A sociedade no início da era imperial (01)

A fundação do império corresponde uma
transformação da sociedade - muito
importante, mas mal conhecida. Eu de-
via me restringir a indicar os principais
pontos de partida deste movimento.
Nada pode ter maior interesse do que
a nova idéia que se faz então do Soberano: nela se
combinam elementos de origem e de fortuna diferen-
tes. Por outro lado, uma reclassificação da sociedade,
que parece delineada há muito tempo, mas que então
se acelera, acompanha-se de uma reforma dos costu-
mes à qual não são estranhos nem a propaganda de
certos moralistas, nem a ação do governo.


O Imperador

O primeiro imperador, Ts'in Che Hou-
ang-ti, pertencia a uma grande casa
senhorial, a dos Ts'in. Por outro
lado, Kao-tsou, que restabeleceu,
em proveito dos Han, a unidade im-
perial que perigava desde a morte
de seu fundador, era um homem do povo. No domínio
de Ts'in, com os regulamentos [359] atribuídos a Wei-
yang, o legislador do duque de Hiao, apareceu uma no-
va concepção do príncipe e de seus direitos. Ts'in Che
Houang-ti, como o duque, foi qualificado de tirano.
Censuram-no por ter governado à custa de punições,
isto é, abusando dos processos de lesa-majestade.
Com efeito, na base da nova ordem que queria esta-
belecer, estava a idéia da Majestade própria à pés-
soa imperial. - Os Han apresentavam-se como res-
tauradores da ordem antiga. Eles pretendiam pôr fim
à época da tirania. Nova dinastia que reencontra as
velhas fontes do direito, queriam que se vissem ne-
les os continuadores das três dinastias reais e os
sucessores verdadeiros dos Tcheou. Fundamentam
seu poder no prestígio próprio aos Filhos do Céu. Mas,
se fingem conservar, para o chefe de Estado, a apa-
rência de um simples suserano, usam o título impe-
rial, criado por Che Houang-ti. Como este, sustenta-
vam, com o auxílio de práticas mais ou menos novas,
a Majestade do imperador. Entretanto, pretendendo
aparecer como restauradores e não como renovado-
res, eles se esforçam para incorporar à noção de
Filhos do Céu, os elementos constitutivos do conceito
de Majestade. Queriam se aproveitar de uma dupla
herança e não desprezavam os princípios de autori-
dade imaginados na era dos tiranos. Ajudados pelo
sábio esforço dos letrados, que, sob seu reinado e
em seu benefício, reconstituíram a antiguidade da
China, chegam a fazer aceitar a nova concepção de
Majestade imperial, apresentando-a como um atributo
antigo dos Filhos do Céu, sábios autores da civilização
nacional.




l - O suserano, Filho do Céu

Os melhores sábios chineses reconhecem no
Tcheou li (Ritual dos Tcheou) - e em algumas produ-
ções do mesmo tipo - a obra de administradores
utopistas trabalhando a serviço dos Han (873). Deixando
aos eruditos seguros de sua crítica o cuidado de res-
tabelecer, mesmo nos detalhes, a Constituição dos
Tcheou (e até a dos Yin), tentarei somente destacar a
idéia que, sob os Han, podia fazer-se de um Filho do
Céu. Se, por acaso, os reis Tcheou (numa época inde-
terminada) foram soberanos tais como os Han os re.
presentavam, é ainda muito cedo para tratar disto.
Estes reis, com efeito, não desempenharam nenhum
papel político desde a época em que se inicia a histó-
ria chinesa (período tch'ouen ts'ieou). São conside-
rados, às vezes, sob o aspecto de grandes mestres
de uma espécie de religião nacional. Emprestar-lhes,
à primeira vista, esta função principal, é, justamente,
deixar.se cercear pelos falsários respeitosos que re-
construíram a história dinástica da antiguidade. Uma
análise crítica pode, quando muito, destacar alguns
antecedentes da noção tradicional de Filho do Céu,
tal como se fixou sob os Han.

