As transformações da sociedade (01)

Perto da era cristã, a sociedade chinesa
sofreu uma mudança profunda. A distin-
ção entre nobres e não-nobres, gente
de posses ou gente do povo, perde toda
importância. A oposição entre ricos e
pobres torna-se o grande princípio da
classificação. - A época das tiranias passa por ter
sido a era do luxo: foi, pelo menos, a grande época
dos discursos violentos contra o luxo. Estes últimos
e o rigor de seu tom revelam a gravidade da crise
atravessada pela sociedade chinesa. Sobre esta crise,
permaneceram poucos testemunhos, que não assina-
lam nem suas causas nem seus resultados. Mas a
extensão destes últimos revela-se desde o tempo do
imperador Wou, e parece que a partir deste reinado
a crise precipitou-se. Podem-se distinguir as grandes
diretrizes do movimento por meio de medidas mais
ou menos hábeis, que tentaram impedir sua ação.
Seus efeitos e seu ponto de partida deixam-se adivi-
nhar. Parece que a crise originou-se, primeiramente,
da ruína da velha nobreza dizimada pelas guerras dos
Reinos combatentes; depois (e sobretudo), do traba-
lho de colonização e de preparação do solo, iniciado
pelos tiranos, e que prosseguiu, com mais recursos,
na época dos imperadores. O preparo da terra fez
surgir, com novas fontes de riqueza e um novo gosto
pela magnificência, homens novos, cuja influência na
corte e nas cidades arrebatou toda a autoridade dos
representantes da velha nobreza. Assim se criou um
meio favorável a uma reforma dos costumes.


l - A Corte e a nobreza imperial

Tiranos e imperadores vivem rodeados por uma
corte numerosa que não poderia se manter nos humil-
des burgos, onde os grandes senhores e os suseranos
de outrora estabeleciam suas capitais. As cidades feu-
dais eram pequenas e pouco povoadas: pareciam
desproporcionadas uma vez que suas muralhas atin-
giam 3.000 pés (cerca de 1 quilômetro)(961). Os reis
Tcheou que, em 256, reinavam sobre uma população de
30.000 súditos, deviam abrigá-los em 36 cidades (962),
o que não impede o Tcheou li de lhes atribuir uma
administração composta de seis serviços ministeriais
- dos quais só um (o primeiro: compreende os em-
pregados de justiça, mas não todos) conta com mais
de 3.000 cargos. Esses serviços só poderiam se de-
senvolver numa capital grandiosa como foi a de Ts'in
Che Houang-ti. Com efeito, o primeiro imperador
pôde transferir, para sua cidade de Hien-yang, 120.000
famílias, todas as pessoas poderosas e ricas do im-
pério(963). Foi assim que ele pôde provê-la de habi-
tantes. Por outro lado, cada vez que destruía um do-
mínio, tomava a planta de seu palácio e o fazia re-
construir em sua capital, para alojar as mulheres e
guardar as jóias que tomava do vencido. Vê-se como
a Cidade imperial constitui, não só no sentido místico,
a concentração do império. Ela contém reféns captu-
rados na China inteira e princípios de influência váli-
dos para cada uma de suas províncias. Os Han adota-
ram os usos do Ts'in, apenas abrandados por uma
medida do imperador Wen [179]: este autorizou alguns
senhores apanagiados, ou seu filho herdeiro, a irem
viver em sua região. Tinha medo de que a capital
corresse o risco de se congestionar. "Hoje os senho-
res moram, em sua maioria, em Tch'ang-ngan; suas
terras são afastadas; seus oficiais e seus soldados
são mantidos á custa de muitas despesas e esfor-
ços(964)." A capital enriquecia-se com os despojos
do império todo, enquanto que a nobreza territorial,
fiscalizada e dominada, transformava-se em nobreza
da corte.

