O Império (01)

I - A fundação da unidade imperial

1.° - A obra dos senhores de Ts'in - Nos
primeiros séculos do período Tch'ouen ts'ieou
termina o isolamento político. Para se opor aos
ataques dos Jong e dos Ti, ou ainda, para reprimir
as desordens internas de um domínio, formam-se
ligas momentâneas, pouco poderosas e instáveis.
Elas se constituem e se desfazem ao sabor das
necessidades do momento. Elas respondem a in-
teresses de cantão. Elas têm em vista a conser-
vação do statu quo local. Parece então, reinar o
Princípio de ajuda mútua feudal.

No fim do mesmo período, são os interes-
ses provinciais que comandam a diplomacia. Pa-
rece que surge, então, uma espécie de política
das grandes potências. Estas, desenvolvendo nas
fronteiras o melhor de sua atividade, crescem,
assimilando forças novas. No interior da Confe-
deração, elas procuram organizar zonas de in-
fluência. Daí a importância que os pequenos prin-
cipados do centro, tais como Lou, Tcheng e Song,
parecem ter, então, nos acontecimentos políticos.
No entanto, eles se acham sob a proteção das
grandes potências afastadas do centro. Estas úl-
timas preferem, muitas vezes, aumentar o terri-
tório de seus protegidos, não se estendendo mui-
to, elas mesmas, pela China central. Naquela
época, a diplomacia parece procurar o equilíbrio.
Ela pretende realizar, por meio de assembléias
políticas, uma certa harmonia e uma espécie de
acordo.

No início do período dos Reinos Combaten-
tes, os principados afastados do centro chegaram
a criar domínios provinciais que, sem ter ainda
fronteiras bem precisas, começam a se encostar.
No mesmo momento, aparece a prática das alian-
ças entre grandes potências. Tsin, preocupado
com o avanço de Tch'ou em Ho-nan, não tem ne-
nhum meio de influenciá-lo diretamente, se não
quiser enfrentá-lo no próprio Ho-nan. Ele se serve,
então, de Lou, seu protegido oriental, para entrar
em relação com o principado bárbaro de Wou.
Este, de Kiang-su e de Ngan-houei, onde se esta-
beleceu, pôde ameaçar Tch'ou pela esquerda e li-
mitar o avanço desses Estados em direção a Ho-
nan do leste (584 a.C.) (194). Wou, a quem missões
militares de Tsin ensinaram a combater, alcança,
em 506, uma grande vitória sobre Tch'ou. Mas
Tch'ou preparou uma réplica. Desde 505, os prín-
cipes de Yue (Tche-kiang) atacam pela retaguarda,
detêm seus êxitos e, enfim, destroem-no em 473.
Tch'ou, escapando de um perigo iminente, muda
de adversário. Ele precisa empregar todas as suas
forças contra Yue (339-329). Consegue arrancar-
lhe o antigo território de Wou e depois o repele
para o sul. Esses acontecimentos desviaram para
o leste a atividade de Tch'ou no momento mesmo
em que Tsin (detido no oeste por Ts'in) dirigia-se
támbém para as terras orientais. Daí a importân-
cia política momentânea das regiões do nordes-
te, Ts'i, em Chan-tong, e, potência nova, Yen, em
Tche-li. A política é, então, dirigida pelos Seis
Reinos, Tch'ou, Ts'i e Yen, mais os três Estados
herdeiros de Tsin (os três Tsin): Tchao, Han e
Wei, enquanto que a oeste aumenta o poder de
Ts'in. Este período é o das ligas do norte ao sul
(Ho-tsong) e das ligas do oeste ao leste (Lien-
heng). (Tsong designa a urdidura, e Heng, a trama
de um tecido; Heng-tsong refere-se aos sulcos
que se cruzam perpendicularmente). No início do
período das ligas do norte ao sul e do oeste ao
leste (século IV e III), as confederações das gran-
des potências são momentâneas. Elas visam li-
mitar os êxitos de um dos grandes reinos.
Estes procuram interceptar-se mutuamente. Suas
ligas são sem dúvida manobras de obstrução (195).
Perto do fim do período, a luta parece cir-
cunscrever-se entre Ts'in e Tch'ou. Tch'ou preside
às ligas do norte ao sul que se opõem ao avanço
de Ts'in. Estas ligas do norte ao sul procuram,
sobretudo, manter, momentaneamente, o statu
quo. Elas parecem implicar uma política funda-
mentada no princípio do federalismo. Ts'in, prati-
cando o sistema Lien-heng (essas palavras che-
gam a designar não mais as ligas, mas uma
extensão do oeste ao leste), parece, pelo contrá-
rio, inaugurar uma política de anexação, tendo em
vista a absorção completa de todos os domínios
e a criação de um Estado centralizado. A política
de Ts'in prevalece. Ela termina com a fundação
do império chinês.

Ts'in havia começado modestamente. Foi,
no início, um pequeno domínio estabelecido, em
Chen-si médio, nas margens do Wei. Cercado de
todos os lados pelos Bárbaros, foi ameaçado de
ficar preso entre as tenazes que Tsin estendia
para o cercar a nordeste e a sudeste. A com-
pressão de Tsin pôde ser afrouxada com muita
rapidez. Depois de ter guerreado contra os Jong
de Tang-che (714) e de P'ong-hi (697) e anexado
o pequeno Estado de Kouo (Kouo ocidental, (687),
Ts'in criou um corredor de acesso para a grande
curva do rio (Ho-k'iu) e os domínios centrais de
Ho-nan (196). Ele conquistou o território dos Jong de
Mao-tsin e comandou um importante vau do rio,
o de Mão(197), depois apoderou-se da região de
Leang (640) (198). Este avanço para o noroeste ao
longo do Houang-ho foi pacientemente consolida-
do por um trabalho de penetração nos vales altos
do King e do Lo. Em 444, uma vitória sobre os
Jong de Yi-k'iu abriu a Ts'in o Kan-su e o alto
Chen-si. O perigo de ser atacado por Tsin pelo
noroeste cessou, desde o fim do século IV(199).

Ts'in interveio em Ho-nan menos do que
Tsin e Tch'ou. Uma tentativa para dominar Tcheng
(630-628) foi rapidamente abandonada. Tcheng,
que comandava as passagens para os afluentes
orientais do Han (Hou-pei), foi, entre Tsin e
Tch'ou, um terreno de lutas onde os dois Estados
se desgastaram mutuamente. Tcheng acabou sen-
do anexado por Han, um dos três Tsin, em 375.
O perigo de um cerco pelo sudeste poderia ter
ameaçado novamente Ts'in, se Tsin não estives-
se, desde então, dividido em Estados que não ti-
nham uma política comum. Na verdade, Ts'in já
havia se preparado antecipadamente para enfren-
tar esse perigo, procedendo, ele mesmo, a um
cerco pelo oeste da bacia do Han. O momento
decisivo foi aquele em que Tch'ou teve que pedir
uma aliança a Ts'in, pois Tsin fazia Wou atacá-lo
pelo leste. Desde esse instante, Ts'in pôde domi-
nar todas as regiões do sudeste, enquanto que
Tch'ou começava a se dirigir para o leste. A alian-
ça concedida a Tch'ou data de 506 (200). Desde 475,
Ts'in entra em contatos com Chou (Sseu-tch'ouan,
região de Tch'eng-tou) e, ocupando as gargantas
da cadeia dos Ts'in-ling, penetra pelas terras altas
da parte oriental da bacia do Han. Em 441, a re-
gião de Han-tchong (Chen-si meridional) é dispu-
tada entre Tch'ou e Ts'in, que começa a trabalhar
no flanco ocidental de Houpei. Em 387, Chou é
atacado e a região de Han-tchong conquistada (201).
Em 316, depois de ter vencido (318) uma coalizão
dos Estados do norte (Han, Tchao, Wei, Yen e
Ts'i) apoiados pelos Hiong-nou (Hunos), Ts'in toma
a região de Chou e, pouco depois, a de Pa (Sseu-
tch'ouan meridional, região de Tchong-king)(202).
Senhor de Kan-su, de Chen-li, de Sseu-tch'ouan
oriental, Ts'in torna-se a grande potência do oes-
te, começando, imediatamente, a conquista da
China oriental.

Esta conquista realizou-se com muita ener-
gia. Ts'in havia organizado um exército leve e
móvel com cavaleiros e soldados da infantaria:
Os outros Estados continuavam a usar carros e
conduziam a guerra conforme as regras da tática
feudal. Eles faziam grandes demonstrações de
força, depois davam licença às suas tropas. Ts'in
combateu duramente. "Ele perseguia os deserto-
res" e não hesitava em matar ("os escudos boia-
vam em ondas de sangue") nem em anexar(203).
Seus adversários procuravam propiciar o "Animal
Feroz" - assim denominavam Ts'in - e "à porfia,
os senhores retalhavam territórios para oferecê-
los", ou então recorriam a velhos estratagemas.
políticos: conspirações, tentativas de assassina-
to(204). Ts'in deixou que se desgastassem. O rei
Tchao-siang (306-251) "destruiu" os Tcheou (o do-
mínio real cindira-se em dois principados: Tcheou
or,iental e Tcheou ocidental) em 256-248; mas
sua morte, dois reinados efêmeros e uma regên-
cia fizeram Ts'in con.hecer uma pausa. O rei
Tcheng, que subiu ao trono em 247, teve, em sua
maioridade (238), que reprimir uma revolta, e foi
somente em 235 que conseguiu se livrar da tutela
de seu ministro Lu Pou-wei (que passava por ser
seu pai verdadeiro). Em 234, começou a lutar com
seus exércitos. Agiu imediatamente, com uma ra-
pidez decisiva. Desde 233, o rei dos Han "pedia
para se tornar súdito". Mas Ts'in queria terminar
com o feudalismo: ele não se contentou com uma
declaração de sujeição. Han foi anexado em 230,
Tchao, em 228, e Wei, em 225. Tch'ou, impelido,
desde 278, a leste, para Ngan-houei, foi conquis-
tado em 223, depois Yen, em 222 e, enfim, Ts'i,
em 221. "Os seis reis sofreram a pena de seus
crimes" e Tcheng de Ts'in tomou o títudo de Che
Houang-ti [221]. Ele precisou de uma dezena de
anos para fundar o império(205).

2.° - Ts'in Che Houang-ti - O primeiro im-
perador reinou apenas onze anos (221-210). Ele
teve tempo de dar à China as fronteiras que lhe
permitiriam ter uma política externa. Ele preten-
deu mesmo dar-lhe uma organização centralizada
que teria feito dela um Estado poderoso.
Sseu-ma Ts'ien e Pan Kou, historiadores
penetrados de espírito tradicionalista, só quise-
ram revelar a dureza do governo de Ts'in Che
Houang-ti. Ele foi mau, pois sua dinastia não du-
rou. Pan Kou, que se compraz em tratá-lo de bas-
tardo, afirma que ele foi malvado e cruel (206). Para
denegrir o homem livremente, os historiadores
encobriram a grandeza de sua obra. Sem dúvida,
não a compreenderam. Ts'in Che Houang-ti não é,
para eles, senão um exemplo magnífico do rei de
perdição, cujos feitos são todos nefastos. Eles
dissimularam todos os seus atos e fizeram dele
um herói convencional. É difícil proporcionar uma
idéia justa de seu reinado, pois só podemos assi-
nalar alguns traços deste primeiro imperador.
Parece que era um espírito positivo. Ama-
va os técnicos e os especialistas. Ativo, metódi-
co, sabia ler os relatórios e fazer investigações.
Fazia questão de resolver tudo pessoalmente.
Exigia uma disciplina rígida. Conservou fielmente
os mesmos ministros. Impôs-lhes uma unidade de
direção e seus princípios foram seguidos mesmo
depois de sua morte. Não concebia seu cargo de
imperador como uma função ritual e passiva. Quis
fundamentar a fidelidade monárquica numa reli-
gião da pessoa imperial, indivíduo enérgico e
obstinado, se era dotado com o talento de um
fundador, em compensação havia nele traços que
deviam ser antipáticos aos Chineses, pois pare-
cem extraordinários em seu país. O primeiro im-
perador não tinha nada do aventureiro afortunado
ou do sábio plácido que parecem ter recebido
tudo do Destino porque devem tudo às pessoas
que os rodeiam e que parecem confiar-se inteira-
mente ao Céu, pois, para cada assunto, entregam-
se aos expedientes temerários de seus favoritos
do momento. Assim são os heróis nacionais que
a glória consagrou. Mas Ts'in Che Houang-ti via
com clareza, via com grandeza. Suas qualidades
principais foram, aparentemente, uma pertinácia
racional e a persistência.

Seus êxitos militares devem-se a um plano
realizado. Ele só atacou Tch'ou, o inimigo do sul,
depois de ter vencido seus adversários imediatos
do norte, os três Tsin. Esperou, para subjugar Ts'i
e se dirigir para o leste, que Tch'ou fosse derro-
tado. Assim, evitou ser atacado pelo flanco em
sua marcha triunfal para o oriente. O mesmo es-
pírito de decisão mantido acha-se presente em
seus esforços para organizar o império. Che
Houang-ti inventou pouco. Ele utilizou as criações
administrativas dos príncipes de Ts'in, seus pre-
decessores, mas teve a ousadia de concebê-las
válidas, não para um simples Estado feudal, mas
para o império inteiro. Ele declarou prescrita a
teoria dos vassalos-barreira (fan tch'en), estabe-
ecidos como fortificações em redor do domínio
direto dos Filhos do Céu (207). Estendeu a todas as
regiões conquistadas o sistema das prefeituras
(Hien) e das comendadorias (Kiun)(208). Os prín-
cipes de Ts'in haviam começado, desde 687, a es-
tabelecer prefeituras nos territórios anexados. A
divisão em prefeituras tornou-se uma regra em
350 (209). Mas o costume de dar apanágios aos ir-
mãos do príncipe persistiu [por exemplo, em 286,
foi distribuído um (210)] e geralmente se colocava
um senhor enfeudado na chefia de um estado re-
cém-conquistado. Foi assim que Chou foi entre-
gue, inicialmente, a um príncipe da região, depois,
tornou-se apanágio de um príncipe da casa de
Ts'in: este foi, em 285, substituído por um sim-
ples governador (211). Em 277, um novo avanço em
Sseu-tch'ouan deu lugar à criação de uma nova
comendadoria, a de K'ien-tchong (212). Sob o reina-
do de Ts'in Che Houang-ti, depois da revolta de
Lao Ngai, marquês de Tch'ang-sin (238), não hou-
ve mais apanágios. Toda a conquista tinha em
vista criar comendadorias e prefeituras novas. O
imperador preferia entrar em luta com os tradi-
cionalistas a conservar qualquer coisa dos prin-
cípios feudais. Decretou, em 221, que a China
seria dividida em trinta e seis comendadorias. Em
213, conservou essa organização, embora as crí-
ticas pretendessem que ela tornava incerta a ma-
nutenção da ordem. Cada comendadoria tinha à
sua frente um administrador civil (Kiun-cheou) e
um governador militar (Kiun-wei) (213); um terceiro
personagem (o Kien-yu-che = superintendente)
exercia um poder de controle (cuja extensão não
é bem conhecida). O princípio do colegiado fol
regra para a administração central. Ts'in Che
Houang-ti não deixou subsistir nenhum poder que
fosse completo ou absoluto.

De toda a hierarquia nobiliária, ele só con-
servou um título, o de marquês, que parece cor-
responder à existência de uma nobreza de cor-
te (214). A verdadeira nobreza foi constituída pelo
corpo de funcionários. Estes estavam repartidos
nos vinte graus de uma hierarquia que datava, em
Ts'in, do século IV, e que o primeiro imperador
estendeu a todo o império (215). A partir do quarto
grau, os nobres estavam isentos de corvéias. A
nobreza podia ser adquirida por meio de donativos
feitos ao Estado, sobretudo em tempos de escas-
sez. Ela se fundamentava antes na riqueza e nos
serviços prestados, do que no nascimento. As
sanções, positivas ou negativas - promoções ou
degradações - serviram de princípios de gover-
no. Elas ajudaram a operar uma mistura das clas-
ses sociais e foram, muitas vezes, utilizadas para
auxiliar o amálgama das populações. Desde 286,
confere-se títulos ou se anistia de crimes, com o
desígnio de povoar um território conquistado com
as pessoas de Ts'in(216). Che Houang-ti praticou
amplamente o sistema de transportação inaugu-
rado por seus predecessores. Em 239, ele transfe-
riu de Chen-si para Kan-su todos os habitantes de
uma cidade revoltada(217). No ano seguinte, qua-
tro mil famílias foram transportadas, como pena-
lidade, em Chou (Sseu-tch'ouan) (218). Houve novas
deportações em 235(219), inversamente, todas as
famílias poderosas da China tiveram que vir mo-
rar na capital. Pode-se presumir que esses deslo-
camentos não tiveram como únicas finalidades o:
desejo de aterrorizar ou de possuir reféns. Parece
que. Che Houang-ti visou, conscientemente ao re-
sultado que, na verdade, atingiu: apressar a assi-
milação das populações diversas da China. Certas
medidas legislativas (que serão estudadas em ou-
tro capítulo) manifestam a intenção de reforçar a
unificação étnica pela unificação dos costumes e
dos direitos.

Enquanto trabalhava para criar o povo chi-
nês, o imperador trabalhava para criar a China.
Depois das longas guerras dos Seis Reinos, o
país estava infestado de vagabundos e de ladrões.
Em 216, o imperador, que passeava incógnito em
sua capital, acompanhado de quatro soldados ape-
nas, foi atacado por bandidos no fim de uma ins-
peção. Ele resolveu, então, livrar o império dos
assaltantes. Reunindo-os em massa, em 214, ele
usou esses bandos enormes para ampliar e de-
fender o território do império. Um desses bandos
foi enviado para o sudeste(220), onde completou
a conquista da região de Yue (ou Yu-yue), iniciada
pòr Tchou em 333. Os Yu-yue haviam sido, nesta
ocasião, rechaçados de Tche-kiang para as re-
giões litorâneas do sul (Fou-kien, Kouang-si,
Kouang-tong setentrional). A campanha empreen-
dida no sul por Che Houang-ti começou, sem dú-
vida, no primeiro ano do império. Fou-kien foi
conquistado em primeiro lugar, depois, os dois
Kouang. O avanço dos Chineses, auxiliados pelos
transportes repetidos da população, atingiu, tal-
vez (?), por ocasião da grande ação militar de 214,
todas as regiões costeiras, de Annam ao cabo
Varella. Três comendadorias novas foram funda-
das. A China, no sul, ficou com uma fronteira
imensa para o mar. Em 215, o imperador, inspe-
cionando Tche-li, dirigiu-se até as montanhas que
o limitam ao norte. O Estado de Yen, depois de
uma vitória sobre os Hiong-nou, ali havia edifica-
do um longo muro. Che Houang-ti, que enviara
para o mar exploradores originários de Ts'i, em
219, mandou outros (em 215), que eram proceden-
tes de Yen. Talvez tivesse em vista a Coréia,
como algumas ilhas misteriosas. Em todo caso,
ele preparava uma política marítima. Mas suas
preocupações imediatas estavam voltadas para a
estepe. Em 215, quando estava no norte de Tche-
l¡, ele resolveu unir os segmentos dos longos mu-
ros, formando uma imensa muralha para proteger
o império chinês dos Hou. No mesmo ano, ele or-
denou ao general Mong T'ien que tentasse um
grande esforço militar na curva do rio. Mong
T'ien pôde, de fato, repelir os Bárbaros ao norte
do Houang-ho. Em 214, ele atravessou o rio e se
pôs a construir a parte oriental da Grande Mura-
lha. O império enviou-lhe, para executar os traba-
lhos e colonizar a região, um bando de condena-
dos. A fronteira murada da China do norte esten-
deu-se desde o rio Leao até a região de Lin-t'ao
(noroeste de Kan-su). Por ela, a China se achava
em contato, não só com os Jong, os Man e os
Me, tribos divididas, mas também com os grandes
povos nômades que os Chineses chamavam de
Hou e de Hiong-nou. Foi precisamente no fim do
século III antes de nossa era que os Hiong-nou
formaram "pela primeira vez, uma nação unida e
forte"(221). Estamos menos informados sobre a
política seguida pelo imperador a oeste, do lado
das montanhas. Mas, ali ainda, foi estabelecido o
contato na região de Kiang-tchong (sudeste de
Lin-t'ao) com populações fortes e poderosas: tri-
bos tibetanas ocupavam então os vales monta-
nhosos do alto rio Amarelo. O território de Ts'in
Che Houang-ti estendia-se, mais ou menos, sobre
o que deveria ser a China das Dezoito Províncias.
Acredita-se que os estrangeiros denominaram a
China segundo o nome da dinastia Ts'in. O funda-
dor desta dinastia deu, realmente, à China seus
limites tradicionais. Ele a colocou em contato, por
todos os lados, com grandes civilizações ou com
grandes povos.

