Os princípios da enfeudação

Na época da concórdia camponesa e das
comunhões igualitárias, a solidarieda-
de das famílias associadas em comuni-
dades rurais era obtida por meio de
prestações que eram, ao mesmo tem-
po, alternadas e totais. As prestações
continuam totais, em princípio, enquanto a regra da
alternação domina a organização social. Quando
Chouen desposa as filhas de Yao e se torna ministro
com futura sucessão, Yao, ao mesmo tempo que suas
filhas, envia-lhe bois e carneiros, instrumentos de mú-
sica, o escudo e a lança que servirão para a guerra e
para a dança, o celeiro graças ao qual ele poderá fazer
liberalidades, todos seus vassalos, todos seus fi-
lhos (493). Chouen, que recebe toda a herança de Yao,
dará, por sua vez, a seu próprio ministro, toda sua he-
rança. Se ele restitui tudo, ele não dá mais do que re-
cebeu. A ordem feudal,é bem diferente.

A cada instante, cada bem deve ser entregue
ao Chefe. Nada é possuído senão depois de ter sido
cedido (jang). "Quando um homem do povo tem um
bem, ele o entrega ao chefe de família." "Quando um
dignitário tem um bem, ele o oferece a seu senhor."
"Quando um senhor tem um bem, ele o remete ao
Filho do Céu." "Quando o Filho do Céu tem um bem,
ele cede (jang) sua virtude (tô) ao Céu (494)." Uma
coisa só pode ser utilizada depois que a dádiva tira
seu caráter sagrado, e a dádiva torna-se proveitosa
quando é feita a um superior. Ela equivale, então, a
uma consagração. A medida que chega a um senhor
mais poderoso, a coisa se enriquece de um valor mais
alto, o Chefe não deve, em princípio, tomar tudo para
si. Ele deve saber "transmitir sua fortuna e distri-
buí-la do alto para baixo da escala dos seres, fazen-
do, assim, atingir seu desenvolvimento supremo, os
deuses, os homens e todas as coisas" (495). Os bens
tomam seu valor, sendo o objeto de doações. A cir-
culação das coisas produz os valores e os define, ao
mesmo tempo em que define e cria a hierarquia social.
A virtude (tô) das coisas resulta da consagração que
faz o Chefe cedendo-as (jang) ao Céu, força suprema.
A fortuna resulta do sacrifício, a abundância (jang)
da oblação sacrificial (jang)(496). Assim, toda dádiva
atrai um presente de valor mais alto (heou pao). Ao
sacrifício do fiel ou do vassalo corresponde a benefi-
ciência do deus ou a liberalidade do chefe. Os presen-
tes servem, em princípio, para assinalar o respeito e
para enriquecer de prestigio o donatário, depois para
fazer cair sobre o doador respeito e prestigio. Uma
emulação, feita simultaneamente de desinteresse e
de ambição, é o princípio comum da homenagem e do
tributo, do salário feudal e da nobreza.

Esta emulação generosa e ávida tem a força de
romper barreiras antigas. Pode-se entrar na família de
um Chefe, devotando-se a ele até o sacrifício total.
Tchao Kien.tseu conspira (496 a.C.); ele é muito forte
para que o castiguem; pedem-lhe somente para que
sacrifique seu homem mais devotado: este se oferece
por si mesmo à morte; depois de seu suicídio, ele
recebe as oferendas no templo da família Tchao (497).
Os vínculos de fidelidade dos vassalos (vínculos pes-
soais) sobrepujam os laços domésticos. Eles sobre-
pujam também os vínculos territoriais. Dois irmãos,
vassalos pessoais de Tch'ong-eul, futuro duque Wen
de Tsin, acompanham-no em sua fuga ao estrangeiro;
seu pai é um vassalo do príncipe que reina em Tsin;
ele recebe a ordem de fazer seus filhos voltarem; ele
se recusa: "Quando um filho é capaz de ter um cargo,
seu pai ensina-lhe a fidelidade; ele inscreve, então,
numa tabuleta, seu nome pessoal (que é idêntico a sua
alma e que confere poder sobre ele) e apresenta uma
oferenda em penhor. (O ritual da homenagem asseme-
lha-se ao ritual da dedicação. Fazendo a oferenda, dá-
se a si próprio inteiramente: não se poderia, desde
então, servir a um segundo senhor). Mostrar (uma
alma) dupla (o que fariam meus filhos voltando junto
a vós) é um crime (498)!" O princípio segundo o qual
se pertence inteiramente a um grupo único, mantém
sua força, mas o agrupamento que possui o indivíduo
não é mais do tipo familiar ou territorial: é um agru-
pamento feudal. O homem pertence, totalmente, a seu
senhor. Este o casa como quiser. Ele pode mesmo
não tomar conhecimento da regra exogâmica. Kouei
e K'ing-tche usam o mesmo nome; mas, aos dois, os
laços de família parecem insuficientes: Kouei torna-
se, então, vassalo de K'ing-tche (544 a.C.); K'ing-tche
dá.lhe sua filha em casamento (esta dádiva é como
uma contraprestação da homenagem); alguém diz en-
tão a Kouei: "Por que não vos recusais a esposar uma
parente?" Ele responde: "Quando se canta versos,
pode-se separar as estrofes? O que recebo agora, já
o tinha pedido (declarando-me vassalo) (499)." O regime
feudal acarreta uma circulação de coisas e de homens
de onde resultam classificações novas, sempre mó-
veis. Os indivíduos não estão mais ligados para sem-
pre à sua família ou à sua região. Por outro lado, os
agrupamentos, as famílias ou as regiões, não são mais
herméticos.

Os fossos que cercam um domínio podem, do-
ravante, ser removidos. O duque Houan de Ts'i traz
socorro a Yen (663 a.C.). O senhor de Yen, para mos-
trar seu reconhecimento, apressa-se em reconduzi-lo,
acompanhando-o mesmo bem longe. Ele penetra no
território de Ts'i. Era tratar o duque Houan como um
suserano, um Filho do Céu. Houan, precisamente, pro-
curava usurpar o prestígio real. Mas é abaixando que
se "aumenta a elevação", e cedendo seus bens que se
amplia a fortuna. Para marcar melhor a homenagem
recebida, Houan devia declina-la; mas para poder se
glorificar, devia pagá-la. "Ele separou por um fosso
e isolou o território atingido pelo príncipe de Yen, a
quem o ofereceu." Esta moderação, esta generosidade
aparente eram cálculos ambiciosos; ninguém se enga-
nava: os senhores, sabendo do ocorrido, puseram.se
todos a seguir Ts'i (500). A dádiva de uma terra com-
pensando uma homenagem é um dos princípios da
enfeudação. Ts'i parece incorporar a Yen um pedaço
de seu domínio; na verdade, ele enfeuda Yen a Ts'i.
Por outro lado, uma homenagem pode compensar uma
dádiva de terra. Tsin exerce a hegemonia. Song é seu
aliado; eles se unem e juntos suprimem um pequeno
domínio (562 a.C.). Tsin cede a terra a Song, mas não
sem segundas intenções. Ele estabelece em seu pró-
prio domínio um representante da família vencida, a
única que é qualificada para celebrar os cultos regio-
nais. Ele dá, pois, a posse, mas guarda os direitos
superiores. Song só possuirá o território concedido
quando for pedir a Tsin os serviços religiosos neces-
sários ao exercício de seus novos direitos. Entretanto,
a dàdiva obriga e é preciso pagá-la. O príncipe de Song
convida, pois, o príncipe de Tsin para um banquete.
Ele lhe propõe a execução da dança de Sang-lin, a dan-
ça de T'ang, o Vitorioso, fundador dos Yin. Esta dança
é uma espécie de brasão real, cuja posse não foi per-
dida pelos descendentes dos Yin. Com eles, apenas
os Tcheou podem fazer executar a dança dos Yin, que
derrotaram. Executar a dança de Sang-lin, em honra
de Tsin, equivale a tratá-lo como suserano. O prín-
cipe de Tsin só aceita pela metade a homenagem da
dança. Ele sente que Song lhe dá em demasia e que,
mostrando-lhe o emblema animado de uma raça real,
propõe.lhe uma comunhão tão temível quanto uma
prova. Empunhando a bandeira em que tremula o gênio
de Sang-lin, o chefe dos dançarinos aparece. O príncipe
de Tsin foge imediatamente. Contudo, ele cai doente.
Um vassalo engenhoso consegue afastar sua desgraça.
Sem isto, para conjura-la, Tsin teria sido obrigado a re-
clamar os serviços religiosos do príncipe de Song. Na
justa dé dádivas e de homenagens, Song venceu, pa-
recendo ceder (jang). Ele não hesitou em por em jogo
a própria essência de seu poder. Ele sacrificou tudo.
Tsin não podia sobrepujar este sacrifício. Se o tives-
se aceito inteiramente, vencido na aposta, ele teria
sido o devedor, e o enfeudado (501).

Instável e resultante de apostas sobre o desti-
no, a hierarquia feudal se estabeleceu por meio de
bravatas. Dádivas sagradas do solo, os grãos são pro-
duzidos para que os lavradores os consumam na hora
e não para serem estocados ou para saírem do territó-
rio (salvo no caso em que é necessário restabelecer,
entre grupos vizinhos, o equilíbrio rompido pela falta
de alimentos). Mas quando se funda a ordem feudal,
os grãos são trocados a titulo de tributo ou de salário;
são amontoados em celeiros e a própria palavra "ce-
leiro" significa "tesouro". As bebidas extraídas dos
grãos conferem, consumidas em comum, uma realida-
de substancial aos contratos de fidelidade. Mas, en-
quanto dois esposos (mesmo na época em que o ma-
rido é um senhor) bebem juntos nas duas metades de
uma mesma cabaça, as libações feudais, princípios de
comunhões enfeudantes, começam por este gesto de
desafio que é o oferecimento de uma taça. Antes do
combate, oferece.se uma taça ao inimigo. Que ele se
reconforte! Será enfrentado da mesma maneira(502)!
Depois da vitória, oferece-se uma taça ao vencido. Isto
é trata-lo como culpado, pois a derrota revelou, nele,
um criminoso que deve ser forçado a se purificar de
uma virtude má. Mas isto é ainda reabilita-lo, apagan-
do o passado, e também evitar uma vingança, propon-
do uma comunhão. É, enfim, assinalar seu próprio
triunfo (503). Nos torneios de tiro com o arco, os venci-
dos, segurando seus arcos afrouxados, recebem dos
vencedores uma taça de chifre. Eles bebem e expiam
sua derrota. Os vencedores expiam a seguir sua vitó-
ria: eles bebem por sua vez, mas na taça que serve
para as investiduras. Uma vez criada a hierarquia, a
solidariedade é confirmada: todos bebem em redor,
comunicando-se. Distribuir as taças, distribuir as hon-
ras, são ditos com a mesma expressão (504). Assim
também, receber grãos para comer equivale a receber
um feudo. Aquele que aceita alimentar-se de grãos,
dos quais outros tiram também sua vida, liga-se a seus
companheiros por um laço de solidariedade total. Ele
deveria recusar, se visse neles um gênio pernicioso,
cuja mácula adquiriria. "Não quero mais comer do que
eles comem! ", exclama Kie Tseu.tch'ouei: seus compa-
nheiros de vassalagem pareciam muito ávidos e, por-
tanto, desleais (505). Assim, as comunhões alimenta-
res chegam a ligar indivíduos de família e de virtudes
diferentes. Mas na dádiva de alimento, sente-se, como
na dádiva de bebida, a vontade de impor uma prova e
tentar uma anexação. Uma invasor apresenta-se: o
primeiro gesto que se esboça é o de lhe oferecer víve-
res. Não se quer procurar apazigua-lo. Procura-se, pelo
contrário, "trata-lo como vítima, que se engorda". O
exército de Tch'ou (536 a.C.) penetra no território de
Wou. O princípe de Wou envia seu próprio irmão para
levar a oferenda de víveres. A esta bravata correspon-
de outra bravata. Tch'ou dispõe-se, imediatamente, a
sacrificar o mensageiro: seu sangue servirá para untar
um tambor de guerra(506). A dádiva de alimento ou de
bebida tem o valor de um desafio que compromete a
sorte e liga os destinos. Ela quer preludiar uma
anexação.

O especulador que, mostrando moderação
(jang), é bastante ousado para ceder sempre, o que
dá mais, o que parece tudo empenhar no torneio de
apostas, somente este é capaz das anexações que per-
mitem fundar um poder. Em Ts'i, a família T'ien pre-
para.se para usurpar a autoridade do príncipe. Procura
subtrair seus vassalos à casa reinante e colocar a re-
gião inteira sob sua proteção. Ela pratica (de 538 a
485 a.C.) o sistema de duas medidas: dá e recebe empre-
gando medidas desiguais: dá 5 e não reclama senão
4. O povo também canta: "Quando uma velha tem pain-
ço - ela o leva a T'ien Tch'eng-tseu." Os príncipes de
Ts'i só possuíam um celeiro inútil onde deixavam apo-
drecer os grãos. O celeiro da família T'ien era, pelo
contrário, um verdadeiro tesouro. Os T'ien faziam libe-
ralidades aos indigentes. Aumentavam o número de
seus clientes e de seus hóspedes. A estes se ligavam
por dádivas e comunhões alimentares. Utilizavam tam-
bém a comunhão sexual como princípio de enfeudação.
T'ien Tch'ang tinha um harém com cem mulheres de
grande estatura. Ele permitia que seus hóspedes e
clientes ali penetrassem. Praticando assim a hospita-
lidade, ganhou setenta filhos. Tirou disto grande pro-
veito. Aqueles que se uniam às mulheres que eram
sua vassalas, ligavam-se a ele por seu intermédio, con-
traindo um laço de dependência. Eles não se tornavam
aliados, como são os genros; tornavam-se vassalos.
"As pessoas da região suspiravam depois da chegada
dos T'ien ao poder." "O povo celebrava, em seus can-
tos e em suas danças, as prodigalidades dos T'ien."
Estas passagens dos historiadores significam, sem dú-
vida, que os T'ien tinham sido bem sucedidos em comu-
nicar a glória de sua família. O tesouro de suas danças
e de seus cantos domésticos era, como seus tesouros
de grãos e de mulheres, não precisamente um tesouro
público, mas o tesouro de uma casa senhorial (507).
Um Chefe é aquele que, com desafios, brava-
tas, apostas, despesas, sacrifícios cruéis, justas guer-
reiras, comunhões enfeudantes, consegue romper as
velhas barreiras domésticas e territoriais, pois, de vi-
tória em vitória, constituiu um tesouro, tesouro de
emblemas, de grãos, de vassalos, de vassalas. Este
tesouro é sua fortuna e a de seu feudo. Nada tem va-
lor, nem peso (tchong), senão depois de ter sido consa-
grado a um personagem poderoso, senão depois de ter
feito parte de um tesouro que atraiu inúmeros presen-
tes. O senhor redistribui emblemas, mulheres e grãos.
Ele restitui, sob a forma de salário e de feudo, o que
recebeu a título de homenagem e de tributo. O tributo
dá o poder ao chefe. O salário dá nobreza ao vassalo.
Criou-se uma ordem nova, inteiramente baseada no
prestígio. Os agrupamentos humanos não são mais
herméticos. Homens e coisas circulam e, com isto,
tomam lugar numa hierarquia. Eles deixam de possuir
virtudes específicas que os isolam. Adquirem, em
compensação, um valor que os classifica. Na bandeira,
outrora, achava-se incorporado o gênio de um grupo;
o estandarte feudal assinala um grau de dignidade: o
que era um emblema doméstico tornou-se uma insígnia
honorífica. Em vez de ser dividida em agrupamentos
zelosos de sua independência, a sociedade compõe-se
de classes sobrepostas. Ela tem por finalidade menos
o equilíbrio das forças do que a concentração dos
poderes, ou, pelo menos, a hierarquia dos prestígios.

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