O Período Feudal (01)

O regime feudal é considerado, pela história
tradicional como sendo tão velho quanto a civili-
zação chinesa. Os Hia e os Yien já o teriam
conhecido antes dos Tcheou. O sistema
de circunscrições estava, em todo caso,
solidamente estabelecido no momento em que
começa a cronologia. Mas não se sabe quase
nada sobre a antiga história chinesa antes do
período Tch'ouen ts'ieou.

Sem querer tecer conjeturas sobre os tempos an-
teriores, chamo de período feudal a época que
conhecemos por meio das narrativas datadas, as
quais são de tipo analista e se apresentam como
extratos de arquivos senhoriais. Os fatos relata-
dos nas narrativas parecem merecer, em geral,
uma certa crença(110).

l - A China dos tempos feudais

No século VIII antes da nossa era, a China
aparece como uma confederação instável de do-
mínios. Um número bastante grande de pequenos
senhores acham-se agrupados sob a suserania
nominal de um rei, Filho do Céu. Qual é a exten-
são desta confederação? E, inicialmente, quais
são os limites ideais da confederação chinesa?

1.° - As fronteiras - Duas obras servem
para determinar o horizonte geográfico da China
feudal. Todas as duas, na verdade, são atribuídas
a Yu, o Grande, fundador da Realeza, pois a tradi-
ção vê nele um grande agrimensor e um cartó-
grafo. De fato, o Yu kong (Tributo de Yu), no qual
Conrady persistia em ver um documento do sé-
culo XX antes de nossa era, é uma obra compósi-
ta, cuja parte descritiva, em prosa, data no máxi-
mo, do século IX (segundo Chavannes); os versos
que foram incorporados talvez não sejam muito
mais antigos(111). O Chan hai king - Livro dos
Montes e dos Mares - é uma compilação compos-
ta artificialmente. A primeira parte (Livro dos Mon-
tes: cinco primeiros capítulos das edições clássi-
cas) deriva de um trabalho de compilação que pode
ser datado do século IV ou do III antes de nossa
era. Esses cinco livros são uma coleção de anota-
ções que, outrora, estavam acompanhadas de ma-
pas. Descreviam, classificadas por orientes, vinte
e seis cadeias de montanhas. Embora todo o pe-
ríodo feudal esteja compreendido entre a data do
Yu kong e a do Chan hai king, o horizonte dessas
duas obras é mais ou menos o mesmo, apenas um
pouco mais extenso do Chan hai king.

Este horizonte é bastante estreito. Limita-
se às regiões que cercam Ho-nan: sul de Tchei-li,
oeste de Chan-tong, partes continentais de Kiang-
su (algumas terras em Tche-kiang), partes seten-
trionais de Ngan-houei e de Hou-pei, sul de Chan-
si e, enfim, Chen-si e Kan-su. O curso do rio
Amarelo é bem descrito, desde sua saída das
montanhas de Kan-su. O do baixo rio Azul é bem
indicado, mas, enquanto que o Tributo de Yu não
conhece, ao sul, mais do que o lago Tong-t'ing e,
talvez, o lago Po-yang, o Chan hai king tem algu-
ma idéia das montanhas de Tche-king. Ambas as
obras indicam a existência de montanhas ao nor-
te de Tche-li mas não sabem direito sua direção.
Todas as duas mencionam, sem grande precisão,
os desertos do noroeste (as Areias Movediças).
Só o Chan hia king descreve bem a região de
T'ai-yuan (Chan-si) que é, entretanto, mencionada
nos versos do Yu kong. Enfim, o Tributo de Yu
ignora quase tudo de Sseu-tch'ouan, enquanto que
o Chan hai king tem boas informações sobre a
região de Tch'eng-tou.

Duas falhas são notáveis. A leste, a costa
marítima parece fora do horizonte geográfico,
enquanto que as Ilhas dos Bem-Aventurados, co-
locadas no mar ocidental, obedecem o pensamen-
to mítico, pelo menos desde o século IV antes
de nossa era. A oeste, os conhecimentos param
na bacia de Wei. Do outro lado, fica um mundo
misterioso. O Yu kong ali faz correr um rio, o
rio Negro, que, dirigindo-se do norte para o sul,
vai desaguar no mar meridional. O rio Negro
encontra-se em várias partes do Chan hai king.
O capítulo relativo aos montes do oeste descreve
um país mítico, o K'ouen louen, povoado por deu-
ses. Foi ali que o rei Mou dos Tcheou fez sua
caminhada extática ou lendária. Richthofen, que
identificou com uma paciência e uma condescen-
dência talvez excessivas todos os nomes geográ-
ficos do Tributo de Yu, encontra, na menção ao
rio Negro (e do rio Jo: este, no Chan hai king sai
da Àrvore do Poente), a prova de que os Chineses
haviam guardado a lembrança exata das "regiões
atravessadas por seus ancestrais durante sua via-
gem para o leste (112). Chavannes, pelo contrário,
insiste sobre a ignorância surpreendente dos Chi-
neses sobre locais que, freqüentemente, são da-
dos como o berço de sua raça (113). De fato, o de-
serto e o mar estão fora do horizonte geográfico
dos antigos Chineses: eles constituem o domínio
das narrativas mitológicas.

No interior de fronteiras ideais bastante
restritas, a velha confederação chinesa estendia-
se sobre um território que não ultrapassava a pro-
víncia de Ho-nan e as partes limítrofes de Chen-si,
de Chan-si e de Chan-tong. Esse território tem por
limites, ao sul, o maciço dos Ts'in-ling e seus pro-
longamentos para o leste: colinas de Fou-nieou e
de Mou-ling. Engloba, ao norte, as terras próximas
à margem esquerda do médio rio Amarelo e pára,
a leste, nos confins da zona aluvial marcada pelo
baixo vale atual do rio Amarelo e por uma linha
prolongando-o para o sul.

Colocado em contato com a região do
loess, que se estende nos planaltos dispostos em
plataformas de Chan-si, de Chen-si e de Kan-su
e da imensa bacia aluvial do rio Amarelo, o ter-
ritório da velha China compreende, de maneira
geral, no ocidente, as primeiras terras recobertas
de lodo e, para o oriente, uma faixa de terrenos de
aluviões dominada por pequenas colinas.

2.° - O país - O aspecto do velho país chi-
nês é bastante difícil de se imaginar. As regiões
atualmente privadas de árvores e inteiramente
ocupadas por culturas continham, outrora, imen-
sos pântanos e florestas importantes.
Planícies secas e salubres substituíram as
terras movediças que, a leste, estendiam-se, qua-
se sem interrupção, do rio Amarelo ao rio Azul.
O Houang-ho jogava-se, nos tempos feudais, no
golfo do Petchili, mas sua embocadura se acha-
va na direção de Tien-tsin, pois, desde a região
de Houai-King, o Rio corria mais ao norte do que
atualmente. Ele acompanhava, até perto da atual
cidade de Pao-ting, a linha das últimas elevações
de Tche-li, depois reunia, ao norte, todos os sis-
temas de rios que constituem o Pei-ho. De resto,
seu curso não era fixo: em 602 a.C. ele se dirigia
para o leste, deixando seu leito antigo ocupado
pelo rio Tchang(114). Toda a planície oriental de
Tche-li, onde se encontrava o grande lago Ta-Cu,
era um imenso delta móvel, sulcado por inúmeros
rios; os Chineses chamavam-nos de Nove Rios (o
que não quer dizer que fossem exatamente nove).
Até o rio Ts'i, que corria no leito atual do rio
Amarelo, só havia terras instáveis encerradas
numa rede de rios: os campos, perto do mar,
eram "cobertos de sal ". A incerteza da rede hidro-
gráfica era tal que os Chineses podiam dizer que
o rio Ts'i se jogava no rio e que depois tornava
a sair. Formava, então, uma lagoa "com águas
transbordadas", a lagoa de Yong (região de K'ai-
fong, Ho-nan). Saindo da lagoa de Yong, eleche-
gava, mais ao leste, na lagoa de Ko, que se co-
municava com o grande pântano da região de
Song, o Mong-tchou (limites de Chang-tong e de
Ho-nan). No nordeste, encontrava-se o Lei-hia,
pântano misterioso, onde morava o dragão do
Trovão. No sudeste, em todo o trajeto atual do
grande canal, algumas lagoas, das quais a mais
conhecida é a Ta-ye, sucediam-se até a região em
que o rio Amarelo correu, durante toda a Idade
Média, até 1854. Ali se estendia uma planície sul-
cada pelos rios Yi e Houai: ela era um pantanal
imenso, atingindo o baixo Yang-tseu. O maciço
montanhoso de Chan-tong, dominado pelo monte
T'ai chan era, então, isolado, quase que como uma
ilha.

Menos importante na região do loess, os
brejos ali ocupavam, no entanto, o fundo dos va-
les com drenagem insuficiente (ó escoamento
das águas era perpetuamente impedido pelos des-
moronamentos de terras). Assim, em Chen-si, "as
águas estagnadas", cercadas por "campos cober-
tos de salitre", estendiam-se nos vales do King
e do Wei (115). Assim também, o baixo Chan-si es-
tava coberto de brejos entre o baixo Fen e o rio
Amarelo e, mais ao norte, havia ainda o grande
pântano de T'ai-t'ai, na confluência do Fen e do
T'ao, hoje um rio seco. Separados por essas ter-
ras intransponíveis, isolados por gargantas com
escarpas abruptas, os planaltos de loess estavam
cortados em compartimentos muito mal ligados
por istmos estreitos e canais difíceis.
Neste país recortado, a vegetação tinha
uma força que surpreende quando se pensa na
China atual. Mas os testemunhos são formais.
Como, por exemplo, essa narrativa de um assen-
tamento na região do Wei (Chen-si). T'ao-wang,
ancestral dos Tcheou (em 1325?) ali escolheu um
local onde "os carvalhos levantavam-se majesto-
sos ", onde "os pinheiros e os ciprestes eram bem
espaçados"; ele mandou "arrancar as árvores
mortas, cortar e regularizar os arvoredos, debas-
tar as tamargueiras e as catalpas, podar as amo-
reiras de montanha e as amoreiras tintoriais. Cer-
tas florestas, como por exemplo a de T'ao-lin
(Floresta dos pessegueiros, a sudeste da con-
fluência do Wei e do rio) ocupavam espaços
imensos. Estas florestas eram habitadas por ani-
mais selvagens ou ferozes, javalis, bois e gatos
selvagens, ursos cinzentos, ursos pardos, ursos
listrados, tigres, panteras fulvas e leopardos
brancos (116).

Os homens, para se estabelecerem, tinham
antes que desbravar o terreno com o fogo, fazer
trabalhos de drenagem e fundear barcaças(117).
Vê-se, por uma passagem de Mencius, que, no
século IV, todo o trabalho de preparação do país
para o cultivo da terra era considerado obra do
fundador da realeza, Yu, o Grande (118). Antes dele,
"as Águas Transbordadas corriam livremente...
as plantas e as árvores eram luxuriantes, os pás-
saros e os quadrúpedes pululavam; os cinco ce-
reais não cresciam... Yi (o Grande Florestal; tra-
balhando sob as ordens de Yu) incendiou as Mon-
tanhas e os Pântanos e reduziu (sua vegetação) a
cinzas", enquanto que Yu regulava as Águas. Só
então a terra chinesa pôde ser cultivada, tornan-
do-se um país de cereais.

Quando a China estava para ser unificada,
imaginou-se que ela fora criada pelos trabalhos
de um Único Homem. Mas Yu, o Grande, usurpou
a glória de inúmeros demiurgos que operaram,
cada um, num pequeno cantão. Foi Niu-koua quem
ordenou os Nove Rios, em Tche-li (119). Foi T'ai-t'ai
quem saneou, em Chan-si, as bacias do Fen(120).
Se Yu, o Grande, escavou o canal de Houan-yuan
(Ho-nan)(121), a abertura entre os montes T'ai-ting
e Wang-wou foi realizada por dois gigantes (122).
De fato, os documentos mostram que um bom
número de trabalhos míticos datam, no máximo,
da época feudal, e são obras de preparo da terra,
empreendidas pelos senhores locais. Estes abri-
ram, num país dividido, em que apenas os rebor-
dos dos planaltos e as colinas eram habitáveis,
vias de comunicação por terra e por água. Eles
criaram um território adaptado, enfim, a uma ci-
vilização única e pronto para a unificação políti-
ca. A uniformidade que apresenta hoje em dia a
China do loess e das aluviões é o resultado de
um imenso esforço social. Se, conforme a expres-
são chinesa, os rios terminaram jogando-se no
mar com a calma e a majestade de feudatários
levando seus tributos, é que, na verdade, os do-
mínios somente se aproximaram, confederando-
se, depois que a natureza foi domesticada.

Nenhum comentário: