Cidade Senhorial

No decurso de período feudal, cuja du-
ração foi longa, as diferentes cheferias
conheceram sortes diversas. Algumas
permaneceram muito humildes, conser-
vando um aspecto totalmente rural. Em
certos domínios minúsculos, como, por
exemplo, o de Yu, em Chan-tong, o senhor (em 513) ia
pessoalmente presidir aos trabalhos dos campos (508).
Esta era (parece, pelo menos, ao se ler o Che king) a
principal das funções do chefe (509). A vida religiosa,
a vida pública reduziam-se a grandes festas rústicas.
Festejava-se Chen-nong, o Lavrador divino, deus dos
fogos de arroteamento e purificador das colheitas.
Festejavam-se, ainda, os espíritos que animam as qua-
tro estações, presidindo às quatro direções cardeais.
os do norte (inverno) e do sul (verão), como eram con-
siderados os mais importantes, recebiam um boi pre-
to (água) e um boi ruço (fogo). O dualismo reinava
tanto na sociedade como na mente. O chefe tinha dois
ajudantes, o inspetor dos campos e o guarda florestal.
Nos tempos míticos, Yu, o Grande, teve por compa-
nheiros K'i, o Senhor das colheitas (Heou-tsi: este tí-
tulo foi conservado, como título real, pelos Tcheou que
ligava sua genealogia a K'i), e Yi, o domador de feras,
grande guarda florestal, que fazia trabalhar sob suas
ordens quatro acólitos: Pinheiro, Tigre, Urso e Urso
rajado. Sabe-se que Yi, o Florestal, foi sacrificado
pelo filho de Yu, para pôr fim ao luto de seu pai (510).
Nas cortes senhoriais, o Grande Florestal, chefe das
caças do príncipe, estava encarregado de fazer voltar
e de fixar a alma superior (houen), a alma-sopro de
seu senhor defunto: esta alma, quando não era fixada
pelo culto, poderia ir incorporar-se num animal feroz
nas florestas. Caçador de Animais e de Bárbaros, o
Florestal possuía privilégios terríveis: encarregado de
executar, em caso de crime, os parentes do príncipe,
ele devia, em caso de infortúnio, assumir a desgraça
e as faltas(511). Diante deste predecessor longínquo
dos ministros da Justiça e da Guerra, o Intendente dos
campos exercia uma autoridade de aspecto mais pací-
fico, embora esta comprometesse, talvez gravemente,
sua responsabilidade. Ele parece desempenhar, no
princípio do luto, um papel semelhante àquele que ca-
be, na época de seu encerramento, ao Intendente das
florestas. Encarregado de colocar a bandeira do chefe
defunto sobre uma efígie grosseira recobrindo duas
penelas de arroz, ele tinha, sem dúvida, a missão de
presidir aos ritos que permitem ao cadáver decompor-
se e à alma inferior (p'o) operar sua volta entre as
forças santas de onde o solo tira sua fertilidade (512).
Em seus humildes servidores, o chefe rural descarre-
gava-se dos mais pesados deveres de expiação que
se impõem a um senhor.

No fim do período feudal, apareceram grandes
domínios. Seus chefes, que a história avilta para seu
descrédito, são apresentados como tiranos. Em sua
corte, sob a influência dos legisladores, a idéia de Es-
tado elabora-se vagamente, enquanto que se esboça um
sistema administrativo. Os pontentados, reinando num
grande território, procuram basear seus poderes em
novos prestígios. Mesmo quando aparentavam se preo-
cupar somente em cercar sua pessoa com uma glória
de apoteose, sente-se, em seu próprio orgulho, a idéia
de que o poder supremo é feito de expiações e de de-
dicações. Os ministros poderosos, que são seus favo-
ritos, conservam um ar de vítimas expiatórias que os
aproximam dos humildes intendentes de outrora.
Mas, se acreditarmos nos rituais e nas crôni-
cas, entre o tempo das cheferias rurais e a época das
tiranias (Reinos combatentes) existiu um longo pe-
ríodo durante o qual a China conheceu uma ordem
estável e regulamentada. É muito possível que a or-
dem feudal tenha sido singularmente instável. Há,
seguramente, muita utopia histórica nas compilações
de regulamentos que pretendem descrever os costu-
mes realmente praticados nos domínios feudais. En-
tretanto, ao lado das cheferias que conservaram um
caráter propriamente rural, e dos Estados poderosos
que os tiranos tentavam edificar, parece que domínios
de um tipo estritamente feudal ocuparam um lugar
importante. A hierarquia ali estava relativamente fi-
xada, os direitos hereditários eram reconhecidos. Os
cargos de embaixador, de justiceiro, de analista per-
maneciam no mesmo grupo de parentes. Entre os do-
mínios que, como as famílias de vassalos, procuram
sempre melhorar sua graduação, mantinha-se uma cer-
ta ordem protocolar (513). Nos costumes feudais não se
deve ver, como o fizeram os feudalistas, que, na época
dos Han, redigiram o Tcheou li, um sistema jurídico
fixo nascido de uma carta constitucional. Mas o ideal
que inspirou os feudalistas e guiou os cronistas em
suas tentativas de reconstituição histórica não é intei-
ramente uma invenção. Ele se formou nas cortes se-
nhoriais estabelecidas em pequenas aldeias que pare-
ciam assemelhar-se, às vezes, a burgos, às vezes, à
povoações. Ali se agrupavam, em redor de um senhor
hereditário, algumas famílias de vassalos que leva-
vam uma vida nobre. Seus chefes estavam na frente
de um grupo militarmente organizado e viviam do tra-
balho de um grupo subordinado de camponeses deno-
minados de plebeus ou vilãos. De seu modo de vida,
na corte ou no exército, e de sua disciplina doméstica
deriva a moral que mais tarde devia se impor ao con-
junto das classes dirigentes da nação. É a moral dos
homens honestos que foram, inicialmente, gentis-
homens (kiun-tseu) vivendo, na corte de um senhor,
uma vida dominada inteiramente pelo culto da honra
e da etiqueta.


A cidade

Alguns versos do Che king dão uma idéia
do que era a fundação de uma cidade.
O fundador, revestido de todas as suas
jóias, jades, pedras preciosas, e trazen-
do uma espada magnífica, procede, pri-
meiramente, a uma inspeção do país.
A fim de fixar a orientação, ele observa as sombras.
Examina as vertentes ensolaradas e sombrias, o yang
e o yin de região, para saber como se repartem os prin-
cípios que constituem o mundo. Toma conhecimento,
enfim, da direção das águas correntes. É ele que deve
reconhecer o valor religioso do local (o que se chama-
rá, mais tarde, de fong-chouei). Consulta, enfim, a tar-
taruga, para constatar se seus cálculos são bons (514).
Quando o local é escolhido, ó fundador dá or-
dem para construir. Ele espera, para isto, o momento
propicio: aquele em que a constelação Ting (Pégaso?)
culmina (durante a tarde?), isto é, no décimo mês do
ano.

Convém, com efeito, que a estação dos traba-
lhos rústicos esteja acabada. Somente então se pode
começar as construções. É preciso que elas esteja
terminadas no solstício de inverno. A ordem pela qual
se deve proceder é fixa. Começa-se levantando a
muralhas (miao). Toma-se o cuidado de plantar, a
mesmo tempo, as árvores (aveleiras, castanheiros).
cujos frutos ou cujas bagas serão oferecidos aos an-
cestrais, e aquelas (paulownias) que servem, ao mes-
mo tempo, para fazer os caixões mortuários e as cai-
xas sonoras (515). "Na antiguidade...quando se traçava
o plano da capital, não se deixava de escolher a eleva-
ção principal do reino para constituí-la em templo
ancestral, nem de escolher as árvores de folhagem
mais bela para tirar a madeira sagrada (516)." Depois
que estão terminados os muros, os altares, as planta-
ções que devem conferir à cidade sua santidade, edi-
fica-se o palácio e as casas.

A dignidade de um senhor e a de sua cidade
estão nas muralhas da cidade. Estas são feitas de
terra batida quando a cidade não contém um Templo
ancestral da linhagem do príncipe (tsong-miao): ela
não merece então o titulo de tsong: chamam-na de yi,
povoação. Uma verdadeira cidade possui muralhas de
alvenaria: pode então ser chamada de tou, capital (517).
As muralhas eram construídas graças às corvéias,
fornecidas pelos lavradores. Estes trabalhavam ao
som do tambor, em fila, sob as ordens de um nobre:
este último munia-se de um bastão a fim de excitar
os ânimos, a fim de, sobretudo, reprimir as palavras
de mau augúrio. Os operários trabalhavam cantando:
os descontentes podiam, com um verso mau, lançar
um sortilégio nas muralhas(518). Os trabalhadores le-
vavam a terra em cestos. Eles a amontoavam entre as
tábuas, que, sustentadas por estacas, colocadas de lado
e alinhadas, formavam uma longa caixa. Eles batiam
com cuidado a primeira camada, antes de assentar uma
segunda fileira de pedras (519). Se eles não trabalhas-
sem conscienciosamente, as chuvas, escavando bre-
chas nos muros, abririam a cidade às investidas (520).
O maior trabalho era a construção das portas. Cerca-
das de fossos, munidas de torres, guarnecidas de gra-
des pontiagudas, elas formavam uma verdadeira praça
de armas, uma espécie de fortificação de redentes,
que era o grande reduto da defesa. Eram elas que su-
portavam o ataque dos invasores. Eram confiadas a
um guarda que nunca devia abri-las antes que os
galos, cantando, anunciassem a aurora. A guarda era
confiada a um vassalo experimentado e consagrado a
sua função por uma espécie de marca: cortavam-lhe
os pés. Ele não devia, em caso algum, abandonar seu
posto. De resto, salvo para um inimigo determinado,
as portas eram protegidas por sua própria santidade.
Deviam sua consagração às cabeças dos derrotados,
que se tinha o cuidado de enterrar no local. Aquele
que, com uma cabeça cortada, trazia um acréscimo
de santidade a uma porta, merecia tomar-se seu guar-
dião: ele percebia, em seu proveito, os direitos de
Passagem(521). Sobre as torres das portas, expunha-
se, por bravata, a cabeça do traidor que houvesse de-
sejado ver o inimigo penetrar na cidade. Ainda por
bravata, expunha-se, sobre as muralhas, os cadáveres
capturados e se suspendiam, nas portas, os troféus,
as armas tomadas a um chefe rival e, também, sem
dúvida, as bandeiras conquistadas que, depois de um
combate em campo aberto, eram içadas, imediata-
mente, nas portas das tendas. Em compensação, uma
cidade sentia-se capturada desde que o inimigo tives-
se assentado, em seus muros, o estandarte de seu
chefe. A divindade da cidade acha-se nas portas e nas
muralhas (522).

os deuses da cidade receberam outras mora-
das: o altar do Solo, o Templo ancestral. O altar do
Solo (523) é constituído, como as muralhas mais humil-
des, por uma simples elevação de terra batida. Esta
elevação, que é quadrada (pois a terra é quadrada e,
em princípio, a cidade também o é) deve ser recober-
ta, os rituais assim o ordenam, com terra de uma só
cor; admite-se, com efeito, que todo feudo é possuído
por uma investidura; estase faz per glebam; o bene-
ficiário recebe terra de uma cor conforme o oriente
de seu feudo; dela deve se servir para levantar o altar
do Solo. Na verdade (viu-se por uma citação de Mei-
ti), a colina sagrada preexiste, recoberta de árvores,
à fundação da cidade, e mesmo, é em razão dela que
se escolhe o local. Os altares do Solo são assinala-
dos por uma árvore santa ou, pelo menos, por uma ta-
buleta de madeira. Esta tabuleta, tirada (em teoria)
de uma árvore cuja essência deve ser conforme o
oriente do feudo, é a parte central e a mais divina do
altar. O chefe leva-a em sua bagagem quando parte
para a guerra; é diante dela que sacrifica vencidos ou
culpados. Afirma-se que, em certas regiões, faziam-
na, não de madeira, mas de pedra. A tabuleta, árvore,
pedra, estela ou estaca, parece ter servido, primiti-
vamente, para a consagração de troféus, homens e
animais. Atavam-nos a um poste, a fim de oferecê-los
aos deuses da terra natal. Enquanto o altar do Solo
permaneceu tosco e de aspecto bárbaro, o Templo dos
ancestrais acabou por se tomar magnífico. No entan-
to, ele também não se diferenciava, no princípio, da
elevação arborizada que fora escolhida para ser o co-
ração da cidade. Mesmo quando se transformou num
edifício esplêndido, era na elevação cercada pelas
muralhas que se iam buscar as árvores destinadas a
escorá-lo e a cobri-lo. As paredes eram de taipa. Todo
luxo estava no madeiramento. "Subamos na montanha
King - bosque de pinheiros e de cedros! - ora va-
mos! cortemos e transportemos - esquadremos e
serremos certo! - os caibros de pinheiro são longos
- as altas colunas numerosas!" O arquiteto Hi Sseu
construiu, em Lou (entre 658 e 626), um templo que
ficou célebre, pois a força das colunas é o compri-
mento dos caibros tinham permitido dar proporções
amplas às salas, vastas e longas. Procuraram-se, para
os telhados, linhas elegantes "como um pássaro com
penas novas". Recurvaram-se os bordos do telhado
"como as asas de um faisão voando" (524). O revesti-
mento de madeira foi pintado cuidadosamente. Todo
este luxo, entretanto, não datava de muito tempo. Os
conservadores escandalizaram-se quando (em 669 a.C.)
se atreveu, em Lou, a esculpir os caibros e a pintar de
vermelho as colunas de um Templo ancestral. Este,
segundo as velhas regras, só deveria ter um telhado
de colmo(525). Deveria ser construído com leveza su-
ficiente para ser demolido sem pesar, assim que o
defunto deixasse de ter direitos a sacrifícios regula-
res. Mas os senhores, quando se tomaram chefes de
grandes Estados, quiseram possuir ancestrais eternos.
Eles não demoliam mais os templos dos antepassa-
dos que se extinguiam. Era preciso que o Céu, ele
mesmo, se encarregasse disto, pelo raio ou pelo fo-
go (528). Outrora, uma humilde construção de terra era
considerada suficiente para abrigar (com os ances-
trais que, sob a forma de serpentes, por exemplo,
vinham todos tomar parte nos lutos familiares (527) o
pequeno número de tabuletas necessárias para pro-
piciar os últimos mortos - os únicos qualificados
para receber oferendas pessoais. Como para os deu-
ses do Solo, na verdade, estas tabuletas de madeira
eram o centro das cerimônias do culto. Não havia
necessidade, para conter todas elas, de mais do que
um pequeno cofre de pedra que podia ser fechado e
carregado num saco se houvesse necessidade de se
expatriar (528). O chefe levava para a guerra, com a ta-
buleta do Solo, as tabuletas de seus antepassados.
Diante destas últimas, ele concedia as recompensas.
Mas as sanções positivas e negativas eram distribui-
das numa mesma cerimônia, a do triunfo. Os deuses
agrários e os ancestrais acabaram por compartilhar
atributos outrora indivisíveis. Eles nunca perderam a
ligação total. Nas cidades, construídas de acordo com
o plano dos rituais, devia haver, entre o altar do Solo
e o Templo ancestral, perto deste último e servindo-
lhe de anteparo, o altar de um deus do Solo, particu-
larmente terrível e respeitado. Era a ele que as danças
triunfais conduziam, troféu supremo, o Chefe venci-
do e destinado ao sacrifício. Ora, a vítima, embora
fosse sacrificada ao deus do Solo, devia ser consu-
mida pelos Ancestrais. Sem dúvida, o altar dos Ances-
trais e o altar. Do Solo eram, outrora, um mesmo altar.
A tabuleta do Solo que, mais tarde devia servir de
anteparo ao templo ancestral, talvez fosse, inicial.
mente, incluída na porta deste último(529). Pode ser
que ela não se diferenciasse, primitivamente, do poste
central desta porta. Ali se fazia a consagração dos
troféus. Talvez, mesmo, este poste santo tivesse sido,
inicialmente, o da porta das cidades - a madeira sa-
grada das portas (como a Floresta das Amoreiras,
para Song) não é menos santa do que a elevação arbo-
rizada englobada nos muros - numa época em que a
cidade se confundia com a morada do Chefe e em
que esta não era ainda mais do que um burgo.
A residência senhorial nos é apresentada (por
textos líricos) como uma moradia imensa e faustosa.
"Sucessor de antepassados e de antepassadas - meu
palácio tem cinco mil pés - janelas ao sul, ao poen-
te! Ali habito, ali moro - ali festejo e delibero (530)!"
E o poeta exalta o átrio de audiências, perfeitamente
nivelado, cercado por colunas muito altas, as salas
que são vastas e profundas ou então claras e ilumi-
nadas pelo sol, os telhados com linhas leves e, sobre-
tudo, as muralhas compactas que os ratos e os pás-
saros não poderão furar como as de uma choupana.
Afirma-se que, depois de 606, existiam palácios de
príncipes cujas paredes eram decoradas com pintu-
ras (531). Ouando, com muito contra-senso, transforma-
ram-se em fatos históricos as lendas do ciclo de
Cheou-sin, atribuiu-se a este rei de perdição um palá-
cio feérico, com salas ornamentadas com marfim e
Portas guarnecidas com jade. A imaginação de seme-
lhantes magnificências data, mais ou menos, do pe-
ríodo dos Reinos combatentes. Alguns grandes poten-
tados rivalizaram-se então em suntuosidade. Em 541
a.C., todo mundo censurou o duque de Lou, quando
este abandonou a velha morada de seus pais e cons-
truiu um palácio no gênero dos palácios de Tch'ou.
Viu-se, neste ato, uma espécie de negação da pátria,
uma verdadeira traição que uma morte nefasta devia
expiar: "Se o príncipe não morrer em Tch'ou, certa-
mente morrerá nesse palácio (532)." É possível que os
modos de construção não tenham sido os mesmos
em todos os lugares. Parece, entretanto, que em todas
as regiões, as residências dos príncipes eram, geral-
mente, moradias humildes, edificadas depressa e rapi-
damente demolidas. Em 502, por exemplo, um alto per-
sonagem fez construir para seu filho, ao lado de seu
próprio palácio, uma casa de terra batida(533). Para
fazer passar um enterro, não se hesitava em jogar
abaixo habitações inteiras (534). Uma velha regra ritual
(explicada pela constituição da família) exigia que os
filhos nunca tivessem a mesma morada de seus pais:
pais e filhos residiam (por gerações alternadas) à
direita ou à esquerda de uma construção que passava
por ter sido a casa do fundador de sua linhagem. A
mesma disposição valia para as capelas do Templo
ancestral, consagradas aos antepassados mais recen-
tes. Todas estas moradias efêmeras, cercadas de mu-
retas baixas e separadas por ruelas estreitas, com-
primiam-se em redor de uma espécie de torreão. Nas
épocas de revoltas e de vinganças (por exemplo, em
Tsin, em 549) fazem-nos ver assaltantes que pulavam
os muros baixos. Assim que sobem na porta do palá-
cio, podem fazer chover setas no quarto do príncipe;
mas uma torre fortificada serve de reduto aos defen-
sores. Em T'si sob o reinado de um príncipe céle-
bre por seu fausto, o ministro principal reside num
bairro inferior, onde se acha o mercado. Ele habita
"uma casa baixa, estreita, exposta à poeira". O prín-
cípe é o único a possuir "os terrenos bem iluminados,
elevados e secos". Construída num ponto elevado e
flanqueada por torres, a residência senhorial surge
como uma aldeia fortificada, dominando os arrabaldes
inferiores de um mercado (535).

O burgo do chefe, ampliando-se, acabou por se
tomar uma cidade. As muralhas das cidades cercam,
com o castelo do senhor, as residências das grandes
famílias de vassalos. Estas últimas possuem também
seu torreão cercado por muros com parapeitos(536).
As cidades, mesmo nos grandes Estados, não foram,
inicialmente, mais do que um amontoado de constru-
ções comprimidas umas contra as outras. Também a
primeira intenção do urbanismo nascente foi a de
evitar os perigos de incêndio. Em Song, que acabava
de ser queimada em parte, obrigaram-se (em 563) os
proprietários de grandes moradias a rebocar as mura-
lhas e decidiu-se demolir todas as pequenas habita-
ções (537). Era preciso obter um pouco de ar, pois os
depósitos senhoriais ou particulares, entrepostos de
arquivos, arsenais, cavalariças, templos, haréns acu-
mulavam-se em desordem. Do alto de sua torre, de
onde se introduzia nos pequenos pátios das casas vi-
zinhas, cada um podia avistar a mulher de um rival,
estabelecer relações com ela ou ainda tramar para lhe
roubar a bela cabeleira(538). Esta promiscuidade que
se explica como sobrevivência do comunismo domés-
tico, pôde durar enquanto os habitantes de uma cida-
de se consideraram membros de uma mesma família.
Em 634, os habitantes de Yang-fan, não querendo se
submeter a um senhor do qual não se sentiam paren-
tes, resolveram se expatriar em bloco (539). Entretanto,
a cidade, desde que mereça verdadeiramente este
nome, resulta de um sinecismo, de um tratado (meng)
que juram, sacrificando um boi vermelho, os chefes de
algumas famílias (sing) e o senhor ao qual se decla-
ram enfeudar. O senhor e seus descendentes têm o
encargo de presidir aos sacrifícios da cidade; os che-
fes de família fornecem as vítimas e recebem, em
troca, cargos hereditários (540). A cidade, desde então,
começa a se diferenciar do burgo. Ela é dividida em
bairros, cujos chefes colocam-se sob a autoridade do
chefe do distrito da esquerda ou do chefe do distrito
da direita(541). Estes últimos são também os chefes
das legiões da esquerda ou da direita. Sabe-se que a
legião central é a do príncipe. A organização da ci-
dade é tripartida como a do exército. A cidade tende
a imitar a disposição dos acampamentos (a qual, de
resto, confunde-se com a das culturas pois os cam-
pos são cultivados em quadrados). A cidade quadrada
é atravessada por avenidas retas que terminam em
portas cardeais. As cidades deste tipo apresentam-se
como estabelecimentos novos. Elas são edificadas
depois de um êxodo ou de uma conquista. Elas apare-
cem, ao contrário dos burgos, como cidades de planí-
cie. São construídas em terrenos mal preparados para
o habitat humano e onde a água aflora ainda à super-
fície(542). Elas devem, no conjunto, datar da era dos
primeiros grandes arroteamentos. Elas parecem ter
sido levantadas nas regiões conquistadas da natureza
e dos Bárbaros. No século Vll, os progressos da pre-
paração da terra ainda não se acompanhavam de um
aumento de população suficiente para que se pudesse
fornecer habitantes às cidades muradas, edificadas
em grande número, para conter a pressão dos Bárba-
ros. Agrícolas e militares, acampamentos permanen-
tes para servir de residência aos guerreiros e para
abrigar, em caso de necessidade, toda a população
dos lavradores, estas cidades-refúgios são cercadas
por muros duplos. Um é precisamente o muro da ci-
dade (kouo), o outro cerca os arredores, isto é, todas
as culturas, a região (kouo) inteira(543). Mas as cul-
turas penetram até a cidade, que deve se bastar em
caso de cerco. Aos burgos colocados em regiões altas,
estreitos, e de aspecto confuso, sucedem-se cidades
espaçosas e arejadas, cuja arquitetura pode ser reti-
línea e que são construídas em linha reta(544). Mas,
assim como havia um bairro mercantil junto às mura-
lhas de um burgo, levantam-se, também, subúrbios re-
servados aos comerciantes e aos artesãos nos cruza-
mentos dos caminhos que saem das portas da cidade
quadrada(545). A cidade, agrícola e militar, é também
um centro de trocas. Na constituição dessas novas ci-
dades, preside um sinecismo de um gênero particular.
Quando quer fundar uma cidade, depois de ter des-
bravado a mata, o senhor associa-se a um mercador.
Todos os dois juram (meng) um tratado de aliança
(sin), para si mesmos e para seus descendentes. Os
comerciantes não se revoltarão contra a autoridade
senhorial, mas o chefe não lhes comprará nada à for-
ça. "Se eles têm lucro vendendo objetos preciosos",
o senhor "não tomará conhecimento" (546). Desde en-
tão, face ao poder do príncipe, levanta-se o poder do
preboste dos mercadores. Artesãos e negociantes
exercem suas profissões por direito hereditário. O
preboste que está a sua frente, guarda, de pai para
filho, sua função, mas recebe a investidura do prín-
cipe (547). Ele tem o direito e o dever de participar das
embaixadas que o senhor envia às cortes vizinhas.
Mas, em tempo de guerra, comerciantes e artesãos
não são obrigados, como os lavradores, a tomar armas
sob a direção do senhor e, em certas ocasiões (por
exemplo, em Wei, em 502), os nobres devem negociar
com eles, para que se associem a seus empreendi-
mentos militares(548). As pessoas das corporações
acolhidas nos arrabaldes não são, como os campone-
ses que ficaram nos povoados, ligados por uma soli-
dariedade total aos guerreiros que habitam na cidade.
Abrigados atrás das muralhas sagradas da ci-
dade, o senhor e seus fiéis vivem nobremente. Na
cidade ideal (conforme o plano dos rituais), a residên-
cia senhorial levanta-se bem no centro. Quadrada co-
mo a cidade e cercada de muros, ela é, por si própria,
uma cidade. Suas muralhas devem ser muito altas, sua
porta, bela e majestosa. Ostenta, sobre o terreno pla-
no, bem espalhado, suas construções térreas coloca-
das em aterros altos. Seu plano foi feito em linha
reta. Cada edifício tem seu lugar determinado. Bem
no meio, a sala de audiências abre-se para uma aveni-
da que, passando entre o altar do Solo e o Templo
ancestral, dirige-se, em linha reta, para a porta do sul.
Por esta avenida chega o cortejo de vassalos, cuja
homenagem o príncipe recebe, voltado para o sul.
Como a residência do príncipe, as moradias das gran-
des famílias são, cada qual, uma cidade, uma cidade
agrupada em redor da grande sala, onde o chefe da
família recebe as homenagens dos parentes, voltado
para o sul. E, em todas as pequenas cidades muradas
que enchem a cidade, elevam-se ainda muralhas que
cercam a habitação de cada um dos chefes de um
pequeno grupo doméstico, pois cada filho de família,
assim que se casa, deve possuir, no fundo de seu
átrio fechado, uma sala de recepção. Este edifício é
sempre concebido no mesmo tipo. Por trás, há uma
parede com pequenas portas. Penetra-se, por elas, em
compartimentos longos e estreitos que são inteira-
mente fechados por paredes; são os compartimentos
da habitação. À direita e à esquerda, duas construções
laterais avançam até o átrio. Cercada pela parede do
fundo e pelas duas construções laterais, abrigada por
um grande telhado cuja viga central repousa em duas
colunas isoladas, a sala de recepções é inteiramente
aberta em direção do sul, e forma uma espécie de va-
randa elevada, cujo acesso é feito por duas escadarias
em ângulo que saem do átrio. A do leste é reservada
ao dono da casa, que, colocando-se um pouco atrás
nos degraus, recebe em sua moradia voltado para o
sul, como um príncipe. O chefe do menor dos grupos
domésticos tem em sua casa um altar dos Ancestrais
e um deus do Solo. A porta que conduz a seu átrio
de honra não é menos sagrada do que uma porta de
cidade. Ele é, em sua casa, um senhor e um chefe.
Mas, quando é recebido no átrio do chefe de família
ou no do senhor da cidade, ele deve conservar-se em-
baixo dos degraus, voltado para o norte, em postura
de vassalo. Na cidade grande, cada uma das moradias
particulares não é uma construção ligada a um cas-
telo ou uma casa unida a outras casas, mas sim uma
residência senhorial. E todas essas residências são
cidades completas em si mesmas. Contudo, todas
estão englobadas nos muros senhoriais. Do mesmo
modo, seus diversos possuidores são unidos pelo vín-
culo de sua dependência em relação ao senhor co-
mum, dono da cidade e de seus muros. Outrora, de-
pois que o Fundador acabou de construir as muralhas,
depois que distribuiu, à direita e à esquerda, as resi-
dências e levantou para si mesmo a sua grande sala,
ele convocava todos os chefes de família que estives-
sem ligados a ele por juramento e que "congregava
para obter a glória". Ele lhes preparava esteiras e
bancos. Oferecia-lhes, para uma comunhão inicial, um
grande banquete. "Ele tomou um porco para o sacri-
fício - despejou o vinho nas cabaças - ele os fez
comer e ele os fez beber: - Senhor de vassalos, Che-
fe da parentela! ", enquanto que eles todos, diante do
senhor, "conservavam-se corteses e graves"(549). A
vida da corte, a vida nobre estavam inauguradas.


O senhor

Segundo as teorias que os feudalistas,
mais tarde, elaboraram, o senhor é aque-
le que, tendo recebido a investidura do
rei, senhor único de todo o país chinês,
é encarregado de governar um feudo.
Ele o dirige por delegação do Filho do
Céu, fazendo observar os regulamentos por este pro-
mulgados. Em cada feudo, a dignidade senhorial per-
tence à família. Entretanto, com a morte do detentor
do poder, seu sucessor só reveste as insígnias de sua
dignidade depois de ter recebido a investidura do
rei (550). Suserano de todos os senhores da China, o
rei traz, em suas vestimentas, doze insígnias emble-
máticas. As três primeiras (sol, lua, constelação) são-
lhe estritamente reservadas. O direito de usar as
outras (ou antes, um certo número delas) é concedido
aos diferentes senhores investidos. O número de em-
blemas atribuídos a cada um deles varia de acordo
com a qualidade da investidura. Esta determina a po-
sição ocupada na hierarquia feudal. Os senhores for-
mam cinco classes (duques, marqueses, condes, vis-
cóndes, barões) pois a extensão de seus feudos varia
(segundo a teoria) em proporção a seu título. O do-
mínio do Filho do Céu mede mil li, tanto no compri-
mento como na largura. Cem li são a medida de um
domínio de duque ou de marquês, cinqüenta li, o de
um feudo de visconde ou de barão(551). Um domínio
menor é ainda um feudo, mas que não é dirigido dire-
tamente pelo rei (ao menos enquanto rei). Seu titular
é o vassalo do senhor de um domínio particular. Os
senhores e o rei distribuem não somente feudos-do-
mínios hereditários, mas ainda cargos ou feudos-
salários. Os titulares dos feudos-salários, divididos
em cinco classes, trazem o título de grandes oficiais
(t'ai-fou) ou de oficiais (che). Estes títulos tiveram,
inicialmente, como todos os títulos feudais, um sig-
nificado militar: todos implicam a idéia de comando.
Cada um deles acabou por corresponder a um grau
determinado, depois a um grau da hierarquia feudal.
A palavra oficial (che), designando a última ordem da
nobreza, tomou o sentido geral de nobre. A palavra
duque (como a palavra príncipe) é uma denominação
válida para todo senhor, pelo menos no interior de
seu domínio. Cada um é, em sua casa, o senhor. Os
feudalistas, entretanto, atribuem ao rei o direito de
promover ou de degradar os senhores. Segundo seus
méritos (552). Estes méritos são reconhecidos pela boa
administração dos altares do Solo e dos Ancestrais,
pela boa aplicação dos éditos reais relativos aos cos-
tumes, à música e ao vestuário. As nomeações e pro-
moções (pelo rei e pelos príncipes) deviam ser feitas
em Conselho e depois de uma deliberação com a
adesão dos vassalos. As punições (pelo menos as mais
graves: morte ou desterro) deviam ser proclamadas
em praça pública e ter a adesão do povo todo (553). A
teoria constitucional implica a idéia de que ninguém
detém a autoridade senão por uma investidura outor-
gada por um suserano e com o consentimento dos
vassalos e dos súditos. O rei-suserano recebe seu
poder, ao mesmo tempo, do Céu e do povo. Ele tem
a missão de manter uma ordem de civilização cujo
valor é avaliado pelas manifestações da Natureza e
pelos sentimentos dos homens. Ele exerce seu cargo
do alto, delegando aos diversos feudatários uma auto-
ridade de ordem inferior, mas da mesma natureza. Os
senhores, que ligados por sua genealogia à dinastia
reinante ou a uma dinastia mais antiga, só são quali-
ficados a governar seu feudo em virtude da investi-
dura recebida, outrora, por um ancestral e confirmada
em cada sucessão.

Na verdade, se os documentos analisados pare-
cem mostrar que, durante o período Tch'ouen-ts'ieou,
os senhores, ao ascender ao poder, pediam regular-
mente a investidura real, esta quando muito, tinha o
interesse de fixar seu lugar numa hierarquia muito
mais instável e especialmente menos ordenada do
que pretendem as tradições ortodoxas. Contrariamen-
te às afirmações de feudalistas inspirados por uma
concepção administrativa e uma idéia elevada e nova
do poder central, é certo que o fundamento da auto-
ridade senhorial acha-se além da investidura do so-
berano. A palavra (ming), que significa investidura e
mandato, é idêntica à palavra (ming), que tem por sig-
nificado destino e não difere da palavra (ming), que
significa nome(554). O nome exprime o ser e faz o
destino (555), a ponto de tal homem, nascido príncipe,
tomar-se cavalariço se lhe tiverem dado o nome de
"Palafreneiro" e que um outro chamado "Ele terá êxi-
to" não pode deixar de ter êxito. Além disto, uma
criança que, predestinada ao nome de Yu, traz na mão,
em seu nascimento, sinais onde se lê o caráter Yu,
deverá possuir, mesmo a despeito da vontade real, o
feudo de Yu (556). Os nomes de família, em ligação com
a terra, eram recebidos dos ancestrais; os nomes pes-
soais eram dados depois de uma inspeção da voz (a
voz é a alma e o nome), mas também após uma con-
sulta aos antepassados. A autoridade, como o nome,
vem dos ancestrais e todo ato particular de poder
deve ser precedido por uma consulta de sua vontade.
Um senhor não tem o direito de agir senão pelo man-
dato de seus antepassados. Com efeito, seu destino
e o de sua raça dependem estritamente da Virtude dos
fundadores desta última. Ela se confunde com uma
espécie de quinhão, com uma quantidade determinada
de poder, cujo valor é fixado por esta mesma Virtude.
Chouen, soberano perfeito e que viveu cem anos,
transmitiu, a seus descendentes, o poder de fazer sa-
crifícios senhoriais durante cem gerações: um inimi-
go que quis extinguir a raça de Chouen antes que fos-
se consumido seu quinhão de gerações de príncipes,
não pôde, de modo algum, ser bem sucedido (557). Ne-
nhuma força humana tem o poder de reduzir a duração
de um destino familiar. Enquanto a família conservar
uma provisão de virtude, ela não pode ser tirada da
região onde esta virtude está enraizada. O destino de
uma raça é, na verdade, ligado a uma terra determi-
nada, a uma capital, a um Lugar-Santo. Ele correspon-
de à posse de genelogias, de lendas, de danças, de
privilégios culturais, de talismãs e de jóias. Corres-
ponde, em resumo, a um lote de emblemas e de po-
deres significativos de um certo gênio específico -
enquanto que as insígnias conferidas pela investidura
de um suserano assinalam, simplesmente, uma digni-
dade e uma posição.

O suserano, quando dá a investidura (ming),
confirma um decreto (ming) do Céu: este, inicialmen-
te, "abriu o caminho". Traduz-se por caminho a pala-
vra tao. Esta palavra é uma das mais ricas da antiga
linguagem chinesa. Na língua particular dos velhos
filósofos taoístas, indica um certo poder de realização,
o qual, seja por ser confundido com o princípio eficaz
de todas as coisas (freqüentemente chamado: o tao),
seja porque anima uma individualidade distinta, não
deixa nunca de ser inteiro e idêntico a si mesmo (558).
Na linguagem comum, a palavra tao não tinha menos
força. Emprega-se, na maioria das vezes, em combina-
ção com a palavra tô. Tô e tao correspondem a noções
gêmeas que, no entanto, se opõem. Elas marcam os
dois aspectos de um poder eficaz, tao assinalando a
eficácia pura, concentrada, por assim dizer, e indeter-
minada, enquanto que tô evoca a mesma eficácia
quando ela é usada e se particulariza. A palavra tô
consigna, por exemplo, a espécie de gênio que se ad-
quire (ao mesmo tempo do que um nome), vivendo
numa região determinada: este gênio, precisamente,
habilita a govemar como senhor (559). Empregadas inde-
pendentemente ou combinadas, tao e tô exprimem as
idéias conjuntas de autoridade e de poder, de eficácia,
de força, de fortuna. A expressão tao-tô pode ser tra-
duzida pela palavra Virtude. A Virtude, o tao-tô conce-
bido como uma força de animação'de essência uni-
versal, mesmo quando reside num indivíduo, é a ca-
racterística do chefe a quem o Céu abre o caminho
(tao) e que ele investe (ming) de um gênio determi-
nado (tô), proporcionando-lhe o destino (ming) próprio
a um senhor. O senhor é, se posso dizer assim, o
animador único e universalmente poderoso da região
sobre a qual é destinado a reinar por seu gênio espe-
cífico. Ele governa a natureza e os homens, ou antes,
ele faz com que os homens e a natureza sejam como
são. Ele dá seu destino às pessoas e às coisas. Ele
lhes dá uma certa força de ser que é proporcional a
sua própria força. A fórmula deve ser entendida lite-
ralmente: tal senhor, tais súditos; tal príncipe, tal re-
gião. Os juncos, os crisântemos crescem espessos,
vigorosos quando o gênio do príncipe está em plena
força. Ele declina, extenuado? As pessoas da região
morrem prematuramente. O painço tem tudo de que
precisa para prosperar, os vassalos, homens e mulhe-
res, crescem, multiplicam, a tanchagem dá milhares
de sementes ou então as colheitas morrem no solo
esgotado, os homens recusam-se a casar, as terras
desmoronam, as fontes se detêm, as estrelas caem -
conforme a Virtude da raça senhorial é decadente ou
nova, poderosa ou nula (560). O tao-tô do chefe é o prin-
cípio de todo êxito. É a fortuna do feudo. A sorte das
coisas, os costumes humanos dependem dele, apenas
dele. Os teóricos ortodoxos (que são moralistas e que
só pensam nos homens) acreditam explicar esta ação
dominadora do príncipe pela imitação: o príncipe é
um modelo para toda a região, ele age, ensinando. De
fato, a eficácia do gênio do príncipe é de natureza reli-
giosa e mágica. Este gênio governa e regula todas as
coisas por uma ação imediata, uma ação de espírito
para espírito. Ele age por contágio. "O pensamento do
príncipe estende-se sem limites: - ele pensa nos
cavalos e estes ficam fortes!... - O pensamento do
príncipe é incansável: - ele pensa nos cavalos e
estes se arremessam impetuosamente! - O pensa-
mento do príncipe é inteiramente correto: - ele pen-
sa nos cavalos e estes seguem em frente (561)!" O
senhor tira seu poder de uma força mística nele con-
centrada, mas que anima, difusa, toda a sua região.
O gênio da região está inteiramente no senhor.
Este último, na verdade, sustenta sua autoridade e a
constrói misticamente, participando da vida de seu
domínio, da maneira mais íntima. Ele é, em seu feudo,
aquele que se beneficia de tudo e que tudo expia.
Gasta toda sua vida relacionando-se com o agrupa-
mento que pretende governar e que é um agrupa-
mento humano e natural. Devota-se à região, expiando
em todas as ocasiões. Ele expia as desonras, os êxi-
tos, os lutos, os desastres, as vitórias, os favores, os
rigores do tempo, a boa colheita ou o ano mau, os
menores infortúnios, as menores felicidades das coi-
sas e das pessoas. Neutraliza a parte perigosa de
todo acontecimento, libertando a parte feliz. Ele se
encarrega dos infortúnios de qualquer um e incor-
pora em si mesmo a fortuna por todos desejada. Incor-
re em todos os perigos. Assimila uma sorte total. Em
cada primavera, é o primeiro a abrir a terra; em cada
colheita experimenta os primeiros frutos. A degus-
tação senhorial, a lavragem do príncipe tiram, em pro-
veito de todos, o caráter sagrado da terra que voltou
a ser virgem, as primícias ainda proibidas, mas todo
o êxito das lavras retoma ao senhor, mas toda a subs-
tância das coisas está nos primeiros frutos que o se-
nhor consome. A cada vassalo que morre, quando "o
cadáver não é senão um objeto de horror" para todos,
o príncipe abraça o defunto em primeiro lugar, peito
a peito, mas, no fim do luto inaugurado por este teste-
munho de devotamento, se a família do morto ganhou
um ancestral, este foi aumentar a corte dos ances-
trais do príncipe, aumentando seu prestígio e o do seu
senhor. Os guerreiros fugiram; o exército está des-
feito: o chefe mortifica seu corpo, consterna seu co-
ração e come fel. Quando ele se alimenta de fel, a
coragem renasce em todos os soldados e o domínio
senhorial acaba por aumentar(562). O inimigo vencido
se humilha: deve-se temer a volta da fortuna. O êxito
será fugaz se, por outro lado, o vencedor não souber
se humilhar. O exército não fez menos, ganhando a
batalha, do que o príncipe, quando "ele se aflige, sus-
pira" e assegura a vitória de sua região, confessando
sua própria indignidade (563). Se, nos tempos de seca,
ele confessa seus erros, acusa-se de sua falta de
virtude, se chama para si mesmo a punição celeste,
depois que a provação é superada, depois que o Céu
se arrependeu pelo arrependimento do príncipe, o se-
nhor terá o direito de se considerar o único autor da
ordem natural. Quando, vestindo-se de luto, privando-
se de música, abstendo-se de comer, lamentando-se
três dias, ele expia o desmoronamento de uma colina,
o crime cometido por um parricida, a perda de um
território, o desastre de um incêndio, quando reivin-
dica só para si a mácula determinada por um crime
ou revelada por uma infelicidade e quando, enfim, ele
os apaga com privações e com lustrações, sua peni-
tência, que purifica, ao mesmo tempo, sua região e
seus súditos, reveste-o de uma pureza renovada, res-
plandecente e augusta(564). Sua santidade afirma-se
quando ele purga os maus e suspende as proibições.
Ele se consome em proveito de todos, mas o sacrifício
cotidiano que faz de si mesmo mantém a força santa
que recebeu de seus antepassados. Sua autoridade,
como a dele, tem por fundamento e por princípio a
expiação e o devotamento. Ela pretende mesmo en-
contrar sua origem histórica numa expiação ilustre:
a fundação do poder de um príncipe acompanha-se de
um sacrifício heróico e total, aquele do Grande Ances-
tral que, devotando-se de corpo e alma, aliou sua raça
a um Lugar-Santo.

Mas o senhor não se liga a sua região unica-
mente por uma vida de sacrifícios. Ele consegue en-
feudá-la graças a um sistema de sagrações positivas.
Ele atraiu as forças benfazejas. Ele as assimila, crian-
do-se assim a alma de um príncipe. Sua capital é um
centro que poderia ser o centro do mundo - o ideal
seria que ao meio-dia da metade do verão o gnômon
não fizesse sombra - mas que deve ser, pelo menos,
o centro dos climas. "Ali, o Céu e a Terra se unem;
ali, as quatro estações se juntam; ali, o vento e a
chuva se reúnem; ali o Yin e o Yang estão em har-
monia (565)." O senhor vive no centro da região, num
lugar de convergência e de união. Quando ele recebe,
voltado para o sul, o princípio luminoso (Yang) adorna-
do com todo seu esplendor. Ele pode também captar a
energia do Yang se tiver uma torre alta e nela subir.
Morando num quarto vasto e profundo, ele assimilará
a energia do Yin. Mas não é necessário um palácio
esplêndido: apenas expondo seu corpo, sucessiva-
mente, ao sol (yang) e ao orvalho (yin), o senhor pode
nutrir sua substância com as forças constitutivas do
universo. Assim que ele se nutre, sua região, por seu
intermédio, fica alimentada. Sua beneficência esten-
de-se sobre todas as coisas. Ela lubrifica tudo como
o orvalho quando se deposita nas plantas dos campos.
Mas, por ela também, tudo se aquece, pois ela age
ainda como uma irradiação doce, pela qual o excesso
de orvalho se dissipa (566). O príncipe, no começo da
primavera, tem o cuidado de suspender, quebrando e
recolhendo o gelo, "as barreiras opostas pelo frio in-
tenso" ao reinado dos princípios reanimadores. Ele
guarda o gelo numa geleira profunda, aberta com pre-
cauções infinitas. Ele impede assim que o frio se
evada durante o verão. Ele impede de ir chocar-se,
provocando o granizo que devasta, com as forças ad-
versas, pois é tempo de dominá-las. Mas, na mesma
ocasião, ele conserva o princípio do frio pois é pre-
ciso, um dia, que seu reinado retome. E ele pode ainda,
consumindo e distribuindo o gelo, moderar, para si e
pàra os seus, os excessos do calor. Ele obtém, então,
para sua região, para seus homens e, em primeiro
lugar, para si mesmo, uma dose equilibrada das forças
que mantêm a vida do mundo. Não pode mais haver,
desde então, "nem calor intempestivo no inverno,
nem frio destruidor no verão, nem vento glacial na
primavera, nem chuva desastrosa no outono...e nin-
guém morre prematuramente" (567). O senhor deve, em
primeiro lugar, zelar por sua saúde. Sua saúde é a da
região. Nada tem maior importância do que a maneira
pela qual se alimenta. "Que só o príncipe tenha a ali-
mentação preciosa(568)!" Um príncipe nutre-se de
essência. Suas refeições são preparadas de maneira
a incorporar nele, com coisas tomadas nas épocas
prescritas, o conjunto de qualidades específicas que
convenham a uma estação e que, também, signifiquem
um oriente. Ele adquire assim uma alma de Chefe:
uma virtude eficaz em todos os tempos e em todas as
direções. Ele faz aumentar os rebanhos do domínio,
faz prosperar os frutos da terra, quando tem o cuida-
do de comer, na primavera, carneiro (animal do leste)
e trigo; no verão, feijão e frango (sul)[ no outono, ca-
chorro (oeste) e sementes oleaginosas; no invemo,
painço e porco (norte) (569). Mas se é um chefe imper-
feito, se esquece a medida (tsie), se despreza a har-
monia (ho), se não sabe combinar em si mesmo "o
acre, o ácido, o salgado, o doce", se, sobretudo, com-
promete, aproximando inconsideradamente das mu-
lheres (que são yin) o vigor masculino (yang) que está
nele, tomar-se-á a vítima do kou - que é o preço de
todo excesso, o efeito nocivo das sagrações abusivas,
a infelicidade e a doença (mais poderosos sobre uma
alma maior), o malefício em sua força plena(570). E,
se é um senhor criminoso e indigno, não será nem ca-
paz de suportar as sagrações obrigatórias que confe-
rem vigor e virtude mas que, para ele, se transforma-
rão em veneno mortal. O príncipe King de Tsin que
quis, excedendo seu poder, suprimir totalmente uma
das famílias de seu domínio, ouviu dizer, por um adi-
vinho, que ele não poderia comer trigo novo. Quando
chegou a estação e ele o comeu, "seu ventre, ime-
diatamente, inchou; ele foi à privada, caiu e morreu".
Pelo contrário, um príncipe sábio "põe em paz seu
coração", consumindo o caldo em que se misturam
"a água, o fogo. o vinagre, a carne picada, o sal, as
ameixas, o peixe cru. O cozinheiro coloca (tudo isto)
em harmonia, determinando as proporções segundo os
sabores", acrescentando o que falta a certos alimen-
tos, moderando o que os outros têm demais. Graças
a estas precauções, o senhor evita os males que o
tomariam incapaz de "velar na guarda dos altares do
Solo e das Colheitas" (571).

O altar do Solo, simples quadrado de terra en-
globado na residência do príncipe, contém em si toda
a virtude (tao) da terra senhorial (572). Ele é idêntico à
pátria. A pátria não é mais nada quando se transforma
este altar em pocilga. Para sua defesa, todos os vas-
salos devem saber morrer e, em primeiro lugar, o
príncipe. Mas os vassalos só têm o dever de se fazer
matar pelo príncipe quando este, vivendo como um
verdadeiro senhor, identificou sua alma com a da pá-
tria. O altar do Solo é acompanhado por um altar das
Colheitas (573). Chefe de guerreiros e mestre dos la-
vradores, o senhor assegura a perenidade da pátria e
a subsistência dos habitantes já que, com todas as
forças de uma alma grande, completa, equilibrada, ele
faz a região obter uma feliz sucessão de colheitas. O
tempo fará seu trabalho em ordem, a terra dará frutos
em abundância, se o senhor, no centro da cidade,
souber participar do ritmo das estações e da produ-
ção agrícola. É por isto que um deus das Colheitas
urbano, e que pertence ao senhor, é suficiente para
fazer frutificar os campos (574).

O senhor, por seus trabalhos sagrados, enri-
quece seu domínio. Todo o domínio, por outro lado,
contribui para enriquecer a alma do senhor. Ele tira
dos campos e de seus produtos uma farta provisão de
virtudes. Tira outras, não menos abundantes, dos ter-
renos de caça, dos lugares de pesca, das fronteiras
longínquas, onde possui reservas de caça e parques
de criação de animais. Ele é um "comedor de carnes".
Enquanto que a alma dos camponeses, parcamente
nutrida por frutos e grãos, não tem a força de atraves-
sar a morte, voltando à matéria, confundida desde que
foi exalado o último suspiro, com a força do solo e
da germinação, a alma do senhor, "revigorada pelo
uso de um grande número de essências dos seres",
pode adquirir "uma robustez essencial" que lhe per-
mite franquear a morte e subsistir no estado de "ser
espiritual (chen ming)"(575). Um homem ou uma mu-
lher vulgares perdem toda existência individual quando
morrem no fim da vida. A morte, se ela sobrevém
quando ainda lhes resta uma provisão de exalação,
libera, juntamente com esta que se dissipa em pouco
tempo, uma alma cuja força insignificante pode, quan-
do muito, se dedicar a alguns caprichos prejudiciais.
Isto não ocorre com a alma senhorial. A bem dizer,
somente os senhores têm uma alma no verdadeiro
sentido da palavra. Esta alma nunca se gasta com a
velhice. Ela a enriquece. O senhor prepara-se para a
morte saciando-se com alimentos delicados e bebidas
que vivificam. Ele come "a rica fritura" e bebe o vinho
misturado com pimenta, que "sustem as forças dos
velhos de longas sobrancelhas". Durante sua vida, ele
assimilou muitas essências. Ele as assimilou na pro-
Porção da amplitude e da riqueza de seu domínio. Ele
aumentou a substância que seus antepassados lhe
legaram, já rica, pois eles mesmos eram senhores
alimentados com carnes e caças. Sua alma, quando
morre, longe de se dissipar, como uma alma vulgar,
evade-se do cadáver, cheia de força. Em lugar de se
dissolver, misturada com as forças indistintas do solo
criador, ela pode tomar posse do corpo destes ani-
mais que constituem uma caça nobre: urso ou java-
li (576). Ela se mostrará feroz se o senhor foi um ser
sem moderação e teve uma morte prematura, que
nesse caso mereceu. Mas se o chefe conduziu a vida
senhorial segundo as regras, se ele morre, no fim
de um longo destino, em sua região, em sua cidade,
em seu palácio, em seu quarto, segundo os ritos, sua
alma, que as expiações do luto enobrecem ainda e
purificam, possui, depois da morte, uma força augus-
ta e serena. Ela possui o vigor benéfico de um gênio
tutelar, sempre conservando uma personalidade du-
rável e santa. Ela é uma alma de ancestral.

Um culto ser-lhe-á prestado num templo colo-
cado perto dos altares do Solo e das Colheitas. Ceri-
mônias das estações farão com que ela participe da
vida da natureza, da vida da região. Ela é festejada na
primavera, quando o orvalho umedece a terra; no outo-
no, quando se forma a geada (577). Ela come quando a
caça é boa. Jejua quando a colheita falha. A alma an-
cestral subsiste e dura, nutrida pelos grãos recolhidos
no campo sagrado das colheitas senhoriais, pelas car-
nes provenientes dos parques que pertencem ao do-
minio e preparadas na cozinha do príncipe, pela caça
abatida nas fronteiras e dedicada, pelos caçadores, ao
altar do Solo. Mas, por mais rica de personalidade que
possa ser uma alma de chefe, chega um momento em
que esta personalidade se dissipa e se extingue. De-
pois de algumas gerações, a tabuleta à qual os ritos
apropriados prenderam esta alma, cessa de ter direito
a um santuário seu. Como as tabuletas dos antepas-
sados mais antigos, cuja memória já se apagou, ela
é relegada a um cofre de pedra que é guardado numa
sala consagrada ao antepassado mais velho. O ances-
tral que representava e cujo nome trazia, deixa de
ser alimentado como um senhor, como um gênio tu-
telar provido de uma individualidade forte e distinta.
Sua carreira está finda, seu papel de ancestral aca-
bado. O culto que lhe dedicaram fez com que ele esca-
passe, durante longos anos, do destino dos mortos
plebeus. Ele entra, enfim, na multidão das forças im-
pessoais e confusas que constituem a fortuna indi-
visa do feudo e da raça do príncipe. Como os poderes
anônimos do solo, ele só é nutrido por carnes cruas.
Ele voltou à massa das coisas santas que formam a
alma global da região, mas que o senhor representa
sob o aspecto de um Primeiro Ancestral e com os
traços míticos de um Herói Fundador. A este atribui
todos os méritos de um criador e de um demiurgo.
Que ele tenha preparado a terra, vencido as águas,
subjugado o fogo, expulsado os monstros, arroteado
a gleba, criado os cereais, domesticado os cavalos, o
Grande Antepassado demonstrou uma virtude (tô),
que sua raça herdou e que lhe valeu seus emblemas,
seu feudo, seu nome, seu destino - a história oficial
apresenta, por outro lado, este ancestral como um
vassalo merecedor que recebeu uma investidura de
um soberano.

Herdeiro de um antepassado heróico cuja gló-
ria, cantada nos hinos sagrados da família, chega até
ele, senhor dos altares do Solo (inúmeros fundadores
são qualificados de deuses do Solo ou de deuses das
Colheitas), possuidor de um templo onde cerimônias
das estações fazem reviver a personalidade vigorosa
de seus ancestrais imediatos, o senhor é investido
de uma santidade que impõe, a seus seguidores, como
a si próprio, uma etiqueta terrível.

A força augusta que anima o chefe é uma força
mística cuja tensão é extrema e que é singularmente
contagiosa. Ela age, habitualmente, por simples irra-
diação, mas é preciso, para isso, que ela se conserve
concentrada e pura. Ela deve, em ocasiões excepcio-
nais, ser empregada com pleno vigor e, por esta razão,
é conveniente que, no correr dos dias, ela não se des-
perdice. O senhor vive no meio de sua corte, isolado
e passivo. Os vassalos "formam uma barreira". Eles
protegem seu senhor de toda aproximação contami-
nante. Agem por conta do chefe, realçando um pres-
tígio que se conserva intacto. A corte trabalha para
proteger o senhor numa espécie de quarentena esplên-
dida, de onde irradia a glória.

O senhor é, em sentido estrito, o homem a
quem ninguém fala, nem mesmo na terceira pessoa.
Não se fala senão a "seus servidores", se bem que a
expressão "(aqueles que estão) embaixo dos degraus
do trono, e a quem ouso unicamente me dirigir)"
acabou, na China imperial, por significar "Vossa Ma-
jestade"(578). Não se fala com o senhor, fala-se em
sua presença e quando se lhe dá conselhos indireta- .
mente, é preciso dar-lhes "de uma maneira disfarça-
da" (579). O sopro de uma voz vil não deve nunca man-
char a pureza do príncipe; a santidade do chefe não
deve sofrer a injúria de uma reprimenda ou de um
conselho direto, embora sejam justos: pois vêm de
baixo. "Olhar fixando acima da cabeça é ser arrogan-
te; olhar abaixo da cintura é manifestar tristeza; olhar
de lado é mostrar maus sentimentos." Os olhos do vas-
salo não podem se fixar no príncipe " mais alto do que
embaixo do queixo", mas é preciso que sejam dirigi-
dos diretamente para ele (580). Cada um deve se deixar
penetrar diretamente pela virtude que ilumina os olhos
do chefe. Ninguém ousaria suportar seu esplendor.
Ninguém ousaria confundir seu olhar com este olhar
sagrado. A discrição mais correta é imposta aos ser-
vidores de um príncipe. Um oficial, diante de seu se-
nhor, deve "manter o corpo inclinado, as extremidades
da cintura voltadas para a terra, os pés parecendo
pisar as extremidades do vestuário. O queixo deve
ficar esticado como as gárgulas de um telhado, as
mãos devem ser mantidas juntas, tão baixo quanto
possível". O escriba que, em presença do príncipe
ousasse "sacudir a poeira de seus livros" ou simples-
mente "colocá-los em ordem", o adivinho que "segu-
rasse em sentido inverso os bastonetes de aquiléia"
ou que "deitasse de lado a concha da tartaruga", me-
reciam ser punidos(581). Onde o príncipe for viver,
tudo deve ser ordem e limpeza. Seus vassalos mais
íntimos (os grandes oficiais) não deixam nunca de
lavar as mãos cinco vezes ao dia. Antes de se apre-
sentarem a seu senhor, "eles se purificam com uma
abstinência severa; eles não entram nos apartamentos
das mulheres; eles lavam os cabelos e o corpo" (582).
Aquele que oferece ao senhor iguarias já preparadas,
toma cuidado de se munir "de plantas de sabor acre,
de uma vara de pescador, de um balaio de junco" (583):
as influências más que, em sua indignidade, ele não
pode deixar de trazer consigo, poderão assim ser des-
ligadas do alimento destinado a entrar na substância
santa do chefe.

Abrigado, por uma corte onde reina uma eti-
queta meticulosa, de todas as contaminações que po-
deriam vir a macular sua santidade, o príncipe subme-
te-se a uma etiqueta ainda mais minuciosa. Toda sua
corte o cerca e cada um dos seguidores deve, à menor
falha, chamá-lo à ordem. Os analistas acompanham-no
para anotar seus menores gestos, suas menores pa-
lavras. Ele vive sob a ameaça da História. Vindo de
um senhor, a mais fútil das ações é cheia de conse-
qüências incalculáveis. Um chefe não pode brincar
nem gracejar: o que ele faz está feito, o que ele diz
está dito (584). Ele deve ouvir unicamente a música re-
gular; deve-se manter rigorosamente reto; ele só pode
se sentar corretamente sobre uma esteira correta-
mente disposta; só deve comer refeições preparadas
segundo as regras; só pode andar com um passo me-
dido exatamente. A circunspeção é seu primeiro de-
ver. Enquanto um simples nobre dá passos de dois
pés e um grande oficial, passos de um pé, o compri-
mento dos passos de um senhor não deve exceder
meio pé(585). Enquanto que, em sua presença, os se-
guidores, animados pela grandeza do serviço do prín-
cipe, esforçam-se, apressam-se, parecem voar, "an-
dam com os cotovelos estendidos como asas de um
pássaro", o senhor, que seu prestígio condena a uma
inerte gravidade, deve permanecer imóvel, inativo e
quase mudo (586).

O chefe limita-se, em Conselho, a dizer "sim",
mas este "sim" do príncipe é um decreto que empe-
nha o destino, e se o príncipe, quando fala, só pode se
exprimir com a ajuda de fórmulas consagradas, a His-
tória mostra que a sorte dos Estados foi mudada por-
que em tal data, tal chefe escolheu, para se designar,
àquele dos pronomes pessoais permitidos a um se-
nhor que, na ocorrência, era conveniente ou não o
era(587). Song mereceu tomar-se próspera porque,
numa época de inundação, seu príncipe, respondendo
as condolências, teve a feliz idéia de empregar, para
se denominar, a expressão "pequeno órfão", antes da
fórmula "homem de pouca virtude"; mas (fato signi-
ficativo) não foi o príncipe por si mesmo que fez esta
escolha: ele obedeceu a um conselheiro.
A virtude prestigiosa e fugaz do chefe só per-
manece nele se a vida da corte e a etiqueta conser-
varem-na. Aprisionado pela corte, atado pela etiqueta,
o senhor só reina com a condição de ficar passivo, de
nunca comandar os detalhes, de nunca dirigir uma ad-
ministração. Ele só age pela eficácia de seu prestígio.
A atividade real é feita pelos vassalos. O poder do
príncipe é fundado na posse de uma Virtude de essên-
cia religiosa e mágica. É menos um poder de comando
do que um poder de animação. O senhor é o chefe de
uma hierarquia e não um chefe de Estado.

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