Período Feudal (03)

III - Formação de unidades provinciais

Pode-se, ligando alguns fatos, perceber a
importância do movimento de unificação que se
prosseguiu durante o período feudal. Em 478, em
Ho-nan, os habitantes da cidade de Jong-tcheou
[ou Jong-tch'eng: a cidade dos Jong) revoltaram-
se contra seu senhor, príncipe de Wei, que havia
ousado tratá-los de Bárbaros (166). O príncipe jul-
gava, sem dúvida, que sua assimilação era incom-
pleta; mas eles pretendiam ser, e se sentiam, Chi-
neses. Alguns anos antes [500], os habitantes de
Lai, em Chang-tong, que estavam em contato com
Ts'i, havia pelo menos um século, e que foram
conquistados, incorporados, deslocados desde
566, eram ainda considerados como simples Bár-
baros, executando danças selvagens (167). Tal era
a opinião daqueles que pretendiam representar o
espírito da velha China; mas os príncipes de Ts'i
não deviam ainda desprezar os Bárbaros de Lai,
Pois eles mesmos, nesta época, apenas começa-
vam a se informar dos ritos. Em compensação,
desde o fim do século IV, Ts'i era célebre por sua
grande cultura e pela proteção que dispensava
aos sábios. "Eles se contavam (em Ts'i) às cente-
nas; e (ali) chegaram a ser perto de mil (168).
Se Ho-nan é a Flor central (Tchong houa),
é nas províncias marginais que se desenvolveu a
civilização chinesa. Foi ali, nas federações mais
ou menos estáveis reunidas em redor de um che-
fe poderoso, que se sentiu com força o orgulho
de ser chinês e foi ali que se tomou consciência
de uma superioridade sobre os Bárbaros e dos
deveres que ela impunha. No início do século VII,
durante a grande luta contra os Ti que surgiam
de todos os lados, Kouan Tchong, ministro de Ts'i,
enunciou o princípio de que todos "os Chineses
(tchou Hia) são parentes"(169), então, e freqüente-
mente com encargos comuns, foram construídos
os muros de defesa contra "os Bárbaros (que) são
lobos com uma -avidez insaciável". Como, por
exemplo, as muralhas construídas, em 658, em
Hing (em Tche-li) pelos soldados de Ts'i, de Song
e de Ts'ao, ou ainda as que foram edificadas em
Wei (norte de Ho-nan), em 648, pelos príncipes
federados em redor do Hegemon de Ts'i (170).
Antigamente, um domínio compunha-se de
uma cidade murada, rodeada por terras protegi-
das por outras muralhas. No interior, ficavam os
campos cultivados, adiante, as regiões incultas,
montes com bosques, pântanos cobertos de junco
ou de mato. A cidade senhorial servia de refúgio
e, conforme seu afastamento, os habitantes esta-
vam submetidos a corvéias ou a direitos mais ou
menos pesados. Apenas os habitantes do domínio
murado (fong t'ien) contribuíam para o casamento
das filhas do senhor(171). Os domínios fora do cen-
tro, que aumentavam assimilando os Bárbaros,
impeliram suas fronteiras muradas para longe.
Um pedaço do Che king, atribuído ao fim do sé-
culo VII, celebra a construção de uma muralha
destinada a deter os nômades do norte(172). Cons-
truções semelhantes multiplicaram-se e as novas
muralhas tiveram como objetivo, sobretudo, de-
fender os grandes Estados dos bárbaros, que um
domínio rival procurava jogar contra eles, para
atacá-los pela retaguarda. Ouando Ts'in, por exem-
plo, no início do século IV, edificou um longo muro
em Kan-su, ele queria proteger de tribos insub-
missas territórios recém-conquistados, mas sua
progressão nesses territórios explica-se pelo de-
sejo de não se deixar invadir pelos Estados, her-
deiros de Tsin, que, também eles, ampliavam seus
domínios para o norte(173). Também Wei (um dos
três Tsin) replicou, em 353, fortificando as mar-
gens do Lo: sua muralha ia até o canto nordeste
da grande embocadura do Houang-ho. Assim tam-
bém o rei Wou-ling de Tchao (325-299) erigiu um
longo muro ao norte de Chan-si. Tchao construiu
fortificações para se defender de Wei (em 333)
assim como outras, a leste,.para se defender de
Yen, Estado de Tche-li (em 291)(174). Desde 369,
o príncipe de Tchong-chan, outro Estado de Tche-
li, havia construído uma muralha que o protegia
de Tchao. Assim também, desde o fim do século
V, o rei Siuan de Ts'i havia elevado um muro de
mais de mil li que parecia se opor às incursões
dos Bárbaros do Houai, mas que, na verdade, iso-
lava-o de Tch'ou(175). Enfim, Tch'ou, por seu lado,
havia construído a noroeste de Hou-pei, as mura-
lhas de Fang: elas marcavam os limites de seus
progressos em direção aos domínios centrais(176).
Vê-se por que processo as regiões chine-
sas atribuíram-se verdadeiras fronteiras. Enquan-
to que, sob a pressão dos territórios limítrofes,
operava-se o amálgama das populações, criavam-
se unidades provinciais. Formaram-se, inicialmen-
te, uma civilização chinesa e províncias chinesas.
Enfim, Estados tentaram se organizar em redor da
China antiga.

Possuímos informações muito medíocres
sobre a criação dos serviços públicos e dos bens
do Estado. Fato notável, elas provêm quase que
unicamente dos domínios que exerceram a hege-
monia. É evidente que os principais recursos dos
grandes domínios foram todos, inicialmente, reti-
rados de contribuições fornecidas pelos senhores
confederados. Assim, Tcheng queixa-se, muitas
vezes, dos tributos pesados exigidos por Tsin.
Estes consistiam em presentes de tecidos e de
cavalos. Compreendiam, também, corvéias (177).
Os grandes príncipes procuravam se assegurar
de rendas menos precárias. A Ts'i é atribuído o
fato de ter (desde o século X, dizem) "feito flo-
rescer por toda parte o trabalho dos artesãos e
dos mercadores e de ter favorecido o comércio
vantajoso dos peixes e do sal" (178). Sob o reinado
do duque Houan (685-643), o primeiro dos Hege-
mons, Koaun Tchong, reformando o governo, "ins-
tituiu um benefício sobre a moeda, o peixe e o
sal, a fim de socorrer os pobres e retribuir os
homens sábios e capazes"(179). Uma obra atribuí-
da a Kouan Tchong mostra-nos este ministro sá-
bio e seu duque atentos aos problemas das minas,
da metalurgia, da moeda (180). Em 521, existia em
Ts'i uma administração bastante complexa. Os
monopólios dos produtos florestais, dos produtos
dos lagos, dos pântanos, e, enfim, o monopólio
dos tanques de conchas e das salinas eram repar-
tidos entre diversos serviços (181). Em Tsin, os
montes, os pântanos, as florestas e as salinas
eram também "os tesouros do Estado"(182). As
salinas parecem ter constituído a parte principal
da riqueza nacional. As minas também devem ter
contribuído. Tch'ou tinha reservas de cobre a que
podia recorrer para adquirir a aliança de Tcheng
(641)(183). Tsin possuía ferro; em 510, ele impôs
a cada um de seus súditos uma contribuição de
um alqueire de minério (184).

A partir do momento em que os domínios
englobaram em suas fronteiras muradas as re-
giões que, outrora, como simples territórios limí-
trofes, cercavam seus muros, provavelmente se
empreenderam grandes trabalhos para transfor-
mar em bens nacionais as florestas das monta-
nhas e os pântanos. Era ali que a mitologia polí-
tica colocava os covis dos demônios dos quais o
senhor, com a ajuda de armas mágicas, protegia
seu povo (Demônios e Bárbaros se parecem mui-
to). É possível que os trabalhos de saneamento,
cuja glória é atribuída a ancestrais distantes, te-
nham sido executados por senhores bastante ri-
cos e suficientemente bem equipados para for-
necer a seus camponeses novos campos de
cultura. Esses trabalhos exigiam uma mão-de-obra
abundante e técnicos hábeis. Eles assustavam os
espíritos rotineiros. Acreditava-se que o simples
fato de empreendê-los já colocava o domínio em
perigo. Temos, sobre esse assunto, um documen-
to significativo. "O príncipe de Han, vendo que
Ts'in tinha êxito em seus empreendimentos, quis
enfraquecê-lo. Ele lhe enviou um engenheiro hi-
drográfico...Este aconselhou traiçoeiramente ao
príncipe de Ts'in a cavar um canal que levasse
as águas do rio King desde a montanha Tchouang,
a oeste, e de Hou-k'eou, ao longo dos montes do
norte, para jogá-las a leste, no rio Lo. O percurso
devia ser de mais ou menos trezentos li. Propu-
nha-se usar o canal para a irrigação dos campos.
Os trabalhos estavam sendo executados quando
a artimanha foi descoberta (185)." Ts'in teve a au-
dácia de perseverar: ele conseguiu transformar
em terras aráveis os pântanos que ocupavam uma
boa parte de seu domínio: "Quando o canal ter-
minou, usaram-no para levar as águas estagnadas
e para irrigar os campos cobertos de salitre num
espaço de quatro milhões de jeiras... Então, a re-
gião no interior dos canais (Ts'in) tornou-se uma
planície fértil e não houve mais escassez de ali-
mentos. Por causa disto, Ts'in ficou rico e pode-
roso e conquistou, definitivamente, os senho-
res(1186)." Assim também Si-men Pao (entre 424 e
387) enriqueceu o país de Wei, drenando e irri-
gando a região de Ho-nei entre o rio Amarelo e
o rio Tchang(187).

Gostaríamos de ter mais informações so-
bre os grandes empreendimentos de Estado, que
fizeram da China um país de cultura contínua e
que lhe permitiram ser um país de população
homogênea. Podemos supor que datam do tempo
dos Reinos Combatentes e são obra de uma época
que a história tradicional apresenta como uma era
de anarquia. O fato destas empresas terem pas-
sado por temerárias e ruinosas indica quanto era
nova e mal consolidada a concepção de Estados
grandes e ativos.

De resto, tudo o que tendia a conferir al-
guma força a um poder central era considerado
uma inovação ímpia. Conhecemos a obra dos téc-
nicos tão mal quanto a que foi realizada pelos le-
gisladores. Seguramente, foram executados gran-
des trabalhos legislativos durante o período dos
Reinos Combatentes. Não sabemos nada de preci-
so sobre eles, a não ser as resistências e as críti-
cas que inspiraram. Vários códigos foram promul-
gados no fim do século VI: o de Tcheng, em 535, o
de Tsin, em 512 (188). Eles foram gravados em cal-
deiras. A história começa por afirmar que a fun-
dição desses caldeirões devia trazer as piores
calamidades. Ela devia, por exemplo, fazer apare-
cer no Céu a Estrela do Fogo. Depois disto, a his-
tória constata que, na verdade, a capital de
Tcheng foi destruída pelo incêndio(189). Assim foi
punido o crime de que eram acusados os inova-
dores. Ele consistia em pretender substituir o cos-
tume pela lei. Parece que os legisladores queriam
aumentar a importância dos regulamentos e am-
pliar o poder da administração do príncipe. Com
toda a certeza, eles não se limitaram a agravar
os castigos, de que são acusados, mas é possível
que, em matéria legislativa, os progressos da
idéia de Estado se traduzissem, inicialmente, por
uma regulamentação mais estrita e mais severa
dos crimes de lesa-majestade. Os códigos pro-
curavam, aparentemente, reduzir o poder dos aris-
tocratas locais e das associações particulares.
As inovações administrativas de Tseu-tch'an em
Tcheng foram consideradas atentados aos direi-
tos privados: "Tomemos nossas vestes, nossos
chapéus, vamos escondê-los bem! Tomemos nos-
sas terras, associemo-nos (para defendê-las)!
Ouem matará Tseu-tch'an? Auxiliaremos esse li-
bertador!" Mas a plebe parece ter reconhecido
muito depressa os benefícios da intervenção do
Estado: "Temos filhos, temos jovens; Tseu-tch'an
os instruiu! Temos terras; Tseu-tch'an as torna
férteis! Ouando Tseu-tch'an morrer, quem lhe
sucederá? (190) "

Nenhum dos grandes Estados, antes de
Ts'in, conseguiu abalar a aristocracia. A única
tentativa interessante, neste sentido, foi feita em
Tsin e seu resultado foi medíocre. O duque Hien
de Tsin havia tentado cercar Ts'in pelo sul e pelo
norte, dominando os Li-Jong e a região de Leang.
Ts'in aproveitou-se dos tumultos que enfraquece-
ram seu adversário, por ocasião da morte do du-
que Hien, para destruir a tenaz. Vários ramos da
família do príncipe disputavam o poder, e Ts'in,
protegendo-os sucessivamente, pôde concluir tra-
tados vantajosos. Decidiu-se, então, em Tsin, não
designar mais cargos e domínios aos filhos dos
príncipes(191). Entretanto, a idéia de fazer do Es-
tado inteiro o domínio direto de um senhor era
revolucionária demais para não parecer imprati-
cável. O duque Tch'eng (605-598) manteve o prin-
cípio adotado, mas concedeu cargos e deu terras,
se não a seus parentes, pelo menos a seus gran-
des dignitários. Ele teve cuidado, é verdade, de
não reservar herança para os filhos primogênitos
destes. Sem dúvida, esperava impedir, pela divi-
são dos apanágios, a fundação de famílias tão po-
derosas como o haviam sido as famílias proce-
dentes da casa do príncipe(192). De fato, em cada
conquista, não se pôde evitar a distribuição de
terras aos chefes dos exércitos vitoriosos (193).
Formaram-se seis grandes famílias. Elas conse-
guiram, em 514, exterminar os ramos mais moços
da casa ducal. Os príncipes de Tsin esforçaram-se
Para manter um estado de rivalidade entre essas
famílias. Elas se combateram, na verdade, mas,
reduzidas a três (Han, Wei, Tchao), acabaram de-
sapossando os duques e dividindo o território de
Tsin (403). Notemos que Tchao conservou a maior
parte (todo o norte) de Chan-si; Han e Wei repar-
tiram entre si o baixo Chan-si e as conquistas de
Tsin em Ho-nan.

O período feudal, antes de edificar Esta-
dos, fez surgir unidades provinciais. As provín-
cias, cujos contornos começam então a se esbo-
çar, participam todas de uma mesma civilização.
A nação chinesa está em vias de formação, a
terra chinesa está em vias de desbastamento. Res-
ta criar a China. Resta, sobretudo, constituir um
Estado chinês.

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