Introdução

A civilização chinesa merece mais do que a sim-
ples curiosidade. Ela pode parecer singular, mas
(é um fato) nela se encontra registrada uma gran-
de soma de experiência humana. Nenhuma outra
serviu de vínculo a tantos homens, durante um
Período tão grande. Quem pretende ter o título
de humanista, não deve ignorar uma tradição de
cultura tão atraente e tão rica em valores du-
ráveis.

Esta tradição aparece formada desde o
início da era cristã - na época em que a terra
chinesa, enfim reunida, forma um imenso im-
pério. A civilização que se criou na China espa-
lha-se logo por todo o Extremo Oriente. Graças
a inúmeros contatos ela se enriquece. Os Chi-
neses, entretanto, esforçam-se para realizar um
ideal tradicional que definem com um rigor cres-
cente.

Eles lhe são tão dedicados que o apresentam,
facilmente, com a primeira herança de sua raça.
Vários milênios antes de era cristã, seus ances-
trais (eles não se permitem duvidar) foram inicia-
dos por sábios na disciplina de vida que fez sua
força. A pura civilização das primeiras épocas foi
o princípio de uma coesão perfeita. A China maior
data dos tempos mais antigos. Sua unidade se
desfaz ou se restaura conforme resplandece ou
enfraquece uma ordem de civilização que é, em
princípio, imutável.

Essa visão sistemática tem valor de dogma
e corresponde a uma crença ativa. Ela inspirou
todas as tentativas de síntese histórica; durante
muitos séculos, exerceu uma influência decisiva
sobre a conservação, transmissão e restauração
dos documentos: não possuímos nenhum que pos-
sa ser considerado novo ou autêntico. Historiado-
res, arqueólogos, exegetas sentem-se impregna-
dos de um respeito tradicionalista, mesmo quan-
do um espírito crítico parece animá-los. Eles
determinam os fatos e as datas, estabelecem os
textos, eliminam as interpolações, classificam as
obras sem objetividade, na esperança de tornar
mais aguda e mais pura, neles mesmos e em seus
leitores, a consciência de um ideal que a História
não saberia explicar, pois a antecede.

Nós nos inspiraremos em idéias diferentes.
Os ocidentais, até pouco tempo, contavam
a história da China à moda chinesa (ou quase),
sem mesmo assinalar seu caráter dogmático.
Hoje, eles se esforçam para distinguir, nas tradi-
ções, o verdadeiro do falso. Eles utilizam os tra-
balhos da crítica autóctone. Eles se esquecem,
freqüentemente, de ressaltar os postulados. Eles
se mostram, em geral, pouco sensíveis às insu-
ficiências de uma exegese puramente literária.
Apesar de uma atitude crítica, eles raramente
confessam que os fatos permanecem incompre-
ensíveis.

É suficiente datar um documento para que
imediatamente os dados se tornem utilizáveis?
Quando se tornou uma posição, por exemplo, so-
bre a data e o valor dos documentos chineses
relativos às formas antigas da posse da terra,
que realidade foi apreendida se não se observou
que o lote de terreno designado, segundo eles, a
um cultivador, é cinco ou seis vezes menor do
que o campo considerado necessário, atualmente,
para alimentar um único homem nas regiões
mais férteis e mais bem trabalhadas? A histó-
ria literária dos rituais é de grande interesse,
mas será possível fazê-la bem, se não se tiver
o cuidado de observar: 1.° - que entre os obje-
tos mencionados pelos rituais não há quase ne-
nhum que tenha sido encontrado em escavações;
2.° - que entre os objetos encontrados graças
às escavações há muito poucos sobre os quais
os rituais fornecem alguns esclarecimentos?
As escavações estão ainda no começo. A
arqueologia chinesa inspira-se num espírito li-
vresco. Convém advertir, inicialmente, que os do-
cumentos de que dispomos apresentam um cará-
ter utópico. Resta ver se, tais como se mostram,
eles são sem valor.

Eles não revelam o menor dos fatos histó-
ricos e não permitem descrever, com alguma
precisão, o lado material da civilização chinesa.
Ignoramos, do mesmo modo, os pormenores das
guerras e das intrigas políticas, os usos adminis-
trativos, as práticas econômicas, o modo de ves-
tir, etc. Em troca, possuímos inúmeros testemu-
nhos preciosos sobre as diversas atitudes senti-
mentais ou teóricas que foram adotadas na China
em meios diferentes, a respeito do costume, da
riqueza, da arte administrativa, da política ou da
guerra...Estamos informados, sobretudo, a res-
peito das atitudes defendidas pela ortodoxia. Mas
os Chineses não querem perder nada do passado,
mesmo quando tomam o cuidado de apresentar
uma reconstituição totalmente ideal: eles deixa-
ram subsistir uma grande quantidade de informa-
ções que contradizem as teorias ortodoxas.
Não há, no momento (se desconfiarmos de
precisões ilusórias), nenhum meio de escrever
um Manual de antiguidades chinesas. Não é im-
possível, pelo contrário, introduzir-se, bastante
mesmo, no conhecimento da China, se limitarmos
nossa tarefa a definir um conjunto de atitudes que
caracterizam o sistema social dos Chineses da
antiguidade.

Tentar determinar o sistema social dos
Chineses, tentar indicar o que ele pode ter de
específico - na vida política, nos costumes, no
pensamento, na história do pensamento e na dos
costumes - tentar, também, indicar o que ele
encobre de grande experiência humana, deixando
entrever que, de civilização em civilização as sim-
bolizações, freqüentemente, diferem; tentar, en-
fim, fazer aparecer este sistema de comportamen-
tos na ordem e no movimento que lhe são próprios,
foi neste espírito que concebi essa obra. Este tam-
bém é o espírito que inspirou minhas pesquisas
preparatórias. Publiquei uma parte destas últi-
mas, acentuando seu caráter de estudo indutivo
e enfrentando, progressivamente, o exame crítico
dos fatos, das idéias e dos documentos. Hoje
posso apresentar uma exposição de conjunto.
Precisei proceder de modo dogmático. Isto me
levou a dissociar a história dos fatos políticos e
dos fatos sociais e a história do pensamento. Esta
última fornecerá o tema de um volume comple-
mentar: nele se verá que o pensamento chinês,
em conseqüência de um desenvolvimento estrei-
tamente ligado à evolução dos costumes, tende,
desde a época dos Han, a uma escolástica que
corresponde a uma disciplina ortodoxa da vida.
Este pensamento, entretanto, conserva uma notá-
vel capacidade concreta, poética e plástica, uma
espécie de jogo livre que se dissimula sem difi-
culdade e como que protegido por um revestimen-
to de formas convencionais. Essas conclusões
confirmarão, completando-as, as ilações deste vo-
lume. A evolução dos costumes atesta a preemi-
nência sucessiva de ideais próprios a diferentes
meios. Ela parece tender (como a uma espécie
de ponto morto) à glorificação de um conformis-
mo extraordinariamente rígido. Assim se assinala
a ação dominante que, desde a fundação do Im-
pério, as classes oficiais exercem na vida da
nação: esta ação é, na aparência, soberana, pois
o papel do Estado e o da Administração reduzem-
se, teoricamente, ao ensino das atitudes morais
e intelectuais que caracterizam um homem hones-
to e qualificam o funcionário. A história chinesa
dificilmente se resigna a consignar as sobrevivên-
cias e, mais dificilmente ainda, a registrar as
renovações. Pode-se, no entanto, presumir que,
sob o revestimento de uma ortodoxia que preten-
dia reinar sem contestações, a vida moral conti-
nuou a se desenvolver livremente. Índices pre-
ciosos deixam entrever que ela não cessou de se
inspirar em ideais antigos, conservados sem um
empobrecimento verdadeiro. Ela soube, também,
renovar seus ideais sob a pressão dos fatos, pois
a fundação da unidade imperial acompanhou-se
de uma distribuição nova da atividade social.

A era imperial na história política, como
na história da sociedade, parece marcar uma es-
pécie de corte. Parei, então, essa obra sobre a
China antiga na época dos Han.
A primeira parte é consagrada à história
política. Ela se inicia com um capítulo em que
analiso a história tradicional, desde suas origens
até o reinado do imperador Wou dos Han (140-87).
(As datas dadas sem outra indicação pertencem
à era pré-cristã). As velhas tradições informam
mais sobre as concepções chinesas do que sobre
os fatos. A partir do momento em que começam
as crônicas datadas, século VIII, a crítica parece
poder estabelecer alguns fatos, bem pouco nume-
rosos, bastante esquematizados e muito descon-
tínuos. Há muita audácia em querer encontrar
mesmo as grandes linhas da evolução política que
conduz à criação do império chinês. Tentando
contá-la, deixei, sem nenhum desdouro, grandes
lacunas. Recusei-me a traçar retratos, quando só
tinha dados proverbiais dos personagens. Não
contei guerras, quando só dispunha de narrativas
extraídas de epopéias, de romances ou de poe-
mas históricos. Não procurei reconstituir os pla-
nos dos estrategistas e os projetos dos políticos,
quando conseguia, com muita dificuldade, com-
preender os resultados de fato. Procedi, sobretu-
do, com a ajuda de exemplos e só insisti nos mo-
mentos decisivos. Os reinados de Ts'in Che
Houang-ti e do imperador Wou só são conhecidos
por meio de documentos incompletos e incertos,
mas os acontecimentos tomam, então, uma am-
plidão tal que a crítica tem menos medo de errar.
Abstive-me de apresentar a menor hipótese sobre
certas questões, por exemplo, sobre o povoamen-
to da China: as que foram formuladas a partir de
preconceitos lingüísticos ou de postulados de
história geral têm, pelo menos, o inconveniente,
muito grave no meu parecer, de restringir o cam-
po de investigação sobre o qual o arqueólogo pré-
histórico deve trabalhar. Limitei-me a tentar um
esboço dos progressos paralelos do preparo da
terra e da unificação política, e procurei esclare-
cer um fato importante: assim que surgiram gran-
des domínios, que pareceram formar unidades
provinciais, absorvendo as circunscrições minús-
culas e reabsorvendo ilhotas de barbaria, o senti-
mento de uma comunidade de civilização fez com
que os Chineses se defendessem dos assaltos
das confederações bárbaras em formação e acei-
tassem a unificação do país sob a forma de um
grande império. Assim chegaram a constituir o que
chamarei de um agrupamento de civilização, agru-
pamento ativo e poderoso, sem se verem obriga-
dos a atribuir ao Estado e à idéia de Estado o pres-
tígio e a autoridade que os ocidentais consideram
a estrutura indispensável de toda vida nacional.

Assim como a história política da China só
pode ser sondada com a condição de nela não se
introduzir a idéia ocidental de Estado, assim tam-
bém, para abordar a história da sociedade, que é
o tema de nossa segunda parte, convém livrar-se
da idéia de Direito imposta a nosso espírito pela
admiração irrestrita do mundo romano. No mundo
chinês antigo, as transformações sociais não se
traduzem por mudanças de orientação na atitude
moral. Estas acompanham as variações sobrevin-
das na ordenação geral da sociedade, conforme
predominem nela a atividade camponesa e a vida
da aldeia - ou, então, a atividade dos feudais
instalados em burgos que aumentam a ponto de
constituírem capitais minúsculas - ou, ainda, a
dos ricos traficantes para os quais se elevam
grandes cidades. Os documentos não fornecem
nenhum ponto cronológico de referência sobre os
grandes fatos ligados a esses deslocamentos do
centro da vida social. Não se sabe nada de certo
sobre a fundação dos burgos e das cidades senho-
riais que provocou a substituição dos ideais cam-
poneses de equilíbrio ritmado e medido, por uma
moral de prestígio: boa para a vida nos campos,
ela se transformou, sob a influência da vida na
corte, em um culto também à boa apresentação e
à etiqueta. Não se sabe nada de preciso sobre o
desenvolvimento da indústria, da riqueza, do luxo,
nem sobre a extensão dos centros urbanos; é por
meios indiretos que se entrevê a crise aguda que
foi sua conseqüência: ela provocou a aceitação,
como princípios de disciplina social, de um for-
malismo e de uma etiqueta dotados de um espí-
rito tradicionalista e de um simbolismo arcaizan-
te. Para estudar a história desta sociedade só há
um meio: tentar uma espécie de reconstituição
estratigráfica. Por isto não procedi pelo estudo de
instituições definidas e agrupadas à moda ociden-
tal - religião, direito, habitação -, mas pelo estu-
do de meios. Sem nunca pretender ser completo,
limitei-me a apresentar um conjunto de compor-
tamentos característicos.

Tudo o que expus nessa obra origina-se de
uma análise direta dos documentos. No entanto,
eliminei de minhas anotações, tanto quanto possí-
vel, todas as referências que somente teriam al-
guma utilidade para os especialistas. Advirto, de
uma vez por todas, que aqui só se pode encontrar
as opiniões a que me conduziu meu espírito de
pesquisa. Tive muito cuidado em graduar as afir-
mações, muito cuidado em chegar, desde que
achava possível, a fórmulas precisas. Preocupei-
me mais ainda em eliminar as hipóteses enge-
nhosas e, sobretudo, as precisões abusivas. Ten-
do em vista o estado dos documentos e o dos
estudos, seria pueril dissimular o que as conclu-
sões, que podem ser apresentadas, têm de sub-
jetivó, de incompleto e de exterior - e mais pueril
ainda, desculpar-se. Seria suficiente exprimir a
esperança de que tomadas pelo que valem, essas
conclusões levem o leitor a sentir quanto é neces-
sário um estudo aprofundado das coisas chinesas.
Ele permitiria confrontar, com as avaliações e as
experiências de um povo enorme, as classifica-
ções e os juízos aos quais estamos ligados.

Um comentário:

alice disse...

esse conteudo é muito interessante