A Era Imperial - T'sin e Han

A fundação do império chinês aparece
na História não como o fim, mas
como o coroamento de uma era de
anarquia e de confusão. Para o pe-
ríodo que vai até a época em que a
dinastia dos Han se estabeleceu so-
lidamente, as narrativas históricas inspiram-se
em romances épicos e em panfletos mordazes,
que acrescentam um toque patético a anais es-
cassos(49). Estes, depois, constituem-se com o
auxílio de documentos oficiais e se propõem, ini-
cialmente, a contar as intrigas da corte, ou, para
falar como Sseu ma Ts'ien, "os assuntos familia-
res"(50). As histórias dinásticas procuraram jul-
gar os méritos dos imperadores. Mesmo afirman-
do, às vezes, que, sob alguns deles, a China
"desfrutou de tranqüilidade", elas põem em evi-
dência o fato de que nunca mais a Virtude sobe-
rana pôde ser restaurada em seu esplendor
nativo.

l - Os Ts'in

A realeza termina em 256 a.C., quando o
rei Nan, dos Tcheou, despojado de tudo, morreu
sem deixar descendência (51). Foi então que Ts'in
se apropriou dos caldeirões dinásticos. Em 221, a
China, deixando de ser uma confederação de do-
mínios colocados sob a suserania de um rei, tor-
nou-se um império (52). Esta nova organização de-
via durar longos séculos. No entanto, o fundador
do império é considerado, quase que unanime-
mente, o pior dos tiranos.

Em 325, os príncipes de Ts'in haviam to-
mado o título de reis. O rei Houei-wen tomou o
ano de 325 como um ano inicial. Reformou então
a instituição dos sacrifícios de fim de ano. Mas,
nem ele nem seus sucessores pensaram em
transformar a organização chinesa. Limitaram-se
a prosseguir com suas vitórias e a aumentar a
extensão de seu feudo. Em 247, aos treze anos,
Tcheng subiu ao trono de Ts'in. Em 221, depois
de brilhantes conquistas, ele podia declarar que
a China estava inteiramente pacificada e pedir a
seus ministros que lhe encontrassem um título
"que estivesse em proporção com seu mereci-
mento". Estes, constatando que, agora "as leis e
as ordens emanavam de um único chefe" e que,
desde a mais remota antiguidade, tal não ocor-
ria", propuseram o título de Supremo Augusto
(T'ai Houang). Tcheng, para demonstrar que pos-
suía toda a Virtude característica da era feliz em
que reinaram os Três Augustos e os Cinco Sobe-
ranos, escolheu o título de Augusto Soberano
(Houang-ti). Ele resolveu chamar-se Primeiro Au-
gusto Soberano (Che Houang-ti); seus sucessores
deviam se denominar "o segundo", "o terceiro",
"até mil ou duas mil gerações". "Por uma vene-
ração póstuma", ele conferiu um nome honorífico
a seu predecessor (assim o haviam feito os fun-
dadores dos Tcheou). Tendo fixado o título impe-
rial (a expressão Houang-ti traduz-se por impera-
dor), Che Houang-ti (a história escreve freqüen-
temente Ts'in Che Houang.ti - Ts'in lembra a
região de origem do Primeiro imperador) deter-
minou o Emblema e o Número significativos da
dinastia que fundava. Ele escolheu Seis como
Número padrão e reinou em virtude do elemento
Água. Foi assim determinada a cor (o preto cor.
responde à Água e ao número 6) das vestes e das
bandeiras. Os chapéus oficiais tiveram seis pole-
gadas, como as tabuletas dos contratos. Seis pés
formaram um passo. Os carros eram puxados por
seis cavalos. Como a Água, o Preto, o Norte cor-
respondiam a um princípio de severidade, a polí-
tica do governo achava-se orientada: tudo devia
se decidir conforme a Lei e a Justiça, e não de
acordo com a Bondade e a Generosidade. O go-
verno ajustava-se, assim, à Virtude elementar en-
carregada de presidir aos tempos novos. O Tempo
e o Calendário foram renovados (53).

Depois que instaurou uma era nova, o Au-
gusto Soberano visitou todas as regiões do impé-
rio e fez peregrinações aos Lugares Santos clás-
sicos. Mas os Deuses receberam mal aquele que,
governando com os princípios elaborados numa
época de tirania, pretendia estabelecer o reinado
"da dureza e da violência". Ts'in Che Houang-ti
recebeu no T'ai chan "uma tempestade de vento
e de chuva". Quando quis subir a montanha Siang,
as divindades do local, que eram filhas de Yao, o
Soberano, fizeram soprar um vento tal que ele
quase não pôde atravessar o Yang-tseu kiang. Ele
arrasou a floresta do monte Siang e o mandou
pintar de vermelho, como um criminoso, por três
mil condenados. Somente um tirano não se in-
clina diante da vontade que o Céu manifesta.
Ts'in Che Houang-ti não tinha a Virtude de um
soberano: não pôde nunca retirar do rio Sseu o
caldeirão real dos Tcheou que ali havia desapare-
cido. Na verdade, ele não teve um nascimento
miraculoso. Ele não era filho de um pai legal, mas
também não era filho do Céu. A história nos en-
sina que ele nasceu de uma concubina que, quan-
do entrou no palácio do príncipe, já se achava
grávida de um primeiro senhor. Che Houang ti não
tinha amor filial; ele levou seu pai natural ao sui-
cídio e perseguiu sua mãe (54). Além disto, perse-
guiu os eruditos.

Os reis sábios da antiguidade, como Yu, o
Grande, cujo corpo era o padrão dos comprimen-
tos, realizaram a unidade da China por uma propa-
gação pacífica de sua Virtude. Ts'in Che Houang.
ti realizou-a pela força bruta. Sem dúvida, princi-
piou seu reinado com festejos e recolheu todas
as armas para mandá-las fundir; mas não distri-
buiu as jóias e os territórios adquiridos e, se tor-
nou uniformes as leis e as regras, as medidas de
peso e as de comprimento, as dimensões dos
eixos e os caracteres da escrita, fez isto apro-
priando-se de todo império e evitando dividi-lo em
feudos. Autocrata e revolucionário, ele desprezou
a tradição dos reis Wen e Wou. Toda a facção dos
tradicionalistas criticava suas inovações. Sem
apanágios, como manter a ordem? Em 221, apoian-
do-se em seu conselheiro, Li Sseu (um trânsfuga),
Ts'in Che Houang ti manteve suas decisões. A
oposição persistiu, e um erudito de vasto saber,
em 213, renovou as admoestações cheias de pre-
cedentes: "Vosso súdito ouviu dizer que os reina-
dos dos Yin e dos Tcheou duraram mais de mil
anos: é que os soberanos destas dinastias tinham
dado feudos a seus filhos, a seus irmãos mais
moços, a seus súditos ilustres, para que estes os
apoiassem. Agora Vossa Majestade possui todo
o Interior dos Mares, enquanto que seus filhos e
seus irmãos mais moços são pessoas comuns...
Sei que nunca durou o que não tomou o modelo
da antiguidade." Li Sseu argumentou em sentido
contrário: "Os Cinco Soberanos não se repetiram
uns aos outros, as Três Dinastias reais não imi-
taram umas às outras... pois os tempos tinham
mudado. Agora, Vossa Majestade realizou pela
primeira vez uma grande obra e fundou uma gló-
ria que talvez dure dez mil gerações: é isto, se-
guramente, o que eruditos estúpidos são incapa-
zes de compreender... Na antiguidade, a China
achava-se dividida e conturbada; não havia nin-
guém que pudesse unificá-la; é por isto que os
senhores cresciam todos juntos. Em suas conver-
sas, os eruditos falam todos da antiguidade para
denegrir o tempo presente... Eles levam o povo
a forjar calúnias. Se ninguém se opuser, a situa-
ção do soberano, no alto, se enfraquecerá, en-
quanto que, embaixo, as associações fortalece-
rão... Proponho que as histórias oficiais, com
exceção das Memórias de Ts'in, sejam todas quei-
madas... e que aqueles que se permitirem escon-
der o Che king, o Chou king e os Discursos das
Cem Escolas sejam obrigados a leva-los às auto-
ridades para que sejam queimados." Ts'in Che
Houang-ti ousou aprovar a sugestão de Li Sseu,
ordenando que os infratores fossem mortos mais
os seus parentes. A oposição dos tradicionalistas
persistiu.

Depois de uma inquirição "em que os eru-
ditos se incriminaram uns aos outros", o impe-
rador mandou executar quatrocentos e sessenta
pessoas, para dar exemplo(55). - isto se passou
em 212.
Em 211, encontrou-se, num meteorito, esta
inscrição: "Com a morte de Che Houang ti, o im-
pério será dividido." Um gênio das águas veio
entregar ao imperador o anel de jade que este,
outrora, havia jogado no Yang-tseu kiang para tor-
nar o rio favorável. Ts'in Che Houang ti soube
assim que deveria morrer naquele ano. Nem por
isto deixou de procurar avidamente novos prestí-
gios, dos quais tirava sua força, pois não tinha o
apoio dos Deuses. Depois de subir ao trono, ele
começou a construir uma residência suntuosa em
Hien-yang, onde foram reedificados os palácios
de todos os domínios suprimidos. Ali guardava
as mulheres dos haréns capturados, os sinos e
os tambores dos príncipes vencidos. Ele transpor-
tou para sua cidade, com. o número de 120.000
famílias, as pessoas mais ricas e mais poderosas
do império. Em seu palácio de Chang-lin, mandou
fazer um caminho suspenso, imitando o que, por
cima da Via Láctea, une as constelações T'ien-ki
(o cume do Céu, residência de T'aiyi, a Unidade
suprema) e Ying-tche (que é o templo celeste das
Purificações). Seus duzentos e sessenta(56) palá-
cios estavam reunidos por caminhos cobertos: o
imperador podia se deslocar sem que ninguém o
visse. Era preciso que ninguém soubesse onde
ele se achava, para que pudesse encontrar os
imortais com os quais queria entrar em comuni-
cação. Os imortais só vinham com a condição de
evitar os Gênios Maus: "Se o local que é habitado
pelo Senhor dos homens for conhecido por seus
súditos, os Deuses se aborrecem." O imperador
chamou um grande número de feiticeiros, de to-
dos os lugares, para que procurassem a droga da
imortalidade. Ele queria se tornar um Homem ver-
dadeiro, capaz de "entrar na água sem se molhar,
de entrar no fogo sem se queimar, de subir nas
nuvens e nos vapores, eterno como o Céu e a
Terra". Ele mesmo se denominava o Homem ver-
dadeiro. Em 219, enviou vários milhares de rapa-
zes e de moças à procura das ilhas onde viviam
os imortais. Em 211, dirigiu-se para a beira do
mar. Um grande peixe kiao havia impedido seus
emissários de atingir as ilhas bem aventuradas.
Era preciso mata-lo a flechadas. Ninguém tinha
esse poder. Ora, Ts'in Che Houang.ti sonhou que
combatia um cão-marinho com cabeça de homem.
Ele tomou então, um arco e esperou que o grande
peixe aparecesse. Do alto do Lugar Santo de Tche-
fou, onde se faziam sacrifícios aos Senhores do
Yang e do Sol, ele viu, enfim um grande peixe.
Ele atirou e o peixe morreu. Mas, então, o impe-
rador caiu doente e, pouco depois, faleceu (211
a.c.) (57).

Seu corpo foi levado para a capital em
grande segredo e, "para esconder seu odor", en-
cheram os carros do cortejo com uma grande
quantidade de peixe salgado. Os funerais do im-
perador foram uma apoteose. Iluminado com ve-
las que não se extinguiam, feitas com a gordura
do peixe-homem (jen-yu), enquanto que, embaixo,
as máquinas faziam correr, perpetuamente, até o
mar, mercúrio representando o rio Azul e o rio
Amarelo, e no alto, estavam representados todos
os sinais do Céu, o túmulo, guarnecido com todo
o dispositivo astronômico e com todo o dispositivo
geográfico, fora cavado, por 700.000 condenados
que haviam sofrido a pena da castração, tão pro-
fundamente que atingia as Fontes subterrâneas.
Quando o corpo foi introduzido, foram encerrados
com ele todos os artesãos que haviam colocado
as máquinas e escondido os tesouros. Além disto,
todas as mulheres do imperador. que não tinham
tido filhos seguiram-no na morte(58). Foram,
assim, superadas a crueldade de Ho-lu e a do
duque Mou, esse ancestral de Che Houang ti, a
propósito de quem fora dito que "Ts'in não pode-
ria mais governar no Leste".

A dinastia dos Ts'in foi destruída (207)
quase que imediatamente depois da morte de seu
fundador. Em 211, eliminando um filho de Ts'in
Che Houang-ti, que suspeitavam que fosse favo-
rável à tradição, o ministro Li Sseu e o eunuco
Tcheo Kao colocaram no trono outro de seus fi-
lhos, Hou-hai, conhecido com o nome de Er-che
(Houang-ti: o Segundo imperador). Como seu pai,
Er-che inspecionou o império e viveu invisível,
"de modo que não se ouvia o som de sua voz".
Ele também, multiplicando as corvéias e as exe-
cuções, reinou sem ser benfazejo. O império re-
voltou-se. Graças às intriga de Tchao-Kao, Li Sseu
foi executado (208), depois Er-che foi morto, e
seu sobrinho Tseu-ying, chamado para reinar.
Tseu-ying matou Tchao Kao, esse monstro nefasto
(207), mas teve que se entregar, pouco depois,
aos revoltosos do séqüito dos senhores ven-
cidos (59).

Eis o julgamento da história a respeito des-
ta época: "Ts'in Che Houang-ti, brandindo seu
grande chicote, governou o Mundo... Ele destruiu
os senhores...e impôs sua lei às seis direções do
Espaço. Ele manejou o açoite e a chibata para fus-
tigar o império. Seu prestígio abalou os Ouatro
Mares... No Sul, os príncipes dos Cem Yue, com
a cabeça baixa, entregaram seus destinos a ofi-
ciais subalternos... No Norte, os Hou não ousa-
ram mais descer para o Sul, para que seus cava-
los pastassem... Mas Ts'in não quis seguir a con-
duta dos reis antigos; queimou os ensinamentos
das Cem Escolas, para que o povo ficasse estúpi-
do...matou homens eminentes... se fundiu as
armas de todo o império, foi para fazer Doze
Homens de metal, para que o povo enfraqueces.
se... Ele nutriu sentimentos ávidos e baixos e fez
da tirania o fundamento do império... Se ele ti-
vesse administrado seguindo os princípios das
gerações antigas... ainda que um de seus suces-
sores tivesse sido dissoluto e arrogante, a Cala-
midade não se teria produzido." As conquistas de
Ts'in Che Houang-ti, que ampliou o império em
todas as suas fronteiras, e que, mesmo morto,
"continuava temido pelos povos estrangeiros",
permanecem quase que esquecidas. "Um homem
com o nariz proeminente, olhos grandes, com pei-
to de ave de rapina, com voz de chacal, sem gene-
rosidade, cujo coração é o de um tigre ou de um
lobo... pronto a devorar os homens (60)." É nessa
copla satírica, feita de temas proverbiais, que se
encontra o único retrato que os Chineses nos for-
necem do fundador de sua unidade nacional.

ll - Os Han

A tirania que veio coroar a anarquia feudal,
sucedeu uma anarquia também funesta. A revolta
começou na região de Tch'ou (o mais temível dos
antigos rivais de Ts'in). Seu chefe foi, inicialmen-
te, um homem "nascido numa casa cuja janela
era feita com o gargalo de um cântaro quebrado
e com uma corda servindo de gonzo na porta" (61).
A rebelião conquistou depressa toda a China e,
depois de 208, a maioria dos grandes Estados feu-
dais reconstitui-se. Assim que os Ts'in foram eli-
minados, seus vencedores fizeram uma grande
partilha do império (62). Mas logo começou a riva-
lidade entre os dois chefes mais poderosos:
Hiang Yu e Lieou Pang. Hiang Yu é apresentado
como um militar ousado, generoso, violento.
Lieou Pang é, pelo contrário, um personagem pru-
dente, astuto, tenaz. Hiang Yu alcançou setenta
vitórias e morreu combatendo, depois de ter en-
toado muitos queixumes, de ter lamentado a sor-
te de sua mulher e de seu cavalo favorito. Mesmo
nos últimos momentos, ele não quis reconhecer
seus erros. Ele gritou (blasfêmia horrível): é o Céu
que me perde(63)! Lieou Pang era modesto: ele
fundou a dinastia dos Han (202 a.C.) e recebeu,
por ocasião de sua morte, o nome de Kao-tsou
(Supremo Ancestral).

Kao-tsou era "bom, amável, gostava de fa-
zer liberalidades" (64). Ele era, no começo, um pe-
queno funcionário, desprezado por sua falta de
educação e por sua impudência. Sua ventura co-
meçou ao casar.se com a filha do honorável Lu.
Este havia reconhecido, imediatamente, que Lieu
Pang era um homem predestinado. Kao-tsou tinha,
na verdade, "uma bela barba e uma fronte de dra-
gão". Outrora, sua mãe, na borda de um lago, "so-
nhara que se encontrava com um Deus. No mes-
mo momento, houve trovões e raios...o marido,
acorrendo, viu um dragão kiao sobre sua mulher.
Depois disto, ela ficou grávida e deu à luz Kao-
tsou". Mais tarde, quando Kao-tsou dormia, um
dragão ficava em cima dele. Ele matou uma ser-
pente que era o filho do Soberano Branco. Ouviu-
se, então, uma velha que se lamentava: seu filho,
dizia ela, fora morto pelo filho do Soberano Ver-
melho. Nos lugares em que Kao-tsou ficava, havia
sempre um vapor misterioso. Ts'in Che Houang-ti,
inquieto, dizia sem cessar: "Do lado do Sudeste,
há a emanação de um Filho do Céu! " Mas ele não
pôde se apoderar do rival pressentido. Kao-tsou
estava marcado pelo Destino. Hiang Yu ganhou
setenta batalhas, mas Lieou Pang tinha, na coxa
esquerda, setenta e dois pontos pretos. (O sacri-
fício que comemora a fundação de uma dinastia
era feito por setenta e dois soberanos. Setenta e
dois era, também, o número característico das
confrarias (65).)

Um grupo grande de fiéis ligou-se a Kao-
tsou e homens eminentes tornaram-se seus con-
selheiros e seus generais. "Ele soube servir-se
deles, e foi por isto que se apoderou do império."
"Assim que conquistou e pacificou os Quatro
Mares, repartiu imediatamente um território entre
aqueles que tinham algum mérito, tornando-os
reis ou marqueses." Ele só aceitou o título impe-
rial "para o bem do Estado" e depois de tê-lo de-
clinado três vezes. Doente, não quis se tratar por-
que, disse ele, " o Destino certamente depende do
Céu". Por ocasião de sua morte (195 a.C.), sua
herança passou, pacificamente, para seu filho.
Mas, na verdade, o reinado de Kao-tsou comple-
tou-se com uma longa regência de sua mulher.
Esta o ajudara muito em sua ascensão. A impera-
triz Lu, "dura e inflexível ", soubera, enquanto seu
marido estava vivo, mandar executar, em tempo
útil e sob pretextos honrosos, os grandes chefes
dotados de feudos, que poderiam se revoltar. Com
toda a autoridade de uma rainha viúva, ela atri-
buiu apanágios reais para as pessoas de sua fa-
mília, contrabalançando assim o poder excessivo
conferido por seu marido a seus parentes (187
a.C.). Ela escolheu e depôs imperadores nomi-
nais, envenenou e mandou matar. Ela principiou
seu domínio com um ato de grande maldade, cujo
relato é dado como um exemplo notável da pre-
cisão e da veracidade próprias dos historiadores
chineses: ela mandou cortar os pés e as mãos da
fou-jen Ts'i, concubina preferida de Kao-tsou.
"Arrancou-lhe os olhos, queimou-lhe as orelhas,
fê-la beber uma droga que emudece e, jogando-a
nas cloacas, chamou-a de porca humana." Vários
dias depois (a fou-jen continuava viva), ela a mos-
trou ao imperador, filho de Kao.tsou, que chorou,
declarando que não queria reinar mais. Com a
morte da imperatriz Lu (180 a.C.), produziu-se uma
reação violenta contra sua família. Estes eram
"assuntos familiares", mas o império gozava de
tranqüilidade(66). Subiram, então, ao trono o im-
perador Wen, depois o imperador Wou (o civiliza-
dor e o guerreiro) sob os quais o prestígio dos
Han atingiu seu apogeu.

O imperador Wen (180-157) teve "como
única preocupação reformar o povo por sua Vir-
tude. É por isto que todo o país, no Interior dos
Mares, prosperou e desenvolveu pelos ritos e
pela justiça". Ele ilustrou seu reinado com inú-
meros decretos, cujos considerandos inspiraram-
se nas tradições antigas e em preocupações hu-
manitárias. Esses decretos eram produzidos em
Conselho. O .imperador temia que fossem julga.
dos, levando .em consideração interesses pes-
soais ou dinásticos. Ele tomava cuidado em apre-
sentá-los como se fossem impostos por seus con-
selheiros. Ele teve a glória de formular este prin-
cípio: "A Via Celeste (T'ien tao) quer que as Cala-
midades nasçam de ações detestáveis e que a
Prosperidade venha em conseqüência da virtude.
Os erros de todos os funcionários devem ter sua
origem em mim mesmo." Ele aboliu o cargo de
invocador secreto (167 a.C.) e defendeu o empre-
go de ritos pelos quais se transferia a responsa-
bilidade dos erros para os inferiores. Proibiu,
além disto, "fazer convergir todas as felicidades
para sua pessoa". Se apenas ele aproveitasse das
felicidades obtidas pelos sacrifícios e se o povo
não recebesse sua parte, isto seria, segundo suas
próprias palavras, "um agravamento de sua falta
de virtude". Wen ofereceu.se generosamente aos
Deuses. Ele soube se humilhar. Atacado pelos
Hiong-nou (162 a.C.), ele se confessou humilde.
mente: "É porque não sou perfeito que sou inca.
paz de aumentar minha Virtude. É isto que faz
com que, às vezes, os países exteriores a meu
território não estejam em repouso, e que aqueles
que vivem fora das Quatro Zonas desertas não
vivam, tranqüilamente, sua vida." A guerra, pre-
feria "a aliança e o aparentamento". Forçado a
combater, ele ordenou a seus soldados que "não
penetrassem profundamente nos países inimigos,
para não molestar o povo". Quando o rei Nan-yue
se atribuiu o título de imperador guerreiro, lon-
ge de se irritar, ele cumulou de presentes os
irmãos do rei, "respondendo assim com benefí-
cios. O rei renunciou então ao título de imperador,
declarando.se súdito". Alguns oficiais imperiais
deixaram.se corromper. Em vez de entregá-los aos
tribunais, o imperador Wen enviou-lhes dinheiros
de seu próprio tesouro "para cobri-los de confu-
são". Quando o império sofreu a seca e os gafa-
nhotos, "ele redobrou sua benevolência... dimi-
nuiu os gastos com suas vestes... abriu seus ce-
leiros". Mandou construir uma sepultura modes-
ta; ordenou que seus funerais fossem sem luxo,
e - longe de levar seus súditos para seu túmulo
- ele aliviou o rigor e a duração do luto impe-
rial (67).

O imperador "civilizador" esforçou-se para
restaurar, em sua pureza, a Virtude soberana (68).
Coube ao imperador "guerreiro" (140-87) a honra
de celebrar, à maneira dos setenta e dois sobera-
nos antigos, o sacrifício FONG que serve para
proclamar o êxito perfeito de uma dinastia. Desde
o primeiro ano de seu reinado "toda a classe dos
funcionários esperava que o Filho do Céu mudas-
se o primeiro dia do ano, o sistema de medidas e
celebrasse o sacrifício FONG " (69). [Sabe-se (uma
tradição maldosa o afirmava) que Ts'in Che
Houang-ti não conseguiu celebrar o sacrifício
FONG, como não pudera retirar do rio Sseu - um
DRAGÃO o impediu - o CALDEIRÃO mágico das
dinastias reais.] O imperador Wou [como Che
Houang-ti (O PRIMEIRO IMPERADOR)], venceu,
no Sudeste, os povos marítimos e, no Oeste, os
povos da estepe. [O PRIMEIRO IMPERADOR havia
feito, para inspecionar o império, várias viagens:
como ele] o imperador Wou viajou (l13 a.C.) e
(como ele), enviou (em 113) uma expedição à pro-
cura das ilhas bem-aventuradas, onde habitam os
imortais. Uma feiticeira (em 113) descobriu -
uma investigação oficial provou que não se trata-
va de um embuste - uma caldeira enterrada no
chão. O imperador Wou foi, respeitosamente, ao
encontro do CALDEIRÃO maravilhoso. Então, no
ar, formando como que um dossel, apareceu um
CLARÃO AMARELO. [Outrora Houang-ti (O PRI-
MEIRO SOBERANO) que passou a vida a guerrear
e a viajar (ele foi, no Extremo Oeste, até o monte
K'ong.t'ong: em 113, o imperador Wou visitou o
monte K'ong-t'ong) depois de ter celebrado em
Yong o sacrifício KIAO (o imperador Wou, em 113,
celebrou, em Yong, o sacrifício KIAO) achou talos
de aquiléia mágica e um CALDEIRÃO (ou então fun-
diu uma caldeira), subindo, depois, para o céu num
DRAGÃO e se tornando imortal. Sua apoteose
ocorreu num ano em que o solstício de inverno
coincidia com o primeiro dia do primeiro mês.]
Em 113 o solstício de inverno caía no dia do pri-
meiro mês. No dia do solstício, o imperador Wou
fez, segundo os ritos de Yong, o sacrifício KIAO;
seu assistente proclamou a fórmula: "O primeiro
do mês tornou a ser o primeiro do mês! A série
esgotou-se! Ela recomeça!" O imperador Wou não
pôde fazer, em 113, o sacrifício FONG, porque o
rio transbordou e as colheitas não produziram:
sinais nefastos. Ele o celebrou em 110, sobre o
T'ai chan, acompanhado por um único oficial. Este
oficial teve, pouco depois, uma morte misteriosa.
O sacrifício do imperador Wou havia sido bem
recebido. No momento das cerimônias preparató-
rias "houve, durante a noite, como que um clarão
e, de dia, uma claridade branca elevou-se do meio
da colina". Em 113, no momento do sacrifício
KIAO, feito segundo os ritos de YONG [e nas
mesmas condições de tempo que haviam outro-
ra, favorecido o sacrifício do PRIMEIRO SOBE-
RANO (a morte de um personagem misterioso
é relatada ao mesmo tempo que o sacrifício que
preparou a apoteose de Houang-ti, o SOBERANO
AMARELO)], "houve, durante a noite, uma clari-
dade maravilhosa e, quando o dia surgiu, um
CLARÃO AMARELO subiu ao céu". O imperador
Wou, para fazer o sacrifício, havia vestido trajes
amarelos. O calendário novo só foi proclamado
em 104; de acordo com ele, foi escolhida a cor
dinástica: a cor amarela(70).

A claridade maravilhosa e o clarão ama-
relo, aparecidos em l13, foram vistos por Sseu-
ma Tan, analista e astrólogo oficial (71). Sseu-ma
Tan, que concebeu a idéia das Memórias históri-
cas, é pai de Sseu-ma Ts'ien que as redigiu e que
participou do trabalho da transformação do calen-
dário. Sabe-se que as Memórias históricas colo-
cam no início da história chinesa Houang-ti, o
Soberano amarelo. - O historiador Sseu-ma
Ts'ien, que viveu no momento em que a História
e o Tempo recomeçavam, fixou os métodos da
história chinesa. Todos os seus sucessores o
imitaram. O mesmo espírito não cessou de inspi-
rar a seleção dos fatos, os processos de exposi-
ção, o sistema de interpretação filosófica.

Pararemos aqui a análise da história tradi-
cional. Com o reinado do imperador Wou, a his-
tória recomeça(72). As dinastias se constituem,
atingem seu apogeu, declinam, desaparecem: a
história assinala as mesmas causas para os mes-
mos efeitos. "Yao e Chouen praticaram a Virtu-
de: seus súditos ficaram humanos e viveram até
a velhice. O último dos Hia, o último dos Yin
praticaram a violência: seus súditos ficaram bar-
baros e morreram prematuramente... Quando os
reis desejam desempenhar seu papel, eles pro-
curam no Céu os princípios de sua conduta(73)."
O príncipe recebe seu poder do Céu: a história,
constatando o êxito dos soberanos e das dinas-
tias, avalia exatamente seu direito de reinar. Ela
tem a função de julgar sua virtude. Seu julgamen-
to, baseado em princípios indiscutíveis, é perfei-
tamente objetivo: julgamento e explicação se con-
fundem, pois a história é, ao mesmo tempo, uma
moral e uma física. Ela se dedica à observação de
recorrências infalíveis em ciclos sucessivos. Ela
só conhece os heróis típicos e os acontecimentos
estereotipados. Na verdade, ela se ocupa apenas
com um personagem: o soberano, o Homem Uni-
co, cuja Virtude expressa um momento do Tempo.
A história não difere de um calendário ilustrado
por imagens genéricas. Desse modo, nasceu das
especulações sobre o calendário.

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