Historiografia Tradicional

A história tradicional começa com a
era dos Cinco Soberanos (Wou Ti),
precedidos, às vezes, pelos Três
Augustos (San Huang).
Os três primeiros dos Cinco Sobera-
nos, Houang-ti, Tchuan-hiu, Kao-sin,
figuram nas obras ligadas à tradição confuciana,
que apresentam um caráter mais filosófico do
que histórico (1). O Livro da história (Chou king),
atribuído a Confúcio, menciona apenas os dois
últimos, Yao e Chuen. Sseu-ma Ts'ien, escreven-
do no fim do século II a.C, a primeira grande com-
pilação de história geral, tomou como tema do
primeiro capítulo de suas Memórias históricas,
os Cinco Soberanos. Fazia assim começar a his-
tória chinesa com Houang-ti que, desde a época
dos Han, era considerado o grande patrono das
seitas taoístas. Embora Sseu-ma Ts'ien tenha sido
acusado de faltar à ortodoxia (2), as compilações
históricas não deixaram de contar os reinados dos
Cinco Soberanos. Uma tradição iconográfica, que
remonta pelo menos aos segundos Han, faz pre-
ceder os Cinco Soberanos pelos Três Augustos
(Fou-hi, Niu-koua, e Chen-nong, ou então: Fou-hi
e Niu-koua formando um par, Tchou-jong e Chen-
nong)(3). Os Augustos, como os três primeiros
soberanos, acham-se nomeados nas obras mais
antigas das tradições ortodoxas e das não orto-
doxas.

Fazendo preceder a história das dinastias
reais pela dos Soberanos e dos Augustos, os eru-
ditos chineses propuseram-se a esboçar o quadro
de uma era feliz em que, sob traços humanos,
reinava uma virtude perfeita. No entanto, as figu-
ras heróicas das primeiras eras da China conser-
vam inúmeros traços míticos. O desaparecimento
desses traços é mais ou menos completo para
Yao e para Chouen, os primeiros heróis do Chou
king. Eles ali aparecem, no entanto, misturados
a uma história dramática das Grandes Águas, em
que o fundador da primeira dinastia real, Yu, o
Grande, desempenha o papel principal - enquan-
to que outras narrativas põem em cena diversos
Augustos (Niu-koua, Tchou-jong) ou outros heróis.
O tema das Águas agitadas liga-se a um mito da
ordenação do mundo e, por outro lado, parece
vinculado a diversos ritos agrários de acentuado
caráter xamanista: traçando-se desenhos no solo,
fazem-se jorrar as águas e se determina seu leito.
Mas, no Chou king, o desenvolvimento deste tema
importante transforma-se num debate de interes-
se administrativo: deve-se preferir o método dos
diques ao dos canais (4)? E também, quando se diz
que Yao "aparecia como o sol", entende-se que
esta expressão vale simplesmente como uma me-
táfora: nada se conservou, pelos historiadores, do
velho mito em que Yao é apresentado como um
domador de sóis ou como o próprio sol (5). Se se
encontram, nos heróis não incorporados pelo
Chou king, traços míticos mais numerosos e me-
nos deformados, isto ocorre, com mais freqüên-
cia, à margem da história. Sseu-ma Ts'ien, por
exemplo, evita contar que Houang-ti estabeleceu
seu poder fazendo descer do céu a Seca, que era
sua própria filha e que se tornou uma deusa(6).
Assim também os historiadores abstêm-se de di-
zer que Chen-nong, o último dos Augustos, tinha
cabeça de boi e que Fou-hi e Niu-koua formavam
um par, enlaçando-se pela cauda (7). Em princípio,
a tradição histórica só quer tratar dos homens.

Desde muito tempo humanizados, Yao e
Chouen teriam, sem dúvida, sido os primeiros so-
beranos da China, se a teoria dos Cinco Elementos
não tivessem desempenhado um papel diretivo na
reconstrução da história nacional. Esta teoria, sem
dúvida antiga, tornou-se, por motivos políticos,
nos séculos IV e III, o tema de especulações de
diversas escolas. Todas admitiam que a Ordem
do Universo e o Tempo tinham sido constituídos
pela cooperação das Cinco Virtudes elementares,
encarnadas em Cinco Soberanos sucessivos. Uma
das concepções permite organizar, sob a forma
de fatos históricos, os resquícios de velhos mitos,
nos quais heróis lutavam uns contra os outros,
como demiurgos. A história anexou alguns desses
heróis, em número suficiente para que as Primei-
ras ldades correspondessem a um ciclo perfeito
das Cinco Virtudes elementares (8).

Cada Soberano tem como emblema um Ele-
mento único. Ele possui, no entanto, uma espécie
de Virtude total e cada um deles é, sozinho, o
criador da civilização nacional. Ele é mais do que
um simples inventor de técnicas ou de institui-
ções. Esta definição conviria mais para os Augus-
tos. Fou-hi, por exemplo, e Niu-koua inventaram
juntos os ritos do casamento e dos presentes,
enquanto que Chen-nong, o soberano com cabeça
de boi, fabricou o arado e ensinou as regras da
agricultura (9). Mas, se Houang-ti é, às vezes, indi-
cado como o inventor das armas e como um fun-
didor, com mais freqüência são atribuídas a
Tch'e-yeou, seu ministro, a descoberta da fundi-
ção e a fabricação dos primeiros instrumentos de
guerra (10). Conta-se que Chouen modelou vasos
de argila. No entanto, as grandes invenções que
ilustraram seu reinado e o de Yao são obras de
ministros que eles encarregaram de organizar um
departamento do mundo: Hi-ho, regulador do ano
solar, K'i, que ensinou a semear e a transplantar,
Kao-yao, que fixou o direito penal (11). Acima des-
ses heróis restritos a uma especialidade, os So-
beranos, que são as realizações mais perfeitas
do tipo, reinam, mas não inventam. Investidos
de uma Virtude mais completa e que parece, em
certo sentido, mais abstrata, eles se limitam a
civilizar pela irradiação de uma força ordenadora.
Esta se propagou, de uma só vez, no espaço
e no tempo. Total, ela constitui a unidade do lm-
pério, identificando as fronteiras da China aos
limites do Universo. Este bom resultado é obtido
quando o Soberano, deslocando-se, transporta
sua virtude para os limites do mundo. Foi assim
que, visitando os quatro Orientes, Houang-ti atin-
giu, por exemplo, no Extremo Ocidente, o monte
K'ong-t'ong e Tchouan-hiu, no fim do Levante, a
árvore P'an-mou. Mas foi suficiente a Yao enviar
delegados aos quatro pólos e, melhor ainda, uma
simples cerimônia, realizada em sua capital de
quatro portas, permitiu a Chouen sujeitar o Uni-
verso à ordem que queria instaurar (12). O Sobera-
no rege o Espaço porque é o senhor do Tempo.
Houang-ti "estabeleceu por toda a parte a ordem
para o Sol, para a Lua e para as Estrelas" (13).
"Kao-sin observava o Sol e a Lua para os receber
e os acompanhar"(14). Yao encarregou Hi e Ho
"de observar com atenção o Augusto Céu e de
aplicar a lei dos números ao Sol, à Lua, às Conste-
lações" (15). O Soberano, "agindo de acordo com
as estações para se sujeitar ao Céu... regula-
menta as influências (k'i), a fim de dirigir a evo-
lução" (16). Ele é aquele cuja "liberdade universal
favorece todos os Seres". Ele possui um dom su-
premo, a Eficácia (ling), que caracteriza o que cha-
maríamos de os seres divinos (chen: ling e chen
têm o mesmo valor e se empregam um pelo ou-
tro). "Houang-ti, desde seu nascimento, teve a
Eficácia (chen-ling): antes dos três meses, ele fa-
lava (17)". Esta Virtude soberana consegue, por um
efeito imediato, que "os seres em movimento e
em repouso, os seres divinos, grandes e pequenos,
tudo o que ilumina o Sol e a Lua, fiquem calmos
e dóceis (18). Este estado de estabilidade em que
a terra e as águas, as plantas e os animais, os
deuses e os homens prosperam sem sair de seus
domínios respectivos, chama-se a Grande Paz
(T'ai-p'ing). Um Soberano tem todos atributos que
uma filosofia inteiramente rebelde às concepções
criacionistas pode conferir a um demiurgo.
Os Soberanos que a história tradicional in-
tegrou melhor são apresentados mais como sá-
bios do que como heróis. Sua função é, inicial-
mente, fazer reinar a paz entre os homens. Yao,
que tinha "a inteligência de um ser divino (chen)",
instaurou o reinado do respeito filial e das virtu-
des cívicas. Ele viveu, como Chouen (e, em menor
grau, Yu, o Grande, fundador da realeza), unica-
mente para o bem do povo e "sem pensar nele
mesmo" (19). Assim, ele não tratou de fundar uma
dinastia. Os Cinco Soberanos não são pais e fi-
lhos uns dos outros. Entre os dois Soberanos do
Chau King, não existe nenhum parentesco, pois
Chouen pôde se casar com as filhas de Yao. Ele
o sucedeu quando este, depois de tê-lo experi-
mentado como genro e como ministro, reconhe-
ceu que era um Sábio digno de reinar. Seu mérito,
proclamado por um predecessor que era conhe-
cido por sua sabedoria, foi reconhecido pelo povo.
Yao baniu seu próprio filho, Tan-tchou, "para não
favorecer um único homem em detrimento do
lmpério" e, por ocasião da morte de Yao, as
homenagens não se dirigiram para Tan-tchou, mas
para Chouen. Poetas e cantores não celebraram
Tan-tchou, e sim Chouen. Chouen disse: "É o
Céu!" e tomou o poder(20).

Um Soberano é um sábio que, possuindo
uma virtude mais humana e mais abstrata do que
a virtude própria dos heróis, civiliza o mundo pelo
efeito direto de sua eficácia e reina, de acordo
com o Céu, para a felicidade do povo. Ele é, es-
sencialmente, o autor de um calendário exato e
benfazejo. Seus ministros agem inspirados pela
Virtude. Ele reina sem pensar em governar. Ele
se dedica a criar, ou antes, a emitir a ordem. Esta
ordem é, antes de tudo, moral, mas abrange todas
as coisas. A época dos Soberanos é a idade dos
méritos cívicos, a era da humanidade perfeita
(jen).

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