Em nenhum momento, as crônicas da época
mostram.nos um rei Tcheou exercendo uma autorida-
de religiosa que lhe seja própria. O rei, como todo
senhor, possui Ancestrais e deuses do Solo. Como
eles, honra, como o fundador de sua raça, um Herói
que se tornou ilustre preparando a terra. O antepas-
sado dos Tcheou traz o título de Heou-tsi (Príncipe
Painço), Senhor das colheitas. Seus descendentes, re-
vestidos do mesmo título, continuam sua obra. Cada
ano, tiram da terra seu caráter sagrado por meio de
uma primeira lavragem; cada ano, presidem à festa
das colheitas. Os chefes dos domínios menores têm
os mesmos deveres. - As crônicas, por outro lado,
deixam entrever certos traços de uma autoridade mo-
ral que parece mais peculiar ao suserano. O Filho
do Céu aparece como o chefe de guerra da Confede-
ração chinesa. Comanda (em princípio) as expedições
que são verdadeiras guerras dirigidas contra os Bár-
baros. Para dizer a verdade, todo senhor é um caçador
de Bárbaros, mas ele não opera senão nas fronteiras
de seu domínio. Somente o Filho do Céu conduz a
guerra ou a preside, quando opõe a Confederação chi-
nesa a uma confederação de Bárbaros. Anteriormente
às crônicas datadas, três reis Tcheou talvez tivessem
desempenhado um papel histórico. Ora, a tradição
lírica ou épica apresenta estes Filhos do Céu, os reis
Tchao, Mou e Siuan, como os chefes de grandes ex-
pedições contra os Bárbaros em fronteiras longín-
quas (874). Na época tch'ouen ts'ieou, são unicamente
os senhores que comandam estes levantes da confe-
deração. A tradição ritual diz que eles sempre agiram
por conta do rei. Quando venciam, o suserano triun.
fava(875). O mais ilustre destes chefes investidos do
imperium pelo comando da guerra contra os Bárbaros,
é Houan de Ts'i, o primeiro dos Hegemons; ele rece-
beu a glória por ter repelido uma investida violenta
dos Ti. Nota-se que o termo que, depois dos Hege.
mons, serviu para designar os tiranos é idêntico ao
título que era conferido pela investidura, concedendo
o imperium militar (876). - Chefe de guerra da Confe-
deração, o rei é poupado das vinganças feudais. Tam-
bém sua cidade é um lugar de grande paz. Um senhor
que parte para uma batalha contra um rival, não pode
passar armado diante das muralhas da capital. Não é
suficiente que seus guerreiros tirem seus capacetes
e desçam de seus carros: é preciso que suas coura.
ças e todas as suas armas, ocultas em suas capas,
fiquem invisíveis (877). O suserano, na verdade, preside
à paz chinesa. Ele parece julgar os recursos dos pro-
cessos feudais(878). Em teoria, pelo menos, ele pré-
side aos tratados (meng) que aplacam as vinganças;
o presidente efetivo, simples senhor, pode substituí-lo
como Hegemon: quer dizer que, para presidir, é pré-
ciso possuir uma delegação do imperium do suse-
rano (879).

É de sua função de chefe de guerra que o suse-
rano parece ter uma qualificação religiosa peculiar.
Esta que (por efeito da ampliação devida ao trabalho
de reconstituição histórica) parece ter sido a fonte
de um prestígio de ordem superior, passou a ser o
atributo próprio do Filho do Céu. Este último, quer
celebre o triunfo, quer presida às pazes feudais, é o
mestre de um sacrifício de extraordinário esplendor.
Os Ancestrais e o Solo são associados ao triunfo,
mas o Céu também o é e mais do que qualquer outra
divindade (agrária ou ancestral), pois o Céu é o deus
dos juramentos. Ele é o deus dos tratados, o deus das
reuniões interfeudais: é a única divindade comum e
nacional. É também o único deus ao qual se atribuem
traços humanos. Pode-se presumir que ele deve esta
natureza antropomórfica aos sacrifícios que, como
deus justiceiro, alimentam-no de carne humana(880).
Viu.se que, segundo a tradição, as primeiras leis pe-
nais foram promulgadas ao curso das expedições de
caça que não se diferenciam das incursões contra os
Bárbaros(881). Assim também, os casos mais signifi-
cativos de sacrifícios humanos, cuja lembrança se
conservou, ligam-se a paradas militares realizadas nos
limites bárbaros (882). Por outro lado, as lendas relati-
vas às primeiras formas do culto do Céu, mostram.nos
os soberanos míticos sacrificando, na estação pres.
crita, sobre as montanhas dos quatro pontos car.
deais (883). Ora, precisamente um dos poemas que me-
lhor informam sobre o prestígio do soberano - mos-
trando-o em seu papel de pacificador, quando atraía
sobre si a proteção das divindades dos Grandes Rios
e dos Grandes Montes (Yo, os montes cardeais) -
explica também (e de maneira característica) o título
de Filho do Céu. "Na época prescrita, dirijo-me aos
principadós! - O Augusto Céu, eis que ele me trata
como filho! " A tradição afirma que o poema se refere
às paradas das quatro grandes caçadas das estações,
9raças às quais, "circulando pelo império", o Rei, "ao
mesmo tempo, cultiva e difunde sua Virtude" (884). As
crônicas datadas não se referem a nenhum rei Tcheou
viajando pelo império e sacrificando nos Lugares.
Altos. Contam, em compensação, que o primeiro dos
Hegemons, Houan de Ts'i (Chang.tong), depois de ter
obtido vitórias por conta do Filho do Céu, quis cele-
brar, em seu próprio benefício, um sacrifício sobre o
T'ai chan (Chan-tong), montanha cardeal do leste (885).
Por outro lado, os senhores de Ts'in (os quais consti-
tuíram, pouco a pouco, um conjunto de Lugares-Altos
sagrados onde faziam sacrifícios às divindades regio-
nais do Céu) atribuíam o título de Hegemon a um de
seus ancestrais, o duque Mou: este pretendia sacri-
ficar ao Céu um vencido que, inicialmente, alojaria,
Para o tempo das purificações prévias, na torre Ling,
a torre das Influências felizes (886). Na capital real (e
'á somente, segundo os rituais) devia haver uma torre
Ling, da qual não se fala nunca sem relaciona-la com
um templo chamado Ming t'ang. Se a torre Ling é ci-
tada por ocasião dos triunfos e das oferendas de cati-
vos, ela também é o lugar onde se observam as mani-
festações da vontade celeste. Paralelamente, o Ming
t'ang (onde a tradição diz que os Tcheou consagraram,
por um sacrifício triunfal, a derrota dos Tin) é, por
sua vez, o lugar das reuniões interfeudais presididas
pelo Filho do Céu e o local que lhe convém para pro-
mulgar as ordens mensais (Yue ling) que valem para
o reino todo (887). Estas ordens têm por fim conciliar
as ocupações dos homens e os hábitos da natureza,
regidos pelo Céu. O Céu ordena as estações, como
o Filho do Céu no momento em que promulga as
ordens mensais. Ele deve, para isso, penetrar na Casa
do Calendário que é quadrada (como a Terra) e dis-
posta de acordo com os pontos cardeais, mas que
deve ser coberta com um telhado de colmo circular
(como o Céu). A presença do Filho do Céu no Ming
t'ang é comparada, pela tradição, à movimentação dos
soberanos míticos no império. Todas as duas devem
realizar-se de sorte que o rei promulgue, colocado a
leste, a época e as ordens da primavera; ao sul, a
época e as ordens do verão, etc. Assim se acha esta-
belecida (em virtude da crença chinesa que postula
uma aderência exata dos Espaços e das Épocas) a
ordem gêmea dos Orientes e das Estações (888). O Fi-
lho do Céu estende ao império inteiro sua Virtude
reguladora, porque, na Casa do Calendário, ele rege,
em nome do Céu, o curso do Tempo - depois de ter,
nas paradas das estações das caçadas, presidido ao
sacrifício que os senhores confederados ofereciam à
divindade, penhor de boa ordem e de paz nacional.
Mestre único do calendário e animador de toda
a terra chinesa, assim surge, na tradição dos Han, o
Filho do Céu. Não se pode ter certeza de que este
tenha sido seu papel desde a alta antiguidade. Na
época tch'ouen ts'ieou, em todo caso, os diversos do-
mínios não empregavam um sistema único de calen-
dário. As datas das crônicas são indicadas segundo o
calendário real, graças à intervenção devotada dos
historiadores da era imperial. Desta maneira, eles tira-
ram uma boa parte do valor dos dados da cronologia
antiga(889). Em compensação, fornecem-nos o teste-
munho da importância extrema, mas tardia, que tomou
a função de Filho do Céu, a idéia de que ele é o único
a reger, para todos, a China inteira e o Tempo. Ne-
nhum documento permite concluir que o suserano vi-
vesse sob o telhado de colmo do Ming t'ang, submeti-
do, ele entre os senhores, a observâncias particulares.
Aparentemente, ele devia, como todo chefe, subme-
ter-se, em tempos regulares, a uma vida de exposição
nas matas ou de confinamento num retiro sombrio.
Chegava, assim, a associar intimamente sua pessoa
com a vida da natureza. Mas as expiações que reali-
zava, das quais tirava uma virtude animadora, não
diferem, em nada, daqueles que se impunham ao
senhor da mais humilde cheferia: é significativo que
os devotamentos de Yu e de T'ang, fundadores das
duas primeiras dinastias reais da tradição chinesa,
tenham sido de natureza idêntica aos dos simples se-
nhores do período histórico (890). No entanto, só o su-
serano tem direito à qualificação de Homem Único:
é que só ele estabelece parentesco com o Céu, to.
mando a carga da expiação mais rigorosa e mais glo-
riosa, a que é exigida por uma vitória obtida pelas for-
ças unidas da Confederação. Ele conduz a dança triun-
fal do sacrifício ao Céu e é o primeiro a comungar
com uma divindade venerada por todos os senhores
federados. Aparentado intimamente a ela, ele pode
dizer-se seu filho, no sentido próprio do termo. A tra-
dição histórica coloca na origem de uma dinastia de
Filhos do Céu, um Herói nascido das obras celes.
tes(891). Embora entre os ancestrais de casas senho-
riais somente um seja expressamente qualificado de
Mediador, parece que iodos os chefes feudais tinham
a missão de presidir às festas primaveris da fecundi-
dade. Entretanto, segundo os autores de rituais, so-
mente as esposas da família suserana tinham o direito
de festejar, na primavera, o Mediador supremo, este
único marido das Grandes Antepassadas que, pela gra-
ça do Céu, deram nascimento aos diversos fundado-
res das dinastias reais(892). O tema mítico ou ritual
da união das Rainhas-mães com uma divindade ce-
leste inspira belos hinos dinásticos: eles ajudaram
muito, sem dúvida, a ornar a casa soberana com uma
nobreza eminente. Este tema lembra, expressamente,
a força das mães e o dualismo que é a base do chefe,
pai e mãe do povo. A rainha tem por emblema a Lua,
na qual os sábios não querem reconhecer senão um
simples espelho, mas que é, por excelência, o reser-
vatório de toda fecundidade terrestre. O próprio
Tcheou-li admite que a rainha é a única que é capaz
de conservar a vida nas sementes. Face ao rei que
possui o emblema do Sol, e que é Filho do Céu, a
rainha conserva uma parte do respeito que mereceu
no tempo em que se lhe concedia a soma das ener-
gias próprias à Mãe-Terra.

Os imperadores Han apresentaram-se aos Chi-
neses como Filhos do Céu perfeitos. Acreditavam na
idéia de que Kao-tsou, seu fundador, fora concebido
de maneira miraculosa por sua mãe (893). No decurso
deste ano de 113, durante o qual pensou inaugurar
uma era nova, o imperador Wou fez (com vestimentas
amarelas) um sacrifício à Soberana Terra, qualificada
de "mãe opulenta", marcando expressamente a inten-
ção de que este sacrifício fosse igual ao sacrifícío.
ao Céu soberano(894). O imperador Tch'eng (31 a.C.)
fez levantar nos arrabaldes ao norte da capital o altar
da Terra, antes edificado em Fen-ying (Chan-si): sa-
crificava-se ao Céu nos arrabaldes ao sul. Desde uma
época indeterminada, mas certamente anterior ao
século VII de nossa era, a Terra era representada por
uma estátua de mulher(895). É possível que esta con-
cepção antropomórfica da divindade do solo chinês
seja antiga, como é seguramente antiga a represen,
tação antropomórfica do Céu. Nos velhos textos de
orações ou de juramentos, a Soberana Terra já se
opõe ao Augusto Céu (896). Estes textos pertencem a
obras remodeladas sob os Han. Provam, pelo menos,
que estes aceitaram o princípio de um dualismo reli-
gioso. É difícil acreditar (como querem os eruditos
chineses e, depois, os ocidentais) que eles tenham
inventado tudo. O imperador Wou, apresentado como
o criador do culto da Terra Soberana, é,um dos mo-
narcas chineses que mais sentiram os perigos que
o dualismo político, apoiado no dualismo religioso,
oferecia ao Estado, concedendo muito prestígio às
imperatrizes e muita autoridade às viúvas reais. É ra-
zoável admitir que, se ele inovou fazendo sacrifícios
â Terra, a inovação consistiu no fato de que o impe-
rador presidiu, em pessoa e publicamente, a um sa-
crifício no qual a imperatriz (talvez no segredo do gi-
neceu) deveria ter oficiado. A tática das imperatrizes
ambiciosas, tais como a imperatriz Wou Tso-t'ien dos
T'ang [684-704], foi reclamar, de início, o privilégio
de presidir aos sacrifícios à Terra antes de se apossar
do direito de sacrificar ao Céu(898). A interpretação
mais provável do sacrifício à Terra, inaugurado pelo
imperador Wou, é de que ele foi feito na intenção de
beneficiar somente o Filho do Céu com o prestígio
religioso que pertencia, sem dúvida, às rainhas na
qualidade de oficiantes de um culto feminino da Terra,
cuja importância foi disfarçada pelos rituais.

Esta interpretação concilia-se perfeitamente
com aquela que convém dar aos sacrifícios fong e
chan, inaugurados pelo mesmo imperador Wou. A his-
tória destes sacrifícios parece ser bem mais com-
plexa do que se diz comumente. Também é impossível
crer numa inovação completa a esse respeito. Os da-
dos tradicionais, utilizados pelos Han para conferir a
esta cerimônia o valor de um ato religioso supremo,
deixam entrever que eles se referem a ritos antigos
relacionados com as festas de triunfo. Nos anteceden-
tes míticos do sacrifício fong, trata-se, ao mesmo
tempo, de assinalar uma tomada de posse e de expiar
as conseqüências de uma vitória. Ora, o sacrifício
fong do imperador Wou foi feito sobre o T'ai chan,
monte cardeal do leste, no momento exato em que
este soberano queria firmar o império dos Han sobre
todas as províncias orientais da China. O primeiro
imperador, que foi também o primeiro conquistador
da China oriental, tinha feito a ascensão do T'ai
chan [219], mas os historiadores dos Han dizem-nos (e
suas narrativas assinalam algum obstáculo) que Che
Houang-ti não chegou a sacrificar (899). Um sacrifício
falho volta-se contra o oficiante presunçoso: a morte
prematura [210] do primeiro imperador ocorreu durante
uma nova inspeção dos territórios orientais. O impe-
rador Wou conseguiu, depois de muito hesitar, fazer
o sacrifício fong sobre o T'ai chan [110], mas, pouco
antes (em 119), seu general preferido, Ho K'iu-p'ing,
depois de ter capturado oitenta chefes bárbaros para
tomar, triunfalmente, posse de sua região, celebrou
sobre as montanhas de Lang-kiu.siu e de Hou-yen, os
sacrifícios fong e chan (900). Ho K'iu-p'ing era sobrinho
da imperatriz Wei, cujo irmão comandava as forças
chinesas, e que era a mãe do herdeiro designado pelo
imperador Wou. Pois, precisamente, o único persona-
gem admitido para acompanhar o imperador Wou em
sua ascensão ao T'ai chan, em 110, foi o próprio filho
de Ho K'iu-p'ing. Este, (que o soberano fez subir em
seu carro e que amava tanto quanto havia amado o
pai) morreu misteriosamente em conseqüência do sa-
crifício: as expressões dos historiadores mostram
claramente que ele foi a vítima(901). Estes fatos são
tanto mais significativos já que (apesar do desagrado
no qual incorreram mais tarde a imperatriz Wei e seu
filho) o principal dos regentes designados pelo impe-
rador Wou para proteger seu novo herdeiro, foi Ho
Kouang, irmão de Ho K'iu-p'ing. Ora, a neta de Ho
Kouang, casada com o imperador Tchao, possuiu, de-
pois da morte deste sucessor do imperador Wou [74 a. c.],
toda a autoridade de uma viúva real: ela a exerceu
em proveito da família Ho, da qual um dos membros
havia assegurado o triunfo dos Han sobre os Bárba-
ros, enquanto que o outro havia sido vitimado na
vitória.

Se as implicações políticas do sacrifício fong
revelam a persistência do dualismo na organização
do Estado e da família, este dualismo encontra.se
também no aspecto religioso da cerimônia. Trata-se
de uma cerimônia dupla, onde o sacrifício ao Céu
(fong) feito no alto de um pico pelo imperador em
pessoa (mas acompanhado de um segundo) é prece-
dida pelo sacrifício chan. A palavra chan é, segundo
a tradição chinesa, equivalente à palavra jang (= ex-
pulsar e ceder), cujo valor antigo já foi explicado:
este último termo designa o ato pelo qual o soberano
antes de assumir, para si somente, o poder, começa
por cede-lo a um arauto dinástico - escolhido, pare-
ce, no grupo da mulher e, às vezes, tutor do filho su-
cessor, mas, algumas vezes também sacrificado(902).
O sacrifício chan, anterior ao sacrifício fong, é um
sacrifício à Terra. Ele se faz sobre uma colina baixa,
no meio de uma lagoa cercando um montículo. Sabe-
mos, pelas cerimônias feitas em Fen-yin, em honra
da Soberana Terra, que o local escolhido tinha a forma
de um traseiro humano. A colina em forma da ponta
do osso sacro (chouei) é qualificada de jang (que a
escrita, como a pronúncia, aproxima de jang, sacrifi-
car, ceder, mas) que evoca um dos jogos inaugurais
do ano, assim como uma terra destorroada (903). Pelo
contrário, a palavra fong dá a idéia de um montículo
de seixos amontoados e de uma alta pedra erguida
em sinal de vitória (904). Celebrando seu grande sacri-
fício, o imperador Wou fez uma prece destinada a
assegurar sua imortalidade, ou pelo menos, a exaltar,
em sua pessoa, a Majestade própria de um imperador:
mas, por outro lado, o simbolismo das cerimônias
fong e chan é bastante claro para mostrar que, apro-
priando-se do benefício destes ritos conjugados, o im-
perador procurava também completar, pela anexação
das virtudes que se ganham oficiando em honra da
Terra, o prestígio próprio de um Filho do Céu. Aqui
também a imperatriz Wou Tso-t'ien dos T'ang cumpriu
exatamente a tradição religiosa, quando a utilizou, in-
vertendo os papéis, com grande escândalo dos letra-
dos, e chegou a presidir, sozinha, à dupla cerimô-
nia [695], ocupando o lugar de um imperador. Inicial-
mente, ela conseguira [666] incumbir-se apenas do sa-
crifício chan que executou, pondo-se à frente de todo
o harém, enquanto seu marido se limitava a realizar o
rito fong (905).

Viu.se, anteriormente, que toda a história da
celebração do sacrifício fong pelo imperador Wou dos
Han está ligada à da preparação de um calendário
que convinha à nova dinastia. Foi em 113 (ano do
sacrifício à Terra Soberana) que o imperador tomou
realmente posse do império em nome dos Han, na
qualidade de Filho do Céu. Neste ano, com efeito, ele
deu um feudo a um descendente dos Tcheou, a fim de
que, no interior deste território, pudessem continuar
as tradições religiosas da dinastia então derrubada
(se ale não favoreceu as dinastias prescritas há mais
tempo foi porque nada restava delas) (906). Neste ano
ainda, "o Filho do Céu, pela primeira vez, fez a inspe-
ção" do império, começando pelo leste e pelo T'ai
chan: um recenseamento dos Lugares-Santos parece
ter acompanhado esta inspeção, todas as duas equi-
valendo a uma verdadeira tomada de posse. No fim
deste ano, como o solstício do inverno caía na manhã
do primeiro dia, pensou-se em instituir a nova era e
fazer recomeçar a seqüência do tempo (907). Mas o sa-
crifício fong teve que ser retardado até 110 por causa
da guerra empreendida contra o Nan-yue (sudeste).
Foi realizado depois de uma nova jornada de inspe-
ção e, quando a cerimônia terminou, o imperador
transferiu.se para um Ming t'ang (Casa do Calendá-
rio), ou antes, para o local presumido de um velho
Ming t'ang. Mas uma Casa do Calendário foi construí-
da e inaugurada em 106, na ocasião da segunda ceri-
mônia fong, celebrada pelo imperador Wou (908). No
dia kia tseu (primeiro dia do ciclo sexagenário) que
coincidia com o primeiro dia do décimo primeiro mês
e no qual caía o solstício do inverno, o imperador sa-
crificou no Ming t'ang e se pronunciou a fórmula: "O
período está terminado! Ele recomeça!" Também
"aqueles que calcularam o calendário, fizeram desta
data (25 de novembro de 105) a sua origem" (909). De
fato, não foi senão no quinto mês (solstício do verão)
do ano 104 que o calendário foi mudado. Desde então,
foram escolhidos a cor amarela e o número cinco,
emblemas dinásticos. Esta reforma do calendário im-
plicava uma reforma total no sistema de medidas e,
particularmente, dos tubos sonoros que determinavam
a escala de música. "As divisões do ano foram (então)
corrigidas: a nota yu tornou-se de novo pura;...os
princípios Yin e Yang separaram.se e se uniram de
maneira regular(910)." É muito possível que todo o
trabalho de reforma monetária, que foi a grande rea-
lização do reinado, esteja em conexão com esta refor-
ma dinástica das medidas. Em todo caso, foi em 110,
ano do primeiro sacrifício fong, que passou a vigorar
o sistema de regulamentação dos preços preconizado
por Sang Hong.yang: o que devia, segundo seu autor,
assegurar o equilíbrio econômico do império dos
Han (911). Todos estes fatos fazem considerar que a
autoridade do Filho do Céu deriva de uma qualificação
religiosa obtida pela consagração da vitória da dinas-
tia. É significativo que esta tenha sido celebrada no
leste e depois de uma guerra afortunada contra os
Bárbaros do leste. O prestígio do Filho do Céu tem
por princípio um triunfo que condiciona e que realiza
a unidade da China, concebida como uma unidade de
civilização.

