, em favor de uma negação absoluta, fundamentada na ausência de testemunhos históricos, seria fácil apresentar começos de provas, por exemplo, insistindo na importância das tradições relativas às enchentes diluvianas ou nas afirmaçoes das crônicas, relatando, no século VII, uma arremetida violenta dos Ti.

Não tomaremos partidos. Recusar-nos-emos a negar ou a aceitar a tradição ortodoxa. É provável que a civilização chinesa date de uma antiguidade remota; é possível que sua história apresente mesmo uma certa continuidade: pode ser que a China (ou, pelo menos, uma parte do país chinês) tenha possuído, muito antigamente, uma espécie de homogeneidade. Mas o que deduzir da teoria tradicional que pretende explicar toda a história da civilização chinesa? Esta teoria quer que a sociedade tenha sido perfeita desde a origem, no tempo em que os Fundadores da civilização tradicional manifestavam sua Santidade. A idéia de que o príncipe, apenas pelo cumprimento dos ritos, consegue governar os costumes e policiar o mundo, corresponde a um ideal que, sem dúvida, não é uma invenção recente. No entanto, percebe-se que se trata de um ideal purificado: seria desejável, por isto, conhecer precisamente sua formação e sua história. Ora, para a doutrina ortodoxa, este ideal é um dado, um fato importante. É a partir dele que se explicam, ou melhor, que se relatam os fatos históricos. Todos os documentos foram refeitos e reconstruí- dos por uma crítica erudita. Esta não aceitou os dados tradicionais, a não ser na medida em que pareciam estar de acordo com o espírito do sistema. Nessas condições, toda pesquisa positiva seria impossível, não fosse um fato: os Chineses quando constroem ou reconstroem sistematicamente sua história, só pensam e só se exprimem por meio de fórmulas consagradas e dentro das práticas tradicionais. Práticas e fórmulas, com a condição de destacá-las antes do sistema, constituem dados positivos. É destes dados, e apenas deles, que se pode retirar os elementos de uma história da sociedade chinesa.

Vê-se, imediatamente, que estes dados constituem documentos fragmentários e que não podem ser ligados a nenhuma cronologia.

Todo o trabalho consiste em classificá-los. Classificando-os, é possível relacioná-los a meios sociais diferentes. Resta agora classificá-los por meios. Aqui se impõe, para começar, um método regressivo.

Conhecemos, por documentos diretos, a classe dos letrados e a nobreza do Império. Letrados e funcionários ocuparam, na China imperial, um lugar análogo ao que ocupava, na China dos feudos, a nobreza feudal. Esta última nos é revelada apenas pelo que os letrados quiseram contar. Mas estes, em suas narrações, recorreram a fórmulas tradicionais. Eles as entendiam à sua maneira. No entanto, não é impossível entendê-las no sentido que lhes era atribuído pelos nobres feudais. Classificar os diferentes valores dessas fórmulas resume-se em relacioná-las a meios escalonados. Esta classificação, por conseguinte, permite descrever uma evolução. Pode-se proceder da mesma maneira para passar, remontando, do imperador ao senhor feudal. Mas, aqui, a passagem de um termo a outro, é mais direta. Em conseqüência desta evolução mais contínua, há meios de remontar muito alto e de descobrir o que era, sob formas extremamente arcaicas, o poder do príncipe. Este poder acha-se definido por fórmulas que são verdadeiros temas míticos; às vezes, podem mesmo ser relacionadas com gestos rituais aparentados: o conjunto revela as crenças e mesmo os dados de fato que tornaram possíveis a constituição das circunscrições e o aparecimento da autoridade individual. Ora, outros temas (principalmente temas poéticos) permitem descrever um meio rústico em que se formaram algumas das crenças mais importantes, que se encontram na base do poder próprio ao chefe político, como na do poder próprio ao chefe de família. Assim, pelo simples expediente que consiste em atribuir, a meios sociais corretamente escalonados, as práticas e as fórmulas em que as crenças chinesas se inscreveram, consegue-se retraçar, na ordem política e na ordem familiar, uma evolução dupla e paralela que explica a formação do direito constitucional e do direito privado.

Sem dúvida, se os meios descritos com o auxílio de fórmulas tomadas a uma tradição imemorial podem ser escalonados corretamente, é unicamente neste sentido que, na sociedade chinesa, o papel diretor passou sucessivamente de um para outro desses meios. Não se exprime outra coisa quando se diz que a nobreza do Império herdou da nobreza feudal ou veio substituí-la.

Esta afirmação não implica, de maneira alguma, que a nobreza feudal desapareceu desde que a nobreza do Império veio desempenhar, em seu lugar, um papel análogo na nação. É possível que, sob os Han, tenha subsistido na China agrupamentos do tipo feudal. Inversamente, é possível que, antes da era imperial, tenha existido uma variedade de nobreza, diferente da nobreza propriamente feudal, cujos membros pareciam mais funcionários do que vassalos. É certo, em todo caso, que no período Tch'ouen ts'ieu (e mesmo mais tarde) os costumes camponeses permaneceram mais ou menos os mesmos do tempo em que, nas comunidades rurais que representavam então o elemento mais ativo da sociedade chinesa, elaboraram-se as idéias que os fundadores das circunscrições tomaram ou transformaram quando se operou a revolução que deu origem à China feudal. Foi então que o papel dominante e a atividade criadora passaram aos chefes e a seus adeptos. As crenças e as teorias que ajudaram a edificação da China imperial nasceram da atividade das cortes feudais. Estudaremos, também, os diferentes meios em que se formou a civilização chinesa no momento em que eles se mostraram criadores. E nos preocuparemos mais com a sorte de suas criações do que com sua própria sorte. Poder-se-ia justificar o método pelo direito. Será suficiente deixar sentir que ele se impôs de fato. Não há meio de definir os diferentes meios sociais, cujo estudo interessa ao conhecimento da civilização chinesa, a não ser através das crenças ou das técnicas que constituem sua contribuição a esta civilização.

É claro que a evolução tal como pode ser descrita, toma um ar intemporal (pois nada co- meça nem termina numa data determinada) e esquemático (pois nada permite indicar as singularidades de detalhe e nada permite dizer se ela teve fluxos e refluxos, se, ali foi rápida, e aqui, lenta, se tal razão a atrasa ou a precipita em tal região).

No momento, toda tentativa de precisão geográfica ou histórica seria um embuste e, mais ainda, toda tentativa de precisão etnográfica. Além disto: a multiplicidade e a diversidade das influências possíveis tornam toda hipótese mais perigosa do que útil. Entretanto, indicarei uma, mas unicamente a título de hipótese de estudo e porque ela está muito próxima de um dado importante. Por mais antigamente que se remonte, a civilização chinesa surge como uma civilização complexa. Por outro lado, no início do período conhecido por datas, esta civilização tem seu centro nos confins de duas regiões marginalizadas, ali onde a extremidade dos planaltos de loess encontra-se com as das planícies aluviais. Não é impossível explicar o desenvolvimento da civilização propriamente chinesa pelo contato de duas civilizações principais (não digo primitivas), sendo uma a civilização das plataformas e do painço e a outra, uma civilização do arroz e das planícies baixas. A primeira talvez tenha trazido as influências da estepe e a outra, as do mar. A esta hipótese, as tradições históricas trazem um certo apoio. Os Tcheou, que parecem ter sido poderosos no Ocidente chinês e que foram auxiliados pelos Bárbaros do oeste, viviam nos tempos antigos, dizem, em grutas; eles tinham como ancestral e como deus o Príncipe Painço. Os Yin, seus rivais, lutaram contra eles, apoiando-se nos Bárbaros do Houai. Estes ocupavam as planícies pantanosas na beira do mar oriental. Os príncipes de Song, descendentes dos Yin, ficaram sempre, assim como outros príncipes do leste, em contato com eles. Por outro lado, parece certo que a civilização da China oriental apresentava, com traços próprios, uma certa unidade. Os costumes sexuais eram ali mais livres. Praticava-se a prostituição hospitaleira e ritos definidos de alianças sangrentas.

Antes de entrar na unidade chinesa, é possível que a China do leste tivesse mantido relações que lhe fossem próprias. Por meio dela, talvez, tenham se exercido na civilização chinesa influências distantes, cuja importância dificilmente pode ser adivinhada. É claro que a história da sociedade, na China, não poderá ser escrita de maneira concreta se não se encontrar os meios de precisar as influências etnográficas ou técnicas que nela agiram.

Nenhum comentário: