Os aumentos de prestígio

Somente ritos terríveis tiveram o poder
de aproximar o pai e o filho, outrora
membros de dois parentescos diferentes
e dotados de virtudes heterogêneas. A
enfeudação agnatícia tem qualquer coisa
de uma anexação triunfal. Mas alcançar
a vitória e leva-la até o fim só foi possível, inicialmen-
te, fora da família e da cidade. Foi nas regiões limi-
trofes que se criou o direito de guerra que permite os
aumentos substanciais de prestigio.
O Chefe é um guerreiro, um domador de ani-
mais, um civilizador de Bárbaros. Senhor do fogo, com
o qual se desbrava a mata e se forjam as armas, ele
pôde acomodar o mundo. Ele pôde domar os animais
ferozes, os demônios, os selvagens que cercam a
cidade, nas regiões incultas, além dos campos culti-
vados. Ele suportou a prova da exposição na mata,
seja em seu nascimento, como Heou-tsi, seja, como
Chouen, antes de tomar o poder. Ele sabe, como Yu,
o Grande, dançar os passos que tornam inofensivos
os Tch'e-mei, espíritos ferozes dos pântanos e dos
montes, ou a dança que, domesticando os Três Miao,
estes seres alados, faz com que eles abandonem a
barbaria e tragam seu tributo à capital. Ele conhece
o nome dos Monstros: este nome é a própria alma.
Quando o pronuncia, ele vê se aproximar, cativo, o
animal mais horrendo(476). O Chefe é um fornecedor
de caça, um conquistador de nomes, um caçador de
emblemas. A alma dos animais cativos tremula em
seus estandartes, ressoa em seus tambores. Ele vai
em seu pântano pegar o Crocodilo divino que toca
tambor em seu ventre e dá gargalhadas, ou, na mata,
K'ouei, boi e dragão, que faz o ruído do trovão: com
sua pele, com seus ossos, ele faz um tambor que
governa o raio (477). Ele vai aos brejos onde se arrasta
o Wei-t'o, vestido de roxo, como convém a um prín-
cipe, e sinuoso como uma bandeira que tremula: ele o
pega e o come, pois Wei-t'o tem em si uma virtude dos
príncipes e governa a Seca (478). O Chefe é um caçador
mas que caça com música, dançando, batendo o tam-
bor, brandindo, como uma bandeira, caudas de ani-
mais (479). Ele captura os animais, come sua carne, usa
sua pele, revestindo-se de sua natureza, assimilando
seu gênio. Ele dá a seus homens, para que eles os
usem, o nome ou a pele dos monstros vencidos. Ele
conquista os emblemas e os distribui. A natureza e os
homens lhe obedecem, graças a estes emblemas. Mas
ele só pode conquista-los nos territórios desertos,
terra de caçadas ou de guerras. Ali vivem os Bárbaros,
que são a caça do Chefe.