"Sob o Céu", isto é, no mundo chinês, único
beneficiário da expiação triunfal que consagra a vitó-
ria pelo Céu, o Filho do Céu assume a posição de
"Homem Único". Beneficiar-se de tudo e expiar por
todos, tal era a função desempenhada por um senhor,
num território limitado. É claro que um prestígio que
se nutre de expiações feitas por conta de outrem,
corresponde a um poder mantido por delegação e não
a uma autoridade autônoma e propriamente sobera-
na. Este poder, por outro lado, em virtude de sua pró-
pria natureza, acarreta, para o soberano, como para
o feudatário, uma vida regulada pela etiqueta e pela
tradição. O chefe, então, só pode agir delegando sua
autoridade e distribuindo uma parte de seu prestígio.
Ele só reina com a condição de não governar. É parti-
cularmente perigoso para ele agir militarmente e, nes-
te caso, deve investir seu general de um imperium
completo, cujo exercício não é fácil de ser limitado
apenas às fronteiras bárbaras. A tradição pretendia
que os reis Tcheou haviam tido sua autoridade eclip-
sada pela dos hegemons. Os imperadores deviam te-
mer que o poder de seus generais viesse, ao menos,
contrabalançar o seu. A história da dinastia Han mos-
tra, na verdade, o poder dos marechais crescendo
sem parar. O marechal é comumente (o pai ou) o
irmão da imperatriz. Esta serve de refém ao impera-
dor, seu marido, mas, este morto, ela conserva seus
privilégios e o marechal, tutor do soberano, ainda
menor, e da dinastia, assume, então, todos os poderes
de um mordomo-mor do palácio. A dinastia só se man-
tém com o sacrifício periódico dos grandes chefes
militares aos quais o imperador deve conferir o impe-
rium. Contra estes chefes militares, a dinastia deve
se apoiar numa clientela. O imperador Han, como um
simples suserano, deve distribuir os feudos e consi-
derar seus próprios parentes como protetores, como
"vassalos barreiras". O império é o espólio de uma
clientela familiar, e é apenas por meio de artifícios e
astúcia que se pode introduzir uma administração de
Estado. O imperador, que afeta ser um simples Filho
do Céu e que proclama que "o princípio de todas as
culpas tem sua origem nele mesmo", acha-se reduzido
à inação. Tal foi o caso do imperador Wen dos primei-
ros Han (180-157), que deveu a sua modéstia ritual à
glória com que os letrados o cumularam. Mas sob seu
reinado, o feudalismo reconstituiu-se e os Bárbaros tor-
naram.se ameaçadores. Seu sucessor quase que per-
deu o poder. Foi então que o grande homem da
dinastia, o imperador Wou, retomando parte da tradi-
ção de Ts'in Che Houang-ti, começou a acrescentar,
ao prestígio do Filho do Céu, todos os princípios de
força com os quais, no fim da era dos tiranos, o pri-
meiro imperador havia alimentado sua Majestade.

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