Épocas sem Cronologia (01)

I- Valor dos dados tradicionais

Os Anais de Lou (Tch'ouen ts'ieou)
começam em 722 a.C. Sseu-ma
Ts'ien dá as datas até 841 (prin-
cípio do período Kong-ho). Ele
atinge uma época mais antiga do
que o Tch'ouen ts'ieou, basean-
do-se em listas de reinados providas com a indi-
cação de sua duração. Com o auxílio dos mesmos
dados, ele poderia chegar num período ainda mais
remoto (79). Ele não o fez, considerando o proces-
so incerto. Outros compiladores foram mais ou-
sados e mais lógicos.

Dois sistemas cronológicos dividem a pre-
ferência dos historiadores. Um deles, adotado e
aperfeiçoado por Pan Kou, o historiador dos pri-
meiros Han, coloca a ascensão ao trono dos
Tcheou em 1122. Segundo o outro, a vitória do
rei Wou sobre os Yin foi'alcançada em 1050 e o
rei Tch'eng, sucessor de Wou, subiu ao trono em
1044.

I II

Yao 2357-2256 2145-2043

Regência
De Chouen 2285-2256

Chouen 2255-2206 2042-1990

Regência
De Yu 2223-2206

Dinastia Hia 2205-1767 1989-1558
17 reis=439 anos 17 reis=432 anos
[anais=471 anos]

Dinastia Yin 1766-1123 1557-1050
28 reis=644 anos 30 reais=507 anos
[anais=496 anos]

Tcheou 1122 1049
Rei Wou 1122-1116 1049-1045

Rei Tch'eng 1115-1079 1044-1008

Rei Li 878-842 853-842

Época Kong-Ho 841-828 841-828

Rei Siuan 827-782 827-782

Confúcio 551-479 551-479

Mil e quarenta e quatro é também a data
em que o rei Tch'eng subiu ao trono, de acordo
com os dados fornecidos por Sseu-ma Ts'ien so-
bre os reinados e sua duração. A cronologia de
Sseu-ma Ts'ien liga-se, portanto, ao segundo sis-
tema.

Mil e quarenta e quatro é, ainda, a data que
os Anais escritos sobre bambu indicam para a su-
bida ao trono do rei Tch'eng. Nem Pan Kou, nem
Sseu-ma Ts'ien puderam utilizar os Anais sobre
bambu. Eles só se tornaram conhecidos depois do
ano 281 de nossa era, quando foram encontrados
num túmulo fechado desde 299 a.C. A história de
sua descoberta parece autêntica (80).

O acordo entre Sseu-ma Ts'ien e os Anais
parece emprestar alguma autoridade à tradição
cronológica que lhes é comum. Na verdade, prova
simplesmente que, no século II a.C., um sistema
cronológico em voga no século IV guardava ainda
algum crédito. Mas este sistema não é menos
artificial do que o que foi preconizado por Pan
Kou. Com efeito, Mencius (372-289), que se dedi-
cou, no século IV, a propagar a glória de Confúcio
e cuja obra serviu para fixar muitas tradições
históricas, patrocinou vigorosamente a crença
de que deve aparecer um Sábio cada quinhentos
anos; é com um intervalo de quinhentos anos que
Sseu-ma Ts'ien e os Anais fazem viver Confúcio
e o duque de Tcheou, o sábio tutor do rei Tch'eng.
Tcheou-kong e Confúcio são os grandes heróis
da província de Lou (onde nasceu Mencius); se o
primeiro ajudou muito no estabelecimento dos
Tcheou, o segundo teve o mérito de rejuvenescer
a Virtude dinástica. - Os Anais (redigidos no sé-
culo IV) fixavam em cerca de quinhentos anos a
duração das dinastias Hia e Yin (471 e 496 anos).
Segundo uma teoria antiga, a vida de um sábio
dura cem anos; é aos cinqüenta anos que o sábio
está em plena posse de seus talentos. Assim
como os historiadores empregaram muito artifí-
cio para mostrar que Chouen se tornou vice-so-
berano e Confúcio vice-ministro aos cinqüenta
anos, assim também, eles quiseram, na vida do
mundo, fazer desempenhar pelo número quinhen-
tos, que é bastante alto, um papel semelhante
àquele que eles atribuíam ao número cinqüenta
na vida de um homem (81). As tradições cronológi-
cas que inspiraram os Anais já se achavam, desde
o início, maculadas com preocupações teóricas.
Além disto, essas tradições, desde a des-
coberta dos Anais, sofreram modificações cuja
gravidade não temos certeza de poder entrever(82).
O que sabemos já é bastante inquietante. Quando
se abriu o túmulo onde os Anais estavam enter-
rados, havia cerca de seiscentos anos, várias pla-
quetas de madeira, nas quais eles estavam inscri-
tos, serviram de tochas. Os rolos restantes fo-
ram, inicialmente, "dispersos ao acaso". Os
caracteres que puderam ser lidos eram "de uma
escrita caída, havia muito tempo, em desuso".
As plaquetas, enfim, depois de recolhidas, fica-
ram muito tempo "em arquivos secretos". Pos-
suímos seu inventário, mostrando os progressos
realizados pelas edições sucessivas. Este inven-
tário nos ensina que os Anais começaram com a
dinastia Hia e que atribuíam aos Hia mais duração
do que os Yin. O texto decifrado e ordenado por
sábios, pelo contrário, faz com que os Yin durem
mais tempo do que os Hia e começa com o rei-
nado de Houang-ti. - Os Anais, disseram os pri-
meiros que os viram, pretendiam que K'i, filho de
Yu, o Grande, matou Yi, ministro e sucessor de-
signado por seu pai, para lhe arrebatar o trono.
Esta afirmação era contrária à tradição canônica,
segundo a qual K'i é um santo e que faz Yi morrer
de modo honroso. Os Anais, edição revista, asse-
guram que Yi teve morte natural e que K'i lhe
ofereceu sacrifícios. - As datas, nos Anais pri-
mitivos, eram, a partir de 771, indicadas segundo
o calendário dos Hia. Os Anais, na verdade, refe-
rem-se, a partir de 771, ao domínio de Tsin (depois
ao reino de Wei, um dos Estados que surgiram
de Tsin, por desmembramento). Inúmeros fatos
mostram que os príncipes de Tsin (que a história
oficial nos apresenta como sendo os parentes dos
Tcheou), procuravam se unir aos Hia. Mas - a
tradição ritual o exige - o calendário do Filho do
Céu foi, desde os Tcheou, uma lei difundida uni-
formemente em tudo o que devia formar o lmpé-
rio chinês. Os Anais foram corrigidos adequada-
mente; as datas, na edição melhorada, são dadas
segundo o calendário dos Tcheou. - Em toda a
obra figura uma notação dos anos em que é utili,
zado o ciclo sexagenário. Este ciclo, que Sseu-ma
Ts'ien não usa, não era empregado, aparentemen-
te, dois séculos antes dele, o que pode provar
que o aperfeiçoamento trazido aos Anais data do
século VII de nossa era. - Um eclipse do sol é
mencionado num dos capítulos do Chu king, que
está entre os mais suspeitos e cuja redação é,
plausivelmente, muito posterior à data em que os
Anais foram enterrados. Ora, nos Anais encontra-
se o eclipse, e muito bem datado (outono de 2155,
segundo os cálculos dos sábios ocidentais, hou-
ve, de fato, um eclipse a 12 de outubro de 2155).
Na verdade, a narrativa em que se menciona o
eclipse é, no Chu king como nos Anais, de ordem
mítica. A data precisa inserida nos Anais não
pode proceder senão de uma alteração. Apenas
sábios capazes de calcular os eclipses podiam
modificar secretamente o texto. Sua intervenção
não deve ser muito anterior à dinastia T'ang
(século VII d.C.).

Como se vê, o texto dos Anais só se tornou
correto graças aos trabalhos que foram executa-
dos, durante séculos, com a mais perfeita since-
ridade. Esses trabalhos inspiravam-se na idéia de
que a tradição canônica não pode se enganar. Em
compensação, os erros podem se infiltrar nos ma-
nuscritos durante sua transmissão. Retificar es-
ses erros adventícios, utilizando os últimos ensi-
namentos da ciência, é restabelecer o texto em
sua pureza primitiva.

Os Chineses conservaram suas obras com
um admirável respeito religioso... Há poucas es-
peranças no auxílio que os astrônomos poderiam
trazer para deslindar a cronologia chinesa(83). É
preciso resignar-se, como fizera Sseu-ma Ts'ien,
em deixar sem data todas as épocas anteriores
ao ano de 841 antes de nossa era.

Pode-se ao menos confiar nas listas de rei-
nados? Parece difícil conceder-lhes crédito. De
Yu, o Grande, ao rei Wou dos Tcheou, se acres-
centarmos os soberanos Hia e Yin, contam-se 45
reinados; 17 gerações são suficientes para ocupar
o mesmo espaço de tempo, se contarmos os prínci-
pes predecessores do rei Wou. Na lista dos ances-
trais dos Ts'in, seis gerações correspondem aos
17 reinados dos Hia e 10 gerações, aos 45 reinados
dos Yin e dos Hia. Um dos ancestrais dos Ts'in é
dado tanto como contemporâneo do último sobe-
rano Hia, como favorito do último rei dos Yin.

Além disto, o reinado do último dos Hia parece co-
piado no do último dos Yin. Na verdade, todos os
dois são compostos com a ajuda de temas míticos
transpostos, e os anais dos Yin não são menos
desprovidos de fatos do que os dos Hia. Os pou-
cos fatos que formam os anais dos últimos Yin
são tomados da história dos ancestrais dos
Tcheou. É apenas com os primeiros soberanos
Tcheou que as narrativas se enriquecem. Não se-
ria por que a dinastia Tcheou é a única das três
dinastias reais a possuir alguma realidade histó-
rica? Na verdade, a história dos primeiros Tcheou
não oferece muitas garantias. Analisando-a, per-
cebe-se que ela é feita, não com o auxílio de
documentos de arquivos, mas graças à utilização
de fragmentos de uma tradição poética. O rei
Wen e seus ancestrais, como seu descendente, o
rei Mou, são heróis que foram cantados pelos
poetas(84). Se a narrativa da grande vitória do
rei Wou sobre os Yin parece ter alguma precisão,
é porque ela reproduz o argumento das danças
triunfais que, de ano para ano, comemoravam, na
corte dos Tcheou, a glória primitiva de sua casa.
[Ainda, parece que esses argumentos são conhe-
cidos, não pela tradição em uso nesta corte, mas
pela seguida, segundo os eruditos do Chan-tong,
pelos príncipes de Lou (Chan-tong)](85). A história
dos fundadores da dinastia nasceu do drama, da
epopéia ou do romance. A de seus primeiros su-
cessores buscou seu assunto em discursos que
não são mais do que exercícios de escola. Afir-
ma-se que esses discursos foram realmente pro-
nunciados. Dá-se a data e os nomes dos oradores.
Isto quer provar, sobretudo, que podem ser to-
mados, sem hesitação, como modelos. Para dizer
a verdade, eles não contêm nada além dos gran-
des temas de uma retórica antiqüíssima. O leitor
não se sente nunca em presença de fatos histó-
ricos, e sim de uma história reconstituída artifi-
cialmente, com o auxílio de produções literárias
que, na maioria, pertencem a uma época bem
mais recente, e inteiramente marcadas com preo-
cupações políticas ou dogmáticas.

Toda a história da China antiga repousa
num sistema de falsidades, ao mesmo tempo in-
gênuas e eruditas. No momento, não dispomos
de nenhum processo de filtração, e pode parecer
que, reduzida a seus próprios recursos, a crítica
filológica termine em resultados negativos. Isto
quer dizer que a tradição chinesa não tem funda-
mentos sólidos? - Não creio.

Certamente é inexato, mesmo que se pro-
cure, acima de tudo reagir contra aqueles que
"abusaram da antiguidade da China", escrever
que "a civilização não é muito antiga no Extremo
Oriente " (86). Seria mais justo dizer: " Os Chineses
só começaram a se interessar pelos fatos em si
mesmos bastante tarde(87). É preciso, além dis-
to, acrescentar que o sentido histórico e o que
chamamos de gosto da verdade, entre eles, nunca
tiveram força suficiente para dominar o espírito
tradicionalista. Mas isto mesmo implica que suas
tradições merecem um certo tipo de crédito.
Elas nos chegaram sob uma forma sistemá-
tica. É impossível acreditar hoje que os historia-
dores chineses "não alteraram os textos origi-
nais"; e é preciso reconhecer, no sistema que
eles construíram, uma boa parte de teoria(88).
Mas se, nos pormenores, os dados tradicionais
foram corrigidos, a finalidade era defender a tra-
dição. Esta era o princípio da vida política e re-
ligiosa. Era artigo de fé. Pode-se presumir que
ela tenha sido respeitada em seu conjunto. Pode-
se mesmo supor, grosso modo, que era conheci-
da com bastante exatidão, em razão da importân-
cia que lhe era atribuída.

Os Chineses, fazendo remontar sua histó-
ria ao terceiro milênio antes de nossa era, talvez
reclamem uma antiguidade muito moderada. Sua
língua, por mais remotamente que a tomemos,
surge como uma língua usada. É possível que
tenha uma longa história. Sabe-se agora, que uma
civilização neolítica existiu na China. Talvez haja
uma continuidade entre esta civilização e a ci-
vilização chinesa propriamente dita. Ora, não
apenas, como se verá, as narrativas relativas às
Três Dinastias contêm traços de costumes que
os historiadores do tempo dos Han ou de Confú-
cio não podiam compreender nem inventar, como
também se encontraram traços análogos, e mes-
mo mais arcaicos, na história dos Cinco Sobera-
nos (89). As tradições chinesas conservam, portan-
to, a lembrança de transformações sociais que
não se produziram em poucos anos. Pode-se, cer-
tamente, mostrar que as narrativas sobre Yu, o
Grande, são formadas de elementos puramente
míticos. Isto não prova, de maneira alguma, que
Yu, o Grande, não seja um personagem da histó-
ria. Não há nenhum pormenor que se refira às
Três Dinastias que possa ser aceito como um
fato histórico. Por outro lado, não existe nenhuma
razão para se negar a realidade destas dinastias.

Uma descoberta recente parece provar a
realidade histórica da dinastia Yin (90). Exumou-se,
em 1899, numa pequena aldeia de Ho-nan, um
número bastante grande de restos de ossadas
misturadas com conchas de tartaruga. Os ossos
traziam sinais de escrita arcaica que provocaram
a curiosidade dos epigrafistas chineses. A primei-
ra publicação sobre esses documentos apareceu
em 1902 (três anos depois da descoberta), assi-
nada por dois eruditos (um deles devia, em 1915,
adquirir a primeira coleção feita com os ossos
exumados). Um número bem grande de ossos
atribuídos a Ho-nan estão hoje no comércio, mas
se assegura que muitos são falsos. Parece, po-
rém, que essas falsificações podem ser descober-
tas. Haveria, talvez, excesso de ceticismo em não
se dar crédito aos trabalhos que um erudito como
o Sr. Lo Tchen-yu consagrou aos ossos que decla-
ra, por boas razões, autênticos. Ele pôde decifrar,
entre outros nomes, os nomes da maioria dos so-
beranos Yin, mais ou menos como figuram em
Sseu-ma Ts'ien e nos Anais sobre bambu. Os os-
sos foram encontrados em Ho-nan, num local onde
o rei Wou-yi dos Yin poderia ter habitado, do ter-
ceiro ao décimo quinto ano de seu reinado. Os
eruditos chineses acreditam que os ossos encon-
trados teriam sido enterrados sob o reinado de
Wou-yi, depois das operações divinatórias nas
quais este soberano havia consultado seus ances-
trais. Esta hipótese proporciona a vantagem de
identificar o local da capital temporária de Wou-
yi; esse local era, até então, desconhecido. Na
verdade, os descendentes dos Yin, príncipes de
Song, reinaram, também eles, em Ho-nan (mas
mais ao sul, segundo as tradições); portanto, po-
der-se-ia atribuir a eles ou aos príncipes de Wei
as operações divinatórias (se se tratar mesmo de
operações divinatórias), às quais devemos os os-
sos de Ho-nan. Os caracteres gravados nos ossos
parecem, é verdade, arcaicos demais para não
datarem de uma época mais ou menos contem-
porânea aos primeiros Tcheou (a menos que, em
certos casos, como por exemplo nas operações
divinatórias, tenha se empregado, em qualquer
época, uma escrita de um tipo particular, arcaica
ou arcaizante). No fim de contas, fica-se tentado
a admitir que a lista dos reis Yin, mais ou menos
tal como se encontra em Sseu-ma Ts'ien e nos
Anais sobre bambu, está de acordo com a tradi-
ção que remonta a vários séculos antes da data
em que os Anais e as Memórias históricas foram
compostos. Assim, se a descoberta dos ossos de
Ho-nan não prova a realidade da dinastia Yin, ela
parece, pelo menos, atestar o valor relativamente
antigo das tradições históricas referentes às lis-
tas de reinados.

Haveria pouca prudência em rejeitar em
bloco as tradições históricas chinesas. Mas a
crítica filológica não tem nenhum meio de extrair
sozinha uma história positiva. Ela deve recorrer
a outras disciplinas. No momento, o melhor que
ela tem a fazer é não abastecer de hipóteses as
ciências que podem proporcionar um progresso
real aos conhecimentos.

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