Conclusões

Para concluir este livro, eu deveria tentar
definir o espírito dos costumes chineses.
Mas isto é possível antes de eu ter
apresentado um esboço da história das
idéias? Esta conclusão terá seu lugar no
fim do volume que completará este aqui.
Entretanto, no presente volume, em que a história so-
cial ocupa o lugar de destaque, insistiu-se a respeito
do que a disciplina de vida própria dos Chineses pode
ter de característico. Sua apresentação isolada corre
o risco de causar uma impressão que, sem dúvida,
deve ser imediatamente corrigida.
A ausência de intimidade é um traço dominan-
te da organização familiar; marcou, primeiramente,
as relações entre maridos e mulheres e entre pais e
filhos; parece ter-se tornado a regra para todas as
relações de família; dominada pela idéia do respeito,
a moral doméstica, finalmente, confunde-se com um
cerimonial da vida de família. Por outro lado, as rela-
ções da sociedade animadas, inicialmente, pelo espí-
rito de justa ou pelo amor ao prestígio, acabam sendo
regidas por um gosto exclusivo pelo decoro: a moral
cívica, orientada para um ideal de polidez pretensio-
sa, parece visar, unicamente, à organização, entre os
homens, de um sistema de relações protocolares, fi-
xando os gestos que convêm a cada idade, a cada
sexo, a cada condição social, a cada situação de fato.
Enfim, na vida política, em que se preconiza o prin-
cípio do governo pela história, parece que se pretende
satisfazer tudo apenas por intermédio das virtudes
de um conformismo tradicionalista. Assim, no momen-
to em que, no início da era imperial, a civilização
chinesa parece atingir um ponto de maturidade, tudo
contribui para tornar evidente o reinado do formalismo.
Mas, qual é a importância real deste sistema
de convenções arcaizantes, com o qual se pretende
reger a vida inteira da nação? É verdade, como se
poderia ser tentado a pensar, que ele contribuiu para
empobecer e para tornar árida a vida moral dos Chi-
neses? É mesmo certo que tenha produzido determi-
nados efeitos nas classes oficiais, deliberadamente
consagradas ao culto do conformismo, como sendo a
única disciplina capaz de formar o homem honesto?
Deve-se, a este respeito, formar uma opinião, lendo.
se apenas as obras de propaganda e as biografias de
homens ilustres? Mesmo sabendo que estas derivam
do elogio fúnebre e que haveria muita ingenuidade
em se aceitar o tom de uma pregação como a nota
justa, é difícil evitar a sensação de que a evolução
dos costumes fez-se na China por. Intermédio da des-
secação progressiva e que, na vida normal, sob a
força crescente de uma etiqueta convencional, a es-
pontaneidade reduziu-se a nada. Somente a história
do pensamento pode demonstrar que, pelo contrário,
a aceitação pelas pessoas honestas de uma atitude
conformista deriva, em parte, da esperança de con-
servar, para a vida do espírito, uma espécie de inde-
pendência resguardada e de plasticidade profunda.
Mas podemos indicar, desde já, alguns fatos
que serão suficientes para marcar os limites do ideal
formalista. - Já assinalamos o papel do misticismo
nos meios cortesãos. Seu papel nas massas popula-
res não é menos importante. Não é muito evidente
porque os Anais dinásticos só se interessam pela vida
da corte e pelos altos personagens. A grande crise
mística do ano 3 (notada, acidentalmente, por um epi-
sódio da vida da corte) não foi, com certeza, uma
crise isolada: a seu respeito, possuímos poucos de-
talhes, mas todos mostram que, nos meios campo-
neses, conservavam-se, com um frescor perfeito, cer-
tos ideais místicos que remontam às mais antigas
eras. - Por outro lado, durante o período agitado dos
Três Reinos, o velho espírito feudal parece reencon-
trar sua força: presume-se que nos grandes domínios
rurais criados na época dos Han, mantiveram-se hábi-
tos de vida e uma disciplina de costumes menos afas-
tados, sem dúvida, da antiga moral feudal do que o
ideal arcaizante preconizado pelo ensino ortodoxo. A
história recusou-se a registrar os fatos e não sabemos
nada sobre a permanência dos elementos feudais da
vida social. - A história, enfim, informa muito pouco
sobre a evolução dos costumes nos novos centros
urbanos (as classes oficiais postas à parte); nesses
centros, entretanto, criou-se uma moral própria dos
comerciantes, caracterizada, parece, pelo espírito de
associação e pelos acordos eqüitativos. Pode-se pre-
sumir que sua influência sobre a vida chinesa não foi
negligenciável: entretanto, a respeito do período an-
tigo, não sabemos quase nada sobre a vida real das
classes industriais, sobre o papel das cidades na
economia geral, sobre a evolução jurídica e moral dos
centros urbanos. Seria extraordinário se eles não ti-
vessem elaborado ideais eficazes e se sua atividade
estivesse reduzida à prática da etiqueta ortodoxa. Não
se deve subestimar a ação das classes oficiais. En-
tretanto, terminando este livro, convém assinalar que
a história, devido a uma tradição aristocrática, deixou
de registrar os movimentos populares. Com a era im-
perial, que encerra a história da China antiga, a civi-
lização chinesa chega, certamente, à maturidade, mas,
embora os defensores da ortodoxia quisessem dotá-la
de uma dignidade imóvel, definindo com um rigor
crescente seus ideais tradicionais, ela continua reple-
ta de forças novas.

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