No vasto país que havia, enfim, provido de
fronteiras e que queria tornar homogêneo, o im-
perador suprimiu todas as barreiras internas e as
fortificações locais. Ele se glorificou na inscrição
que fez erigir no momento mesmo em que se
achava ocupado, traçando a Grande Muralha se-
tentrional (215): "O imperador manifestou seu
prestígio; - sua virtude absorveu os senhores;
- foi o primeiro a estabelecer com uniformidade
a Grande Paz. - Ele derrubou e destruiu as for-
tificações internas e os muros externos (dos prin-
cipados); - ele abriu passagens nas barragens
dos rios; - ele removeu e suprimiu as dificulda-
des e os obstáculos (222)." Em 225, ele havia man-
dado desviar o rio Amarelo para o sudeste, abai-
xo de Yong-yang, e criou o Hong-keou: este canal
punha em comunicação todas as regiões de Ho-
nan e, unindo os rios Ts'i e Houai, chegava até o
território de Tch'ou(223). Destinava-se, principal-
mente, ao transporte de grãos. Nas cercanias de
Yong-yang (perto de K'ai-fong de Ho-nan) foi esta-
belecido, numa grande montanha, o celeiro impe-
rial de Ngao (224). Este grande centro de distribui-
ção, onde se abasteciam os exércitos do império,
foi, com a morte de Ts'in Che Houang-ti, o motivo
dos combates travados entre os pretendentes à
sua sucessão (225). Ali estava o coração da China.
Uma rede de estradas completou o sistema de
canais, iniciou-se no ano 220, quando "se traça-
ram as estradas imperiais". Com cinqüenta pas-
sos de largura, arborizadas, mais elevadas para
evitar as inundações, compreendendo caminhos
laterais e uma alameda central reservada ao so-
berano, dizem que elas iam da capital às extremi-
dades do império; a leste e a sul (226). Em 212,
iniciou-se uma estrada imensa, dirigindo-se para
o norte, até a grande curva do rio: "Fizeram-se
valas nas montanhas, aterros nos vales e a comu-
nicação foi estabelecida em linha reta (227)." Eram
estradas estratégicas (a construção da última o
prova); Che Houang-ti via claramente que o peri-
go, para a China, vinha, naquela ocasião, do norte,
do lado dos Hiong-nou. Esses cruzamentos gigan-
tescos de caminhos foram como que uma arma-
ção para unificar o país. Um centão de feudalistas
chineses quer que os soberanos antigos tenham,
desde a mais remota antiguidade, criado cami-
nhos uniformes ao mesmo tempo em que reali-
zavam a uniformidade de escrita e de costumes.
Ts'in Che Houang-ti não mentia, nem quando se
vangloriava de ter unificado o sistema de escrita
(o nome de seu ministro Li Sseu acha-se ligado
a esta reforma cuja importância foi capital), nem
quando dizia ter imposto dimensões idênticas
para os eixos dos carros - a fim de que, por toda
parte, os carris tivessem a mesma distância e
que o mesmo carro pudesse circular em todo o
país (228).

Parece que o imperador quis estabelecer
a unidade moral de seu povo, procurando torná-lo
um povo de agricultores. Ele pensou em ligá-lo ao
trabalho da terra, generalizando a revolução agrá-
ria, realizada em Ts'in, desde 350-348. Em 216, os
camponeses tornaram-se proprietários sujeitos a
uma taxa proporcional à superfície de seus cam-
pos. Eles deixaram de ser rendeiros obrigados a
fornecer, com corvéias, uma parte da colheita. O
imperador, numa inscrição de 215, afirma que
"seus favores estendem-se aos bois e aos cava-
los - (e que) suas benfeitorias enriqueceram o
solo e a terra". " Sua bondade estendeu-se a todos
os patrimônios; - por muito tempo, todos foram
para os campos; - e não há ninguém que não es-
teja tranqüilo em sua casa (229)." Quando concedia
aos agricultores um direito assegurado de pro-
priedade adquirida pelo pagamento de um impos-
to fixo, Che Houang-ti pensava na estabilidade do
Estado. Ele desconfiava dos comerciantes, que
considerava especuladores e provocadores de
distúrbios. Em 214, deportou os mercadores(230).
Vangloriou-se, em 219, "de ter honrado a agricul-
tura e prescrito a última das profissões (o comér-
cio)" (231). Ele emitiu uma moeda de cobre (redon-
da com um orifício quadrado), cujo transporte era
difícil pois era muito pesada (232). Logo veremos a
importância que tiveram, sob os Han, o comércio
e as questões monetárias. Ts'in Che Houang-ti,
multiplicando no império as facilidades de circula-
ção, quis impedir o progresso das atividades co-
merciais que elas acarretam, por ele consideradas
uma causa da instabilidade social. Mas se os Chi-
neses não se tornaram, como ele queria, um povo
inteiro dedicado à cultura, a abertura das grandes
vias de comunicação, beneficiando o comércio,
favoreceu imensamente a unidade nacional.
Para obter a unidade de pensamento, Che
Houang-ti procurou espalhar, por toda a China,
uma moral doméstica severa. Ele quis, antes de
tudo, instaurar o culto do imperador. Esta parte
de sua obra é aquela que a história parece ter
desfigurado mais. Ela tenta mostrar Ts'in Che
Houang-ti procurando, por meio de práticas má-
gicas, a conquista da imortalidade pessoal. É ver-
dade que o imperador teve feiticeiros a seu ser-
viço, mas um fato permanece: "Segundo as lels
de Ts'in (diz um dos feiticeiros, no momento em
que se preparava para fugir da corte), não se pode
exercer mais de uma arte por vez e, quando se
cai em erro, vem logo a morte (233)."Quando man-
dou queimar os livros de anais e de política, obras
vazias, em sua opinião, e perigosas, Che Houang-
ti tomou cuidado de conservar as obras relativas
"à medicina, à farmácia, à adivinhação, à agricul-
tura, à arboricultura", isto é, toda a literatura
técnica. O imperador só tinha confiança nos téc-
nicos especializados e só pretendia proteger as
ciências úteis. A magia (astronomia astrológica,
alquimia, ciência dos droguistas) era, em sua épo-
ca, a fonte de todo conhecimento, a esperança
dos espíritos fortes. Os historiadores chineses,
com toda a sua malevolência, não conseguiram
mostrar que Ts'in Che Houang-ti, como tantos ou-
tros soberanos de seu país, tenha sido um sim-
plório e que se tenha deixado levar por embustes.
A disciplina e o devotamento, sem dúvida, não
eram menores entre os sábios do que entre os
soldados. É difícil dizer o que o senhor esperava
deles, mas é claro que toda a conduta do impera-
dor explica-se pelo desejo de passar por uma di-
vindade viva. Era a este resultado que visavam
suas ascensões dramáticas nas montanhas san-
tas, como também sua existência invisível num
palácio construído para ser a imagem do mundo
dos deuses. Ele ficava a par de tudo por meio de
relatórios (ele manipulava, diariamente, um peso
de cento e vinte libras) e não hesitava, para se
informar,.em sair (mas quase sempre sozinho e
sem se dar a conhecer). Embora rejeitasse os ritos
prescritos pelos quais os antigos Filhos do Céu
entretinham seu Prestígio e que proibia qualquer
atividade prática, ele queria, também, fazer sentir
a todos os seus súditos que havia nele uma natu-
reza divina. Assim se explicam o mistério, do qual
se cercava, e os cânticos que mandava executar
para celebrar, a uma só vez, suas viagens e as dos
imortais(234). Este espírito positivo e poderoso
percebia claramente que o império recém-fundado
precisava de uma religião nova e que a um poder
autocrático devia corresponder um culto da pes-
soa imperial.

Che Houang-ti morreu aos cinqüenta anos.
Em alguns anos, ele conseguiu fazer a China al-
cançar um estado de unidade e de concentração
que este país nunca mais iria exceder. Graças a
ele, a idéia da unidade chinesa tornou-se um ideal
operante, mas a China nunca mais encontrou um
gênio dominador parecido com o seu, e que tives-
se a audácia de querer realizar a unidade nacional
sob a forma de um Estado centralizado.

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