O Império (02)

II - O século do Imperador Wou

A História chama de "primeiro imperador"
da dinastia de Ts'in(Ts'in Che Houang-ti)" aquele
que quis ser denominado de "primeiro imperador
(Che Houang-ti)".

É verdade que o primeiro imperador colo-
cou a capital do império em Ts'in: no entanto, não
permitiu que o império fosse tratado pelo povo
de Ts'in como uma presa de guerra. Ele soube
resistir ao egoísmo provincial de seus antigos
súditos. Em 237, deixou-se referendar um decreto
ordenando a expulsão dos estrangeiros estabele-
cidos em Ts'in, mas logo depois o revogou. Seu
ministro principal foi, durante todo seu reinado,
Li Sseu, que era originário de Tch'ou. O sucessor
de Che Houang-ti perseguiu e mandou executar
Li Sseu. Ele deixou que os soldados de Ts'in "tra-
tassem sem considerações" os oficiais e os ho-
mens das milícias provinciais. Uma revolta do
orgulho particularista explica a queda rápida dos
Ts'in(235).

Oito anos depois da morte do grande im-
perador Ts'in, os Han herdaram sua obra. Parece
que conseguiram, quase sem esforço, refazer a
unidade do império. Sob eles, a China aceitou a
unificação para enfrentar os Bárbaros. Talvez o
sentimento nacional nunca tenha sido tão forte
quanto sob esta dinastia. Mas as tentativas dos
Han para dar ao império uma coesão interna fo-
ram de uma timidez extrema. Nos quatro séculos
de seu domínio, eles não conseguiram criar um
Estado cuja constituição conviesse ao império
imenso que era a China.

A época dos Han correspondeu a um de-
senvolvimento magnífico da civilização chinesa.
A China nunca teve tantas oportunidades de se
tornar uma realidade política quanto nesta oca-
sião. Ela não deixou de ser uma coleção de pro-
víncias ligadas pela comunidade de cultura e que
só se uniam de tempos em tempos, devido à
ameaça de algum perigo comum.

1.° - A consolidação da dinastia Han - A
época mais brilhante da civilização chinesa sob
os Han, é o reinado do imperador Wou (140-87).
Fundada (em 202) por um aventureiro afor-
tunado, a primeira dinastia Han seguiu modesta-
mente a dos Ts'in. Kao-tsou (202-195) instalou-se
no antigo feudo destes. Ele sonhou, antes de tudo,
em se fortalecer no interior dos canais(236). De-
signava, assim, a região de Ts'in, "que era de
acesso difícil pela faixa que foram em seu redor
o rio e as montanhas... Sua disposição é tão
vantajosa que, quando espalha seus soldados so-
bre os senhores, é como um homem que lançasse
a água de um cântaro do alto de uma casa eleva-
da"(237). Kao-tsou teria preferido estabelecer-se
"em sua terra natal ". Por ocasião de sua expatria-
ção, consentida com dificuldade, os Han não te-
riam surgido como conquistadores, trazendo a
seus compatriotas os despojos da China.
Menos por política do que por necessida-
de, eles evitaram, também, passar por açambarca-
dores. Kao-tsou somente obteve o império depois
de ter prometido a diversos condottieri a partilha
do saque. Ele lhes distribuiu reinos e parece ter
reanimado antigos Estados feudais. Houve, de no-
vo, reis em Tch'ou, em Ts'in, em Yen, em Tchao,
em Leang (novo nome de Wei). Kao-tsou, no fun-
do, não era mais do que o senhor da região de
Ts'in, munido de um título imperial.
Entretanto, subsistiam os princípios da ad-
ministração do império criados por Che Houang-
ti. Os generais sem passado, que Kao-tsou nomeou
reis, não tinham ligações com o domínio que lhes
era atribuído. O imperador aproveitou-se disto
para transferí-los [201]. Seus reinos foram apa-
nágios conferidos a título precário. Entre os bene-
ficiários (e nos apanágios mais importantes, em
Tch'ou e em Ts'i, por exemplo), tomou-se o cui-
dado de colocar alguns parentes do imperador.
O mais poderoso dos generais enfeudados, Han-
sin, tentou se revoltar, servindo-se dos Hiong-nou,
que logo apareceram na curva do rio. Kao-tsou
foi a seu encontro, em Chan-si. Ele foi cercado
pelos inimigos na região do Fen, evitando, por
pouco, o desastre. O medo que os Chineses sen-
tiam dos Bárbaros não foi estranho ao êxito de
intrigas que permitiram Kao-tsou substituir, pou-
co a pouco, nos feudos, seus antigos companhei-
ros de armas pelos membros da família imperial.
De resto, este feudalismo novo não era menos
turbulento nem menos perigoso do que o outro.
Foi por puro acaso que ele não assumiu
um poder excessivo. Com a morte de Kao-tsou,
sua viúva opôs seus próprios parentes (os Lu) aos
de seu marido (os Lieou). Nenhuma idéia política
parece tê-la orientado (nem mesmo o princípio
elementar: dividir para reinar). Ela obedecia sim-
plesmente à velha idéia popular de que o papel
principal pertence, na tutela, aos parentes mater-
nos. A dinastia quase soçobrou [180] nas compe-
tições entre os Lieou e os Lu. Mas uns e outros
enfraqueceram-se em suas lutas.
Houve, contudo, sob o reinado do impera-
dor Wen (179-157), uma rebelião do rei de Tsi-pei
(177), depois uma rebelião do rei de Houai-nan
(176). Os dois conspiravam com os Bárbaros. A
região de Yue tornou-se independente e as incur-
sões do Hiong-nou faziam-se cada vez mais fre-
qüentes [177, 166, 159] (238). Havia chegado a hora
de tornar a dar força ao império e, para isto,
destruir os grandes vassalos. O imperador Wen
pensou (talvez) em diminuir a extensão dos apa-
nágios, multiplicando (sob pretextos caritativos)
as nomeações [178]. Ele procurou, principalmen-
te, afastar os grandes intrigantes da capital [179].
Sob o reinado de seu sucessor, o impera-
dor King [156-141], estourou a revolta dos grandes
vassalos [154] que, "formando uma liga do norte
ao sul, avançaram pelo oeste" (239). O imperador
conseguiu vencer os rebeldes com muita dificul-
dade. Eles se apoiavam nos Hiong-nou. O impe-
rador teve que sacrificar seu ministro Tch'ao Ts'o,
culpado de ter querido diminuir os territórios dos
senhores. Ele conseguiu, com muita dificuldade,
dividir, em 144, alguns feudos cujos titulares ti-
nham morrido, oportunamente, na mesma ocasião.
Enquanto isto, os Hiong-nou [142] continuavam
a invadir Chan-si.

O imperador Wou (240) subiu ao trono em
140. Então com dezesseis anos, ele deveria reinar
cinqüenta e quatro anos.
O imperador retomou com prudência o pla-
no de Tch'ao Ts'o e o tempo trabalhou a seu favor.
Resolveu, em 127, que os apanágios, em vez de
caberem ao primogênito, seriam divididos, com a
morte do pai, entre todos os filhos: com a divisão
automática dos feudos, eles esperava obter, a lon-
go prazo, a extinção dos grandes vassalos(241).
Esta política corrosiva era segura, mas tinha, co-
mo defeito, a lentidão. (Kao-tsou havia distribuído
143 apanágios; no fim dos primeiros Han havia
241: com a divisão não se conseguiu dobrar seu
número).

O imperador Wou estabeleceu, ao lado de
cada rei ou marquês, um residente imperial que
recebeu o título de conselheiro e que era um
censor e um espião. O papel destes personagens
surge, claramente, na questão que terminou, em
122, com o suicídio forçado dos reis de Heng-
chan e de Houai-nan. Devido à renúncia do resi-
dente, o imperador enviou um legado, que tenta-
ram assassinar. Uma primeira sanção [124] con-
sistiu em tirar duas prefeituras do apanágio de
Houai-nan e de não deixar ao rei de Heng-chan
senão a nomeação dos funcionários pouco cate-
gorizados. Houve uma tentativa de revolta. O im-
perador delegou, então, um funcionário com ple-
nos poderes. Os príncipes suicidaram-se; seus pa-
rentes foram executados, assim como um grande
número de seus adeptos(242).

O objetivo do imperador Wou era reduzir
o feudalismo a uma simples aparência. As co-
mendadorias do domínio direto tiveram, como no
tempo dos Ts'in, um governador militar e um civil;
o superintendente foi suprimido e suas funções
confiadas a inquiridores (Pou-ts'eu-che), espécies
de missi dominici que eram em número de três
para o império (106). Legados e residentes desem-
penhavam junto aos príncipes um papel semelhan-
te ao dos governadores e dos inquiridores do
domínio imperial.

O imperador adotou, como regra, nomear
apenas plebeus, homens novos, para esses pos-
tos. Esses indivíduos estavam imbuídos dos prin-
cípios dos legisladores que os Ts'in haviam prote-
gido. Eles fizeram uma guerra surda à nobreza, não
sem heroísmo. Tchou-fou Yen (que havia feito ado-
tar o princípio da divisão dos feudos em cada
sucessão) era, segundo dizem, um homem saído
do nada. Nomeado residente junto ao rei de Ts'i,
ele não hesitou em acusá-lo de incesto. O príncipe
suicidou-se. O imperador não considerou as res-
ponsabilidades, mandando matar Tchou-fou Yen.
Os nobres temiam os pequenos funcioná-
rios, servidores da autocracia: "O império inteiro
concorda que os pequenos funcionários não de-
vem ser nomeados para as altas funções", dizia
um observador (243). O imperador Wou conseguiu,
com o auxílio de seus legisladores, reduzir à impo-
tência o que restava da velha aristocracia. Ele
favoreceu a formação de uma nobreza nova, mais
maleável, recrutada entre os indivíduos ricos, que
acabavam de ingressar na carreira das honrarias.
A hierarquia nobiliária, que os Ts'in haviam insti-
tuído, não só foi mantida como também dobrada,
em 123, pela criação de uma nobreza comportando
onze graus. Chamavam-na nobreza militar, pois
os títulos eram vendidos em benefício do tesouro
de guerra. As reformas do imperador Wou tiveram
conseqüências revolucionárias: elas não foram,
em sua origem, senão expedientes de ordem fi-
nanceira e política (244). O imperador utilizou a
competição da velha nobreza e dos homens novos
para obter, na falta de estabilidade interna, a in-
terrupção das grandes rebeliões. Estas, juntamen-
te com a penúria do tesouro, não permitiam reto-
mar a guerra contra os Bárbaros.

2.° - As guerras de prestígio - A grande-
za do reinado do imperador Wou está na luta que
empreendeu contra os Hiong-nou.
Ele se limitou, durante os primeiros anos,
a uma simples defensiva, mas fez consertar a
grande estrada do norte e organizou, com centros
de abastecimento e coudelarias, grandes corpos
de cavalarias(245). Tratava-se, antes de tudo, de
combinar um plano de campanha.

Em 138, o imperador enviou Tchang Kien
em missão, a fim de discutir com um povo, os
Ta Yue-tche, quais as informações (tinha-se orga-
nizado, então, um serviço de informações) que
podiam apresentar, como adversários dos Hiong-
nou. Tchang K'ien (cuja odisséia não está isenta
do fantástico) foi preso pelos Hiong-nou, depois
fugiu. Ele visitou, em Ferganah, o reino dos Ta-
yuan, depois passou pelos vales do Syr-daria e
do Amou-daria. Ali encontrou os Yue-tche. Estes,
fugindo dos Hiong-nou, estabeleceram-se primei-
ramente, na região do lli; eles precisaram, sob
a pressão dos Wou-souen, prosseguir sua marcha
para o leste, até Sogdiana, de onde, repelindo-os
ao sul do Oxus (Amou-daria), eles expulsaram os
Ta-hia na Bactriana. Tchang K'ien pôde, em resu-
mo, determinar uma estrada do norte até o Afega-
nistão, cortada então pelos Hiong-nou. Além disto,
ele trazia informações, bastante vagas, sobre o
Turquestão e sua importância. Enfim, uma investi-
gação deu-lhe motivos para presumir a existência
de uma rota comercial que, fugindo ao controle
dos Hiong-nou, ia do Turquestão a Sseu-tch'ouan
e a Yun-nan, tocando na região de Chen-tou (a
Índia). Dizem que Tcheng K'ien (depois de um
novo cativeiro entre os Hiong-nou) voltou para a
China em 125.

Os Yue-tche não podiam ser usados contra
os Hiong-nou. Mas os Wou-souen, que os substi-
tuíram na região do lli, podiam ser aliados úteis.
Tchang K'ien partiu, em 115, para uma embaixada
junto deles, enquanto que outros enviados dirigi-
ram-se ao Turquestão oriental e a Ferganah (Ta-
yuan). Por outro lado, desde 135, um explorador
hábil, T'ang-mong, tinha adivinhado a importância
da rota comercial que, partindo de Cantão e su-
bindo o vale do Si-kiang, atingia, pelo Kouei-
tcheo (reino de Ye-lang) os altos vales de Yun-
nan e de Sseu-tch'ouen. Essas informações, com-
binadas com as de Tcheng K'ien, demonstraram
o interesse das estradas que levavam, pelo reino
de Tien (Yun-nan fou) pelo dos Kouen-ming (Ta-li
fou), à Alta Birmânia e à região de Chen-tou
(Índia).
Depois de um período de tentativas e de
esforços dispersos [contra os Hiong-nou (em 130
e 127), contra os habitantes de Yue (em 138 e
135) e os pequenos principados do Yun-nan e de
Sseu-tch'ouan (130)], dizem que ficou pronto, em
126, um plano de manobras.

Primeiramente, atacaram-se os Hiong-nou.
Depois de duas campanhas de Wei Ts'ing (124 e
123), destinadas a desobstruir o acesso ao rio,
tentou-se um grande ataque de cavalaria em ple-
na região bárbara. Em 121, Ho K'iu-p'ing, general
da cavalaria ligeira, lançou 10.000 cavaleiros a
500 quilômetros em pleno oeste. Ele derrotou os
Hiong-nou, aprisionando um príncipe bárbaro de
Kan-su norte-ocidental (Leang-tcheou). Ele reno-
vou sua façanha alguns meses depois, chegando
quase nas cercanias do Altai e dos Tian Chan.
Os régulos de Kan-su ocidental submeteram-se.
A ação decisiva foi no ano de 119. Wei Ts'ing
conseguiu surpreender o Chen-yu (chefe supre-
mo) dos Hiong-nou, ao norte da Grande Muralha,
e expulsou-o para o norte, enquanto que Ho
K'iu-p'ing, atravessando os montanheses ao norte
de Tche-li, avançava mil quilômetros para o inte-
rior das estepes: ele voltou trazendo, como pri-
sioneiros, noventa chefes inimigos. Estas vitórias
conferiram aos Chineses um prestígio que devia,
por muitos anos, assegurar-lhes uma paz relativa
no norte. Eles se aproveitaram para conquistar
todo Kan-su e para se estabelecer na vertente
norte dos Nan chan (Touen-houang). Isto era ter
uma posição importante na estrada, que coman-
dava o acesso ao Altai.

Em 112, a ação dirigiu-se para o sul. As
províncias litorâneas do sul, conquistadas por Che
Houang-ti, com a queda dos Ts'in, tornaram-se
independentes. A mais setentrional de todas,
Tche-kiang (Yue Tong-hai) e Fou-kien (Min Yue)
eram rivais. Desde 138, os Chineses, agindo como
protetores, transportaram para o norte do rio
Azul todo o povo de Yue Tong-hai. Em 112, eles
ousaram intervir em Nan Yue. Em 111, seis exér-
citos, penetrando por diversos canais do Nan-ling
na bacia do Si kiang, ocuparam Cantão: todo Nan
Yue tornou-se chinês. Tong Yue, isolado, foi con-
quistado em 110 e seus habitantes foram transfe-
ridos para o norte do rio Azul. A China possuía,
de novo, uma imensa fronteira marítima.
Ao mesmo tempo, tornava-se dona das es-
tradas de Si kiang. Depois de ter obtido a submis-
são dos Estados de Ye-lang (Kouei-tcheou) e de
Tien (Yun-nan), o imperador Wou, segundo o tes-
temunho de Pan Kou, esperava estabelecer uma
cadeia contínua de territórios, indo até Ta-hia
(Bactriana). Ele não pôde vencer a resistência dos
montanheses na região de Ta-li fou.

O fracasso deste projeto grandioso do cer-
co da Ásia central pelo sul contribui, talvez, para
fixar a atenção sobre o Turquestão. A campanha
principal, precedida por inúmeras negociações,
ocorreu em 108. Ela trouxe a derrota dos princi-
pados de Leou-lan (Pidjan) e de Kou-che (Tourfan
e Ouromtsi). Os Chineses comandaram, desde en-
tão, as estradas do Altai meridional, entrando em
contato com os Wou-souen do lli. Eles tentaram
se aproveitar de seu êxito para chegar em Fer-
ganah (T'ai-yuan). Uma primeira campanha (104-
103) fracassou. O imperador deteve o exército em
retirada em Touen-houang, obrigando-o, em 102,
a partir novamente para o Turquestão. A capital
dos Ta-yuan foi então tomada. Os príncipes de
Ferganah e de Zarafchan enviaram reféns. Eles
permaneceram fiéis aos Han durante todo o rei-
nado do imperador Wou. O Turquestão caía sob
a influência chinesa e os Hiong-nou, impedidos
de toda comunicação com ele, acharam-se amea-
çados pelos Chineses a oeste.

O ataque oriental de Ho K'iu-p'ing (em 119)
havia mostrado o que podia produzir uma pressão
exercida pelo leste. Feita a conquista de Tchao-
sien (entre a península de Leao-tong e o noroeste
da Coréia), em 108, pela ação conjunta de uma
frota e de um exército de terra, foram criadas
mais quatro prefeituras novas que podiam cons-
tituir uma base de operações de grande interesse
para uma campanha dirigida para o Gobi oriental.
Desde 110, tudo parecia pronto para um
golpe decisivo. O imperador ainda não tinha cin-
qüenta anos. Não lhe faltavam soldados, nem ge-
nerais. Assim que foram "castigados os Bárbaros
do sul", o imperador foi provocar, à frente de
180.000 cavaleiros, o Chen-yu na estepe. Foi uma
simples parada militar.

Em 107, os Hiong-nou pareciam procurar a
aliança chinesa, depois retomaram as hostilida-
des. Em 104, tentou-se utilizar suas divisões,
construindo-se um acampamento para os deser-
tores; mas uma coluna chinesa um tanto fraca
foi cercada em 103 e o acampamento destruído
no ano seguinte. Em 99, uma expedição saída
dos Nan chan voltou à sua base com muita difi-
culdade, enquanto que uma outra coluna foi in-
teiramente destruída. Em 97 e 90, os Chineses
sofreram, de novo, grandes derrotas. O entusias-
mo inicial desaparecera. O grande plano do im-
perador Wou (pois os historiadores acreditam que
tinha um) ficou inacabado.

Pelo menos o imperador podia se ufanar
de ter conquistado uma vitória importante: o ex-
tremo Kan-su, enfim colonizado, formava uma liga-
ção entre os Bárbaros da estepe e os Bárbaros
da montanha. [Os Tibetanos, na verdade, come-
çavam a se tornar vizinhos perigosos, sendo pre-
ciso combatê-los duramente por três anos [111-
108](246). Mas as exigências e a dureza do impe-
rador Wou para com seus generais, quando não
os levavam à deserção, desencorajavam qualquer
iniciativa.

3.° - O fortalecimento do poder central -
O cansaço fez malograr uma grande ação militar.
Ela se fizera acompanhar por um esforço finan-
ceiro, mais notável por suas veleidades inteligen-
tes do que por idéias diretrizes e por um plano
executado.

O problema mais urgente era o da moeda.
Os Han (para parecer que não estavam monopo-
lizando) haviam admitido o sistema de cunhagem
livre (247). Os príncipes enfeudados em Tche-kiang
e em Sseu-tch'ouan inundaram a China com suas
moedas. Seu poder amedrontou o imperador que
proibiu que se cunhassem moedas. Esta,medida
(se foi aplicada) não atrapalhou os açambarca-
dores. Eles se enriqueciam à medida que o te-
souro imperial se esvaziava para pagar os for-
necedores militares e os empreiteiros dos traba-
lhos públicos. A administração imperial tentou,
inicialmente, restabelecer, sob uma forma mais
sábia, a circulação dos valores. Procurou adaptar
o sistema de empréstimos. Ela mesmo deu o
exemplo, procedendo a cessões de terras em fa-
vor das pessoas arruinadas e das que tinham sido
transportadas (248). Ela se arruinou enquanto que
"os ricos negociantes e os grandes comercian-
tes...(ganharam) fortunas de várias miríades de
libras de ouro: no entanto, eles não ajudaram o
governo em sua aflição e a miséria do povo redo-
brava" (249). "O dinheiro multiplicou-se . . , as mer-
cadorias tornaram-se raras, encarecendo-se. En-
tão, o imperador, depois de ter modificado várias
vezes a quantidade de cobre nas moedas, tentou,
em 120, dar curso a uma moeda nova (liga de
estanho e de prata), utilizando artifícios religiosos
destinados a criar a confiança e a fazer aceitar
este novo padrão. Medidas severas puniram a
contrafação. Ela não cessou (250). Em 113, apareceu
um édito desvalorizando todas as moedas que não
saíssem das oficinas imperiais (Chang-lin). O es-
tabelecimento do monopólio serviu, principalmen-
te, para verificar a fidelidade dos senhores apa-
nagiados.

Foi uma oportunidade para usar de severi-
dade contra eles. Em 112, os príncipes defrauda-
dores (em número de 106, num total de, no máxi-
mo, 250) foram degradados.
Para lutar contra os monopólios privados,
o imperador Wou estabeleceu os monopólios do
Estado. Um serviço (o do Chao-fou) achava-se
preposto às rendas particulares do imperador,
que eram tiradas, principalmente, das montanhas,
dos mares, das lagoas e dos pântanos. "As mon-
tanhas e o mar são os armazéns do Céu e da
Terra" (isto é, pertencem a título privado ao im-
perador); este, no entanto, "para favorecer as
rendas públicas, liga essas explorações ao servi-
ço do Ta-nong (tesouraria do Estado)". Uma vez
dado este exemplo, instituiu-se o monopólio(251)
da gabela e do ferro [119], para impedir que as
pessoas sem eira nem beira "guardassem, para
seu uso, as riquezas das montanhas e do mar, a
fim de alcançar a fortuna.., e de escravizar a
plebe". As forjas e as salinas tornaram-se empre-
sas públicas. Também a venda do ferro e do sal
foram confiadas a um serviço do Estado. Decidiu-
se, inicialmente, subordinar à administração das
prefeituras os intendentes locais deste novo ser-
viço público.

Mais ainda do que a indústria, o comércio
(que era tratado sempre como "a última das pro-
fissões") havia dado origem a grandes fortunas
particulares. Além disto, os especuladores ("os
que compram a crédito e fazem empréstimos, os
que compram para amontoar nas cidades, os que
acumulam todos os tipos de mercadoria") ten-
diam, por meio de associações ilegais, a se tor-
nar dominadores (252). O Estado defendeu-se e de-
fendeu o povo instituindo [115] uma empresa
pública de transporte ligada a um serviço regula-
dor (Kiun-chou). Este tinha por missão assegurar
a circulação de "mercadorias comerciais", de
modo a impedir "os aumentos de preços" no im-
pério; devia, também, esforçar-se para obter uma
certa uniformidade nos mercados que, até então,
os funcionários "manipulavam a seu bel-pra-
zer" (253). O funcionamento deste sistema (chama-
do P'ing-tch'ouen = balança do comércio) era
assegurado por vários assistentes dependentes
do ministério do Tesouro público (Ta-nong) e en-
carregados de "ir constantemente às prefeituras
para ali estabelecerem os funcionários Kiun-chou
e os funcionários do sal e do ferro. Eles davam
ordem para que as regiões distantes entregas-
sem, em prazos fixos, os víveres que lhes eram
próprios e que os comerciantes transportavam
para (só negociar) quando encarecessem; eles os
depositavam, transmitindo-os uns aos outros. Na
capital, estavam estabelecidos funcionários P'ing-
tch'ouen que tinham a responsabilidade da entre-
ga e dos transportes para todo o império. Os ope-
rários do Estado fabricavam carros e todos os
instrumentos de transporte; eles dependiam tam-
bém do Ta-nong. O Ta-nong devia, assim, estocar
as mercadorias; quando encarecessem, ele as
revendia; ele as comprava quando os preços bai-
xavam. Desta forma, os comerciantes ricos e os
grandes mercadores não podiam ter grandes lu-
cros..., e os preços seriam regularizados em todo
o império". Este sistema permitiu evitar faltas de
alimento locais. "Os transportes aumentaram até
atingir (para os grãos) seis milhões de alqueires
por ano.., e (para os tecidos) cinco milhões de
peças de seda", isto mantendo "a igualdade dos
preços" e "sem que os impostos fossem aumen-
tados". O celeiro da capital, o celeiro de Kan-
ts'iuan (Chen-si) e todos os celeiros militares das
fronteiras encheram-se. (Estes testemunhos são
de Sseu-ma Ts'ien, observador malevolente). Mas,
como uma seca seguiu a implantação do sistema
P'ing-tch'ouen, propôs-se, imediatamente, que
Sang Hong-yang, inventor do sistema, fosse cozi-
nhado vivo: "o Céu agora dará a chuva"(254).
Esta era a opinião de Pou Che, hostil às
empresas do Estado e partidário das "receitas
normais" tiradas das taxas sobre as terras e dos
impostos sobre os tecidos (que eram classifica-
dos como produções camponesas) (255). Pou Che,
evidentemente, achava que o ferro e o sal do
Estado eram de má qualidade e que as taxas sobre
os barcos, destinadas a favorecer os transportes
públicos, fazendo diminuir o número de comer-
ciantes, resultavam num aumento de preços (256).
Este adepto da concorrência e do livre comércio
era um homem que se enriquecera com a criação
de animais. Pelo menos, tinha uma certa coragem
fiscal. Ele preconizava o sistema de donativos
feitos ao Estado pelos ricos. Bem entendido, as
doações deviam ser consentidas livremente, mas
eram apresentadas como um dever que competia
aos "RICOS", e equivalente ao que os "SABIOS"
cumpriam, combatendo nas fronteiras. O impera-
dor constatou que o rendimento do processo da
contribuição voluntária foi muito fraco, mesmo
quando o convite para dar era feito com formas
teatrais e com o apoio de uma retórica virtuosa
("Não se encontrou ninguém no império que en-
tregasse uma parte de seus recursos para ajudar
os funcionários provinciais"; - "as pessoas ricas
e notáveis dissimulavam seus bens")(257). O im-
perador tornou mais produtivas as contribuições
sobre a fortuna adquirida, instituindo o controle
fiscal (258).

O promotor do controle fiscal foi Tchang
T'ang ("ele morreu (115) sem que o povo o lamen-
tasse")(259). Era um administrador e um jurista.
Ocupou-se de grandes trabalhos de canalização,
destinados a tornar menos custoso o transporte
de grãos. Ele fez admitir o princípio de que os
juízes não deviam decidir conforme recomenda-
ções, mas tomando conhecimento pessoal das
causas (260). Preconizou a criação da moeda de pra-
ta: a política das moedas terminou num grande
processo que permitiu dizimar a nobreza. Tchang
T'ang e seus discípulos intervieram em assuntos
fiscais com este mesmo espírito. Sob sua influên-
cia, o cargo de " indicadores íntegros " (Tche-tche)
foi criado e confiado a legisladores impiedo-
sos(261). Estes formaram comissões itinerantes
que iam nas comendadorias e nos reinos, onde
julgavam os assuntos relativos às fortunas adqui-
ridas. "Eles tomaram do povo riquezas cujo valor
se contava por centenas de milhares (moedas),
escravos por milhares e por miríades, campos por
várias centenas de k'ing, nas grandes prefeituras,
e por centenas, nas pequenas, habitações em
número proporcional. Então, quase todos os co-
merciantes, cuja fortuna atingia a média ou a
superava, arruinaram-se. O povo alimentava-se
fartamente, usava belas roupas e ninguém se
preocupou mais em aumentar ou em acumular
seu patrimônio. Mas os funcionários provinciais,
graças ao sal, ao ferro e às retiradas sobre as
fortunas adquiridas, tiveram recursos abundan-
tes(262)". A ordenança emitida em 119 trazia a
instituição de uma lista em que os comerciantes
deviam se inscrever. A colocação de sua fortuna
em bens de raiz era proibida, sob pena de con-
fisco, de modo que eles não podiam se beneficiar
fraudulentamente com as vantagens concedidas
aos agricultores. Todos deviam fazer uma declara-
ção de fortuna: a recusa da declaração ou a de-
claração incompleta eram punidas com o confisco
e com uma pena de um ano de trabalhos forçados
na fronteira. O imposto cobrado era a vigésima
parte da fortuna adquirida. As mercadorias ou
matérias-primas estocadas pelos artesãos e pe-
los comerciantes eram deduzidas; a base desta
redução era mais elevada para os artesãos que
armazenavam matérias-primas para serem trans-
formadas. Os carros e os barcos foram taxados
em razão de sua capacidade, tida como índice da
importância do tráfico (263). Os ociosos, enfim, fo-
ram atingidos: os jogadores, os caçadores, os
apreciadores de rinhas e de corridas de cavalos
tiveram que escolher entre a servidão penal e a
entrada na carreira das honrarias - entrada obti-
da a título oneroso(264). As contribuições volun-
tárias (em grãos) permitiram obter a isenção de
corvéias e o acesso às funções públicas(265). -
As retiradas sobre o capital fizeram transbordar
o tesouro de Chang-ling (266), ao qual foi anexado
um serviço especial (chouei-heng). Os campos
confiscados constituíram o domínio do Estado, os
escravos confiscados tornaram-se servidores pú-
blicos e quase todos foram empregados no trans-
porte de grãos. Os condenados (Sseu-ma Ts'ien
estima seu número em mais de um milhão)(267)
foram, depois da anistia, incorporados no exérci-
to ou então enviados como colonos, em compa-
nhia de setecentas mil pessoas vitimadas pela
inundação [120], no território recém-conquistado
(Sin-ts'in), ao norte da grande curva do rio (Or-
dos). Depois disto [em 112], "suprimiram-se as
denúncias de fortuna, que só serviram para po-
voar o território de Sin-ts'in" (268).

As medidas fiscais do imperador Wou ex-
plicam-se, em parte, pelo empobrecimento do Es-
tado arruinado por suas vitórias. Esta ruína deu
origem a fortunas particulares e um feudalismo
financeiro acrescentava seus erros aos dos gran-
des vassalos. De resto, se os especuladores for-
mavam "sociedades ilegais" poderosas, os gran-
des vassalos não eram os últimos a especular.
O sistema feudal imperial inspirou-se, principal-
mente, em intenções políticas: procurou consti-
tuir regalias, destruindo os direitos senhoriais.
Esta obra foi empreendida por legisladores, por
meio de expedientes financeiros; a desvaloriza-
ção da moeda e o desequilíbrio dos preços foram
utilizados, conjuntamente, para justificar o esta-
belecimento de monopólios. Foi criado, assim, o
tesouro público à custa dos cofres particulares
(inclusive do cofre imperial). Por outro lado, era
preciso reajustar o orçamento. Este fora estabe-
lecido "fazendo a conta dos vencimentos dos fun-
cionários e das despesas públicas, de modo a
determinar o imposto de capitação sobre o povo."
Ora, as guerras, os grandes trabalhos, as despe-
sas de colonização, o aumento do número de fun-
cionários civis e militares haviam acrescido o
orçamento das despesas, no momento mesmo em
que a riqueza mobiliária tomava importância. A
criação dos impostos mobiliários, fato notável, foi
preconizada pelos financistas pertencentes às
novas classes ricas da nação (comerciantes ou
industriais), enquanto que os proprietários de ter-
ras continuavam partidários dos impostos pesan-
do unicamente sobre os camponeses e o solo. O
imposto, na verdade, ainda não se distinguia do
tributo e da homenagem: ele fazia adquirir a no-
breza. Os comerciantes e os industriais enrique-
cidos desejavam pagá-lo e estavam mesmo dis-
postos a tolerar uma restrição da liberdade co-
mercial; eles aceitavam que o Estado fizesse
concorrência e legislasse de modo a restringir
seus benefícios, contanto que o comércio deixas-
se de ser considerado uma profissão infamante.
Eles desejavam poder se tornar funcionários. Para
ingressar na carreira das honrarias, eles entraram
em luta com os grandes proprietários e com os
que sustentavam o princípio da hereditariedade
dos cargos. Nestes últimos, revivia o velho espí-
rito da nobreza feudal. Eles se opunham às honras
concedidas ao mérito pessoal, fossem elas atri-
buídas a militares de carreira ou conferidas a
administradores de profissão. Eles não admitiam
que se preferisse o valor ao nascimento. Uma
ordem nova tendia a se estabelecer graças a es.
ses conflitos de interesses. O princípio da utili-
zação das competências entrava em concorrência
com o velho princípio segundo o qual o devota-
mento do príncipe bastava a todas as coisas. E
certos espíritos, superando a idéia do príncipe
como simples criador da hierarquia social, sobres-
saíam-se, concebendo a idéia de Estado. Eles o
consideravam mesmo, não como um simples ór-
gão de comando, mas como um serviço geral de
regulamento.

A situação era revolucionária, social, fi-
nanceira e monetariamente. Se o imperador Wou
tivesse alguma persistência, podia ter-se aprovei-
tado para criar, numa ordem nova da sociedade,
o Estado chinês. Uma afluência particular das
circunstâncias externas e internas podia permitir
que o espírito público surgisse do espírito feudal.
Mas o imperador viu, apenas, o que era premente.
Parece que só pensou em utilizar expedientes di-
versos e imediatos - que eram rejeitados assim
que tinham produzido o suficiente para parecerem
gastos - e homens novos - sacrificados assim
que assumiam um ar autoritário perigoso, por te-
rem sido bem sucedidos. A inquietação do déspo-
ta e a falta de sagacidade dos legisladores impe-
riais fizeram com que a China perdesse a melhor
ocasião que teve de se tornar um Estado sólido e
organizado.

4.° - A obra da civilização - Aparentemen-
te, a preocupação de criar um Estado era menos
forte do que o desejo de expandir a civilização
chinesa. O imperador Wou trabalhou magnifica-
mente para divulgá-la. Tentou colonizar o territó-
rio dos Ordos; começou a colonização de Kan-su
e da Manchúria; conquistou definitivamente para
a China, com a bacia do Houai e as costas meri-
dionais, toda a imensa região do rio Azul.
Em 120, a região setentrional da curva do
rio Amarelo recebeu um grande número de emi-
grantes chineses. Mais de cem mil homens ali
foram enviados: deviam construir uma muralha e
guardá-la. Tentou-se, para irrigar a região, tornan-
do-a habitável, cavar um canal: custou mais de
um bilhão de moedas e várias miríades de operá-
rios nele trabalharam. Pretendeu-se criar animais:
"Os funcionários emprestaram éguas que deve-
riam ser devolvidas depois de três anos .entregan-
do um potro por dez éguas (emprestadas)." Co-
missários estavam encarregados de repartir as
terras em patrimônios concedidos como emprés-
timo; eles se formavam em grupos e vigiavam os
colonos. Não se recuou diante de uma despesa
que atingia "somas incalculáveis", tal era o dese-
jo de se constituir um bastião comandando a Mon-
gólia central e fechando esta abertura do rio por
Onde os Bárbaros chegavam no coração da
China (269).

A colonização dos territórios manchurianos
de Ts'ang-hai [128-108] realizou-se com a mesma
obstinação e não foi menos custosa(270). O inte-
resse por este posto avançado em direção ao
nordeste era muito grande. Graças a ela, espe-
rava-se dividir os Bárbaros setentrionais (estabe-
leceram-se, na verdade, ao longo da grande mu-
ralha oriental, os Hou do leste, inimigos dos
Hiong-nou). Graças a ela, também, esperava-se
comandar o golfo de Petchili, assim como as co-
municações com a Coréia. A colonização no nor-
destp suscitou distúrbios em Tche-li e em Chan-
tong, pois ela "abalava as regiões de Yen e de
Ts'i ", isto é, as províncias menos ligadas à China.
Os grandes vassalos do leste eram, na verdade,
os mais intrigantes. Suas veleidades de indepen-
dência acompanhavam-se, aparentemente, de
uma política marítima. O imperador, para redu-
zi-los à obediência, devia, ele mesmo, conquistar
uma potência marítima e isolá-los. Ele procurou
comandar o Mar Amarelo e colonizar as costas
meridionais (271).

Um príncipe do sul de Chan-tong pretendeu
(fato significativo) que o imperador renunciasse
à conquista da região de Yue. O imperador res-
pondeu não somente procedendo a esta conquis-
ta, como também colonizando a bacia do Houai.
Ele ali procedeu o amálgama das populações. Em
138, transportaram-se 40.000 indígenas de Ton-
ngeou (Tche-kiang), depois, em 110, todos os ha-
bitantes de Tong Yue. Mas, em 115, depois de uma
inundação, transferiu-se para a mesma região uma
grande massa de colonos chineses, tão numeros-
sos que os comissários da colonização formavam,
com seus carros, "um cortejo constante nas es-
tradas ". Por outro lado, os colonos chineses foram
enviados para o sul do rio Azul e mantidos, ini-
cialmente, com os grãos que vinham de Sseu-
tch'ouan. Um canal, o de Hing-ngan, pôs em co-
municação as bacias de Si kiang e de Yang-tseu
kiang. A expedição contra Cantão foi feita com
o auxílio dos barcos com andares, característicos
das regiões do sul. O império reunira um povo
de marinheiros. O poder imperial estabelecera-se
solidamente em todo o Oriente chinês(272).
Toda a bacia do rio Azul foi organizada em
comendadorias (criaram-se dezessete comenda-
dorias novas). "Eram administradas segundo os
antigos costumes (dos habitantes) e não se exigi-
ram delas nem taxas nem rendas fixas." As des-
pesas de colonização ficavam a cargo das comen-
dadorias antigas mais próximas. A assimilação
teria sido feita com lentidão: ela exigia prudên-
cia, as rebeliões eram freqüentes. Realizaram-se
grandes trabalhos: um canal ligando os rios Pao
e Ye pôs em comunicação a bacia do Wei e do
Houang-ho com a do Han e do Yang-tseu kiang.
Uma grande estrada foi aberta para o sudeste,
completando os trabalhos de Che Houang-ti. "Dis-
tribuíram-se presentes em profusão entre os habi-
tantes de K'iong e de P'e (Sseu-tch'ouan meridio-
nal) para conquistá-los." Depois, "convidaram-se
as pessoas ousadas para ir cultivar o território
dos Bárbaros do sul " (o dinheiro foi fornecido pe-
lascomendadorias antigas de Sseu-tch'ouan) (273).
O esforço de colonização que foi mais con-
tínuo, talvez porque parecesse, no fim do reina-
do, o mais urgente, foi aquele que transformou o
extremo Kan-sou numa terra chinesa. Os Houen-
sie, que, depois da campanha de 121, dirigiram-se
para a China, em número de várias miríades de
pessoas, foram recebidos em território chinês e
transportados em 20.000 carros. Pensou-se, ini-
cialmente, em estabelecê-lo na curva do rio, de-
pois se decidiu fixá-los no rebordo norte dos Nan
chan e nos arredores do Lob-nor. Em 112, o impe-
rador fez uma grande inspeção nas regiões do
noroeste, constatando a fraqueza de suas defesas.
No mesmo ano, os K'iang (ou Ling-k'iang, Tibeta-
nos), confederados em cerca de vinte tribos, alia-
vam-se aos Hiong-nou (Hunos) e penetravam em
Kan-sou central. Um exército de cem mil homens
operou contra eles, de 111 a 108. Várias miríades
de homens foram então enviadas para fortificar
Ling-kiu e guardar a região de Ti-tao (caminho dos
Bárbaros) que defendiam as regiões altas do vale
do Wei e podiam servir de via de penetração para
o Koukou-nor. "Ali colocaram oficiais prepostos
aos campos e às culturas e soldados vigiando as
barreiras que tinham guarnição nestes locais e
os cultivavam." Este sistema de colonização mi-
litar (completado por um serviço de informações
cujos agentes eram tomados de tribos antigamen-
te reunidas, tais como os Yi-k'iu) conseguiu (em
62-60, sob o reinado do imperador Siuan e o estí-
mulo de Tchao Tch'ong-kuo) tirar do país seus
ocupantes bárbaros (a tribo Sien-li foi reduzida, de
50.000 a 4.000 homens). Os progressos da coloni-
zação sobre as duas vertentes dos Nan chan trans-
formaram Kan-su ocidental no baluarte de onde a
civilização chinesa se espalhou, ao mesmo tem-
po, para o Turquestão e para o Tibete. Desde o
reinado do imperador Wou, Touen-houang era, não
um posto avançado, mas uma comendadoria do
império (274).

A obra de colonização interior não foi me-
nos brilhante. Foi, sem dúvida, sob o reinado do
imperador Wou que os trabalhos de preparação
do solo da China central foram empreendidos com
mais ardor. As viagens e as inspeções do impera-
dor provocaram a construção ou a reparação de
inúmeras estradas, particularmente no ano
112 (275). Os canais para o transporte ou a irrigação
permaneceram a principal das empresas públicas.
Um grande canal foi escavado em Chen-si para
irrigar as terras cobertas de sal. Ele captava as
águas do Lo ao norte da prefeitura de T'ong-
tcheou. "Como as ribanceiras do Lo desabavam
com muita facilidade, escavaram-se poços, dos
quais os mais profundos atingiam quatrocentos
pés; de distância em distância fazia-se um poço;
os poços comunicavam-se entre si por baixo e
conduziam a água (276). Este foi o primeiro "canal
com poços". Um outro canal, utilizando as águas
do Fen, foi cavado em Chan-si para irrigar o canto
sudeste desta província. Lá não havia, na mar-
gem do rio Amarelo, senão terras sem cultura
onde as pessoas do povo iam cortar feno ou levar
seus rebanhos para pastar. Esperava-se criar cam-
pos de cereais que produzissem uma colheita de
dois milhões de alqueires(277). Uma mudança no
curso do rio destruiu todos esses trabalhos. Mas
não se desistiu de povoar a região. Para lá foram
transportados habitantes de Yue, habituados a
tirar partido de terras pantanosas. Eles ficaram
isentos de todos os impostos. Uma empresa que
obteve mais sucesso foi a construção de um canal
destinado a levar as águas do Wei à capital. Ela
foi confiada a um especialista, um engenheiro hi-
drográfico originário de Chan-tong. Sua abertura
durou três anos. O canal serviu para a irrigação,
mas, sobretudo, para o transporte de grãos. Ele
abreviava o trajeto e diminuía a mão-de-obra. Este
canal foi extremamente freqüentado (278). Os maio-
res trabalhos do reinado foram os que se torna-
ram necessários por causa de uma inundação do
rio Amarelo. Em 132, ele transbordou em Hou-
tseu (sul de Tche-li), "espalhou-se a sudeste, nos
pântanos de Kiu-ye, e se comunicou com os rios
Houai e Sseu" (segundo, mais ou menos, ao sul
de Chan-tong, o curso que devia tomar na Idade
Média). Ele devastou parte de Ho-nan, de Ngan-
houei e de Kiang-sou. A brecha só pôde ser fe-
chada em 109, durante um ano seco. Mas a ma-
deira faltava, pois os habitantes da região tinham
incendiado os silvados. O imperador ordenou que
fossem cortados os bambus do parque de K'i e
presidiu, pessoalmente, a construção da represa.
Seus generais colaboraram, trazendo sua parte de
feixes de paus que foram jogados entre as esta-
cas fincadas para formar a estrutura da represa.
O sacrifício de um cavalo e uma bela oração em
versos, dirigida ao deus do rio, completaram o
trabalho e assim pôde "reconduzir o rio para o
norte, em dois canais, de modo a seguir os tra-
çados de Yu, o Grande" (279). O imperador venceu
a inundação. Seu exemplo determinou, em todas
as regiões da China, uma grande emulação para
a,construção de canais. Terrenos imensos foram
então conquistados, segundo Sseu-ma Ts'ien, para
a cultura e o povoamento (280). O imperador tinha
o direito de declarar em um de seus hinos: "As
Cem Famílias multiplicam-se(281)."

Como Ts'in Che Houang-ti, o imperador
Wou quis conquistar um prestígio divino. Viu-se
que ele celebrou o sacrifício Fong e apresentou
seu reinado como uma nova era. Mas, enquanto
o primeiro imperador protegia, de uma só vez,
seu trabalho e sua majestade, com o isolamento,
o imperador Wou teve uma corte luxuosa. Em vez
de procurar criar uma religião da pessoa imperial,
ele quis se tornar o grande sacerdote de um cul-
to sincrético com inúmeras cerimônias esplêndi-
das. Chamou para junto de si os sábios e os má-
gicos do nordeste, como as feiticeiras da região
de Yue, enquanto trazia para seu palácio o ídolo
de ouro, adorado pelo rei Hieou-tch'ou, e para sua
coudelaria, o Cavalo celeste, tomado do príncipe
de Ferganah. Consultou os fados por meio de os-
sos de galinha, segundo os métodos dos Bárbaros
do sudeste e, à maneira chinesa, usando carapa-
ças de tartaruga. Fez sacrifícios tanto em outeiros
achatados como em plataformas altas. Despendeu
somas imensas em favor da alquimia, do espiri-
tismo e da literatura tradicionalista. Mandou com-
por hinos de forma e inspiração clássicas e
patrocinou os poemas em que Sseu-ma Siang-jou
imitava, dizem, a poesia peculiar à região de
Tch'ou. O imperador Wou não tinha o gênio rude
e misterioso do primeiro imperador. Ele procurava
manifestar seu poder por meio de um luxo res-
plandescente e variado. "Olhai em redor; contem-
plai a sala de jade verde. Uma multidão de belas
mulheres estão reunidas; sua elegância é profusa
e extrema. Seus rostos são brancos como a flor da
serralha; (para vê-las) um milhão de pessoas com-
primem-se e se empurram. Elas estão vestidas
com roupas enfeitadas e com gazes coloridas, le-
ves como uma névoa. Elas têm caudas de finas se-
das e de finos tecidos. Em seus braços, elas levam
flores kia-ye, íris, orquídeas perfumadas (202)."
Assim como era magnífico, o imperador
Wou era também desconfiado e astuto. Suas des-
graças eram terríveis e sua proteção, perigosa.
O medo dos venenos e dos malefícios levaram-no
a ordenar a morte de seu filho preferido. O prín-
cipe enforcou-se, seus filhos foram executados.
O imperador escolheu um outro sucessor. Era uma
criança. A mãe era jovem. O imperador, para evi-
tar o perigo de uma regência feminina, permitiu-
lhe que se suicidasse.

Sob o reinado do imperador Wou, a civili-
zação chinesa desenvolveu-se enormemente. O
império era poderoso. A razão do Estado coman-
dava. Faltava ainda constituir o Estado. O interes-
se dinástico continuava o único princípio do go-
verno. Uma crise de sucessão podia ser suficiente
para abalar o império.

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