Os Grandes dados da História Antiga

Ts'in Che Houang-ti, que pretendia re-
começar tudo, queimou os livros de
história. Os Han, pelo contrário, de-
ram a impressão de querer renovar
uma tradição venerável. O imperador
Wou apresentava seu reinado não
tanto como um ponto de partida, mas como um
recomeço. Era preciso provar que nele se encar-
nava de novo a Virtude soberana, reconstituída
em seu vigor primitivo. Realizou-se uma obra de
restauração religiosa. Ela procurava justificar,
com a ajuda de teorias sobre a moral e sobre a
física, a instauração de um calendário novo. Ela
se acompanhou de um grande esforço de recons-
trução histórica.

Foi sob o reinado do imperador Wou que
Sseu-ma Ts'ien, analista oficial e reformador do
calendário, edificou a primeira história sistemá-
tica da China antiga: foi também depois deste
mesmo reinado que se começa a seguir, com al-
guma precisão, a história das obras apresentadas
como produções antigas.

Temos, de Sseu-ma Ts'ien, uma confissão
bastante grave. Ele reconhecia que, a respeito de
anais senhoriais, só se possuía, em sua época, os
de Ts'in. Ainda, acrescenta ele: "sua redação é
abreviada e incompleta". Sseu-ma Ts'ien afirma
também que "se o Che king e o Chu king reapa-
receram, foi porque alguns exemplares foram
conservados em casas particulares". Não adianta
notar que a proibição dos livros, determinada pe-
los Ts'in, só pôde ser aplicada de 213 a 207 e que
ela foi abolida em 191: na verdade, os livros só
reapareceram muito mais tarde(74).
A tradição admite, por exemplo, que uma
parte do Chu king foi recitada de cor por um
ancião de noventa anos, sob o reinado do impe-
rador Wen (179-151 ). Outros capítulos teriam sido
encontrados - no máximo no fim do século II -
quando se derrubaram as paredes de uma casa
de Confúcio. Fato curioso: os capítulos que a tra-
dição corrente diz que foram ditados, foram re-
constituídos, se acreditarmos nos mais antigos
testemunhos, com a ajuda de um exemplar que,
também, tinha ficado muito tempo escondido nu-
ma parede (75).

As obras antigas eram escritas em verniz
sobre tabuletas reunidas com cordéis. Bastavam
poucos anos para que os cordéis se desatassem
e para que os caracteres se tornassem difíceis de
decifrar. - Acrescentemos que, na época dos
Ts'in, o sistema de escrita tinha mudado (76).
Sseu-ma Ts'ien disse: "A família de Con-
fúcio (originária de Lou, no Chang-tong) possuía
um Chu king em caracteres antigos. K'ong Ngan-
kouo (descendente de Confúcio) interpretou-o
(fim do século II) em caracteres modernos(77)."
Há poucas possibilidades, de que, nas obras
de história, os recitativos e as interpretações te-
nham sido inspirados pela preocupação única da
verdade.

Sabe-se que o Chu king foi recitado por
inúmeros sábios de Ts'i e de Lou. "Dos grandes
mestres do Chan-tong, não havia quem não se
ocupasse com o Chu king para ensiná-lo." Ora,
viu-se que, sob os Han, nenhuma questão tinha
mais importância do que a dos sacrifícios Fong.
O T'ai chan, onde o imperador Wou resolveu fazer
sacrifícios, era a montanha santa de Ts'i e de Lou;
era a glória principal da província marítima de
Chan-tong. Em 122, um príncipe da família real,
com um feudo em Ts'i, desejando ser agradável
ao imperador Wou, colocou o T'ai chan sob seu
domínio direto. Foi também um ancião de Ts'i,
com noventa anos de idade, que induziu o impe-
rador Wou a tentar a ascensão do monte, em 110.
Alguns eruditos compuseram uma dissertação so-
bre os sacrifícios Fong; inúmeros indivíduos, que
são qualificados de feiticeiros, pretendiam diri-
gir esse empreendimento. "Feiticeiros com mé-
todos estranhos vinham em número cada vez mais
considerável discorrer sobre o que concerne aos
deuses!" Eles procediam "das regiões de Yen e
de Ts'i, à beira-mar". "Eruditos e feiticeiros (do
Chang-tong), discursando sobre os sacrifícios
Fong, emitiam opiniões diferentes." Todos pro-
curavam conquistar a proteção imperial. Todos
justificavam suas afirmações, apoiando-se em
precedentes históricos (78).

As tradições, como os métodos religiosos
que pretendiam estabelecer como verdade, eram
diversas. Elas tendiam a dar crédito e prestígio
a representantes de escolas opostas e de regiões
rivais. No entanto, serviram para constituir uma
História nacional com uma ordem impressionan-
te. Suspeitas desde sua origem, elas o são mais
ainda, pelo fato de que, nas versões oficiais em
que as encontramos, chegam a formar um conjun-
to relativamente bem coordenado.

Uma observação vale para a China de to-
das as épocas. Em nenhum lugar as descobertas
arqueológicas despertaram um interesse mais
apaixonante do que nesse país, mas, sempre, en-
tre a data de uma descoberta e a publicação do
achado, intercala-se um período de tempo bas-
tante longo. Escritos e objetos são exibidos ao
público no momento em que pertencem a uma
associação ou a um sindicato. Com isto, estes
adquirem influência e fortuna. Os arqueólogos
que identificam os objetos descobertos são tam-
bém antiquários: eles se munem de bons certifi-
cados e é a eles que um comprador deve se diri-
gir. Uma obra que é exumada fica imediatamente
na propriedade de uma escola: aqueles mesmos
que, a título de eruditos-conselheiros de Estado,
dela extraem ensinamentos aproveitáveis e pre-
cedentes decisivos, encarregam-se também, na
qualidade de sábios, de editar o texto e de cri-
ticá-lo. A medida que as edições se aperfei-
çoam e que a crítica se torna mais erudita, a
obra fica mais de acordo com as tradições ve-
neráveis. As antiguidades que mais se asseme-
lham às pranchas dos álbuns arqueológicos não
são, necessariamente, as mais autênticas. Os do-
cumentos históricos podem ser considerados tan-
to mais suspeitos quanto melhor confirmarem
uma tradição canônica. Eles serão particularmen-
te suspeitos se se constatar que a confirmam
cada vez melhor, graças ao trabalho crítico da
escola que os protegem. O trabalho da crítica
chinesa parece bastante com um trabalho de re-
toque. Ele procura purificar os textos e fazer com
que nada venha contradizer a versão oficial. -
Despendeu-se uma erudição infinita, tornando
quase impossível toda pesquisa que vise àquilo
que um historiador ocidental chamaria de ver-
dade.

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