Os nobres retidos na corte obtinham cargos
honoríficos. Todos os postos ativos eram confiados
a novos homens. Sob o reinado do imperador Wou,
este princípio foi seguido com rigor. Kong-souen Hong,
que se tornou grande conselheiro, iniciou como car-
cereiro e chegou a ser guardador de porcos; Tchou
Fou-yen começou sua vida como vagabundo e Ni
K'ouan como carregador: ambos fizeram parte do cír-
culo do imperador. Do mesmo modo, Kin Mi-ti, que
deveria ser nomeado regente do império, foi um pri-
sioneiro que servira anteriormente como palafrenei-
ro(965). Coisa mais grave: "A valentia guerreira" era
suficiente para "dar acesso aos cargos", "assumindo
uma posição exagerada" (966). Quem era bom soldado,
podia se tornar marquês: esse foi o caso de Ho K'iu-
p'ing. Seu tio, Wei Ts'ing, que chegou a ser general,
era um bastardo que, durante a mocidade, fora tra-
tado como escravo por seus meio-irmãos e obrigado
a guardar carneiros(967). Podia-se, pois, alcançar as
mais altas posições partindo-se do nada e tendo exer-
cido qualquer profissão. O êxito "das pessoas cujos
meios de vida eram incertos e cujas ocupações eram
provisórias" escandalizavam os admiradores dos ve-
lhos tempos, partidários das hierarquias estáveis onde
tudo era hereditário: ofícios nobres e empregos humil-
des (968). Nesses tempos felizes, "aqueles que ocupa-
vam qualquer cargo, conservavam-no até que seus
filhos e netos fossem adultos; aqueles que exerciam
uma função pública tiravam dela seu nome de família
e seu sobrenome; todos os homens estavam conten-
tes com sua sorte", que podiam fixar antecipadamen-
te (969). Pelo contrário, no regime adotado pelo império,
"os princípios da promoção aos cargos se degenera-
ram" (970). "O povo (gente de baixo nascimento) pôde
compensar a incapacidade em atingir os cargos pú-
blicos", adquirindo "títulos na hierarquia nobiliária"
criada pelos Ts'in e conservada pelos Han. "Como os
caminhos para chegar aos empregos eram diversos
e havia muitas maneiras de alcançá-los, os cargos
perderam seu valor(971). Tais são as queixas deste
conservador irritado que era Sseu-ma Ts'ien. Ele se
gabava de descender de uma antiga família que pos-
suía, por hereditariedade, o cargo de sseu-ma (gene-
ral); tinha sucedido a seu pai como Grande Analista,
que era um dos primeiros cargos de uma corte feudal;
mas, sob o imperador Wou, seu pai foi considerado
"uma insignificância". O soberano "divertia-se com
ele", mantendo-o apenas "como um cantor ou um
comerciante " (972).

Nobres decadentes e novos homens encontra-
vam-se na Corte. Tudo dependia do mérito e não do
nascimento: o homem era distinguido por seu mérito,
depois de demonstrá-lo, fazendo fortuna, qualquer que
fosse o trabalho exercido. "A imperatriz Lu (já) havia
relaxado os regulamentos relativos aos comercian-
tes... mas, como no passado, os descendentes dos
mercadores não podiam ser funcionários"(973). Sob
o reinado do imperador Wou, é claro que a riqueza
tornou-se o sinal eminente do mérito. "A partir deste
momento, surgiram homens hábeis em fazer crescer
os lucros (974)." Com efeito, o império, desde que foi
constituído, tem grandes necessidades orçamentárias,
e as finanças tornam-se a principal preocupação do
governo. Em 120, o tesouro público foi organizado;
imediatamente, três personagens tornaram-se altos
funcionários. "Tong kouo Hien-yarig'era um grande
refinador (de sal) da região de Ts'i. K'ong Kin era um
grande fundidor de Nan-yang. Os dois haviam con-
seguido uma fortuna de vários milhares de libras de
ouro: foi por isto que Tcheng Tang-che (que era mi-
nistro e encarregado da economia nacional; ta-nong)
recomendou-os ao imperador. Sang Hong-yang era
filho de um mercador de Lo-yang. Como ele calculava
de cabeça, tornou-se che-tchong com a idade de treze
anos. Estes três homens quando discutiam questões
financeiras, eram extremamente minuciosos(975)."
"Aqueles que eram, anteriormente, os mais ricos sa-
lineiros e os mais poderosos donos de fundições fo-
ram nomeados funcionários. A carreira oficial recebeu
assim novos elementos estranhos. A escolha não se
fez mais pelo mérito (do nascimento) e os comercian-
tes eram, ali, numerosos(976)." Sseu-ma Ts'ien faz
remontar ao duque Houan de Ts'i, o primeiro Hege-
mon, este poderio novo dos bens de fortuna que,
segundo ele, explica a aparição do regime tirânico.
"A partir deste momento... coloca-se a fortuna e a
posse de bens em primeiro lugar e, no último, a mo-
déstia e a humildade (977)."

Ao contrário das cortes feudais, a corte im-
perial não é mais o teatro dessas justas de polidez,
onde se forma o senso da medida. Reinam o fausto e
a ostentação. Todas as mulheres da capital podem
ser comparadas às princesas das mais nobres casas,
todos os homens aos duques, aos marqueses, aos
cavalheiros ilustres das lendas. Apressados como as
nuvens, os altos funcionários, os provincianos céle-
bres, os mercadores enriquecidos, misturam-se aos
embaixadores enviados pelos Bárbaros submissos (978).
Esta multidão suntuosa é convidada para as festas
que o imperador pode dar neste vasto conservatório
que é seu palácio. Seus eunucos dirigem companhias
de prestidigitadores e músicos. Seu harém encerra
um conjunto de cantoras e de dançarinas: as mais
hábeis tornam-se imperatrizes ou favoritas, como, no
tempo do imperador Wou, a imperatriz Wei e a fou-jen
Li, uma, hábil no canto, e a outra, perita nas danças.
Uma vasta construção, o palácio Kia-yi, contém todo
um maquinário de ópera; ali se realizam os grandes
torneios de onde saiu o teatro chinês (979). Ali se pode
ver a neve caindo e as nuvens que se elevam, enquan-
to que os turbilhões da tempestade, o ribombo do
trovão, o brilho do relâmpago mostram todo o pode-
rio majestoso do Céu. Cortejos de imortais ou de
Animais estranhos desfilam, alternando-se com palha-
ços que sobem em varas ou levantam pesos. Os pres-
tidigitadores engolem sabres, cospem fogo, fazem
jorrar água, traçando desenhos no chão, brincam com
as serpentes, enquanto que mulheres com longas
mangas, vestidas de gaze e com o rosto pintado, exe-
cutam as mais lascivas de suas danças e que, bem
no alto de um mastro, equilibristas ficam suspensos
pelos pés ou giram infinitamente, lançando flechas
em todas as direções do Espaço, do lado dos Tibeta-
nos, como do lado dos Sien-pi, por toda a parte em
que deve triunfar a Majestade do imperador. As caça-
das e as pescarias são, também, ocasião de galas
triunfais. Esta grande quantidade de festas e de des-
pesas suntuárias não é reservada apenas ao soberano.
Pequenos príncipes apanagiados possuem palácios es-
plêndidos, cujos tetos, ornamentados de caixotões
quadrados, tendo, no centro, uma saliência redonda,
deixam pender flores esculpidas, lótus e dormideiras.
As vigas são enfeitadas com nuvens, os acrotérios
sustentam dragões cinzelados: o Pássaro Vermelho
abre suas asas sobre a viga da cumeeira; o Dragão
sustém, com suas sinuosidades, a verga da porta;
Bárbaros com grandes cabeças e órbitas profundas,
arregalam seus olhos, como abutres, agachados sobre
todas as vigotas. Nas paredes, os deuses das monta-
nhas e dos mares estão pintados com as cores que
lhes são próprias e, a seu lado, acha-se apresentada
a história do mundo, desde a separação do Céu e da
Terra (980). "Aqueles membros da família imperial que
tinham apanágios, os duques do palácio, os altos
dignitários, os grandes oficiais, e aqueles que esta-
vam abaixo deles, rivalizavam-se, no fausto e na pro-
digalidade, em suas habitações, em suas vilegiaturas,
em suas equipagens, em suas vestimentas, usurpando
privilégios imperiais. Não havia mais nenhuma mo-
deração (981). "

Poetas e moralistas não exageram quando mos-
tram que o gosto pelo luxo, no tempo dos Han, es-
palhou-se pela sociedade inteira. Este gosto corres-
ponde a um desenvolvimento das indústrias de arte
que as recentes escavações japonesas permitem
apreciar. Estas escavações, feitas no norte da Coréia,
no local da capital da província, datando da conquista
do país pelo imperador Wou, permitiram exumar abun-
dante material funerário (982). Muitos objetos são data-
dos dos anos que se avizinham da era cristã. Sua
execução é extremamente requintada. As peças de
laca e de ourivesaria demonstram uma técnica notá-
vel. Os objetos de laca, tanto executados em madeira
laqueada, como os feitos de tecidos - recobertos
de laca, são, muitas vezes, guarnecidos de ornamen-
tos de prata ou de cobre dourado, e, geralmente,
pintados a pincel ou delicadamente gravados. Em cer-
tas peças, sobre uma fina folha de ouro, aparecem,
traçados em laca brilhante, animais e pássaros. As
inscrições dão uma idéia dos cuidados empregados
na execução; conservam o nome dos artistas que
dela participaram: um preparou a laca, outro deu a
forma, outro executou os bordos, outro, os desenhos,
outro assentou a laca vermelha e, depois deles, dois
artistas retocaram e terminaram o trabalho. Uma
grande caixa descoberta num desses túmulos conti-
nha um espelho com seu cordão de seda e, embaixo
de grampos, um pente num cofre, e caixinhas com
pó branco e vermelho. A mais bela descoberta foi a
de uma fivela de um cinto, de ouro maciço, engastada
de turquesas, representando dois dragões entrelaça-
dos; seu trabalho em filigrama mostra a perícia dos
ourives. Ursos de cobre dourado que serviam de pés
de mesa, diversas estatuetas de animais e de pássa-
ros em terracota esmaltada atestam a perfeição que
a arte industrial atingiu sob os Han. O fato de os arte-
sãos terem se especializado ao mais alto grau e de
trabalharem sob a direção de funcionários das ofici-
nas do Estado não é menos digno de nota, e mais
significativa ainda é a abundância dos tesouros de
arte acumulados numa cidade da fronteira. Não é mais
a época dos pequenos burgos meio camponeses, iso-
lados uns dos outros pelas barreiras das peagens
feudais. A riqueza e o luxo circulavam livremente em
todo o império. Todas as cidades organizadas acom-
panham os gostos da Corte. Os homens ricos que as
povoam, comerciantes ou industriais, aspiram a ter
um lugar na nobreza imperial.

Nos tempos feudais, artesãos e mercadores
viviam nos arredores da cidade senhorial. Entretanto,
podem ser assinalados alguns traços de sua impor-
tância crescente. Uma velha tradição afirma que um
forasteiro conquistou a confiança do Hegemon Houan
de Ts'i, tornando-se seu ministro(983). Explorados du-
ramente pelos nobres, os artesãos nem sempre se
deixavam maltratar. Em 471, em Wei, eles se revolta-
ram contra o príncipe (984). Não parece, entretanto, que
as classes artesanais tenham sido levadas em conta
pelo Estado, antes da unificação imperial. As medidas
e os trabalhos que a acompanharam e, mais ainda,
talvez, a política militar seguida pelos grandes impe-
radores, parecem ter favorecido um brusco desenvol-
vimento da indústria e do comércio.

A razão de ser do império foi a grande luta
empreendida contra os Bárbaros. Para que tivesse
êxito, era preciso dispor de um exército móvel e bem
abastecido. Acabaram-se os recrutamentos feudais,
quando se via partir, por alguns dias, um pequeno
número de carros. A força do exército imperial está
em sua cavalaria ligeira, capaz de operar grandes
incursões pelas estepes. Estes cavaleiros têm neces-
sidade de um abastecimento de montarias, de armas,
de forragem, de carne e de grãos. A primeira exigên-
cia do império é facilitar a mobilização de seu exér-
cito. Tal é o princípio que inspirou as medidas e os
trabalhos de onde saiu a unificação do país. O preparo
das terras que estavam incultas serviu para aproximar
os centros da vida social que até então permaneciam
isolados; a adoção de um sistema único de escrita,
de pesos e de medidas teve a mesma finalidade; a
grande obra foi a construção de estradas e de canais.
Ts'in Che Houang-ti e o imperador Wou estabelece-
ram sua capital no centro de um grande cruzamento
de caminhos. Puderam, desde então, abastecer sua
Corte e sua Guarda. Conseguiram, também, consti-
tuir um celeiro central, oficinas e arsenais capazes
de prover as necessidades do exército, operando em
diversas fronteiras. Seu objetivo principal parece que
foi, inicialmente, mobilizar os grãos. Assim se expli-
cam, sem dúvida, as medidas legislativas de Ts'in,
suprimindo o antigo sistema de posse da terra. Tor-
nando os camponeses proprietários do solo, espera.
va-se aumentar seu rendimento, e, outorgando a liber-
dade ao comércio de grãos, pensava-se acabar com
a velha idéia feudal de que a produção das colheitas
não deveria sair das fronteiras: assim, os celeiros
imperiais poderiam ser aumentados.

Todas essas medidas parecem ter sido toma-
das em favor da agricultura que é, declara-se, sem
cessar, a única profissão honrosa. "A última das pro-
fissões", a dos artesãos e dos mercadores, foi a
primeira a tirar proveito. "As terras no interior dos
mares foram unificadas; construíram-se passagens e
pontes; suprimiram-se as proibições que impediam o
.acesso às montanhas e às lagoas. É por isso que os
mercadores ricos percorreram todo o império: não
houve nenhum objeto de troca que não pudesse ir
para todos os lugares(985)." Os imperadores foram
levados a favorecer a indústria dos transportes e
todos os fornecedores do exército. Querendo ou não,
tiveram que se compor com as grandes fortunas, cria.
das nas empresas importantes, sem as quais seus
projetos militares não poderiam ter êxito. Quando, sob
o reinado do imperador Wou, os Hiong-nou atacaram
a fronteira do norte, os estoques locais tornaram-se
insuficientes para abastecer as colônias militares que
deviam ser reforçadas. Foi preciso, então, "apelar
para as pessoas do povo: concederam-se posições
na hierarquia para aqueles que pudessem fazer os
transportes e conduzir mantimentos à fronteira. Foi.
lhes possível chegar até o grau de ta chou tchang" (986).

Era um dos mais elevados (o décimo oitavo); conce-
dia a mais alta posição na categoria dos altos digni-
tários; acima, não havia mais do que os diversos
títulos de marquês (987). Teve-se ainda necessidade
de empresários de transportes, quando se enviaram
imensas multidões para as terras de colonização. Al-
guns entre eles, diz Sseu-ma Ts'ien, eram capazes de
formar "comboios de muitas centenas de carros" (988).
O historiador nota que estes empresários, fato signi-
ficativo, eram também ricos mercadores. Fala, na
mesma passagem, das imensas fortunas feitas pelos
salineiros e pelos donos de fundições. As empresas
de transportes e de abastecimento militar acarretaram
a formação de capitais que eram empregados no co-
mércio e na indústria, mas que também ajudaram na
constituição de grandes domínios de terras.

As salinas e as fundições são as indústrias
principais: viu-se que fundidores e salineiros alcan-
çaram as mais altas dignidades do Estado. Os fun-
didores, em particular, os de ferro, trabalhavam para
o exército. Foram, também, razões de ordem militar
que fizeram prosperar a criação de animais, tanto a
de carneiros como a de cavalos. As incursões da ca-
valaria ligeira, nas quais chegavam a se perder, numa
campanha, mais de 100.000 cavalos, exigiam uma
quantidade de montarias que os haras imperiais sozi-
nhos não podiam fornecer (989). Estes haras do Estado
eram, na verdade, muito importantes. Em 119, os ca-
valos reunidos nos arredores da capital "eram em
número de várias miríades" (990). Mas eles todos não
procediam das criações imperiais, pois se tivera o
cuidado de encorajar a criação particular (991). Enquan-
to que, no princípio dos Han, os altos funcionários
faziam-se transportar em carros de bois(992), sob o
imperador Wou, viam-se cavalos, "mesmo nas ruelas
habitadas pelo povo", e era considerado desonroso
montar uma égua(993). A criação de carneiros tomou
uma extensão comparável, pois era necessário forne-
cer carne ao exército. Sseu-ma Ts'ien nota, com in-
dignação, que se podia obter o título de lang forne-
cendo carneiros ao Estado. De resto, é significativa
a fortuna de um criador de carneiros chamado Pou-che.
Quando ofereceu ao imperador Wou a metade de sua
fortuna, ele recebeu, com o título de lang, o encargo
de fazer prosperar os redis imperiais. Depois disto,
tornou-se prefeito e, mais tarde, yu-che-ta-fou: era
uma das mais altas dignidades do Estado(994). Vê-se
que a criação em grande escala, como o comércio e
a indústria, conduziam às honrarias.

Para a criação em grande escala, são neces-
sárias propriedades vastas, como também, uma mão-
de-obra abundante para as fábricas e os transportes.
Ora, as medidas destinadas, inicialmente, a aumentar
o rendimento das terras e a mobilidade dos grãos
tiveram a conseqüência inesperada de favorecer o
desenvolvimento conjugado dos latifúndios e da es-
cravidão. Na época em que os camponeses eram sim-
ples rendeiros, eles não podiam vender nem a terra,
nem a sua pessoa. Assim que os Ts'in romperam a
dependência que ligava os cultivadores e o solo, acon-
teceu que, para terminar a obra dos grandes trabalhos
e a das colonizações longínquas, recorria-se, freqüen-
temente, às corvéias que tiravam os camponeses de
sua terra natal (995). Expatriados ou atingidos pela es-
cassez de alimentos - houve (por exemplo, em 113)
grandes períodos de fome, quando os homens se
devoraram uns aos outros - os pobres eram freqüen-
temente obrigados a vender seu patrimônio, a vender-
se a si mesmos, e, sobretudo, a vender seus filhos.
Viram-se, portanto, "os campos dos ricos contarem-se
por milheiros e por centenas, não tendo os pobres
terra suficiente para plantar uma agulha" (996). Mesmo
o Estado, para ter carregadores ou criados do exérci-
to, tinha necessidade de escravos. Ele encontrou um
meio de obtê-los em abundância, como condenados,
utilizando as leis monetárias, cuja aplicação foi con-
fiada a legisladores cruéis. Sseu-ma Ts'ien afirma que
"quase que todo mundo no império, pôs-se a cunhar
moedas". Foi fácil aos inquisidores imperiais conde.
nar mais de um milhão de pessoas por este único
motivo (em 115) (997). Estes infelizes, depois de serem
anistiados, foram empregados como colonos ou cria-
dos do exército. Mas era necessário renovar conti-
nuamente a multidão de escravos empregados nos
transportes sobre o rio(998). O império recorreu, en-
tão, aos particulares e consagrou a escravidão privada.
Em 128, ofereceu-se uma dignidade às pessoas que
consentissem em ceder seus escravos ao Estado (999).
Era reconhecer o valor enobrecedor de um novo ele-
mento da fortuna de natureza mobiliária.

O império, tolerando a escravidão, ia ao encon-
tro da crise agrária que devia dominar as duas dinas-
tias Han e terminar, na época dos Três Reinos, com
um renascimento do feudalismo. Desde o reinado do
imperador Wou, queixava-se, nos conselhos imperiais,
"das pessoas ricas que, açambarcando, escravizavam
os pobres". Tratava-se, freqüentemente, "de associa-
ções ilegais", "de dominadores", "de pessoas auda-
ciosas que se reuniam em bandos e se impunham
pela violência, nos burgos e nas aldeias" (1000). Foram
usados diversos expedientes para combater os açam-
barcadores: diligências judiciárias, confiscos dos cam-
pos e dos escravos em proveito do Estado, institui-
ção de monopólios destinados a fazer concorrência
às indústrias e ao comércio particulares. Uma medi-
da, tomada em 119, mostra que os conselheiros im-
periais haviam sentido a gravidade da crise e suas
causas. Proibiu-se que os mercadores aplicassem sua
fortuna em bens de raiz, seja pessoalmente, seja
mesmo por intermédio de terceiros (1001). Mas nada
sustou o movimento começado, como nada pôde parar
o desenvolvimento da riqueza mobiliária. Para para-
lisá-lo, sem dúvida, Ts'in Che Houang-ti havia emitido
uma moeda pesada, para que seu uso fosse incô-
modo (1002). Os Han adotaram o sistema de moedas
leves: mudaram seu tipo várias vezes; lançaram um
padrão novo, permitiram, e depois proibiram, a cunha-
gem livre: parece que fizeram o possível para depre-
ciar os valores mobiliários e o entesouramento. Com-
seguiram, simplesmente, encorajar a estocagem de
mercadorias e o espírito de especulação (1003). Depois
de terem procurado dominar os mercadores "contra-
riando-os e humilhando-os", "proibindo-os de utilizar
carros e de vestir roupas de seda", "sobrecarregan-
do-os com taxas e pagamentos a prazos fixos" (1004),
viram-se constrangidos a reconhecer a importância
representada pelo dinheiro. Sucessivamente, as dife-
rentes formas de riquezas mobiliárias foram aceitas
por eles a título de contribuições, conferindo (como o
velho tributo agrícola de grãos e de seda) o direito
de ingressar na carreira oficial. Conseguiram reabsor-
ver, em proveito do tesouro, uma parte da riqueza
que se formava: com esta finalidade, procederam a
concessão de títulos de nobreza que cada um era
obrigado a adquirir, quando tinha que se redimir da
indignidade que atinge todo homem enriquecido re-
centemente. Autorizaram, assim, o reagrupamento
que colocava, no primeiro plano da sociedade, os habi-
tantes ricos das cidades. Retiveram nas cidades aque-
les que haviam conseguido adquirir grandes domínios,
por meio de intermediários. Os grandes proprietários
de terras vincularam-se aos centros urbanos onde a
fortuna se forma e onde as honrarias são distribuídas.
Todos os membros da nova nobreza imperial eram
habitantes da cidade, vivendo ao lado dos funcioná-
rios, para que pudessem aprender as regras de com-
portamento que convêm às classes oficiais.

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