A època dos Hegemons e dos Estados Combatentes

O título de Filho do Céu conservou-se na
casa real dos Tcheou quase até a fundação
do Império. Mas, entre os séculos Vlll
e lll, estende-se um período que
se caracteriza por lutas de pres-
tígio entre alguns Estados feudais (kuo). A histó-
ria desta época baseia-se em anais senhoriais. A
fonte principal, do século Vlll ao século V, é o
Tch'ouen ts'ieou (Anais) da região de Lou, pátria
de Confúcio. O Tch'ouen ts'ieou fornece apenas
uma lista muito pobre de fatos. Ele é completado
por três comentários [o principal, o Tso tchouan
(baseado, sem dúvida, em uma ou várias crônicas
locais) narra histórias relativas a todas as regiões
chinesas] e também com o auxílio do Kouo yu,
que é uma compilação de contiones, de discursos
(yu) classificados por região (kouo). O período
seguinte só é conhecido por uma obra mais se-
melhante ao Kouo do que a um livro de anais: os
Discursos dos Reinos combatentes. Sseu-ma
Ts'ien escreveu a história desta época, sob for-
ma de monografias de domínios, acrescentadas
aos Anais principais e a consagra aos últimos
Tcheou. O historiador não introduz nenhuma di-
visão neste longo período. Um costume antigo
incita a distinguir, segundo as fontes, o período
Tch'ouen ts'ieou daquele dos Reinos combaten-
tes, Deveríamos escrever domínios combatentes,
mas dizemos reinos porque, nesta época, vários
chefes de domínios tomaram o título de rei. Al-
guns deles são qualificados de Hegemons. A tra-
dição, entretanto, reserva habitualmente esta de-
nominação a cinco personagens que viveram no
século Vll; ela opõe a época dos Cinco Hegemons
à dos Cinco Soberanos e das Três Dinastias. Os
primeiros Hegemons foram os príncipes de gran-
des domínios que procuraram fornecer à China
uma nova dinastia real e que desempenharam um
papel importante na época dos Reinos combaten-
tes. Estes príncipes, seus sucessores e seus imi-
tadores tentaram substituir a dinastia decadente
dos Tcheou, mas a história apresenta os primeiros
como protetores meio respeitosos, e os segundos
como rivais declarados da casa real (35).

I- Os Hegemons

Traduz-se por Hegemon dois termos que os
historiadores chineses empregam freqüentemen-
te um pelo outro. A palavra Pa refere-se a um
senhor a quem atribuem grande prestígio e um
poder de fato. Chama-se Po um príncipe revestido
de uma autoridade particular por uma investidura
especial do Filho do Céu. A tradição atribuía ao
rei o direito de promover ou de submeter os se-
nhores (tchou heou). Estes possuíam, por tradi-
ção, um dos títulos de Kong, Heou, Po, Tseu, Nan,
denominações honoríficas que sugerem, todas, a
idéia do poder viril ou militar. Todos os senhores
eram designados, em sua região, pela palavra
Kong (duque), mas admitia-se que existisse entre
eles diferenças hierárquicas. E também é costu-
me traduzir os termos da hierarquia nobiliária pe-
las palavras: duque, marquês, conde, visconde,
barão. Os duques e os marqueses formavam a
categoria superior; os outros, a categoria inferior.
Mas a palavra Po (conde) servia, ainda, para de-
signar os chefes (fang-po = hegemons) encarre-
gados de assegurar o controle de um oriente do
Reino (fang). O mesmo termo (po), usado para as
divindades masculinas, marca também a primoge-
nitura(36). O rei distinguia, entre os senhores,
aqueles que tinham o mesmo nome de família que
ele e aqueles que usavam um nome diferente. Ele
chamava os primeiros de Fou (tios paternos =
pais) e os segundos de Kieou (tios maternos = so-
gros). A investidura, que conferia um direito de
polícia especial (hegemonia), dirigia-se a um Po-
fou ou a um Pa-kieou.