Entre os Chineses, realmente, a guerra foi,
outrora, proibida. Ela parecia impossível. Todos os Chi-
neses eram aliados (literalmente: kieou-cheng = so-
gros e genros) ou irmãos (hiong-ti). Se traziam nomes
diferentes, uniam-se pelo casamento e por vingança,
vivendo num estado de equilíbrio agitado que difere,
radicalmente, do estado de guerra. Preludiando vin-
ganças ou coroando-as, a união pelo casamento cor-
responde a uma trégua na qual as rivalidades talvez
se avivem mais do que diminuam. Concursos regidos
por violências e por desafios que terminam em comu-
nhões solenes, as vinganças favorecem o sentimento
geral de solidariedade tanto quanto a troca de reféns
ou de esposas. Por outro lado, entre parentes tudo é
comum. As trocas são impossíveis. A vingança seria
imoral, como o casamento. Não se poderia imaginar
a guerra. Um homem, impelido a semelhante loucura
pela ambição, aterroriza-se à primeira repreensão.
"Aniquilar um domínio do mesmo nome não é con-
forme os ritos(480)!" Um outro, advertido dos desíg-
nios'sinistros de um parente, não consegue acreditar:
"Usamos o mesmo nome! Não seria conveniente que
ele me atacasse (481)!" Contra uma família ou um do-
mínio "de sogros e genros", combate-se, certamente,
ou antes, luta-se, e não sem brutalidade, mas nunca
se tem em vista uma vitória definitiva ou uma anexa-
ção. O senhor de Tsin (583 a.C.) pretende exterminar
toda a família Tchao. Ele considera os Tchao vassalos
rebeldes, mas estes, na realidade, constituem uma fa-
mília rival, que tem seu lugar no Estado. Dizem-lhe:
"É possível interromper seus sacrifícios?" Ele recons-
titui, imediatamente, seu patrimônio familiar (482). Uma
família e suas terras formam um todo solidário. A
rigor, uma família pode comprometer (hia) uma parte
de seu domínio: ela não pode transmitir sua proprie-
dade (483). Não pode aliená-la. Não pode ser alienada.
Criminosa, ela é inteiramente criminosa e seu domí-
nio acompanha-a. Como parte de uma família divina
que se quer punir, a montanha é arrasada e pintada
de vermelho, tal um criminoso: mas semelhante cas-
tigo é um ato de autocrata (219 a.C.) e mereceu a re-
provação (484). Não houve e não podia haver, no sentido
estrito, um direito penal antes que o Estado estivesse
em mãos de uma autoridade verdadeiramente sobera-
na. Para poder punir, é preciso destruir inteiramente
e como destruir uma família? Não se pode deixar sem
senhores nem confiscar campos aos quais continuaria
a aderir um gênio doméstico que não teria sido assi-
milado. Nem o direito penal, nem o direito comercial,
nem o Estado podem fazer o menor progresso enquan-
to se hesita ainda em romper o equilíbrio venerável
que torna intangíveis as heranças e as famílias.
Fato significativo, os primeiros códigos passam
por ter sido promulgados na caça, isto, é, nas frontei-
ras onde viviam os Bárbaros. O direito penal, se ultra-
passa a simples justiça familiar ou o processo de
vingança, aparece como um direito militar, um direito
de guerra. Os códigos foram gravados em caldeiras
cujo metal era recolhido nas gargantas de montanhas,
como eram conquistados, nas fronteiras, os emblemas
com que se ornavam os caldeirões dinásticos. Assim
também, o tesouro público foi, inicialmente, um tesou-
ro de guerra. Ele continha "as penas, os pelos, os
dentes, os chifres" (485), que concediam seu vigor às
armas de guerra ou de dança (é a mesma coisa) e que
eram, inicialmente, os primeiros meios de pagar o
tributo; mas este tributo era o tributo dos Bárbaros
e não o dos vassalos. Assim também, enfim, o primei-
ro domínio público foi constituído pelas florestas e
brejos das fronteiras: produtos dos pântanos, produ-
tos florestais, sal, minérios, pedras preciosas, rique-
zas exóticas, tais são os primeiros recursos do Estado,
tais são as únicas matérias que entram numa circula.
ção ampla (486). Nem os grãos, nem os tecidos foram,
inicialmente, objetos de comércio ou objetos de tri-
buto. Eles serviam, somente, para prestações antité-
ticas. Eles eram matéria para justas. Prestavam-se a
trocas. Não podiam ser vendidos nem circular livre-
mente. Os produtos agrícolas ligavam-se aos campos
domésticos e participavam de sua insensibilidade. O
grupo familiar ou sexual que, fazendo brotar as semen-
tes e tecendo as fazendas, incorporava nelas, com seu
trabalho, qualquer coisa de sua alma, as consumia ou
as usava depois que um grupo aliado retirava seu
caráter sagrado. A este grupo, ele podia dar, mas
como se dá a si mesmo, ou antes, empresta-se, quan-
do se quer participar de uma comunhão ou se aproxi-
mar de outrem sem, todavia, deixar-se anexar. Por
outro lado, coisas e seres das províncias das frontei-
ras são matéria de saque, matéria de troféu, matéria
de anexações triunfais. Nada os impede de destruí-los.
Só possui inteiramente aquele que tem o direito de
destruir. Somente ele pode reconhecer em si o direito
de alienar.

Os Bárbaros São, por natureza, culpados do uni-
co crime que é um crime verdadeiro. Eles vivem fora
da ordem de civilização que faz irradiar a virtude do
príncipe. Também, no momento em que há chefes e
que eles punem o crime de rebelião, o culpado é puni-
do pelo banimento nas províncias incultas da fron-
teira. Expondo o banido no país dos Monstros, mor-
to ou vivo, expulsa-se sua alma do mundo humano,
Matar um homem é o mesmo que expulsar na barba-
ria, pois os Bárbaros têm a natureza de animais e não
de homens (487). Dois seres humanos, dois Chineses,
se são parentes, possuem uma identidade de gênios;
seus gênios são complementares, se são aliados: com
os Bárbaros não é possível nenhum parentesco, nenhu-
ma rivalidade sagrada. Difere-se deles pela alimenta-
ção, pela vestimenta. Com eles não se trocam grãos,
nem tecidos. Não se alia a eles pelo casamento ou
por vingança. Não sé comunica com eles como com
os comensais. Deixam-nos "viver com as raposas e
com os lobos", ou então, perseguem-nos: eles os
guerreiam (488). Os Bárbaros fornecem cativos e tro-
féus. Troféus e cativos trazem este acréscimo de
prestígio que é a glória. Um triunfo vem consagrá-la.
Quando seu exército conquista a glória, o che-
fe executa a dança triunfal. "Ele segura a flauta com
a mão esquerda. Segura o machado, com a direita. Ele
marcha entre cantos de vitória. Ele faz a oferenda dos
despojos do inimigo." Os despojos compreendem a
orelha esquerda cortada dos inimigos mortos e aque-
las que se cortou dos cativos arrastados para a pa.
rada. Cortar a orelha é um gesto liminar que abre
o combate. Abre também a pompa guerreira que o
comemora. O primeiro sangue que se tira das orelhas
com a faca de guizos chama a um banquete os deuses
que se tornaram solícitos (489). A dança triunfal termi-
mina com um festim de canibais onde se saciam os
homens e os deuses vencedores. Os Bárbaros não são
senão caça. Pode-se, consumindo-os, assimilar as vir-
tudes estrangeiras e realizar uma conquista.
É por um festim canibalesco que se obtém uma
enfeudação ou que se suprime uma fronteira. É sufi-
ciente que o direito de guerra penetre nas relações
entre famílias e cidades para que apareçam a ordem
feudal e a ordem agnática. Trata-se, então, como ini-
migos aqueles que, há pouco, eram tratados como
rivais. Em lugar de partir para a vingança, parte-se
para a conquista. Quando se teria somente o direito
de obter uma restituição de prestigio, procura-se um
triunfo total.

Em Ts'in e em Tsin (490), regiões vizinhas, rei-
nam famílias rivais. Elas trocam seus grãos e seus
filhos. Mas o duque Mou de Ts'in procura a hegemo-
nia. Ele aprisiona, num combate (644 a.C.), o duque
Houei, príncipe de Tsin. Ele o trata como cativo e o
conduz ao triunfo. Aloja-o na torre Ling, morada dos
prisioneiros destinados ao sacrifício. Ordena as pu-
rificações preparatórias. Mas a mulher do duque Mou
é irmã de Houei. Ela sobe, imediatamente, em outra
torre, a das mulheres condenadas. Ali se encerra e
seus filhos a seguem. Um mensageiro, vestido de luto,
vai levar ao marido a ameaça de um suicídio coletivo.
O vencedor vê-se constrangido a renunciar ao triunfo
que pretendia celebrar, não sobre um Bárbaro, mas so-
bre um aliado. Volta aos velhos costumes. Não se limi-
ta a restaurar, num banquete igualitário, a velha alian-
ça das regiões rivais. O vencido não é sacrificado nem
comido como um Bárbaro. É convidado a comer, com
o vencedor, sete bois, sete carneiros e sete porcos.
A ordem antiga é respeitada. Mas, mais ou menos na
mesma data (640 a.C.), o duque Siang de Song procura,
também, a hegemonia. Convoca uma assembléia nas
fronteiras do leste, sob o pretexto de reunir, debaixo
de sua autoridade, os Bárbaros orientais. Mas, para
alimentar seu prestígio, oferece um sacrifício cuja
vítima não é um Bárbaro, mas um senhor, um aliado.
E ele não ouve a reprimenda. Se se sacrifica um ho-
mem (isto é, um chinês), quem (entre os deuses e os
homens) quererá comê-lo (491)?"
Outrora, quando quis fundar uma dinastia e
"fazer chegar à plenjtude o prestígio dos Hia", Yu, o
Grande, convocou uma assembléia nas províncias das
fronteiras do sul (492). Ele também sacrificou um dos
senhores chamados à reunião. Este sacrifício está liga-
do a um concurso de danças. Parece coroar uma justa
dramática. Gênios bramindo como os ventos são venci-
dos por dragões que sobem ao Céu numa tempestade
de chuva e de trovão. Vento contra, trovão e dragões
contra touros, a justa de Yu, o Grande, que acabou em
apoteose, é uma dança triunfal, uma dança de ascensão
ao trono. Mas o vencido é qualificado de Bárbaro e a
história se abstém de contar que Yu o comeu: Yu é,
na verdade, um Herói de quem não se saberia falar
mal. O duque Siang de Song é, ao contrário, apresen-
tado como um ambicioso, enlouquecido pelo orgulho.
Não se hesita em contar o festim canibalesco que
celebrou. Este não é necessário se, impelindo a vitó-
ria até o triunfo, procura-se obter, com uma anexação,
um aumento real de prestígio? O único modo que se
tem de suprimir uma fronteira consiste em adqui-
rir as qualificações substanciais necessárias a um po-
der novo.

Quando a justa tende a semelhante fim, ela deixa
de ser um simples embate de rivalidades corteses. O
espírito de rivalidade exaspera-se e se transforma
num desejo de domínio. Em lugar de terminar com
um festim e com os casamentos que fazem surgir as
solidariedades profundas, restabelecendo o equilíbrio,
a justa triunfal acaba com uma incorporação. Os dois
chefes, que se defrontam, não se comunicam comen-
do juntos num banquete de iguais, mas o vencedor se
comunica, como dominador, com os vencidos. Ele os
enfeuda, assimilando, com a carne de seu rival der-
rotado, todas as virtudes próprias ao grupo subjugado.
Desde então, podem ser enchidos os fossos entre as
regiões e as famílias de essências diferentes. As pas-
sagens, as permutas tornam-se possíveis. Acabou-se
a época em que o equilíbrio era o ideal, mas em que a
oclusão era uma regra. Grupos e famílias, pelo con-
trário, interpenetram-se com uma violência tanto mais
impetuosa quanto eram fechados, originalmente. Um
espírito de guerra entrou na justa: uma vontade de
conquista preside às comunhões. Os comportamentos
comunitários visam obter, não mais uma solidariedade
simples e distante, mas uma enfeudação. Só se une a
outrem procurando supera-lo. Uma paixão pelo gasto,
pelo lance maior, pela destruição, um espírito de apos-
ta inspiram toda a vida social.

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