Rivalidades de confrarias

Parece que as primeiras autoridades mas-
culinas constituiram-se - ao curso das
cerimônias da estação do inverno - du-
rante reuniões de confrarias.
Durante a invernada, na casa comum, os
lavradores, à força de justas, de gestos,
de orgias, conquistaram a confiança nas virtudes viris.
Seu prestígio aumentava à medida em que se exten-
diam seus arroteamentos. Mas os Heróis Fundadores
não tiram sua glória unicamente do fato de terem pre-
parado o solo e vencido as matas com o fogo. De
outra maneira ainda, eles são os Senhores do Fogo.
Eles são oleiros ou ferreiros. Sabem, com o auxilio de
uniões santas e trágicas, fabricar utensílios divinos.
Nos caldeirões mágicos, fundidos por Yu, o Grande,
toda a virtude dinástica estava incorporada, exatamen-
te como podia estar, num Monte ou num Rio Sagrados.
Estes últimos desmoronam ou secam quando a Vir-
tude de uma raça vacila. Assim também, quando esta
Virtude se torna muito frágil, as caldeiras perdem seus
pesos. Por elas mesmas, vão carregar-se novamente
de prestígio junto a um novo senhor (437).

Yu, o Grande, primeiro rei da China, é um fer-
reiro. Houang-ti, primeiro Soberano, é também um fer-
reiro. Houang-ti é o deus do raio. Yu comandava o
trovão. Graças ao trovão, ele fez chegar à plenitude a
Virtude de sua raça. Outrora, numa justa dançada, ele
havia vencido divindades ou chefes (é a mesma coisa)
aparentados aos touros e que mugiam como os ven.
tos (438). Houang-ti, do mesmo modo, chegou ao poder
depois de ter "conduzido sua Virtude " numa justa onde
venceu Chen-nong. Chen-nong nos é apresentado pre-
sidindo às festas da forja (conta-se que sua filha mor-
reu queimada ou afogada). Mas ele é, antes de tudo,
o deus dos ventos abrasados, o deus dos fogos do
arroteamento. É o deus dos lavradores. Houang-ti lutou
contra Chen-nong; lutou também contra Tch'e-yeou.
Os historiadores confundem a narração dessas justas.
Para dizer a verdade, Tch'e-yeou e Chen-nong pouco
diferenciam. Todos os dois trazem o mesmo nome de
família. Todos os dois são homens com cabeça de
touro. Somente Tch'e-yeou não é um deus das lavou-
ras. Ele é o Senhor da Guerra, o inventor das armas.
Seus ossos são concreções metálicas. Ele tem uma
cabeça de cobre e uma testa de ferro: assim também,
é feito de cobre e termina em ferro um dos instru-
mentos de que se utilizavam os antigos fundidores.

Tch'e-yeou, que inventou a fundição dos metais, come
minérios. Ele é a forja, a forja divinizada - no entan-
to, é perfeita a semelhança entre ele e o deus das
lavouras. A aproximação destes fatos sugere uma hi-
pótese. Na massa dos lavradores, recrutaram-se con-
frarias de técnicos, detentores de saberes mágicos e
mestres do segredo das primeiras forças (439).
A existência de confrarias rivais faz supor um
meio em que a organização não é mais fundada na
simples bipartição. Ora, segundo as concepções chi-
nesas mais antigas que se conhecem, o Universo (o
Universo não se diferencia da sociedade) é formado
de setores, cujas Virtudes se opõem e se alternam.
Estas virtudes são realizadas sob o aspecto de Ventos.
Os Oito Ventos correspondem não somente a setores
do mundo humano e natural, mas também a poderes
mágicos. Todas as coisas acham-se repartidas no do-
minio dos Oito Ventos, mas estes presidem juntos à
música e à dança. A dança e a música têm por função
acomodar o mundo e subjugar a natureza em bene-
fício dos homens. Na maior parte dos dramas míticos,
onde se comemora a lenda da fundação de um poder,
vê-se figurar, sob os traços de Ancestrais dinásticos,
ou de Animais heráldicos, seres que comandam um
setor do mundo e que, em inúmeros casos, aparecem
sob o aspecto de Ventos. Tem-se, pois, o direito de
supor que a organização bipartida da sociedade foi
substituída, ou antes, sobreposta, por uma divisão em
grupos orientados, cada um preposto a um departa-
mento do Universo e todos trabalhando de acordo -
dançando, lutando, rivalizando-se em prestigio - para
a conservação de uma ordem única. Dessas rivalida-
des e dessas justas saiu uma ordenação nova da so-
ciedade, ordenação hierárquica e fundada no prestígio.
Eis, por exemplo, como Houang-ti conquistou o
poder. Ele só o obteve depois de haver vencido Tch'e-
yeou, o grande rebelde. Os dois defrontaram-se numa
luta onde cada um tinha dois acólitos. Tch'e-yeou tinha
pedido o Conde do Vento e o Senhor da Chuva. Por
Houang-ti, combatiam a Seca e o Dragão chuvoso
(Dragão Ying). O Dragão Ying reuniu as Águas. Tch'e-
yeou produziu a Chuva e o Nevoeiro. Partindo do rio
do Carneiro ele subiu até os Nove Pântanos e atacou
K'ong.sang. K'ong-sang é a Amoreira oca onde o Sol
se levanta e foi dali que partiu Houang-ti para alçar-se
ao lugar soberano (que é o do sol ao meio-dia). Tch'e-
yeou tinha sobre as fontes cabelos cruzados em forma
de lança. Ninguém ousava resistir-lhe, quando, com
sua cabeça cornuda, ele se atirava para frente. Mas,
soprando num chifre, Houang-ti fez ouvir o som do
dragão e saiu vencedor da justa. (A justa com chifres
é, mesmo nos tempos clássicos, um ordálio; o vencido
merece a morte.) O Dragão Ying cortou a cabeça de
Tch'e-yeou. (Nos tempos feudais, a cabeça cortada do
vencido era pregada numa bandeira.) Houang-ti apode-
rou-se da bandeira de seu rival. Sobre esta bandeira
estava a efígie de Tch'e-yeou. Desde então, Houang-ti
reinou em paz, pois esta efígie aterrorizava as Oito
Regiões (440).

Este mito, aparentemente, é a fabulação de um
drama representando uma luta de confrarias que se
rivalizavam com a ajuda de danças religiosas e de
passes mágicos. Conhece-se, na verdade, a dança de
Tch'e-yeou. Os dançarinos, que se defrontavam, por
dois ou por três, traziam sobre a cabeça chifres de
boi e lutavam com os cornos. Tch'e-yeou, aliás, não é
somente o nome de uma dança e o nome de uma
bandeira: é o nome de uma confraria. Tch'e-yeou não
era um: ele era 72 (8 x 9) ou 81 (9 x 9) irmãos. Ele
era o príncipe dos Nove Li e os oitenta e um irmãos
representavam as Nove Províncias míticas da China.
Ele tinha oito dedos, oito orelhas, e aterrorizava as
Oito Regiões. (Os Ventos são Oito. Tch'e-yeou é o
deus de um oriente e é um deus dos ventos.) Era,
pois, um setor do mundo, como um quinto dos dias
360 = 72, que eram figurados pelos 72 irmãos. Seten-
ta e dois é, de resto, o número característico das
confrarias (441).

Nas rivalidades de confrarias que resultaram
numa organização hierarquizada da sociedade, o papel
dominante pertenceu às confrarias que eram as donas
das artes do fogo. Seus emblemas, com efeito, torna-
ram-se emblemas reais. O dragão foi, sem dúvida, um
dos brasões da dinastia Hia. Ora, os caldeirões dinás-
ticos são guardados por dragões. Assim também, as
espadas reais são espadas-dragões: elas desaparecem
nos rios e resplandecem como relâmpagos ou então,
quando são usadas nas justas, fazem os dragões subir
ao céu entre os relâmpagos terríveis do trovão. Além
disso, uma personificação da forja chama-se o Dra-
gão-archote. - Este Dragão-archote, que traz ainda o
nome de Tambor e que nasceu do Monte do Sino, é
também um mocho. O mocho foi o emblema dos Yin,
segunda dinastia real. O mocho é o animal dos solsti-
cios, dos dias privilegiados, quando se fabricam as
espadas e os espelhos mágicos. Ele é, ao mesmo
tempo, gênio da forja e o pássaro do raio. Ele é tam.
bém o duplo simbólico de Houang-ti, grande fundidor,
deus do Trovão e primeiro Soberano (ao qual todas as
linhagens reais se ligam), pois Houang-ti (o Soberano
amarelo) nasceu de um relâmpago sobre um monte,
cujo animal sagrado era um mocho que se chamava
O Pássaro amarelo. O Pássaro amarelo figurava nos
estandartes reais (442). - Assim também, o Pássaro
vermelho brasonava a bandeira dos príncipes da ter-
ceira dinastia, a dos Tcheou. O Pássaro vermelho é um
corvo. Ele aparece aos Tcheou antes de um triunfo ou
quando vai nascer um santo em sua raça. Um ramo da
família Tcheou chama-se: os Corvos vermelhos. Como
o mocho, o corvo era um animal do Fogo, mas, corvo
com três patas, ele era antes o pássaro do Sol do que
o pássaro do Raio (443). - A autoridade soberana tem
por fundamento a posse de talismãs e de emblemas
herdados dos ferreiros míticos. Com a ajuda desses
emblemas e desses talismãs, os reis, senhores do Sol
e do Raio, podem reger a natureza. Todo o prestígio
que deram aos Senhores do Fogo as mais maravilho-
sas artes mágicas, está concentrado na pessoa do
soberano, Filho do Céu.

A concentração de poder que foi o resultado
das rivalidades de confrarias, colocando brasões con-
tra brasões, parece ter tido seu ponto de partida nas
justas que ocupavam as reuniões masculinas da esta-
ção morta. Durante as longas noites de inverno, cele-
bra-se, na verdade, uma festa real. Nessa ocasião, o
Chefe submete-se a uma grande prova. Ele mostra,
então, que é digno de comandar o Céu (444).
Para se tornar Filho do Céu, Yao, este Sobe-
rano que "aparecia como Sol ", teve que atirar flechas
contra o sol. Assim ele conseguiu subjugar seu duplo
celeste. Depois que conquistou o emblema do sol, ele
mereceu reinar(445). O tiro com o arco é uma ceri-
mônia inaugural em que se pode fazer brilhar a virtu-
de. Mas, um chefe indigno vê a prova voltar-se contra
ele. Em conseqüência de uma ação reflexa que pune
o mágico incapaz, as flechas desferidas contra o céu,
caem sob a forma de relâmpagos. O atirador perece
fulminado pois tentou despertar e captar as energias
do Fogo sem possuir as qualificações requeridas. Tal
foi o caso de Wou-yi, rei sem Virtude. Wou-yi atirou
contra o Céu ou, antes, contra um odre cheio de san-
gue que ele chamava de Céu. Feito com pele de boi,
tinha o formato de um mocho. O rei atirou depois de
ter obtido, no jogo de xadrez, o golpe do mocho, que
lhe permitia tentar sua sorte. Wou-yi pertencia à fa-
milia dos Yin, que possuía o emblema do mocho e
que trazia este nome:Odre. Mas, degenerado, ele não
tinha em si a virtude que permite merecer seu brasão
e ficar senhor de seu duplo mítico. Ele era totalmente
ao contrário de Houang-ti. Houang-ti (o Soberano ama-
relo) era capaz de se apoderar dos mochos (Pássaros
amarelos). Neles, um verdadeiro soberano deve poder
atirar, utilizando-se de flechas serpenteantes. Estas,
como os relâmpagos, conduzem o fogo,Houang-ti; que
se alimentava de mochos, sabia identificar-se perfei-
tamente com seu emblema. A força de sagrações,
toda a virtude dos fogos celestes incorporou-se nele.
Ele pôde, então, alçar-se ao Céu numa tempestade
apoteótica.

Houang-ti era Raio. Ele era também, sob a de-
nominação de Ti-hong, identificado com um Odre ce-
leste. O odre Ti-honq é pássaro, ao mesmo tempo que
saco de pele e tambor. Existe mesmo um mocho (seu
nome é aquele do tambor da noite) que é um saco e
sobre o qual o raio e as flechas saltam. E existe, en-
fim, um tambor que é um mocho: produzindo o vento
quando respira, vermelho e com os olhos fixos, ele
figura uma forja e seu fole. Também vermelho, como
um minério em fusão, e bem no alto do Monte do Céu,
rico em cobre, o Odre celeste tem nome: Caos (Houen-
touen). O Caos morre quando os Relâmpagos o atra-
vessam sete vezes. Mas esta morte não é senão um
segundo nascimento. É uma iniciação. Com efeito,
todo homem tem sete aberturas no rosto. Mas somen-
te um homem virtuoso (isto é, um homem bem nas-
cido) tem sete aberturas no coração. Houen-touen, o
Odre-Caos, quando era personificado, era represen-
tado como um perturbador estúpido. Ele não possuía
nenhuma abertura: ele não tinha "nem rosto, nem
olhos", isto quer dizer que lhe faltava a face, a res-
peitabilidade. Num drama mítico em que figura, ele
é, no fim, renovado por um suplício. Como Odre celes-
te, ele participa de uma dança e é mostrado, num outro
lugar, oferecendo um festim. Ele o oferece, precisa-
mente, aos Relâmpagos e se estes o atravessam sete
vezes, não é por maldade, nem para matá-lo: eles ten-
cionam agradecê-lo por sua boa acolhida.
O tema do tiro contra o Céu e o mito do Odre
que os Relâmpagos atravessam, conservam, aparen-
temente, a lembrança dos ritos de iniciação e das
provas pelas quais, manejando perigosamente o fogo,
adquiria-se a mestria numa confraria de ferreiros.
Estas mesmas provas eram impostas a um Rei, Filho
do Céu. Este deve saber acomodar e modelar o mundo
como um demiurgo. Ele deve, sobretudo, nos mo-
mentos convenientes, restaurar, em toda sua glória,
os Fogos celestes, e, ao mesmo tempo, apoderar-se
de suas virtudes (446).

Ora, pelo menos quando figura na lenda de
Cheou-sin, o mais funesto dos reis de perdição, o tiro
contra o Céu, representado por um Odre, aparece
ligado a uma festa hibernal que se chama a libação
da longa noite. Os Relâmpagos fazem sete aberturas
no Odre-Caos. Cheou-sin (célebre por ter querido veri-
ficar, estripando Pi-kan, seu tio, se o coração de um
sábio tinha sete aberturas) atirou num odre cheio de
sangue. Ele se preparou para este tiro matando ho-
mens e animais domésticos "das seis espécies". Os
seis primeiros dias do ano eram consagrados aos seis
animais domésticos. O sétimo era ao homem. Dizem
que Cheou-sin continuou sua libação durante sete dias
e sete noites. Um autor conta que Cheou-sin fazia
durar cento e vinte dias a libação da longa noite, mas
isto, diz ele, é um exagero. Admitamos que a proeza
tenha sido, simplesmente, decuplada. Os últimos doze
dias do ano constituíam um período religioso e, mes-
mo nos tempos clássicos, o ano se encerrava com
uma dança dos Doze Animais, os quais passavam por
representar os doze meses. Se a libação hibernal com.
preendeu sete ou oito dias, é evidente que ela teria
ocupado um período colocado entre dois anos suces-
sivos.

O ano religioso dos Chineses tem trezentos e
sessenta dias e doze meses lunares. Se estes meses
lunares foram, outrora, como parece, contados todos
com vinte e nove dias, restava, no fim do ano, um pe.
ríodo de doze dias que podia ser consagrado aos Doze
Animais. Se os meses lunares, alternadamente gran-
des e pequenos, duravam, uns trinta dias e outros
vinte e nove dias, restavam, para perfazer o ano, seis
dias que podiam ser dedicados aos seis animais do-
mésticos. O sétimo dia, o dia do homem, iniciava o
ano. Devia ser aquele do sacrifício supremo. Os fes-
tins canibalescos de Cheou-sin ficaram famosos, com
toda a justiça. De resto, o sangue que enchia o odre
figurando o Céu era, certamente, o do personagem
que, jogando xadrez antes do tiro, tinha efetuado o
jogo do Céu contra o Rei.

A libação das sete ou das doze noites (que tem
equivalentes no folclore europeu, como nos usos vé-
dicos) liga-se a velhos costumes dos camponeses chi-
neses. Eles também, durante as longas noites de
inverno, bebiam sem parar. Eles também tentavam,
então, a sorte no jogo de xadrez. Eles jogavam ainda
o jogo do gargalo, este jogo no qual se utilizam fle-
chas encurvadas, e chamadas de serpenteantes, como
as que o Rei atirava no Sol ou no Mocho. Tratava-se
de fazer entrar estas setas na abertura de uma jarra.
Precisamente, os Chineses representavam o Céu sob
o aspecto de uma jarra fendida, com os relâmpagos
escapando pela fenda. Como as jarras, os odres de
pele de boi, que têm a forma de um mocho e que figu-
ram o Céu quando cheios de sangue, serviam ainda
para conter o vinho. Os camponeses conservavam
também o vinho em jarras, e os nobres em sinos de
bronze. Uns e outros acompanhavam suas libações
tocando tambor sobre as jarras ou sobre os sinos.
Eles produziam, então, tão bem o barulho do trovão
que, dizem, as faisoas da noite punham-se logo a can-
tar. Assim se despertava a energia do Trovão, do Fogo,
do princípio masculino (Yang). O Trovão, no inverno,
não tem mais forças para se fazer ouvir; o Sol mal
consegue se mostrar. Os chineses acreditavam que o
Yang, o princípio masculino, ficava, durante a estação
fria, cercado e preso pelas forças opostas do Yin. Não
é essa a época em que, reduzidos à inação, os lavra-
dores retiram-se para a casa comum, no meio da aldeia
que pertence às mulheres? Durante este retiro, eles
concentram suas energias e podem, enfim, ajudar a
restauração das forças masculinas da natureza. Suas
festas hibernais terminavam, pois, numa orgia onde
homens e mulheres, formando grupos adversários,
combatiam e lutavam arrancando suas vestimentas.
Esta justa realizava-se de noite, com os archotes apa-
gados. Do mesmo modo, na festa real, homens e mu-
lheres perseguiam-se, todos nus. Cantando uma músi-
ca que tratava da morte do sol, executavam, então,
danças de roda. [O fim de um eclipse das forças sola-
res é simbolizado (sabe-se por outro lugar) pela dança
de um rapaz nu que gira sobre si mesmo.] No fim da
cerimônia, os archotes são acesos. A justa dançada,
onde se defrontam homens e mulheres (na festa real,
a orgia sexual parece acompanhar-se do assassínio da
rainha, a qual é, depois, comida comunitariamente, ha-
via proporcionado uma vitória e um rejuvenescimento
dos princípios masculinos do Fogo. Logo depois, assim
que a aurora se iluminava, elevavam-se no ar os archo-
tes. Fazia-se, também, aparecer um rapaz muito jovem,
cujo corpo era vermelho-sangue e que surgia nu. Este
menino representava o Sol recém-nascido. Chamavam-
no o deus do Céu. Nas lendas dos Reis de perdição,
a entrada do menino vermelho simboliza a chegada
de um Chefe novo, substituindo, no poder, o velho
Chefe que não soube renovar sua virtude abalada. Com
efeito, as comedorias e as libações hibernais serviam
para renovar as forças vitais dos velhos. As festas da
casa comum consistiam, principalmente, numa orgia
de bebida. Saboreava-se, então, o vinho novo, fabri-
cado no inverno e encerrado em odres, jarras ou sinos.
Esta orgia terminava com vivas e votos de vida sem
fim: dez mil anos! Ela acompanhava o jogo do gargalo
e era completada por justas de jactância. Tinha-se
acumulado os víveres em montes mais altos do que
uma colina! Nenhum rio teria podido fornecer tanta
bebida! Cheou-sin, quando celebra a festa hibernal,
levanta uma montanha de alimentos. Ele cava um
tanque que enche de vinho. Em tal lago de bebida,
pode-se, dizem, fazer girar um navio. Pode-se fazer
corrida de carros sobre o monte de comestíveis. Nes-
tes festins, todos os assistentes têm que beber até a
saciedade, tomando o vinho, chafurdando-se à manei-
ra dos bois. O rei que, por diferentes ordálios, tem
que manifestar sua capacidade, deve prova-la, sobre.
tudo, fartando-se como qualquer outro. Então, vestindo
uma couraça de pele de boi, ele pode atirar no Odre
de pele de boi. Ele pode, maravilhoso batismo que
equivale a um renascimento, fazer chover sobre si o
sangue do Céu: quando é bem sucedido em seu tiro
inaugural, os vassalos proclamam sua glória: " Ele ven-
ceu o Céu! Nenhum o sobrepuja em talento!" E os
vivas e votos: "Dez mil anos! Dez mil anos! " ressoam
em redor e repercutem ao longe - assim que o
Rei bebe.

A festa real da longa noite surge como um des-
dobramento das festas da casa comum. Ela é cheia
de ritos dramáticos, senão horríveis, pois assinala o
ponto culminante de uma liturgia hibernal em que,
com a ajuda de justas, de provas, de sacrifícios e de
sagrações, classificam.se os méritos e constrói-se a
hierarquia. Certas justas e certos ordálios são curio-
sos. Havia uma prova do balanço que servia para pesar
os talentos e uma prova do mastro de cocanha onde
as vítimas eram consumidas pelo fogo de uma foguei-
ra. Cheou-sin, soberano nefasto que forçava seus súdi-
tos a beber como bois (e como Nabucodonosor) mor-
reu numa fogueira (como Sardanapalo). Como bom
ferreiro, ele sabia estirar o ferro com suas mãos po-
tentes e (forte como Sansão) ele podia sustentar a
verga de uma porta e recolocar a coluna. Ele fundiu e
esculpiu altas colunas para a prova do balanço e para
a da ascensão. Ele construiu também uma torre que
(como a de Babel) pretendia chegar aos céus. Era no
alto de uma torre semelhante que devia ser suspenso
o odre cheio de sangue que representava o céu e no
qual (como Nemrod) Cheou-sin atirou. Já se viu que
o Odre celeste é um tambor. Ora, perto da China en-
contrava-se um povo que cada ano sacrificava um
homem chamando-o de "Senhor celeste". Na ocasião
destas festas, usava-se suspender um tambor no alto
de um poste de madeira levantado na terra (kien-mou).
Por outro lado, os Chineses conheciam uma árvore di-
vina que se chamava Kien-mou (a madeira levantada).
Esta árvore ergue-se bem no centro do mundo e marca
o meio-dia, momento em que tudo o que é perfeita-
mente vertical não faz nenhuma sombra. A árvore
Kien-mou é um gnômon. É também um mastro de co-
canha. Por ela se eleva aos céus o Soberano, isto é,
o Sol. Ela também é reta como uma coluna mas, na sua
base e em seu cume existem nove raízes e nove
ramos: isto significa, suponho, que ela toca, no alto,
os Nove Céus, e, embaixo, as Nove Fontes. As Nove
Fontes são as Fontes subterrâneas, as Fontes Amare-
las, a morada dos mortos, o Grande Abismo. É no
Grande Abismo que é mergulhado quem se embebeda
numa libação da grande noite. Esta libação faz-se num
palácio subterrâneo. O Sol se eleva nos céus depois
que sai do Grande Abismo. O Yang, que o Yin aprisio-
na durante o inverno, fica encerrado nas Noves Fon-
tes. Antes de aparecer na manhã do ano como um
Sol que nasce vitorioso, o Chefe deve também se
submeter a um retiro. Ele é aprisionado num quarto
subterrâneo e profundo, como as Nove Fontes. Depois
disto, ele pode se elevar até os Nove Céus numa as-
censão triunfal. Destinadas à prova da ascensão, a
alta torre de Cheou-sin ou sua coluna esculpida mar-
cam o lugar no qual o Chefe pode executar sua apo-
teose. Elas marcam a linha reta que pretende ser o
centro do mundo.

O poder do Chefe nasceu das festas da casa
dos homens e das justas de confrarias. Este Chefe é
um fundador de cidades e um chefe de guerra. Tch'e-
yeou, o ferreiro que inventou as armas, é o chefe de
uma confraria dançante e é uma divindade da guerra.
Houang-ti, seu adversário afortunado, outro ferreiro,
é também um deus dos exércitos. Os dois, quando lu-
tam juntos, lutam três contra três. O número três está
na base da organização militar, como da organização
urbana, pois a cidade não se diferencia quase nada de
um acampamento. Ela é formada pela residência se-
nhorial, cercada, à direita e à esquerda, pelas casas
dos vassalos. O exército compreende, normalmente,
três legiões; a legião central é a do príncipe e é for-
mada por seus parentes. Apenas o exército real tem
seis legiões. Na cerimônia do tiro com o arco, que
é talvez o mais importante dos ritos feudais, o tiro
é iniciado por dois bandos de arqueiros que lutam
juntos, três contra três. Três, segundo as tradições
chinesas, é o antigo número dos dançarinos (que, a
seguir, formaram grupos de oito). O espírito de riva-
lidade que animava as confrarias masculinas e que,
durante a estação do inverno, opunha-as em justas
dançadas, deu origem ao progresso institucional, gra-
ças ao qual, da antiga organização dualista e segmen-
tária, surgiu, com a hierarquia, a organização tripar-
tida que caracteriza as cidades feudais (447).

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