Sseu-ma Ts'ien, depois de ter observado
que o rei P'ing (770-720), filho do rei Yeou, teve
que transferir sua capital para o Leste, para se
subtrair às incursões dos Jong (Bárbaros do Oes-
te) acrescenta que, sob seu reinado, a "casa real
declinou e se enfraqueceu. Os senhores usaram
sua força para oprimir os fracos. Ts'i, Tch'ou,
Ts'in e Tsin começaram a crescer; o poder foi
exercido por aquele que tinha a hegemonia na
região (Fang-po)". Ts'i, Tch'ou, Ts'in e Tsin são
(com Song) as regiões que forneceram cada um
dos Cinco Hegemons tradicionais. Sseu-ma Ts'ien
escreve em outro lugar: "Naquele tempo (sob o
rei Houei, 676-652), a casa dos Tcheou achava-se
diminuída. Apenas Ts'i, Tch'ou, Ts'in e Tsin eram
poderosos. Tsin (marquesado do Chan-si) havia
começado a participar das reuniões dos senhores,
mas, desde a morte do duque (marquês) Hien,
esse Estado sofria de discórdias intestinas. O
duque (visconde) Mou de Ts'in (viscondado do
Chen-si) achava-se isolado e afastado: ele não
participava das reuniões e das convenções da
Confederação chinesa (Tchong kouo). O rei (título
usurpado) Tch'eng de Tch'ou (viscondado do Hou-
pei) começara recolhendo os Man (Bárbaros do
Sul) da região de King e os governava... Somente
Ts'i (marquesado do Chan-tong) podia organizar
as reuniões e as convenções dos domínios da
Confederação Chinesa. Como o duque (marquês)
Houan (de Ts'i) havia demonstrado sua virtude,
os senhores assistiram como hóspedes às reu-
niões que ele comandava" (37).

O duque Houan de Ts'i (683-643) é o pri-
meiro dos Cinco Hegemons tradicionais. O mais
célebre é o duque Wen de Tsin (636-628). Houan
de Ts'i podia pretender o título de Po-kieou
(hegemon-tio materno). Ele descendia de T'ai-
kong, o Sábio, que foi o ministro dos fundadores
da dinastia Tcheou e cuja filha havia desposado o
rei Wou. T'ai-kong passava por ter recebido uma
investidura especial: "Senhores dos cinco graus
e chefes das nove províncias, vós possuís o direi-
to de castigo sobre eles, a fim de sustentar e de
apoiar a casa dos Tcheou! " O duque Wen de Tsin
usava o mesmo nome de família dos Tcheou. A
história afirma que ele recebeu, efetivamente, a
investidura ao título de Po-fou (hegemon-tio pa-
terno): "Ò meu tio... ilustres foram os réis Wen
e Wou; eles souberam cuidar de sua brilhante
Virtude que subia com esplendor para o Alto (para
o Céu) e cujo renome se espalhou aqui embaixo!
Por isto o Soberano do Alto fez ter êxito o Man-
dato nos reis Wen e Wou. Tende compaixão de
minha pessoa! Fazei com que eu continue (meus
ancestrais), eu, o Homem Único, e que, perpetua-
mente (eu e os meus), estejamos no trono!" Ne-
nhuma tradição de família, nenhuma investidura
justificam a atribuição da hegemonia aos três ou-
tros príncipes. O duque Siang de Song (ducado
do Ho-nan) (650-637) era descendente da dinastia
Yin. Sua ambição foi indevida, pois "a grande Fe-
licidade não chega duas vezes" para uma mesma
família. Sseu-ma Ts'ien não relaciona Song entre
as regiões que exerceram a Hegemonia. A histó-
ria relata, no entanto, o fato de que o duque Siang
presidiu a reuniões senhoriais. Nem o duque Mou
de Ts'in (659-621), nem o rei Tchouang de Tc'ou
(613-591) presidiram-nas. É verdade que, mais tar-
de, Tch'ou tentou fundar o império e que Ts'in o
fundou (38).

Os Hegemons são príncipes que possuíram
imperfeitamente o gênio de um rei fundador. O
mais célebre entre eles, Wen de Tsin, conheceu,
antes do êxito, todas as experiências de uma vida
errante. Sua odisséia está cheia de traços épi-
cos(39). Filho mais moço, com terras perto das
fronteiras, ele conquistou D coração dos habitan-
tes. Mas fugiu, não tanto para escapar dos assas-
sinos enviados contra ele, quanto para não entrar
em revolta contra seu pai, indo se refugiar na re-
gião de sua mãe, que era de raça bárbara. Ali
Wen de Tsín recebeu uma mulher. Seu prestígio
já era tão grande que o povo de Tsín veio lhe
oferecer o trono, por ocasião da morte de seu
pai. Ele recusou, não porque sua'hora ainda não
tinha chegado, mas porque, não tendo assistido
às cerimônias do luto paterno, não se sentia qua-
lificado para sucedê-lo. Entretanto, ele resolveu
visitar os domínios mais poderosos. Esta viagem
aumentou seu renome. Ele suportou com paciên-
cia as injúrias daqueles que o atacavam. Quando,
pedindo comida, ofereceram-lhe um torrão de ter-
ra, ele conseguiu dominar um primeiro ímpeto de
cólera e recebeu o torrão como um símbolo de
investidura. Àqueles que, pelo contrário, confian-
tes em sua Virtude, escondiam, numa oferenda
de arroz, uma tabuleta de jade, ele devolvia o
jade, mas ficava agradecido. Wen foi bem acolhi-
do em Ts'in. Ali recebeu uma mulher. Ele resolveu
então viver e morrer perto dela. Ele se recusava
a forçar o Destino. Foi esta mulher que, preocupa-
da com sua glória, induziu-o a partir novamente.
Em Tch'ou, embora pressionado pelo perigo, ne-
gou-se a comprometer o futuro de seu país com
promessas imprudentes. O príncipe de Tch'ou,
pressentindo nele um rival, não pôde se resolver
a mandar matá-lo. "Aquele que o Céu quer enal-
tecer, quem poderia eliminá-lo? Resistir ao Céu
é atrair, inevitavelmente, a Infelicidade! " Por toda
parte, repetiam, falando do duque Wen: " Ninguém
pode atingir aquele a quem o Céu abriu o cami-
nho!" Companheiros, que eram Sábios, seguiam-
no fielmente. Um deles, para alimentá-lo, num dia
de desventura, cortou um pedaço de sua coxa.
Ele não se gabava nunca de seu ato: ele achava
que o príncipe só devia alguma coisa ao Céu, que
lhe havia aberto o caminho. Um pai, diante de uma
ameaça de morte, recusou-se a chamar seus fi-
lhos que serviam o futuro Hegemon. Enfim, o du-
que Wen foi a Ts'in. Ali recebeu cinco mulheres.
Os exércitos de Ts'in levaram-no vitoriosamente
à sua região. "Ele distribuiu, então, seus favores
às Cem Famílias." Recompensou "os que o
haviam guiado com sua bondade e com sua jus-
tiça, auxiliado com sua virtude e com sua gene-
rosidade " mais do que os que somente lhe haviam
prestado ajuda material. Ele procurou a hegemo-
nia, mas, para honrar os Tcheou, fez com que o
rei Siang (635) voltasse para sua capital. Quando
venceu Tch'ou, que tinha hesitado em atacá-lo
("Foi o Céu que lhe abriu o caminho, não posso
me opor a ele"), ele só celebrou um triunfo (632)
depois de ter homenageado o rei com seus tro-
ffus. Recebeu, então, com o título de Hegemon,
um rico presente de objetos preciosos. Ele não
se vangloriou de seus êxitos e disse, suspirando
como uma pessoa aflita: "Aprendi que só um Sá-
bio pode encontrar a calma numa vitória alcan-
çada no campo de batalha.". Embora tivesse sido
feliz na guerra, mereceu ser chamado, não de
(Wou), "ó guerreiro", mas de (Wen), "o civi-
lizador".

O Céu, no entanto, não lhe concedeu a Vir-
tude perfeita de um Fundador. Se ele se ilustrou
com inúmeras demonstrações de humildade, ti-
nha, no entanto, esse fundo de arrogância que
impede qualquer elevação verdadeira. Vassalo,
ousou pedir que o rei assistisse a uma reunião...
"Na época em que lia as Memórias históricas,
Confúcio disse, quando chegou na parte referente
ao duque Wen: Os senhores não devem convo-
car o rei". Para passar (este fato) em silêncio, o
Tch'ouen ts'ieou escreveu: "O rei fez uma inspe-
ção em Ho-yang (40)." Usurpação pior, o duque
Wen mandou fazer, para seu túmulo, um caminho
subterrâneo, privilégio real. Os outros Hegemons
mostraram mais orgulho ainda. O duque Houan,
de Ts'i, quando atacou Tch'ou (656), invocou um
bom pretexto, censurando-o de não mais enviar
aos Tcheou o tributo de feixes de grama neces-
sários para os sacrifícios reais. Na verdade,
Houen desejava fazer sacrifícios, ele mesmo,
como um rei, na montanha cardinal do Leste, o
T'ai chan. O Hegemon de Tch'ou teve a presunção
de reclamar do rei (611) os caldeirões mágicos
que os Tcheou haviam herdado dos Yin e dos Hia.
Obras de Yu, o Grande, fundador da Realeza,
esses caldeirões eram talismãs reais com um
peso grande demais para aqueles cuja Virtude
fosse insuficiente. O Hegemon de Ts'in, inebriado
com uma vitória, pretendeu sacrificar um príncipe
cativo ao Soberano do Alto, que só podia ser hon-
rado como um culto pelo rei. Inúmeras vítimas
humanas seguiram-no em seu túmulo. Os Sábios
disseram: "O duque Mou de Ts'in ampliou seu
território e aumentou seus Estados;...no entan-
to, ele não presidiu a assembléia dos senhores:
era o que devia ocorrer, pois, por ocasião de sua
morte ele (se fez) sacrificar (os melhores de) seu
povo... Sabe-se por isto que Ts'in não poderá
mais governar no Leste."

Como nenhum rei, na capital, nenhum prín-
cipe, nos grandes Estados, tinha uma Virtude ade-
quada à Ordem celeste, a China, durante o perío-
do Tch'ouen ts'ieou, não pôde desfrutar da paz.
Mas, apesar das anexações violentas de peque-
nos feudos, apesar das guerras entre grandes Es-
tados, apesar da hostilidade constante opondo
Tsin a Ts'in e a Ts'i, e, sobretudo, a Tch'ou, esta
época conheceu um tipo inferior de concórdia.
Esta resultou da prática de reuniões e de tratados
entre os senhores. A essas reuniões e a esses
tratados presidia sempre Tsin, região do Hege-
mon mais célebre, e cujos príncipes usavam o
mesmo nome de família dos Tcheou. Os senhores
procuravam obter um certo equilíbrio fundamen-
tado no respeito dos direitos reais, a conservação
das situações adquiridas e uma certa obediência
aos príncipes de Tsin. O tratado de 562 é fa-
moso: "Todos nós que juramos juntos esse tra-
tado (meng), não acumularemos as colheitas, não
açambarcaremos os lucros (li), não protegeremos
os culpados, não receberemos os provocadores
de tumultos; socorreremos os que forem vítimas
de uma calamidade ou de um desastre, teremos
compaixão dos que estiverem na desdita ou na
perturbação. Teremos os mesmos amigos, os
mesmos inimigos. Ajudaremos a casa real. Se al-
guém transgredir esse decreto, que os Protetores
da Verdade, os Protetores dos tratados, as Mon-
tanhas veneráveis, os Rios veneráveis, todos os
Deuses (dos montes e das colinas), todos os
Deuses das casas (e das cidades), os Reis defun-
tos, os Senhores defuntos, os Ancestrais das
Sete Famílias e dos Doze Domínios, que esses
Deuses resplandecentes o aniquilem! Que ele
seja abandonado por seu povo! Que ele perca o
Mandato (celeste)! Que sua família pereça! Que
seu domínio seja arrasado(41)!"

Uma paz verdadeira, realizada por um prín-
cipe sábio, tutor desinteressado da casa real, tal
é o ideal que seus biógrafos e a tradição atribuem
a Confúcio (551-479). A vida deste santo encerra
o período Tch'ouen ts'ieou. Confúcio sentia-se in-
vestido de uma missão. Ele poderia realizá-la des-
de que se tomasse ministro de um príncipe e
inspirasse sua política. Por isto, passou a maior
parte de sua vida viajando de domínio em domí-
nio, à procura de quem soubesse usar seu talen-
to. A todos propunha " conformar-se às regras das
Três Dinastias e restabelecer a honra da política
do duque de Tcheou". Este havia conseguido con-
solidar o poder da dinastia principiante dos
Tcheou, cuja Virtude tinha que ser restaurada. Se
existisse, pensava Confúcio, um príncipe "que
fosse capaz de utilizá-lo, no fim de um ciclo de
doze meses, um resultado já seria obtido; no fim
de três anos, a perfeição seria realizada". A con-
fiança de Confúcio em sua vocação era absoluta.
Ele se espantava com seus reveses. Nos piores
momentos, ele não se convencia de que sua sa-
bedoria era insuficiente. "Quando", dizia ele, "rea-
lizou-se plenamente a Sabedoria, se se fica sem
emprego, a vergonha é dos senhores (42)." A His-
tória deplora o insucesso de Confúcio, sem, con-
tudo, assombrar-se. Ela parece admitir que, no
início do século V, a confiança na eficácia ime-
diata de uma Virtude constituída pelo acatamento
das regras tradicionais tenha sido enfraquecida.

II - Os tiranos

Os séculos V, IV e III são representados
como um período de anarquia e como a época de
uma grande crise moral. Os grandes Estados ter-
minaram absorvendo quase que inteiramente os
pequenos domínios. A ordem da sociedade cessa
de se basear na tradição e em regras protocola-
res. O desejo do poder supera abertamente a
preocupação de equilíbrio. Os príncipes não têm
o que fazer com uma Virtude cujo prestígio se
basta. Eles procuram, com os prestígios mais di-
versos, os lucros materiais e o aumento de sua
força. Eles se acham propensos às novidades,
sem procurar justificá-las com precedentes ou
com uma teoria sofística da História. São tiranos.
"Os reis antigos não tiveram costumes
idênticos...O êxito dos Homens santos (da anti-
guidade) deveu-se ao fato de que eles reinavam
sem imitar uns aos outros. O mérito que se tem
em se conformar às leis estabelecidas não é su-
ficiente para elevar um homem acima de sua épo-
ca. O estudo que consiste em tomar como modelo
a antiguidade não é suficiente para regulamentar
os tempos modernos." "O Homem santo, se isto
pode, efetivamente, ser útil a seu reino, não man-
terá a uniformidade de usos. Se ele pode, assim,
acomodar-se às circunstâncias, não manterá a
uniformidade de ritos." Assim se exprime um
príncipe (307 a.C.) que quer adotar o traje e o ar-
mamento de seus vizinhos bárbaros. Porque tem
desejos de conquista e quer "realizar grandes fei-
tos, ele não delibera com o povo". "Ele não pro-
cura estar de acordo com o vulgo", embora ele
"vise à Virtude perfeita" (43). O objetivo é sempre
a Virtude, mas seu conceito acomoda-se, dizem-
nos, com um espírito revolucionário.

