A sociedade no início da Ea Imperial (02) - O suserano Autocrata

ll - O soberano autocrata

Por volta do fim do período feudal (Reinos com-
batentes), formaram-se domínios poderosos, anima-
dos de um novo espírito. Seus chefes são guerreiros
indiferentes à glória conferida pela preocupação com
a etiqueta e com a moderação, mas ávidos de con-
quistas, de poderes efetivos, de riquezas reais. Tiram
seus tesouros das minas e das salinas, dos pântanos
e dos bosques, das fronteiras que tomam dos Barba-
ros e dos terrenos incultos que sabem cultivar. Enco-
rajam os comerciantes, fazem circular as riquezas.
Têm celeiros e tesouros. Acumulam os abastecimen-
tos destinados aos exércitos, os metais e as jóias que
servem para estreitar as relações. É a época das sun-
tuosidades que se afrontam, das ambições desmedi-
das e das anexações. Viu-se, então, que se esboça a
noção de um poder de ordem superior que pertence
ao príncipe como chefe de Estado. Mas, ao contrário
dos legisladores que desprezam, todos os letrados,
que escrevem a história, consideram o crescimento do
Estado como usurpações. Os grandes potentados,
aviltados em seu orgulho cego, são descritos com os
traços que a tradição começa a atribuir aos antigos
reis de perdição. Nas capitais suntuosas dos Reinos,
os vassalos se perdem na multidão de aventureiros
vindos de longe, feiticeiros, médicos, astrólogos, filó-
sofos, espadachins, dialéticos, histriões, juristas, cada
qual se tornando o favorito do dia, com sua receita
do poder. A vida da corte parece uma rixa perpétua
onde as corporações e as clientelas se chocam selva.
gemente. O senhor toma ar de tirano. Mais do que
nunca, ele é um criador da hierarquia, mas de uma
hierarquia móvel, a ponto de nada parecer adquirido
a título hereditário e da autoridade do chefe parecer
ligada a sua pessoa mais do que a sua linhagem. O
prestígio por ele procurado não parece emanar da
observância das proibições costumeiras ou da obten-
ção regular dos sacramentos tradicionais. A estes
príncipes magníficos, as graças mágicas parecem con-
vir melhor do que as graças religiosas. Eles despre-
zavam o saber mesquinho legado pelos antepassados
e conservado por seus mestres-de-cerimônias, que
são os vassalos hereditários. Acolhem desconhecidos,
depositários de novas ciências, que lhes prometem
êxitos ilimitados. Confiam, sucessivamente, sua sorte
a um destes técnicos de saber mágico. Fazem-nos
seus auxiliares, oferecendo-lhes a metade de sua for-
tuna, responsabilizando-os, depois, pela calamidade de
um revés ou pelo perigo que jaz no fundo de um êxito
grande demais. Enquanto os favoritos são bem suce-
didos, não o sendo, porém, em excesso, podem tra-
balhar para a glória de seu senhor. Seu banimento
ou sua morte compensarão os reveses e purificarão
os êxitos. O esplendor de sua ascensão e o de sua
queda concorrem para conferir novo brilho à glória
do potentado e para revestir sua pessoa de majestade.
Se parece verdadeiro que o último período dos
tempos feudais foi marcado por competições furiosas
em que, lutando com riquezas acrescidas e magias
novas, alguns príncipes conquistaram a posição de
potentados e o nome de tiranos, os fatos também
mostram que, no início da época feudal, o prestígio
necessário ao chefe era adquirido nos torneios onde
entravam em jogo técnicas e valores que não eram
unicamente de natureza tradicional, embora todos fos-
sem de ordem mística. Os princípios de majestade
procurados pelos tiranos e, depois deles, pelos impe.
radores, não são, o que quer que diga a tradição chi-
nesa, novidades imaginadas numa era de decadência
e anarquia. De fato, para criar como para destruir a
ordem feudal, foram necessários esforços da mesma
ordem. As fontes da majestade estão próximas das
fontes do prestígio. Elas não foram descobertas pos-
teriormente. Para a crítica ortodoxa, o prestígio do
Filho do Céu nasce da observância da etiqueta confu-
ciana, identificada à sabedoria dos tempos felizes em
que se iniciou a civilização; a glória procurada pelos
potentados deriva, pelo contrário, das ambições ilusó-
rias nascidas das especulações decadentes dos taoís-
tas. Estas afirmações não estão desprovidas de ver-
dade, mas com a condição de se eliminar tudo aquilo
que constitui um julgamento de valor e tudo o que
julga antecipadamente uma ordem histórica. As prá-
ticas e as teorias de onde os soberanos tiraram os
elementos constitutivos da majestade imperial, não
são superstições recentes e só puderam ser conside-
radas especificamente taoístas depois da constituição
de uma escola ortodoxa. Che Houang-ti é tido como um
inimigo dos letrados, mas é impossível estender o
mesmo julgamento ao imperador Wou, que foi um
eclético e que patrocinou o sincretismo religioso.
Kao-tsou, em todo caso, herói nacional e herói popu-
lar, não procura, de maneira alguma, ser um Filho do
Céu segundo a definição ortodoxa. Se este aventurei-
ro feliz chegou a aparecer como imperador, foi porque
soube utilizar uma corrente mística, que era uma cor-
rente popular e uma corrente profunda. Uma indica-
ção sugestiva é fornecida pelo fato de que ele estava
marcado com setenta e dois pontos negros na coxa
esquerda: setenta e dois é o número característico
das confrarias (912). Fato mais notável ainda, a história
reconhece que Kao-tsou deveu a melhor parte de seu
êxito a seu conselheiro íntimo, Tchang Leang (913)
(este seria depois considerado um dos primeiros pa-
tronos das seitas taoístas) (914). Depois de ter dirigido
a política de Kao-tsou e a da imperatriz Lu, apoiando.
se, na ocasião, na autoridade dos anciãos divinos (915),
Tchang Leang soube escapar da desgraça devida aos
favoritos bem sucedidos demais. Retirou-se a tempo
e dedicou seus dias a se preparar na arte da longa
vida. Sseu-ma Ts'ien afirma que ele pertencia à escola
ascética do imortal Tch'e-song-tseu (916). Tchang Leang
sabia, segundo Kao-tsou, "combinar os planos no fun-
do de uma tenda e alcançar a vitória a mil li de dis-
tância" (917). Tal é, na verdade, o princípio e o sinal da
majestade e de'toda autoridade. O imperador chega
a ser um soberano autocrata, quando (como asceta)
vive num afastamento glorioso - exaltando o vigor
de vida que está nele, de maneira a adquirir a imorta-
lidade que pertence aos gênios e que é a marca de
um poder ilimitado - e exercendo esse poder, sem
nunca o delegar, por um simples efeito de influência,
que informa os atos de todos os homens e do univer-
so inteiro.

Inicialmente, Che Houang-ti adotara, para se
designar, um termo (tchen) especificando, dizem os
comentários, que ele agia sem ser visto e sem fazer
ouvir o som de sua voz(918). Mais tarde, em virtude
dos conselhos do mestre Lou, um mágico que empre-
gava para atrair os gênios, decidiu viver num lugar
ignorado de todos os seus súditos, para que nada
impuro viesse mancha-lo(919). Movimentava-se num
palácio que, representação mais adequada do mundo
do que o próprio Ming t'ang, continha, sem dúvida,
tanto quartos quantos são os dias do ano. Aqueles
que divulgavam seu refúgio eram punidos com a mor-
te: punidos com a morte aqueles que se supunha que
tinham divulgado suas palavras. Num raio de duzentos
li em redor de seu palácio, todos os caminhos eram
cercados por muros e cobertos. O soberano, deixando
de discutir os assuntos, tomava as decisões sozinho,
em seu palácio murado. Desde então, tendo feito o
necessário para entrar em comunicação direta com
estes "Homens verdadeiros", que são os Gênios, de.
signou.se, não mais pela palavra tchen, mas pela ex-
pressão "Homem verdadeiro"(920). Assim também,
Eul-che Houang-ti, seu filho, para evitar que o pertur-
bassem com "discursos maus" e para não "mostrar
suas imperfeições", resolveu ficar confinado em seus
aposentos privados. Não saía nunca (921). Seu pai não
hesitava em fazer inspeções, mas incógnito, quando
percorria, de noite, sua capital (922), ou numa carrua-
gem fechada, quando viajava pelo império - tão bem
que pôde morrer sem que ninguém de seu cortejo
desse conta do fato (923).

Protegido, por seu isolamento, dos contatos
que maculam, como de todo desperdício de energia,
o soberano autocrata é, se assim posso dizer, como
que uma concretização do Universo que envolve, no
grande seio do Universo, uma série de Universos en-
caixados: estes vão se concentrando à medida em que
se aproximam do dominador universal. Seu palácio é
um microcosmo, onde a arte dos arquitetos, represen-
tando, em reduções magníficas, a Via Láctea e a ponte
triunfal que a atravessa, colocaram ao alcance do se-
nhor do mundo a energia celeste da qual deve ser
impregnado (924). O carro imperial, o vestuário impe-
rial são eles, também, feitos da essência do mundo.
A caixa quadrada do carro é a própria Terra, seu dos-
sel circular equivale ao Céu, as maiores constelações
são apresentadas nos emblemas das bandeiras e, gra-
ças à escolha de insígnias (sol, lua, constelações,
raio, etc) que aparecem em suas roupas, o Homem
único encontra-se em contato direto com as forças
favoráveis mais eficazes.

O imperador Wou não se submeteu ao confina-
mento com a vontade disciplinada dos soberanos
Ts'in, mas despendia muito para fazer de seu palácio
uma concentração esplêndida do Universo (925). Todos
os animais do ar, da água e da terra comprimiam-se
em seus viveiros e em seus parques. Nenhuma espé-
cie faltava em seu jardim botânico; as ondas de seus
lagos quebravam-se nas terras longínquas onde se em-
contravam as ilhas misteriosas dos imortais; coloca-
dos em altas colunas, os gênios de bronze recolhiam
para ele o orvalho puro, ali onde a poeira do mundo
não pode alcançar. Ele mesmo podia, ao longo de um
duplo caminho em espiral, subir ao ápice de uma tor-
re, o olhar perdendo-se na imensidão em redor do
Céu, de onde se dominava o Universo inteiro. O pres-
tígio de suas armas permitia-lhe obter o Cavalo ce-
leste de espuma escarlate(926); atraídos por seu em-
canto, tinha vindo um bando de seis gansos verme-
lhos (927). Tudo permitia esperar a chegada próxima do
Dragão, que transportaria o imperador, em pleno Céu,
além de K'ouen-louen (928). Pouco importava que os tri-
pés sagrados dos Filhos do Céu desaparecidos não
pudessem ter sido retirados do rio, onde se tinham
tornado invisíveis; manifestando a glória do impera-
dor Wou, um tripé mágico havia saído para ele das
profundezas da terra, enquanto que, no céu, uma nu-
vem amarela formava um dossel (929). Como Houang-ti,
o Soberano amarelo que, depois de ter "achado as
hastes da aquiléia mágica do tripé precioso", atraiu
um Dragão com barba pendente, sobre o qual, com
suas mulheres e seus filhos (setenta pessoas), foi
arrebatado aos céus, o imperador estava preparado
para a apoteose, concebendo-a mesmo com o ascetis-
mo que convém a um autocrata: "Ah! se eu pudesse
verdadeiramente me tornar semelhante a Houang-ti,
deixar minhas mulheres e meus filhos será, a meus
olhos, mais fácil do que deixar meus sapatos(930)!"
Nenhuma renúncia é difícil a quem deseja o
poder puro. O imperador consumia seus tesouros para
que o mágico Chao-wong, a quem ele tratava, não
como um súdito, mas como um hóspede, pudesse
construir carros onde estavam incorporadas as ema-
nações vitoriosas que afastam os gênios maus e ter-
raços onde se podia habitar no meio de todas as for-
ças divinas, figuradas em pinturas, assim como a Terra
e o Céu (931). Ele se absteve de beber e de comer, vi-
veu em purificações para poder se apresentar, como
hóspede, no palácio da Longevidade. Ali, a feiticeira
da Princesa dos Espíritos atraía os deuses cuja vinda
provocava um vento que apavora e cujas palavras
eram registradas para constituir a compilação das
"Leis escritas" (932). Ao mago Louan-ta, que era eunu-
co, casou sua filha mais velha, provida de um dote
de dez mil libras de ouro; enviou-lhe, por um mensa-
geiro vestido de plumas, um selo de jade que o mago,
também vestido de plumas, recebeu com a postura
de um senhor, em pé sobre uma liteira de ervas puri-
ficadoras. Este selo trazia o título de "Senhor da Via
Celeste", pois o imperador esperava que o eunuco o
introduzisse junto aos deuses do Céu(933). Che
Houang-ti tinha enviado ao mar Oriental, como tributo
aos imortais, centenas de casais de moças e de rapa-
zes virgens; assim também, o imperador Wou, que
também se esforçou, "mirando ao longe" para alcan-
çar as ilhas Bem-aventuradas e as Montanhas San-
tas (934), fazia dançar no alto de um terraço "comuni-
cando com o Céu ", pares de adolescentes que deviam
seduzir os deuses, enquanto que archotes, erguidos
no ar, figuravam uma chuva de estrelas(935). Graças.
a estas obras ele pôde fazer aparecer cometas magní-
ficos e estrelas com o tamanho de abóboras (936). Seus
invocadores, quando ele sacrificava a T'ai yi (a Uni-
dade suprema), podiam proclamar: "A estrela da Vir-
tude esparge ao longe seu brilho!... A estrela da
Longevidade... ilumina-nos com sua claridade pro-
funda(937)!" E, com efeito, em 109 [enquanto que o
primeiro imperador nunca tinha obtido este agárico
ramificado (a planta tche) do qual se pode tirar a
Droga maravilhosa (938) e que ele mesmo havia feito
procurar, até então inutilmente, por dez mil má.
gicos] (939) no recinto mesmo do palácio do imperador
Wou, e, exatamente, na sala onde ele se entregava
a suas purificações - enquanto que na torre de nove
andares que comunica com o Céu, uma claridade apa-
recia - este agárico, concretização de todo poder
imortal, produziu-se espontaneamente e em sua per.
feição plena pois tinha, exatamente, nove hastes (940).
Mas, como é preciso pagar a felicidade, o imperador,
logo que progrediu na estrada dos Gênios, sacrificou,
devido sua arte, seus professores de imortalidade,
entregando, sucessivamente, à morte Chao-wong, que
outrora havia nomeado marechal da Sábia Perfeição,
e Louan-ta, seu genro, antes promovido a marechal
das Cinco Vantagens (941).

A sorte do mago favorito difere da sorte do
mais íntimo vassalo, unicamente porque os prazos
marcados para seu bom êxito não dependem de datas
rituais, mas da boa disposição do Senhor. Somente,
antes de se tomar o emissário sobre o qual se voltam
todos os riscos da desgraça, um artífice da imortali-
dade sabe fazer derivar sobre a pessoa imperial favo-
res muito mais esplêndidos e bem mais íntimos do
que aqueles que um chefe pode adquirir presidindo,
na frente de seus vassalos, ao culto tradicional. Grã-
ças às fórmulas de seus magos, o imperador toma
o aspecto de um gênio, isto é, realiza em si mesmo
o máximo de tudo o que é possível a um ser humano.
Ele se torna o Homem grande, o ta jen, aquele cuja
vida é uma apoteose em todos os instantes (942). Sua
substância, purificada pelo treino da longa vida, eteri-
fica-se a ponto de lhe ser permitido, usando de todos
os recursos da levitação, movimentar-se, não mais
sobre os caminhos do homem e as estradas dos Lu.
gares.Santos, mas no mundo real dos Gênios: ali ele
empreende longas caminhadas (yuan yeou), convocan-
do, para junto de si, o conde do Vento, o senhor da
Chuva, o senhor do Trovão, o deus do Rio, todos os
ascetas beatificados com os quais ele se entretém,
nas próprias fontes da vida, nesse Rio que é a Via
Láctea, freqüentando, com a Si-wang.mou (Ogra da
Morte, Patrona da imortalidade), todas as Fadas sem
mácula (yu niu) e batendo, quando lhe agrada, na por-
ta do Soberano do Alto.'Seria indiscreto perguntar-se
se os imperadores, como os ascetas, chegaram a ex-
perimentar a embriaguez dos folguedos mágicos de
outra maneira, além de tê-los ouvido cantar pelos
poetas encarregados das baladas oficiais ou de tê-los
visto representar nessas apoteoses da ópera, em que
figuravam inúmeros prestidigitadores e bailarinas. O
essencial é notar que, alimentado por sonhos místicos
e enaltecido pela arte, o poder atribuído ao imperador
autocrata é idêntico à força que o asceta visa obter.
Che Houang-ti queria ser semelhante aos Homens
Verdadeiros, que "entram na água sem se molhar, no
fogo sem se queimar e que se elevam sobre as nu-
vens e sobre os vapores"(943). Tal é com efeito, o
programa inicial, tais são as primeiras provas de po-
derio que propõe a ascese taoísta, herdeira do antigo
xamanismo. O grande objetivo é "tornar-se eterno co-
mo o Céu e a Terra"(944). É adquirido desde que o
asceta sinta que identificou sua vontade à ordem do
Universo. O asceta possui, então, um poder total, in-
condicionado, que não tem outro princípio além de
sua própria vontade e que lhe permitiria, por exem-
plo, se ele quisesse, intervir na ordem das esta-
ções (945). Mas o soberano, como o asceta, só é dono
do Universo se se tornar dono de si mesmo. Não pode
ter caprichos se quiser permanecer uma força pura.
Reina, pois, sem intervenção arbitrária: gover-
na sem ingerência administrativa, deixando fazer -
o que não quer dizer que ele não governe. Governa,
pelo contrário, tudo e no menor detalhe, mas sem
nunca usar seu poder num ato particular. Enquanto
sua vontade estiver de acordo com a ordem universal,
as ações do conjunto dos seres, pelo efeito imediato
de um ascendente irresistível, conciliam-se por elas
mesmas, como as fantasias de um sonho, aos meno-
res movimentos de seu desejo profundo. Não se faz
obedecer por intermédio de subalternos ou por regu-
lamentos. É suficiente que seja um Homem grande,
um Homem verdadeiro: o poder que nele está con-
centrado, em estado puro, determina, como por uma
corrente sutil de indução, uma convergência unânime
dos desejos e das ações. A vontade imperial suben-
tende o império inteiro e o império e o mundo não
existem senão para contar a glória do Autocrata.

Nenhum comentário: