Épocas sem Cronologia (02)

II - Contribuição das ciências
chamadas auxiliares

Estas disciplinas, por seu lado, não estão
ainda em estado de fornecer hipóteses diretrizes
à história.
A antropologia, até agora, não reuniu mais
do que observações sem alcance e imprecisas so-
bre a China.

As descobertas do Sr. Andersson permi-
tem acreditar que os habitantes neolíticos de Ho-
nan pertenciam à mesma raça dos Chineses que
ocupam hoje a mesma província (91). A antropolo-
gia pré-histórica está em suas primeiras desço-
bertas. O estudo preciso dos tipos atuais acha-se
apenas delineado. Os especialistas acreditam em
sua diversidade e suspeitam de inúmeros cruza-
mentos de raças. "O povo chinês é originário de
misturas múltiplas e, certamente, há muitos tipos
para se descobrir na nação chinesa, cujo estudo
antropológico está apenas esboçado (92)." Basean-
do-se em medidas bastante numerosas e em im-
pressões gerais, tem-se tendência a distinguir
dois tipos principais: o do sul e o do norte. Os
Chineses do Sul seriam menores e mais nítida-
mente braquicéfalos.

A carência de informações somatológicas
não impede, de maneira alguma, a apresentação
de uma teoria a respeito do povoamento da China.
Admite-se, comumente, que a China do Sul e a do
Oeste recolheram em suas montanhas os descen-
dentes dos primeiros ocupantes do solo, progres-
sivamente repelidos por aqueles que são chama.
dos de ántigos Chineses e que, geralmente, são
apresentados como invasores (93).

Esta teoria depende da concepção geral da
história da Ásia. Ela deriva, em grande parte, das
teses sustentadas por Terrien de Lacouperie so-
bre a origem ocidental da civilização chinesa (94).
Essas teses não se fundamentam em nenhum fato
de ordem antropológica, mas simplesmente no
estabelecimento de identidades sino-elamitas, co-
mo, por exemplo: Houang-ti não era outro senão
Nakhunte, pois Houang-ti é, às vezes, qualificado
de " senhor de Hiong (Yeou-hiong) "; pode-se, tam-
bém, reconstituir seu nome sob a forma de Nai-
houang-ti (=Nakhunte) - o caráter, lido origina-
riamente hiong, é pronunciado, em certos casos,
nai. No entanto, não se observou: 1.° - que a
expressão Hiong-houang-ti, puramente fictícia,
não se encontra em nenhum texto; 2.° - que o
caráter, que se quer ler nai, é sempre lido hiong
pelos Chineses, quando se trata de Houang-ti; 3.°
- que hiong, nai, Houang são pronúncias moder-
nas, bem distantes das mais antigas pronúncias
atestadas. Nenhum sinólogo aceita, hoje em dia,
as identidades sino-elamitas de Terrien de Lacou-
perie (95). De resto, essas identidades lingüísticas
não provariam coisa alguma quanto à raça dos
invasores da China.

Entretanto, a teoria da origem ocidental
dos antigos Chineses ainda domina o ensino. No
máximo, limita-se a fazer vir os Chineses do Tur-
questão e a dar como causa de sua invasão (hipo-
tética) um fato (relativamente hipotético), a sa-
ber: o ressecamento progressivo da Ásia central.
O único ponto de ligação que se poderia encontrar
para essas teorias na tradição histórica chinesa é
o seguinte: uma nota das Memórias históricas
afirma que os fundadores das dinastias Hia, Yin,
Tcheou e Ts'in vieram do Oeste (96). Os historiado-
res concluem, facilmente, que "a China antiga foi
invadida diversas vezes por Bárbaros do Oeste e
do Sudoeste e que essas conquistas provocaram
as mudanças de dinastia" (97). Será suficiente no-
tar que esta passagem das Memórias históricas
segue, a título de ilustração, o enunciado de um
princípio de astrologia mitológica: "o lado do Les-
te (Levante = Primavera) é aquele em que os se-
res começam e nascem; o lado do Oeste é aquele
em que os seres se completam e atingem a ma-
turidade (Poente = Outono)"(98).

Como a antropologia e a etnografia, a ar-
queologia pré-histórica que, na China, ainda está
no começo deve desconfiar das hipóteses imagi-
nativas.

O Sr. J. G. Andersson (99) publicou, em
1923 e 1924, os resultados de belas expedições de
escavações realizadas na Manchúria do Sul, como
em Ho-nan e em Kan.su. Suas descobertas ates-
tam a existência, na China, de uma civilização
neolítica. Quase simultaneamente, as escavações
dos Padres Licent e Teilhard de Chardin, perto da
nascente do rio Amarelo, revelavam jazidas pa-
leolíticas, nas proximidades da China clássica.
Uma opinião autóctone antiga (100) atribuía,
aos homens, instrumentos de trabalho de pedra,
nas épocas que precederam Houang-ti (? século
XXVII a.C.). Com Houang-ti teria começado a ida-
de do jade (? jadeítas) e com Yu, o Grande (? 2205-
2198) a do bronze. O aparecimento do ferro data-
ria dos Tcheou (séculos Xl-Vlll a.C.). Antes das
descobertas recentes, a teoria chinesa podia pas-
sar por um simples ponto de vista. O Sr. Laufer
escrevia, em 1912, que não havia prova nenhuma
de que a China tivesse tido uma idade da pe-
dra (101).

O Sr. Andersson trouxe a prova pedida. Ele
parece ter demonstrado também que há uma con-
tinuidade entre a técnica da civilização neolítica
exumada e a da civilização atual. Por exemplo, as
facas de ferro que são usadas atualmente na co-
lheita do sorgo, na China do Norte, conservam
exatamente as formas das facas antigas de pedra,
retangulares ou curvas, com um ou dois orifícios,
que foram encontradas, num depósito neolítico nos
arredores do Moukden. O Sr. Andersson assinala
uma semelhança entre essas facas de pedra e as
facas de ferro usadas entre os Chukchee da Ásia
norte-oriental e os Esquimós da América do Nor-
te. Mas ele prefere insistir em certas diferenças
que observa entre os instrumentos de trabalho
dos depósitos da Manchúria e aqueles dos depósi-
tos de Kan-su. Ele encontrou por toda a parte,
tipos diferentes de machados, dos quais alguns
lembram os machados de bronze dos Tcheou, di-
versas espécies de tripés de argila, seja do tipo
dos tripés li que, sob os Tcheou, eram feitos de
argila ou de bronze, seja do tipo dos antigos tripés
ting, que ainda são fabricados em argila na região
de Pequim, e - além de inúmeros objetos de
cerâmica grosseira, de cor cinzenta - uma cera-
mica fina cuja cor vermelha parece proceder das
oxidações do cozimento. As peças de cerâmica
vermelha têm um polimento perfeito e trazem de-
senhos em preto ou, com menos freqüência, em
branco.

O Sr. Andersson compara essa cerâmica
àquela que caracteriza a Ásia ocidental (Anau).
Ora, enquanto que os tripés li e ting existem em
grande número em Ho-nan e estão bem represen-
tados na Manchúria, são muito pouco encontra-
dos em Kan-su. Pelo contrário, a fina cerâmica
pintada só é freqüente em Kan-su e apenas ali
foram descobertas, além de objetos de cobre,
cerâmicas notáveis pelos desenhos de pássaros
estilizados e absolutamente análogos, afirma-se,
aos de certas cerâmicas de Susa. O Sr. Andersson
deduz dessas observações que a origem da civi-
lização chinesa deve ser procurada na Ásia inte-
rior e, provavelmente, no Turquestão: levas de
emigrantes teriam transportado essa civilização
para a China propriamente dita, atingindo, em
primeiro lugar, Kan-su.

O Sr. Karlgren observa judiciosamente
que, como os instrumentos de trabalho mais ar-
caicos são, segundo o explorador, os de Ho-nan
e da Manchúria, seria preciso supor que as últi-
mas levas não tenham ido tão longe quanto as
primeiras. O Sr. Karlgren propõe também outra
explicação: Ho-nan e a Manchúria seriam as tes-
temunhas de uma civilização neolítica autóctone
e proto-chinesa. Esta civilização teria sido, no
Oeste, influenciada pelas técnicas próprias a uma
população que não seria de raça chinesa, mas,
sem dúvida, de raça turca (102).
Enquanto não se estudar com precisão os
restos humanos, para definir os caracteres soma-
tológicos das populações conhecidas hoje por al.
guns detalhes de sua técnica, seria prudente abs-
ter-se de qualquer hipótese, não transpor um
problema da história tecnológica para um proble-
ma de história etnográfica e, sobretudo, não fazer
intervir cedo demais, com a questão das migra-
ções e das conquistas, um problema de história
propriamente dita.

Um primeiro problema consistiria em datar
esta civilização da idade da Pedra. O Sr. Anders-
son admite que o bronze apareceu na China no
terceiro milênio antes de nossa era. Esta opinião
não é inverossímil e está de acordo, de maneira
geral, com as tradições chinesas que datam a
ldade do Bronze em Yu, o Grande (? 2205.2198)
ou que apresentam Yu e Huang.ti (? século
XXVII) como grandes fundidores. Os locais neolí-
ticos são anteriores ao terceiro milênio antes de
Cristo? Pode-se fazer aqui uma pergunta prelimi-
nar. É possível, de fato, sustentar que os objetos
exumados nas escavações de Ho-nan (mesmo
quando não se encontrou traços de cobre ou de
bronze) não são, necessariamente, anteriores à
ldade do Bronze. Certos arqueólogos insistem no
fato de que, no tempo dos Tcheou, durante o pe-
ríodo Tch'ouen ts'ieou, tribos bárbaras viviam nas
proximidades dos agrupamentos chineses. Não
seria a es,ses Bárbaros que deveria ser atribuída
a técnica neolítica que as escavações desco-
briram(103)? O Sr. Andersson declarou que é inve-
rossímil o fato de que os Bárbaros tenham imita-
do em argila e em pedra os instrumentos que os
Chineses, a seu lado, teriam fabricado em bronze.
Um fato deste gênero talvez não seja sem exem-
plo. Mas aí intervém um argumento que se julga
decisivo. Os tripés de terra dos tipos li e ting são
mais delgados do que os tripés de bronze de for-
ma comparável, atribuídos, pelos arqueólogos
chineses, à época dos Tcheou. Ora, os caracteres
representando essas duas espécies de tripés pa-
recem, aos etimologistas, evocar formas mais
finas do que a dos bronzes Tcheou: esses carac-
teres são emprestados dos ossos de Ho-nan e não
há dúvida de que esses ossos datam dos Yin. A
cultura representada por esses tripés li e ting
remontaria, então, pelo menos, ao tempo dos Yin.
Não há vantagem em se tomar um partido
na discussão. A solução só pode vir de escava-
ções que, numerosas e bem levadas, permitiriam
uma classificação metódica dos locais e dos ins-
trumentos pré-históricos. O fato que se deve reter
é a extensão dos locais descobertos em Ho-nan,
em Kan-su e na Manchúria. É possível se acredi-
tar que a civilização neolítica, que testemunham,
correspondesse, em toda a China do Norte, a
agrupamentos de população muito importantes.
Há também possibilidades de que ela tenha tido
longa duração. No momento, faltam pontos de re-
ferência. Sem dúvida, será difícil encontrar alguns
que sejam bons. Sabe-se que a Ásia não conheceu
as alternâncias do avanço e do recuo do gelo que
servem para fixar a idade dos locais neolíticos
europeus. Estamos, pois, reduzidos a puras hipó-
teses.

Pode-se observar, simplesmente, que há
interesse em não misturar os problemas que con-
cernem à arqueologia pré-histórica com os que se
referem à epigrafia. Pode-se notar ainda: 1.° -
que os ossos de Ho-nan, se datam dos Yin, são,
no máximo, do fim da dinastia; 2.° - que há uma
boa parte de apreciação subjetiva na comparação
de um caráter e do objeto que ele representa;
3.° - que as classificações cronológicas de carac-
teres não oferecem mais garantias do que as clas-
sificações dos objetos em que eles se encontram:
essas classificações baseiam-se apenas nas im-
pressões de colecionadores. Além disto, se a
teoria segundo a qual os caracteres teriam sido,
inicialmente, ideogramas exatos figurando, fiel-
mente, os objetos simbolizados e, em geral, admi-
tida, nunca se pensou em justificá-la por uma
prova.

Sempre reinou a maior fantasia no domínio
das etimologias gráficas. As que são propostas
pelos eruditos autóctones (e são estas as mais
sérias) derivam, em grande parte, de suas cren-
ças ou de suas teorias arqueológicas.
Antes de pretender identificar e datar os
objetos pré-históricos com o auxílio de sinais da
escrita, seria conveniente esperar que fosse feita
uma história positiva da escrita chinesa (104). É
muito grande a tentação de descobrir toda uma
civilização desconhecida sem sair do gabinete e
por um jogo fácil de análise gráfica. O Padre
Wieger sucumbiu, há pouco tempo, a essa tenta-
ção. Em 1903, ele chegou a definir, com ajuda de
"caracteres antigos", toda a vida material e mo.
ral dos " primeiros tempos reais " da China. Soube-
se assim que " a lei era rígida, as sanções atrozes ",
" a numeração decimal desde a origem ", e que os
Chineses tinham então como ideal "a sinceridade,
uma brandura relativa, a cooperação mútua, o res-
peito aos anciãos". Enfim, tendo reconhecido que
muitos dos animais e dos vegetais figurados per-
tenciam à fauna e à flora tropicais, o Padre Wie-
ger emitiu a idéia de que os Chineses não tinham
chegado, como se acreditava, do oeste, escalan-
do o Pamir: "Procedendo da atual Birmânia, eles
penetram na China pelo sudoeste, seguindo o ca-
minho cujas etapas modernas são Bhamo, Mo-
meim... Ta.li-fou, Yun.nan.fu... e o lago Tong-
t'ing"; eles repeliram para o norte os Yi, "estirpe
de arqueiros armados de sílex"(105). Mas, em
1917, o Padre Wieger interpretava a história po-
lítica e religiosa da China como um conflito se-
cular entre os Chineses e os aborígines do sul.
Ele abandonava, corajosamente, sua primeira teo-
ria, não reconhecendo mais nada de tropical na
fauna e na flora dos caracteres (106). Poucos estu-
dos esclarecem tanto a história dos "primeiros
tempos" da civilização chinesa quanto o da fauna
e da flora contemporâneas e, principalmente, o
dos animais domésticos e das plantas cultivadas.
Sob este ponto de vista, é de grande interesse
uma descoberta do Sr. Andersson: os neolíticos
da Manchúria, de Ho-nan e de Kan-sou haviam do-
mesticado o porco. A criação do porco perma-
neceu um dos traços da civilização chinesa. Es-
peremos que as descobertas desse gênero se
multipliquem; aguardemos que a paleobotânica e
a paleozoologia delas retirem considerações sis-
temáticas; não nos repousemos, para esse encar-
go, apenas nos paleógrafos.

Os trabalhos sobre a língua chinesa são,
agora, inspirados por um espírito mais positivo
que os estudos sobre a escrita. A lingüística chi-
nesa, nascida há cerca de 20 anos, já fez gran-
de progresso (107). O Chinês não surge mais como
uma língua isolada e misteriosa. Ele se integra
numa família bem definida, da qual parecem fazer
parte o tibetano, o birmanês e, talvez, o tai (108).
Tende-se a admitir que a família divide-se em dois
ramos: o tai e o chinês formando o primeiro grupo
lingüístico, enquanto que o birmanês e o tibetano
formariam um segundo grupo. Talvez haja um pré-
conceito geográfico nesta divisão em dois grupos,
um ocidental e outro oriental. A classificação, em
todo caso, só pode ser proposta a título provisó-
rio. Certamente haveria um abuso em nela se
basear para tentar explicar as crenças religiosas
antigas, com o auxílio de fatos tomados, unica-
mente, nas populações tai. Seria, ainda, mais im-
prudente apoiar-se nela para descrever as migra-
ções dos tai repelidos para o sul pelos Chineses.
A menos que se obstine em querer confundir
língua, civilização e raça, convém admitir, com o
Sr. Pelliot, que os dados lingüísticos, mesmo que
sejam considerados seguros, relativos aos tai,
birmaneses, tibetanos, chineses, "não nos ensi-
nam quase nada quanto ao passado histórico des-
ses vários povos"(109). O melhor, aqui ainda, é
deixar que os estudos prossigam com a técnica
que lhes é própria. Toda hipótese de ordem his-
tórica só irá atrapalhar seus progressos e esta-
mos longe do momento em que a história poderá
retirar alguns benefícios, tomando-lhe hipóteses.

O problema das origens chinesas continua
inteiro. Poucas esperanças advêm do estudo dos
textos, mas pode-se esperar muito da arqueologia
e, sobretudo, da arqueologia pré-histórica. É de
se desejar que as escavações se inspirem, de
agora em diante, em preocupações unicamente
científicas e que sejam abandonados todos os pre-
conceitos que dominam, ainda, as interpretações.
Um primeiro fato parece seguro: a civilização no
Extremo Oriente é antiga. Um segundo fato pare-
ce bastante verossímil: há poucas possibilidades
de que essa civilização seja rigorosamente autô-
noma. A idéia de uma China que teria vivido isso-
lada do mundo nas épocas históricas já caiu em
desuso há muito tempo. Mas se falamos muitas
vezes das migrações dos primeiros Chineses, te-
mos ainda tendência em acreditar num isolamento
relativo da China dos tempos antigos. Se nos fiás-
semos na história tradicional, esse isolamento
somente teria terminado no início da era cristã.
Desta época dataria, com a abertura das rotas
comerciais, o período dos contatos verdadeiros,
das influências ativas, das invasões freqüentes.
Até então, a história da China teria sido feita
unicamente pelos Chineses. Não há nenhuma ra-
zão para se acreditar que a raça chinesa (se pu-
dermos falar de uma raça chinesa) não esteja no
mesmo local, desde uma antiguidade muito remo-
ta. Não há, inversamente, nenhuma razão para se
achar que a China tenha conhecido menos inva-
sões e sofrido menos influências na antiguidade
do que nos tempos modernos. A crítica mais gra-
ve que se pode fazer às hipóteses relativas a
esses contatos é que, até agora, sempre foram
procurados nas mesmas direções e concebidos
no mesmo modelo. É possível que as levas de
povoamento procedentes do oeste, pelo norte e
pelo sul, tenham desempenhado um grande papel
na história da China antiga. Mas também, pode-
riam ter.se exercido influências muito diferentes.
Nem a estepe, nem a montanha, nem mesmo o
mar, eram, nos tempos pré-históricos, intranspo-
níveis.

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