No momento em que aparece um horizon-
te de idéias mais amplas, mostram-nos o poder
crescente de países situados à margem da antiga
Confederação chinesa. Esses países acolhem in-
fluências bárbaras, difundindo-as na China. Os
personagens mais célebres desses tempos novos
são dois príncipes que viveram bem no início des-
ta época de barbaria. Um é Ho-lu (514-496), rei de
Wou (Wou - Ngan-houei - é, em teoria, um con-
dado) e o outro, Keou-tsien (496-465), rei de Yue
(Tche-kiang). Os dois reinaram sobre povos tatua-
dos, que usavam cabelos curtos. Às vezes, são
qualificados de hegemons. Eles compartilham
com os Hegemons clássicos a glória de ter mi-
nistros sábios. Mas os seus não são vassalos li-
gados a seu domínio; também não são como Con-
fúcio, seu contemporâneo, teria desejado ser,
conselheiros penetrados de sabedoria tradicional.
Um, Wou Tseu-siu, é um trânsfuga, o outro, Fan
Li, um homem misterioso, de origem desconhe-
cida. Seus conselhos, sob um disfarce de retórica
antiga, inspiram-se numa política realista. Keou-
tsien, vencedor de Wou que, outrora, tendo-o der-
rotado, perdoara-lhe, era propenso à clemência.
Outrora, disse-lhe Fan Li: "O Céu ofereceu Yue
a Wou. Wou não tomou esse dom. Agora o Céu
oferece Wou a Yue. Como Yue poderia se opor
ao Céu (e não anexar Wou)?...Quando não se
toma o que o Céu dá, expõe-se à Calamidade."
Na época dos primeiros Hegemons, não se ousa-
va recusar o grão a um rival que sofresse de
privação. Keou-tsien, dizem, fez com que seu
adversário lhe desse grãos, mas zombou desta
generosidade como se fosse uma loucura, apro-
veitando-se dela para vencer. A História exalta
seu triunfo e justifica seu cálculo. Além do ofe-
recimento de grãos, uma política tortuosa conhe-
cia oito processos para arruinar o adversário. O
primeiro consistia em venerar as divindades. To-
dos os outros eram de ordem realista e brutal (44).
Keou-tsien teve uma diplomacia. Adotou
também uma política agrária e uma política da
natalidade, ambas com fins militares. E também
o Estado que, do século V ao lll, fez os maiores
progressos, o Estado de Ts'in - considerado meio
bárbaro, no período precedente - foi a região dos
legisladores e dos economistas. Em 361, "o duque
Hiao (de Ts'in) mostrou-se benfazejo: sustentou
órfãos e eremitas, chamou para junto de si os
homens de guerra; os méritos relevantes foram
recompensados"(45). Um trânsfuga, Wei-yang
(príncipe de Chang), ligou-se então à sorte de
Ts'in. Em 359, ele fez "modificar as leis, reformar
os castigos, encorajar a lavoura... excitar por re-
compensas e punições aqueles que estão prontos
a perder a vida combatendo". Em 350, uma nova
capital foi edificada em Hien-yang. "Uniram-se to-
dos os pequenos burgos e as aldeias em grandes
prefeituras (em número de 41); à frente de cada
prefeitura, colocou-se um prefeito... Para fazer
os campos (renunciando à divisão tradicional de
grandes quadrados de terra em nove quadrados
iguais), abriram-se os caminhos perpendiculares
e transversais" e, em 348, substituiu-se o dízimo
- este, segundo a tradição, compunha-se do pro-
duto dos quadrados centrais: dízimo do nono -
por um sistema de taxas. Todas as tradições do
regime feudal foram quebradas. A guerra, cessan-
do de ser concebida como um processo destinado
a revelar e a realizar os julgamentos do Céu, tor-
nou-se uma indústria. Ela não se propunha mais
à reparação dos culpados e sim à destruição do
inimigo. Ela se tomou sangrenta. Ts'in passou por
ter decapitado os prisioneiros e por ter procurado
o extermínio. Em cada batalha, cortavam-se deze-
nas de milhares de cabeças. Ts'in foi, diz a His-
tória, uma região de animais ferozes.

Outrora, o ideal era que o senhor cultivas-
se apenas pepinos e melões, os quais não se
conservam. Ele devia abster-se de acumular
grãos. Agora, pelo contrário, o objetivo é consti-
tuir estoques e tesouros. À moderação sucedem
o luxo e os gastos. É a época dos príncipes mag-
níficos. A eles são atribuídos todos os traços que
serviam para retratar os reis de perdição das di-
nastias decadentes. Eles vivem rodeados de mu-
lheres, de musicistas, de bufões, de gladiadores,
de sofistas, de espadachins. As emboscadas e os
assassínios tomam-se os meios eficazes da polí-
tica; a crueldade e o orgulho não têm freios; as
cerimônias fúnebres dão ocasião a horríveis triun-
fos. Ho-lu de Wou (514-496) enterra riquezas inau-
ditas com sua filha. Além disto, ele sacrifica, ao
lado de dançarinos, um grupo de rapazes e de
moças do povo. O príncipe, no furor de sua ambi-
ção, não recua diante das apoteoses mais subver-
sivas. Yen de Song proclama-se rei com o nome
de K'ang, em 318. Ele celebra festins noturnos,
grandes bebedeiras nas quais ressoam os brin-
des: "Dez mil anos! Dez mil anos!" Ele queima
as tabuletas de seus Deuses do Solo, fustiga a
Terra e, enfim (ele descendia de Wou-yi), atira
flechas contra o Céu. Ele quer, assim, afirmar sua
superioridade sobre todos os Deuses (46).
Por certo, como convém, essas orgias ter-
minam em desastres. A anarquia aumenta e os
esforços dos Sábios são inúteis. Eles se deses-
peram. Eles não dispõem de outro recurso além
da morte. Assim se explica a sorte de K'iu-yuan,
príncipe com o sangue de Tch'ou, sábio e poeta.
O rei Houai (328-299) não quis ouvir seus conse-
lhos. K'iu-yuan apelou em vão para a ajuda da
Virtude, o poder da poesia; em vão, por esta vasta
alegoria que é seu poema do Li sao(47), ele havia
lembrado a seu senhor que a procura de um santo
conselheiro impõe-se tanto quanto a de uma noi-
va perfeita: a conquista da Virtude é a única à
qual se deve obstinar um príncipe digno deste
nome. Kiu-yuan, rejeitado, banido, errante, não se
obstinou em esperar, como Confúcio. Toda a con-
fiança na Virtude acabou por lhe faltar. "Onde
está o fasto? Onde o nefasto? O que se deve evi-
tar? O que se deve seguir? O século é um lodaçal!
Não há mais nada puro!... Os delatores são exal-
tados! E os sábios, gentis-homens sem renome!"
Resolvido a acabar com tudo, ele revelou sua
amargura a um velho pescador: "O século é um
lodaçal! Só eu sou puro! Todo o povo está embria-
gado; apenas eu escapo da embriaguez!... - Se
o povo inteiro está embriagado, por que não se
fartar de comida? Por que não se encher de be-
bida?... Quando as águas do Ts'ang estão claras,
uso-as para lavar minha rede! Quando as águas
do Ts'ang estão turvas, uso-as para lavar meus
pés" (48), respondeu o pescador. Assim, a retidão
e a lealdade eram condenadas pela voz de uma
pessoa simples. K'iu-yuan foi se afogar. A corrup-
ção era geral. O tempo da Sabedoria e da Honra
parecia ter chegado ao fim.

Nenhum comentário: