Poderes difusos e autoridade individual

Toda raça senhorial liga-se a um Fundador.
O nascimento deste último é devido, nor-
malmente, a um milagre.
Únicos qualificados para seu culto e
mestres de sua dança, os possuidores de
Sang-lin (a Floresta das Amoreiras) são
descendentes de uma mulher que concebeu por ter
engolido um ovo (tseu) de andorinha. Ela o conquistou
numa justa, no dia do equinócio da primavera (407). Al-
guns dizem que ela concebeu depois de haver cantado
num local denominado a Planície das Amoreiras (408),
Se o Herói que nasceu dela recebeu como nome de
família o nome de Tseu (ovo), foram as amoreiras cres-
cidas miraculosamente que anunciaram a seus descen-
dentes um renascimento ou um declínio da Virtude
própria de sua raça (409). Assim, o nome simbólico e o
emblema real ligam-se, os dois, a um mito análogo: o
de um nascimento obtido num Lugar.Santo, durante
uma festa das estações.

Nos meios camponeses, um simbolismo consti-
tuído por emoções fortes e confusas era a alma de
toda crença e de todo culto. As imagens aparecidas
na paisagem das festas eram tomadas como manifes-
tações, sinais, símbolos de uma força criadora reali-
zada no Lugar-Santo. Ora, o parentesco que implicava a
obrigação exogâmica repousava, unicamente, no vín-
culo simbólico do nome é na posse de uma essência
comum. Esta, sustentada pela comensalidade, era ex-
traída da alimentação tomada no território familiar.
Entre este último e o nome de família devia existir,
asseguram-nos, uma espécie de consonância. Estes
fatos permitem supor que a organização camponesa
era fundada num princípio análogo ao princípio totê-
mico. Totens, ou para dizer melhor, emblemas eram
escolhidos, segundo toda probabilidade, entre os ani-
mais e os vegetais que apareciam no Lugar-Santo na
época das festas. Certos motivos de canções antigas
só podem ser compreendidos se forem considerados
os temas de um sortilégio destinado a fazer multiplicar
uma espécie associada. "Gafanhotos alados - como
sois numerosos! - Possam vossos descendentes -
ter grandes virtudes(410)!" As justas, as danças, os
cantos procuravam obter, com a prosperidade de cada
grupo, a da espécie simbólica. As plantas e os ani-
mais, cujas sementes ou ovos eram consumidos, para
que fosse assimilada sua essência e que a eles se
comunicasse, aparentando-se, deviam ser, muitas ve-
zes, plantas e animais humildes. Foi de uma semente
de tanchagem que nasceu Yu, o Grande, primeiro rei
da China.

A história só se preocupa com as grandes fa-
mílias. Só conhecemos os emblemas dos príncipes.
Estes, geralmente, não são bichos vulgares, mas ani-
mais míticos. Sua natureza compósita revela um tra-
balho de imaginação semelhante ao da arte do brasão
e que teve seu ponto de partida na dança. Entre esses
animais heráldicos figura o Unicórnio, que evocavam
com o auxílio de versos muito semelhantes àqueles
dos "Gafanhotos"(411). O mais célebre dos animais
simbólicos é o Dragão. O Dragão, antes de ser um
símbolo da força soberana, foi o emblema da primeira
dinastia real, a dos Hia (ou, antes, um dos emblemas
que a tradição atribuía aos Hia (412). Um dos ancestrais
dos Hia transformou-se em dragão num Lugar-Santo.
Esta metamorfose aconteceu quando ó esquartejaram.
Ela é, portanto, conseqüência de um sacrifício. Dra-
gões apareceram quando houve uma renovação ou um
declínio da virtude genérica que autorizava os Hia a
reinar. Um ramo de sua família tinha o privilégio de
criar dragões e conhecia a arte de fazê-los prosperar.
Um rei Hia, para fazer seu reinado prosperar, alimen-
tava-se de dragões. Enfim, dois dragões-ancestrais pro-
porcionaram o nascimento dos descendentes dos Hia.
Fato notável: antes de desaparecerem, não deixando
senão uma espuma fecundante, eles tinham lutado um
contra o outro (413). As justas entre dragões, macho e
fêmea, assinalavam as chuvas e tinham por cenário
Os pântanos formados por dois rios que transborda.
ram (414). Dizia-se, também, neste caso, que os rios lu-
taram juntos e estas eram, sem dúvida, justas sexuais,
pois as divindades de dois rios que se unem passam
por ser de sexo diferente (415). Dois rios que se jun-
tam são, de resto, um símbolo da exogamia. Os con-
fluentes eram, com efeito, lugares consagrados às
justas amorosas. No tempo das enchentes, os rapazes
e as moças, atravessando a água, pensavam ajudar as
reencamações e chamar a chuva que fertiliza (416). Ora,
a travessia pela água por bandos que dançavam afron-
tando-se era praticada, acreditava-se, para imitar a
justa de dois dragões, macho e fêmea. Assim, eles
eram induzidos a se unir e a fazer cair as águas fecun-
dantes (417). Vê.se que antes de constituir um emblema
do príncipe, o dragão foi o tema das danças populares.
Os dragões foram, inicialmente, uma projeção no mun-
do mítico dos ritos e jogos das festas das estações.
Mas logo que se viu neles os patronos de uma raça de
Chefes, a única que sabe comê-los e fazê-los prospe-
rar, estes dragões, simples emanações do Lugar-Santo,
figuram como Ancestrais. Neles está toda a virtude do
Lugar-Santo, toda a virtude das festas. Esta se acha
também, difusa, na raça heróica. Ela só se encama ver-
dadeiramente no par de Grandes Ancestrais que ga-
rantem as reencarnações e que são, ao mesmo tempo,
dragões e homens.

O gênio misto da espécie pode se individualizar
ainda mais. Para as festas primaveris da região de
Tcheng, rapazes e moças reuniam-se num lugar onde
cresciam orquídeas perfumadas. Eles as colhiam e,
agitando-as sobre as águas, convidavam, gritando, as
almas dos ancestrais a vir se reencarnar. Pensavam
assim atrair uma alma-sopro (houen), que não se dife-
rencia do nome pessoal. Terminada a justa, a moça
recebia, em penhor, uma flor do rapaz ao qual se unia.

A orquídea do Lugar.Santo servia, pois, para propor-
cionar nascimentos a todas as pessoas de Tcheng. Ela
acabou tornando-se um emblema do príncipe. "O du-
que Wen de Tcheng tinha uma mulher de segunda ca-
tegoria, cujo nome era Yen Ki. Ela sonhou que um
mensageiro do Céu lhe dava uma orquídea (lan), di-
zendo-lhe: "Sou Po-yeou; sou teu ancestral. Faze disto
teu filho. Porque a orquídea tem um perfume de prín-
cipe (ou, também, porque a orquídea tem o perfume
da região), ele será reconhecido como príncipe (de
Tcheng) e será amado. Depois disto, o duque Wen
veio vê-la. Ele lhe deu uma orquídea e deitou-se com
ela. Excusando-se, ela disse: "Vossa serva não tem ta-
lento (= não tem prestígio), se por vosso favor eu
tiver um filho, não terão confiança em mim: ousarei
tomar como prova esta orquídea?" O duque respon-
deu: "Sim". Ela trouxe ao mundo (aquele que foi) o
duque Mou cujo nome pessoal foi Lan (orquídea)...
Quando caiu doente, o duque Mou disse: "Quando a
Orquídea morrer, eis que morrerei também, eu que vi-
vo por ela (ou, ainda, que nasci dela)". Quando se
cortou a orquídea, o duque morreu (686 a.C.)." Esta
lenda implica que nome pessoal, alma exterior ou pe-
nhor de vida, testemunho de paternidade, prestação
nupcial, princípio de maternidade, título de poder, pa-
trono ancestral e emblema são equivalentes indistin-
tos(418), A espécie emblemática acha-se associada a
um individuo e corresponde, nunca ao nome de família,
mas ao nome pessoal. O gênio do Lugar Santo, incor-
porado numa planta característica, é a propriedade do
Ancestral que se reencarna e só dá a vida àquele que
merece ser um Chefe. É somente quando o Lugar.
Santo, onde a planta é colhida, é representado como
um Ancestral que dá a planta, que o emblema, dei-
xando de ser de um grupo, aparece como um emblema
do príncipe. O Chefe, então, possui sozinho o gênio
do Lugar-Santo e considera este último um Centro
ancestral.

Um fato deve ser retido; o Ancestral substituí-
do no Lugar-Santo é um ancestral materno, Nos meios
camponeses, as mulheres foram as primeiras a adqui-
rir, com o título de mães, uma autoridade. No momento
em que foi elaborada a idéia de Terra-Mãe, a noção
de parentesco pareceu sobrepujar a de aparentamento-
aliança, da qual se destacava. Concebida como um
vínculo unindo uma criança à raça materna, o paren-
tesco pareceu repousar na filiação uterina e implicar
uma parte de relações individuais. Sem dúvida, é então
que o vínculo de dependência global, unindo indistin-
tamente uma comunidade inteira ao lugar sagrado de
suas festas, foi imaginado sob o aspecto de uma rela-
ção de filiação, ligando o Chefe, que absorve toda au-
toridade, a um ancestral materno investido de todo o
poder do Lugar-Santo.

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